"Começou a Liga principal de futebol e alguns dados parecem ter passado pelos pingos da chuva. Há cada vez menos clubes nas competições profissionais sem investidores estrangeiros e a tendência aponta para que, dentro de poucos anos, a presença de capital estrangeiro possa ser total.
É verdade que já existem investidores a entrar nas distritais, mas o que quero destacar é o valor que estão dispostos a pagar. E aqui, tal como acontece quando se avalia a aquisição de um atleta, há pelo menos dois eixos fundamentais: performance e recursos atuais e potencial futuro.
Na aquisição total ou parcial de um clube, existem duas questões essenciais. Para quem vende, ter um clube estruturado, organizado e funcional aumenta em muito o seu valor. E é fundamental perceber, como numa pizza com várias fatias, quais estão já a gerar valor e quais representam oportunidades futuras de crescimento, mesmo que não sejam desportivas.
E continua a ser uma das maiores fragilidades do nosso futebol: o pouco investimento na estrutura, na organização e no profissionalismo das áreas que suportam, direta ou indiretamente, o verdadeiro core de qualquer clube: os atletas e os treinadores.
Uma boa estrutura não serve apenas para potenciar quem já tem talento e venha de fora. Permite criar melhores condições para que o próprio clube produza mais talento, tome melhores decisões e consiga criar a sua cadeia de valor.
E é nesta equação entre investimento e retorno que os clubes deveriam investir mais tempo, pessoas e recursos financeiros. E este fim de semana foi notória a falta de qualidade de alguns relvados e vários planos da TV para bancadas despidas de qualquer público. Mas poderíamos destacar ainda a área da comunicação, marketing, dados, etc. E nem era preciso ter interesse em vender o clube para isto ser uma prioridade.
Portugal continua a ser altamente atrativo para investidores, pelo posicionamento geográfico, pela qualidade do talento ligado ao futebol e por um contexto económico que nos torna presas fáceis por vezes, dada a nossa realidade económica e financeira.
Muitos clubes não conseguem ser vendidos pelos valores que pretendem e isso não significa que sejam caros. Muitas vezes significa que estão a atribuir valor a coisas que (ainda) não existem. O comprador vê o que está feito e, sobretudo, aquilo que não está feito, e avalia sempre qual o possível retorno.
Deveríamos valorizar mais aquilo que fazemos bem. O futebol é uma das poucas indústrias globais onde Portugal consegue competir, em várias dimensões, com países que têm recursos incomparavelmente superiores.
Isto deveria deixar-nos satisfeitos? Claro que não. Mas talvez devêssemos começar por perceber quanto estamos a perder por não termos estruturas melhores. Porque, demasiadas vezes, continuamos a ganhar apesar do sistema e não por causa dele."

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!