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terça-feira, 29 de janeiro de 2019

“Fui apanhado na noite, um copo aqui, acolá, fiz muitos erros, aprendi. E sou um romântico: tenho todos os livros do Nicholas Sparks”

"Aos 37 anos Jorge Ribeiro garante sentir-se com força para jogar até aos 40, a sua meta. Depois disso, ainda não pensou bem no que vai fazer, desde que seja ligado ao futebol, embora ser treinador esteja fora de questão. Com um percurso que começou no Benfica, passou por clubes como o Santa Clara, Varzim, Desportivo das Aves, Dínamo de Moscovo, Málaga, Granada, Boavista, Atlético e agora Farense, entre outros, confessa que fugiu sempre do irmão, Maniche, isto é, de jogar em clubes onde este também estava, tendo inclusivamente recusado convites por causa disso. Casado e com três filhos, diz que começou benfiquista mas acabou por desenvolver simpatia pelo Sporting, um clube feliz, como ele diz

Nasceu em Lisboa e durante muitos anos era conhecido como o irmão de Maniche. Pode apresentar o resto da família?
O meu pai chama-se Ulisses, a minha mãe Esmeralda, quando eu era miúdo trabalhavam os dois numa fábrica de bolachas. E tenho mais dois irmãos, só da parte do pai, mais velhos, um rapaz e uma rapariga.

Então o seu pai casou com a sua mãe, depois do outro relacionamento.
Sim, o meu pai teve uma namorada antes, nunca foi casado com essa senhora, e depois juntou-se com a minha mãe e casou com ela. A minha mãe é mais velha do que o meu pai.

Cresceu em que zona de Lisboa?
No Bairro da Boavista, ali perto da Buraca, perto do campo do Casa Pia.

Quais são as primeiras memórias que tem de infância?
Vivia num bairro social e tinha contacto com miúdos de rua. Lembro-me que foi uma infância muito boa que não a desprezo, foi ali que cresci é ali que estão as minhas raízes.

Quando era pequeno o futebol já lhe dizia alguma coisa, jogava à bola na rua?
Foi o meu padrinho que nos ensinou a jogar à bola na rua. Também fui muito cedo para as camadas jovens do Benfica. Com oito anos já jogava na formação do Benfica.
Como é que lá vai parar?
O meu irmão já estava no Benfica e eu brincava na rua. Tinha um pontapé forte, ainda por cima esquerdinos havia poucos na altura, e tinha jeito para a coisa. No bairro havia um pavilhão recreativo onde jogávamos com os amigos. O meu irmão dizia-me que eu tinha jeito para o futebol e insistia para eu ir ao Benfica fazer testes. Um dia, fomos cinco ou seis miúdos do bairro, tentar a nossa sorte e acabei por ficar. Eu e mais um colega meu.

É verdade que não ficou convencido e que não voltou logo?
Na altura o treinador era o Arnaldo Teixeira, o pai, não o que está com o Rui Vitória, disse-me que eu ficava, falou com os meus pais também, mas eu não queria nada com a bola queria era brincar na rua. Era um “índio” (risos). No bairro era tudo muito familiar, todos se conheciam.

Por quem é que torcia o Jorge Ribeiro quando era pequeno?
Eu era do Benfica mas agora tenho um carinho muito especial pelo Sporting.

O seu pai e o seu irmão são do Sporting?
São. Eu queria era brincar e o meu irmão chateava-me a cabeça “Não queres ir e estão fartos de te chamar. Tens jeito até já te deram o diploma para ires”. E eu “Mas eu não quero nada com isso Nuno”; “Mas tu tens de ir, tens de ir”. O Nené, que coordenava o futebol juvenil do Benfica naquela altura, também insistiu, mandou várias cartas para casa e pronto, acabei por ir, até agora.

Quando começou a ir regularmente tinha quantos anos?
Tinha nove para os dez.
Lembra-se quando é que começou a ganhar consciência de que podia ser jogador de futebol?
Foi um bocadinho depois, quando comecei a ver que subia sempre de escalão. Nos iniciados já comecei a ter essa noção, de que podia chegar lá. Entretanto, comecei a ir às selecções.

É quando começa a treinar no Benfica que define a sua posição em campo ou se já vinha da rua.
Não vinha da rua, foi o mister Arnaldo Teixeira que nas captações me pôs a lateral esquerdo. Até me comparavam com o Schwarz que jogava no Benfica. E a lateral esquerdo fiquei até agora.

Encaixou bem na posição.
Sim, tinha muita velocidade, tinha um remate forte, batia bem as bola e, a partir dos iniciados, por volta dos 13 anos, comecei a ter mais essa consciência.

Como é que era a sua relação com a escola?
Não era um fã da escola, mas tinha que ser. Os meus pais sempre incutiram primeiro a escola e depois o futebol. Fiz o 9.º ano e deixei de ir porque tive de optar. Ou escola ou futebol. Ia para as selecções, ia para fora e perdia muita matéria escolar. 

O seus pais nunca se opuseram a que largasse a escola?
Eles perceberam. Entretanto nos juvenis, com 15 anos, comecei a ganhar algum dinheiro.
Lembra-se do valor do seu primeiro ordenado?
Lembro, primeiro era o valor do passe, dois contos e quinhentos (12,50€). Era a minha mãe que ia buscar-me aos treinos. Tenho de agradecer-lhe porque foi graças a ela, que me acompanhou sempre para os treinos, à chuva e ao vento, íamos a pé apanhar o autocarro…

Isso eram umas ajudas de custo. Mas quando assina e ganha o seu primeiro contrato?
Foi nos juniores e ganhava 2500 euros, quinhentos contos na altura. Tinha 16 para 17 anos.

Houve alguma coisa que quisesse comprar logo?
Não. Nessa altura tudo o que ganhava entregava aos meus pais. Era justo, foram eles que me ajudaram sempre, que gastaram dinheiro comigo e não era justo que eu não lhes entregasse o dinheiro. Eles também tinham feito um esforço. Depois, mais tarde, quando comecei a ganhar mais dinheiro e saí de casa, a partir daí é que decidi ser eu a ficar com o dinheiro.

Quando faz a sua estreia na equipa principal do Benfica?
Estreio-me com 17 anos, com o Jupp Heynckes.

O que sentiu?
Era júnior, o Jupp Heynckes assume o comando técnico da equipa principal, escolhe três jogadores dos juniores para fazer parte do plantel e eu fui um dos eleitos. Fiquei todo contente. Estava nas nuvens, saí em todas as capas dos jornais desportivos; era um miúdo, não tinha a noção das coisas. Fui para a equipa principal e quando não era convocado, jogava nos juniores.
Lembra-se do primeiro jogo na equipa principal?
Foi para a Taça de Portugal contra o Amora. Ganhamos 7-1 ou 7-2.

Foi titular?
Fui. Até foi engraçado porque o meu irmão estava nesse plantel também, fomos de estágio, ficámos no Radisson em frente ao estádio do Sporting, no mesmo quarto, e dissemos um ao outro: ou tu fazes um golo e eu faço o passe para ti, ou eu faço o passe para ti e tu fazes o golo. E aconteceu. Eu faço o cruzamento e ele faz o golo.

Nessa altura o seu irmão já tinha saído de casa?
Já. O meu irmão saiu de casa no tempo dos juniores.

Estreia-se e na época seguinte vai logo para o Santa Clara. Porquê?
Vou para o Santa Clara porque vi que não ia ser opção no Benfica; era jovem e entretanto surgiu essa opção de ser emprestado ao Santa Clara, que na altura estava na II Liga. Fui de bom grado porque não estava a jogar no plantel da equipa principal.
Quem eram os seus concorrentes?
Era o Bruno Bastos e um jogador estrangeiro. Fui para o Santa Clara para ver se jogava mais, mas também não joguei muito. Tinha empresário? Tinha, era o Paulo Barbosa. Desde os juniores.

Quando foi para o Santa Clara, é a primeira vez que sai do ninho. Custou-lhe muito?
Claro que custou. Lembro-me que o meu pai tinha folga e foi levar-me ao aeroporto. Eu nem sabia bem ao que ia. Era um miúdo que estava habituado a ter a comida na mesa. Passámos algumas dificuldades mas nunca faltou nada de comida.

Já tinha namorada?
Tinha. Era a Débora, com quem casei. Ela era lá do bairro e é a mãe dos meus dois filhos mais velhos. Separámo-nos há quatro anos.

Ficou a viver onde nos Açores?
Fui viver para um T0, tinha que fazer comida, tinha de me desenrascar, só sabia fazer arroz, massa e ovos (risos). Mas tinha um restaurante que o clube tinha disponibilizado e quase sempre ia lá comer. Quando estava fechado, ou quando vínhamos dos jogos fora, é que fazia a minha comida e desenrascava-me bem. Telefonava à minha mãe, ela dizia-me como devia fazer. Agora já sou um bom cozinheiro (risos).

Quem era o treinador do Santa Clara?
O Manuel Fernandes. Mas só lá fiquei seis meses.

Porquê?
Porque eu estava emprestado pelo Benfica e o Shéu ligou-me a dizer que eu ia fazer outra vez parte do plantel do Benfica. E voltei ao Benfica.
Voltou para a equipa principal ou para a equipa B?
Para a equipa B. Depois, vou outra vez para a equipa principal já era o Toni o treinador. Depois o Toni saiu e veio o Jesualdo, tudo na mesma época. O Jesualdo era adjunto do Toni.

Como correu essa época na equipa principal?
Fiz alguns jogos com o Toni, com o Jesualdo também, mas depois apareceu uma proposta boa do Varzim. O meu empresário ainda era o Paulo Barbosa, estava a acabar o meu contrato com o Benfica e o Varzim estava na I Liga.

O Benfica não queria renovar?
Não era o Benfica não querer renovar, eu é que queria ter mais jogos na I Liga. E apanhei um treinador no Varzim que apostou em mim, o Alberto Costa, que foi adjunto do Queiroz. Depois tive o Luís Campos e o Rogério Gonçalves. Fui para o Varzim, assinei por quatro anos e desvinculei-me do Benfica de vez.

Não lhe custou desvincular-se do Benfica?
Custou. Custou mas nessa altura era muito difícil os jogadores das camadas jovens conseguirem vingar, não é como agora em que eles apostam muito nas camadas jovens. Na minha época não eram muitos os que subiam. Na altura fui eu, o Pepa, e o Rui Baião. E fomos esses três que depois vamos para o Varzim. Era o mesmo empresário.

Ainda antes do Varzim, quando volta à equipa principal do Benfica, depois de ter estado nos Açores, o facto de não estar lá o seu irmão, para si era uma coisa que o aliviava ou sentia falta dele?
Vou ser sincero. Tenho um lema de vida. Se o meu irmão estiver como treinador numa equipa eu não vou para lá. E se estiver como jogador, também não vou. Tive que ir naquela altura porque era mais novo, mas não gosto. Estive com o meu irmão noutro clube em Moscovo, mas quando ele chegou, eu nem sabia que ia, e também não gostava.
Por causa da comparação?
Da comparação e não só. Por exemplo, se há uma guerra no campo, há sempre guerras mesmo nos treinos, depois uma pessoa vê o irmão ali no meio e vai ter que se meter, é sempre um problema. 

Criava-lhe ansiedade?
Claro. E depois é assim, eu gosto de ser eu próprio, não gosto de ser associado: “Ah, ele é jogador por causa do Maniche”. Isso nunca aconteceu, eu fui pelo meu valor e ele foi pelo dele. Já estive para ir para vários clubes onde ele esteve, como adjunto, já estive para ir para o Paços, já estive para ir para a Académica, e não fui por causa disso.

Escolha sua?
Escolha minha. A Académica estava interessada quando o meu irmão lá estava e eu não fui. Não fui para uma I Liga, fui para a II Liga. Sou mesmo assim. Para depois não dizerem: “Ele está ali por causa do irmão”. As pessoas são assim.

Gosta que reconheçam o seu valor independentemente do seu irmão.
Claro, como aliás reconheceram. Mas é engraçado porque muitas vezes diziam: “Ah, eu conheço-te, tu és o irmão do Maniche”. Eu era sempre associado a ser o irmão do Maniche.

Isso chateava-o muito?
Não me chateava, para mim até era um orgulho. Mas criava ali um bocado... eu tenho que ser eu. Depois as pessoas começaram a inverter isso. Mas hoje em dia já não ligo muito a isso.

Quando vai para o Varzim também vai sozinho ou ai já está casado?
Só casei em 2005, para o Varzim ainda vou sozinho, mas como já tinha estado sozinho no Santa Clara, não me custou. A minha ex-mulher ia visitar-me mas como estava a tirar o curso, não ficava sempre comigo.
Aos 16, 17 anos começam as saídas à noite. Como é que o Jorge se safava? Sabia fazê-las ou foi alguma vez apanhado?
Fui várias vezes apanhado (risos). Um miúdo com 16, 17 anos que começa a ganhar dinheiro e aparece nos jornais, nas televisões, há a tentação de puxar sempre os tais pseudo-amigos, como eu chamo agora que estou calejado. Vamos beber um copo ali, e agora vamos ali.... Vou dizer-lhe: fiz muitos erros.

E foi castigado por causa disso?
Fui. No Benfica castigaram-me uma vez ou duas. Estava na equipa A e mandavam-me para a B.

Qual foi a dura que lhe custou mais ouvir?
Foi quando estava a jogar, e estava a jogar bem, e um dia vou beber um copo. Depois disso quando chego ao treinos, o Jesualdo Ferreira com um ar ríspido diz-me: “Vais começar a treinar na equipa B, porque aconteceu isto e isto...”. Eles sabem tudo não é. Eu ainda “Então, mas...”; “Não, não há mais conversas. Ainda és novo, ainda tens muito que aprender. Vais para a B e quando eu achar que deves vir outra vez, vens” (risos).

Quem eram os amigos com quem costumava sair?
Do Benfica era o Pêpa, o Hélder Ramos, o Bruno Aguiar, o Cândido Costa, vários. 

As saídas foram-se mantendo ou começou a cortar?
Depois comecei a cortar. Ainda saí mais umas vezes, mas não para me expôr.

Voltemos ao Varzim. Como é que correm as duas épocas?
Adaptei-me bem, comecei a fazer mais jogos na I Liga. Lembro-me que tinha um pré acordo com o FCP quando fui para o Varzim. Na altura do Mourinho mas depois isso não se concretizou.

Porquê?
Não sei porquê. Não accionaram a opção. Era eu e o Rui Baião.

Acha que isso não aconteceu por causa do seu irmão estar lá?
Não sei. Ainda não consegui compreender como é que foi.
Gostava de ter ido para o FCP?
Sim. É sempre bom passar de um clube pequeno para um grande. Mas continuei no Varzim e correu bem, ia à selecção.

Quando é que chamado a primeira vez à selecção? Tinha quantos anos?
Tinha 15 anos quando fui chamado à selecção de sub-15. Fui sempre às selecções todas depois.

Era muito diferente o ambiente de selecção do ambiente dos clubes?
Sim, ali estão os melhores praticamente. Criei amizades com todos. Havia os grupinhos, o do FCP, do Sporting e do Benfica, mas nunca tive chatices com ninguém, fui sempre bem recebido.

Foi praxado ou praxou alguma vez?
Fui praxado na equipa A. Em 2002 na minha primeira internacionalização pela selecção principal, o treinador era o Agostinho Oliveira. Foi em Braga, contra a Escócia e ganhamos 2-0. Estava a chover muito nesse jogo. Fomos uns oito ou nove que se estrearam. Já tínhamos o Fernando Couto, o Vítor Baía, Jorge Costa, Sérgio Conceição, Costinha, o Rui Jorge, o João Pinto, o Figo, o Pauleta, uma data deles, o Simão, o Nuno Gomes…

Sentiu-se pequenino ao pé deles?
Na altura estava no Varzim. Vir de um clube pequenino e chegar à internacional A, olhar para aqueles jogadores todos... Alguns nem me conheciam... Encontrei o Fernando Couto e o Rui Costa na bomba de gasolina, eles lá com os seus carrões, eu fui com um amigo que me deu boleia. Parei na bomba, eles olharam para mim, mas nem sequer sabiam que eu ia à selecção. Era um respeitinho tremendo com aqueles jogadores. Não era fácil, eles diziam: “Ó miúdo tens que esperar até todos se sentarem para te sentares no lugar que sobrar.” Em todo o lado, na camioneta, no restaurante, em todo o lado era assim e aquilo era um respeitinho, não é como agora.

Como é que foi a praxe?
Quando cheguei fizeram um corredor para eu passar e levar calduços. Depois tive que falar e dizer o que é que sentia por estar ali. Lá falei, um bocado a tremer, mas desenrasquei-me (risos).
Houve algum que o tenha surpreendido mais ou que tenha sido mais simpático?
O Figo foi simpático porque o meu treinador, o Alberto Costa, era treinador-adjunto do Carlos Queiroz, no Sporting e o Figo falou-me dele. Perguntou se estava a gostar de ser treinado por ele. Havia uns mais frios, tipo o Fernando Couto, os do norte eram um bocado mais frios.

Consegue resumir o seu percurso na selecção?
Faço sub-15, sub-16, sub-17, sub-18, sub-20, sub-21, equipa B, faço os Jogos Olímpicos, equipa A e o Torneio de Toulon, que ganhámos.

Entretanto sai do Varzim e vai para o Gil Vicente.
Eu tinha quatro anos de contrato com o Varzim, faço um ano na I Liga, depois o Varzim desce e eu tenho que me apresentar. Ainda fiz 24 jogos, mas decido, eu e o meu empresário, ir para o Gil Vicente para estar outra vez na I Liga. Rescindo com o Varzim e vou para Barcelos. Estou lá meia época época, vou para o Dínamo de Moscovo, transferido.

Entretanto casa.
Sim, em 2005 quando vou para o Dínamo.

Era algo que ambicionava, jogar fora do país?
Era.

Havia algum campeonato que gostasse mais?
Quando vou para o Dínamo já tenho outro empresário, o Jorge Mendes. Desligo-me do Paulo Barbosa e é já o Jorge Mendes que me leva para o Dínamo. Mas ainda no Gil Vicente eu deixo de ir aos treinos.

Porquê?
Porque o presidente diz-me para não ir aos treinos. Estava num jantar de equipa, na Trofa, e liga-me o presidente: “Não vás aos treinos porque temos uma transferência para ti, para ires embora. É bom para nós e é bom para ti”. Tanto que eu andava desaparecido e já diziam que eu tinha um processo disciplinar, mas foi tudo feito de maneira a que eu pudesse ir para o Dínamo de Moscovo. As pessoas ligavam, mas eu não atendia telefones; depois liga-me o Jorge Mendes e rescindo com o Gil às quatro da manhã, num cartório em Barcelos.

Às quatro da manhã? Porquê?
Porque é assim, os negócios na altura eram assim. Lembro-me que o presidente do Gil Vicente andava de um lado para o outro preocupado com os dinheiros. Mas eu queria era resolver a minha vida.
Quando lhe disseram que ia para a Rússia qual foi a primeira reacção?
Foi de medo. Pensei, vou para lá e aquilo é só bombas e é frio. Era o que via na televisão.

Foi o único português a ir nessa altura ou já lá estavam outros?
Pensava que era o único, tanto que estou a jantar na minha casa e liga-me o Jorge Mendes a dizer que eu tinha que estar às sete da manhã no aeroporto de Lisboa para ir para a Turquia que eles estavam em estágio, em Antalya. Fui com um amigo de carro e chorei a viagem toda. Para onde é que eu vou, Rússia, sem a família, seja o que Deus quiser. Dormi em casa dos meus pais para estar no aeroporto de manhã. No aeroporto encaro com o Danny e com o Cícero. Pelo menos já tenho com quem falar. Eles também eram do Jorge Mendes e fomos os três para a Antalya onde na altura estavam uns 40 graus. Saio dali, venho a Portugal buscar roupa e quando chego à Rússia, quando saio do avião, estão 24 graus negativos. Disse logo que ia voltar para Portugal outra vez, que ali não me apanhavam com aquele frio (risos). Mas depois lá me habituei.

Nessa altura como é que comunicava, em inglês?
Não falava muito inglês, mas tinha um tradutor e desenrascava-me bem.

Ficou a viver onde?
Num hotel em frente à Praça Vermelha. Trataram-me sempre bem, quando cheguei ao quarto tinha roupa de neve, foi espectacular. E fiquei no hotel durante um mês. Depois fui para uma moradia. 

Sozinho?
Não, o meu pai e um amigo meu foram ter comigo e ficaram por lá bastante tempo para eu não estar sozinho.

Adaptou-se bem ao futebol russo?
Adaptei-me.

Jogar na neve não lhe fez confusão?
Aquilo tinha um sistema diferente na relva. A neve saía, tínhamos todo o equipamento necessário, collants, luvas, cremes. Tinha é que ir uma hora antes para me equipar mas correu bem. Fiz alguns golos e o primeiro ano correu bem.

A sua mulher não ficou na Rússia consigo porquê?
Ela só lá esteve um mês. Não aguentou e veio embora. Eu tive de aguentar mas depois rescindo, e vou para a Liga Espanhola.

Ainda jogou com o seu irmão?
Sim, ele esteve lá seis meses e depois foi embora para o Chelsea. Quando ele foi embora eu ainda fiquei.

Esteve dois anos no Dínamo, mas tinha quatro de contrato.
Sim. Pagaram-me um e deixei lá outro, para ir para o Málaga.
Queria sair de lá, já estava farto?
Não era farto. Até estava a correr bem, mas depois aquilo mudou, o dono do clube saiu, era ele que metia o dinheiro no clube…

Foi para o Málaga porque era uma forma de estar mais perto de casa?
Optei por ir porque o Málaga porque também estava na I Liga. Estavam lá três portugueses: o Edgar, o Duda e o Litos, que era do Boavista. O Litos ajudou-me imenso, ele e a mulher, já lá estavam há três ou quatro anos.

Não esteve muito tempo no Málaga.
No Málaga não tinha jogado muito e o Desportivo das Aves estava na I Liga.

Com o professor Neca, certo?
Sim, o professor Neca ajudou-me. Aquilo que levo do futebol, são as pessoas que me ajudaram. Apesar de dizerem que ele é muito táctico, muito para trás, adaptei-me bem a ele, fiz muitos jogos com ele. Mas já chego ao Aves numa fase em que aquilo não estava nada bom, só tinham um ponto. Entretanto, o Jorge Mendes apresenta-me uma boa proposta.

Para o Boavista.
Sim, do João e Valentim Loureiro. Era um clube com tradição, um clube com boas condições e fui. 

Com o Jaime Pacheco como treinador.
Sim. Também aprendi muito com o Jaime Pacheco. O Boavista foi o clube que me permitiu a ascensão para ir outra vez para o Benfica. Fiz uma época muito boa com o Jaime Pacheco. Havia muita gente que dizia que ele só queria corrida mas eu na altura já tinha 26, 27 anos e disse para mim mesmo, é aqui que ou vai ou não vai. Correu bem, adorei trabalhar com o Jaime Pacheco e muitos treinadores deviam ser como ele, muitos.
O que quer dizer com isso?
Porque é um treinador que incute nos jogadores o que é a mística de qualquer clube. É do norte, as pessoas do norte são mais aguerridas. Ele não gosta de perder, para ele é trabalho, trabalho, trabalho. E só assim se chega a um patamar elevado no futebol. Foi campeão num clube que ninguém estava à espera, como o Boavista, por causa disso mesmo.

Era um sonho voltar ao Benfica?
Era e vou explicar porquê. Fiz lá a minha formação, fui bem acarinhado e até tive um bocado de receio porque na altura também tinha o Sporting interessado e o Sampdoria, mas optei pelo Benfica. 

Tinha um contrato melhor também.
Também mas optei porque vim de lá, da formação. Ainda estive com dúvidas, porque as pessoas podiam pensar: então este saiu, rescindiu com o Benfica, foi-se embora para o Varzim e agora quer voltar outra vez para o Benfica? Nem todas as mentes são iguais. Mas foi o que aconteceu, volto ao Benfica com um bocado de receio, falei com o presidente mas o Luís Filipe Vieira disse-me: “Isso não tem nada a ver Jorge, o teu trabalho fala por si. Tem oito golos, várias assistências e tens sido um dos melhores da Liga".

O treinador era o Quique Flores.
Era. Era para ter ido em dezembro com o Camacho, mas como tinha um pré-acordo com o Benfica, optei por ficar no Boavista porque no Boavista jogava e o Benfica tinha o Leo que, era bom jogador e se fosse logo para lá, se calhar não jogava e como tinha o Europeu esse ano, queria tentar ir ao Europeu. Por isso continuei no Boavista a fazer bons jogos e fui chamado para o Europeu.

O seu irmão não foi. O que é que sentiu nessa altura? Um orgulho diferente por finalmente ter “descolado” do seu irmão?
Não porque sempre tive ambição de três coisas: jogar com o meu irmão na equipa principal do Benfica, jogar na selecção e ir a um evento como o Mundial ou o Europeu com o meu irmão. Pensava que era nesse ano que ia ao evento e fechava as três, mas não aconteceu. Não sei porque é que ele não foi, mas são opções do seleccionador. Lembro-me perfeitamente quando fui chamado para o Europeu, os telefones não paravam. Diziam sempre a mesma coisa. “Então você vai ao Europeu e o seu irmão não vai, o que é que sente?” Estavam sempre a falar disso.
O que ele lhe disse?
Ele ficou muito feliz por mim, foi a primeira pessoa com quem falou quando soube da convocatória: “Tu mereces, é fruto do teu trabalho. Gostava de ir contigo mas são opções”. Claro que se fica sempre chateado de não ir a um evento como o Europeu. 

Ainda apanha o Jorge Jesus no Benfica?
Apanho.

Ele não o queria.
Como é que hei-de dizer, foi o Benfica que me deu tudo. Deu-me os valores todos como homem e como futebolista. Fiquei triste porque acho que foi injusto da parte do mister Jorge Jesus, e eu falei com ele sobre isso. Porque com o Quique Flores faço quase 30 jogos, contando com as competições europeias, era titular. Não foi uma época exuberante mas foi uma época regular da minha parte.

Ele explicou-lhe a razão?
Não, disse simplesmente que não contava comigo, na altura o director desportivo era o Rui Costa, disse que não contava comigo mas eu disse-lhe “Mister mas eu tenho mais três anos de contrato com o Benfica”. Fiquei um ano sem jogar com ele.

Custou-lhe.
Custou-me muito porque um jogador tem de jogar. E quando um jogador faz quase 30 jogos supostamente é para ficar no plantel, na minha opinião. Mas cada um tem as suas, ele teve as dele e fiquei um ano sem jogar. Claro que custou muito. Treinei à parte, não é a mesma coisa.
Conseguiu perceber porque é que ele não o queria na equipa?
Não cheguei a perceber porque ele quando me dispensa, diz-me que tinha o Shaffer e o Sepsi para o meu lugar. OK, são opções, só tenho que respeitar, mas tenho mais três anos de contrato. Tenho que ficar aqui, é a minha vida também. E ele: “Eu sei que sim, mas ficas a treinar ai à parte”. Está bem. O que é certo que que começou a época e ele dispensou o Shaffer e o Sepsi, foi buscar o César Peixoto e recuou o Fábio Coentrão para lateral esquerdo. Foi no ano em que ganhou o campeonato. E esteve muito bem, com um plantel muito bom, sem dúvida ele é bom treinador, já lhe disse, que é um bom treinador. Um treinador exigente também, um treinador que tem a sua maneira de estar e de ver as coisas, mas nunca compreendi o porquê até hoje.

É nesse ano que nasce a sua filha?
É , em 2010, a Maria Inês.

Assistiu ao parto?
Assisti. Dos três, assisti a todos. É uma sensação única. Ser pai é a melhor coisa do mundo. 

Entretanto vai para Guimarães.
Sim, vou para o Vitória de Guimarães emprestado pelo Benfica. Foi também uma experiência boa, apesar de ao início não jogar. O treinador era o Manuel Machado. Tenho uma história com ele muito boa.

Conte.
Ele é um treinador muito calado. Quando lá cheguei ia emprestado pelo Benfica, e não tinha que ser mais do que os outros só por vir do Benfica. Para eu jogar, tinha que treinar bem e fazer por merecer a confiança do treinador. Passei a primeira volta sem ser convocado, sem jogar e eu sempre a trabalhar, sempre a treinar. Começa a segunda volta, e lesiona-se o rapaz da minha posição, que nem era bem a minha posição porque eu era lateral e ali joguei a interior esquerdo, e o Manuel Machado mete-me a jogar com o Olhanense. A partir daí nunca mais saí da equipa. Depois vou para o Granada e um dia estou lá e recebo uma chamada. Um número português? O que é isto? Era o Manuel Machado a dizer que queria que eu fosse com ele, para a primeira aventura dele na Grécia, no Aris. “Tu foste um bom profissional. Treinaste sempre a sério, nunca viraste a cara à luta”. Só que era impossível porque os do Granada não me deixaram sair.
E Granada que tal?
Muito bom, gostei da cidade. Mas eles defendem muito o que é deles.

Está a falar em relação aos jogadores?
Também.

Então não foi bem recebido?
Fui bem recebido mas nós, os portugueses, acolhemos melhor os estrangeiros.

Correu-lhe bem essa época?
Não joguei muito.

É por isso que vem embora para o Desportivo das Aves?
Sim.

Entretanto nasce o seu segundo filho.
Sim, o Francisco.

É o Jorge Mendes que lhe arranja o contrato com o Desportivo das Aves?
No Granada já não era o Jorge Mendes, fui eu que fiz o contrato e a partir daí fui sempre eu.

Porquê?
Ele nunca mais me ligou e foi opção minha, não dependo de ninguém, nem que seja o homem mais rico do mundo, e segui a minha vida. Já tinha estado no Aves antes, eles gostaram de mim e ligam-me para saber se eu queria voltar. Disse logo que ia porque foi um clube que me acolheu bem, nunca me faltou com nada, sempre me deu tudo aquilo que eu queria.

Para um jogador que jogou em equipas como o Benfica, que jogou lá fora, quando volta para uma II liga o choque é muito grande?
Não. Eu tinha clubes interessados da I Liga e fui para uma II.

Porquê?
Não me prendo a que sejam clubes da I ou da II Liga, porque já estive na I Liga. E também nunca fui muito pelo dinheiro. Claro que isto é a nossa vida e é bom ganhar dinheiro, mas chega uma fase da carreira em que já tive tanta experiência de vida antes que, porque é que vou para a I Liga? Vou ver o que é a II Liga. E se tenho pessoas que acreditam e confiam em mim e que dizem: “Jorge vens para aqui, nós gostamos de ti, nós acarinhamos-te”. Eu prefiro assim.

É também uma altura em que começa a perceber que já não tem 20 anos...
...Exactamente

Começa a ter noção de que se calhar brilha mais n II Liga do que na I?
Em relação ao brilhar, quem tem qualidade, tanto brilha na I como na II. Costumo dizer que a II Liga é mais competitiva do que a I porque tem mais jogos, tem 40, 45 jogos, as equipas são mais bola no ar, mais possantes, os campos são diferentes, são mais pesados. Enquanto na I Liga é tudo mais bonitinho, há mais espaço para jogar, melhores condições. Na altura fui para o Aves e gostei. Estivemos a um passo de subir à I Liga. Estive dois anos no Aves, entretanto já estava farto de estar no norte e decidi ir para Lisboa, para o Atlético. Entretanto separo-me da minha ex-mulher.

Como é que surge o Farense?
Através do presidente João Rodrigues. Ele diz que não liga às idades, desde que o jogador corresponda dentro do campo. O que é certo é que os anos em que faço mais jogos são os anos em que tenho mais idade. Ele disse-me: “Conto contigo, quero que venhas para aqui. Isto é um clube histórico, vou levantar este clube”. O que é certo é que está a correr bem. Foi isso que me cativou, um presidente dizer: “Vens para aqui, eu estou contigo e confio em ti”. E, pronto, aconteceu. Vim para aqui, para a II B e estamos na II Liga, subimos.
Está com 37 anos. Faz alguma coisa de diferente para se manter em forma? Mudou alguma coisa nos seus hábitos?
Cuido-me bem. Faço uma boa alimentação, descanso. Um jogador com 37 anos tem de descansar, hidrato-me bem, tomo as minhas vitaminas e as minhas proteínas, tudo certinho às horas, para poder estar bem no jogo. E graças a Deus também nunca tive uma lesão muito grave. Porque as lesões com esta idade demoram mais a cicatrizar e a recuperação custa muito.

Está a gostar de viver no Algarve?
Estou. Entretanto casei-me outra vez. Com a Geni, que nasceu na Venezuela, é filha de pai português e mãe venezuelana. E já temos um filho, o Afonso que tem sete meses.

O que faz a Geni?
É consultora de beleza.

Já lhe passou pela cabeça a ideia de que qualquer dia tem de pendurar as botas?
Eu sei que não vou ser eterno mas ainda não me passou pela cabeça.

Sabe o que quer fazer depois?
Sim. Algo ligado ao futebol.

Treinador?
Não, director desportivo. Treinador não. Lidar com muitas cabeças não é para mim. Sou capitão do Farense este ano e as cabeças funcionam de maneiras diferentes. Dou muito valor aos treinadores porque não é fácil gerir um plantel com 30 jogadores. Um pensa de uma maneira, o outro de outra. E depois há sempre aquelas chatices e aqueles amuos. Para se ser treinador tem que se ser líder e ser um bom líder porque não é fácil.

Já fez ou tenciona fazer alguma formação na área da gestão desportiva?
Sim, vou começar a fazer porque vão surgir uns cursos. O sindicato também ajuda e vou-me informar e vou andar para a frente com isso.

Como surge a sua simpatia pelo Sporting? Afinal, começou por ser benfiquista.
Porque fui ver um jogo com o meu pai. O meu pai era muito fanático pelo Sporting e fui ver um jogo com ele, era miúdo. Não sei, foi um sentimento quando entrei naquele estádio antigo do Sporting. O meu pai levou aquelas almofadinhas, sento-me e vejo o jogo todo. Nunca tinha estado num estádio assim. E depois é um clube simpático, que não tem muita pressão, é um clube que não está habituado a ganhar muitas vezes, é um clube feliz (risos).

Onde é que ganhou mais dinheiro?
Na Rússia.

Onde é que foi investindo o seu dinheiro ao longo dos anos?
Em casas.

Nunca se meteu em nenhum negócio?
Não. Eu para me meter num negócio tenho de estar presente. Quando acabar o futebol, já estou a planear com a minha mulher, um negócio. Mas não vou dizer o quê.

Gostava de jogar até quando, tem alguma meta?
Gostava de jogar até aos 40 anos, de acabar com essa idade. Sinto-me bem, tenho feito os minutos todos, tenho estado muito bem e sou o primeiro a dizer, quando não der, quando eu sentir no meu corpo que já não consigo, sou o primeiro a dizer, já não quero mais e penduro as botas. Porque um dia vai ter que acabar.

Não tem receio de sentir saudades do cheiro do balneário, da relva...
Isso vou sentir sempre. Por isso é que passo aos jovens a mensagem de que o futebol são 10 anos para ganhar dinheiro. Há uns que se mantêm lá porque têm outro perfil, outros não. Mas enquanto andam nisto é aproveitar ao máximo. Somos remunerados, treinamos uma hora e meia, duas horas por dia e fazemos aquilo de que gostamos. Há trabalhadores que andam nas obras, têm que se levantar às cinco da manhã e dar no duro para dar de comer à família. Nós somos uns sortudos. Por isso é que há muita inveja.

Qual foi a maior extravagância que fez?
Não foi em carros. Nunca fui de carros, agora tenho um Kia. Mas comprei um relógio que me custou 5000 euros.

Tem algum hóbi? Joga Playstation?
Gosto de ver filmes, gosto de ler. A televisão é uma perda de tempo para mim.

O que é que lê?
Várias coisas. Sou muito romântico, tenho os livros todos do Nicholas Sparks. Gosto de conversar, aprendi isso com os meus pais. Estamos à mesa e eu estou a olhar para uma televisão, com a família? Não. Desligo a televisão e falo. Porque são esses momentos que temos para conversar.

Há algum outro desporto que pratique ou que siga com atenção?
Gosto muito de ténis. Jogo com a minha mulher que também joga bem.

Tem algum tenista favorito?
O Federer.

Não sente falta da confusão de Lisboa?
Não, a melhor coisa que me aconteceu foi vir para Faro.

Qual é a sua maior frustração no futebol?
Nenhuma, não tenho.

Conquistou algum título?
Conquistei o campeonato com o Jorge Jesus, ele pôs-me a jogar a 10 minutos do final.

Mas não sabe à mesma coisa pois não?
Claro que não. Fui campeão da II Liga pelo Santa Clara, subimos à I. Ganhei com o Quique Flores a Taça da Liga, duas vezes.

Qual foi o título que lhe deu mais gozo?
O Torneio de Toulon, de sub-20. Já não éramos campeões há 10 ou 12 anos. Senti uma sensação muito boa.

Quando fez a primeira tatuagem e quantas tem?
A primeira foi quando nasceu a Maria Inês, é uma coroa. Depois fiz o diamante que é o Francisco, depois tenho um relógio com a hora a que eles nasceram os dois. Tenho o meu nome. Tenho as alianças deste último casamento e a data. E tenho o meu outro filho que é o arcanjo Miguel, o anjo poderoso, e a data de nascimento Afonso. Tenho o nome da minha atual mulher, com umas orquídeas que ela gosta muito. Estão todas no meu braço direito. E tenho um escorpião, que é o meu signo, num gémeo da perna."

O futuro assegurado

"A convocatória feita por Bruno Lage para o jogo de hoje com o Boavista inclui 6 jogadores formados no Seixal. A cada semana que passa, a cada jornada que se disputa, a cada temporada que se cumpre, aí está a confirmação de que o Benfica e os benfiquistas têm cada vez mais motivos para se orgulharem da capacidade que o clube passou a ter para produzir talento dentro da sua própria casa.
Os 6 jogadores da formação que foram ontem chamados (Rúben Dias, Alfa Semedo, João Félix, Gedson, Zlobin e Florentino) representam 30% do total da convocatória. Alguns deles já são internacionais A. Outros acabarão por ser. O futuro do Benfica está assegurado por uma geração que se começa a impor, mas também pela qualidade indiscutível das que virão a seguir.
O talento que emerge no Seixal vem acrescentar valor a um grupo cujo mérito já não se discutia – e que tem ainda a particularidade de ser um dos plantéis mais jovens do futebol português. A média etária dos 20 convocados para hoje está nos 24,35!
Treze (!) destes jogadores têm 25 ou menos anos e há apenas um caso acima dos 30 (o capitão Jardel). Não é apenas em Portugal que o exemplo do Benfica se distingue. Até nos principais campeonatos europeus é difícil encontrar hoje uma equipa com raízes tão internas e que, ao mesmo tempo, permita projectar um futuro tão risonho."

Será possível termos um futebol mais positivo? Tudo, tudo, tudo o que (...) gostaria de ver no futebol português está aqui

"Olhar para o futebol português é, nos dias de hoje, um exercício de pura bipolaridade. Pelo menos para mim, confesso.
Tanto me puxa o orgulho tremendo do muito que tem de único e brilhante, como a agonia lenta do tanto que tem de feio e dispensável.
Nos dias de hoje, não é fácil pedir ao adepto que olhe apenas para o lado mais belo e radioso do jogo, quando ele é inundado por notícias que o transportam para o seu lado mais feio e cinzento.
Entre o deve e o haver, já ninguém sabe bem se há de rir ou chorar. Se há de acreditar ou perder a fé. 
As coisas são como são, mas... será que poderiam ser diferentes?
Será possível termos um futebol mais positivo, com mais coisas boas do que más ou isso é mera utopia? Será que conseguiremos criar um espectáculo que nos dê mais alegrias do que tristezas ou isso é mito urbano? Será que as boas notícias e os bons exemplos serão mais frequentes do que títulos polémicos ou isso é algo inatingível?
Como se chega a esse ponto? O que falta fazer? O que falta mudar? Depende de quê? E de quem? Por onde começamos?
Penso nisto com frequência. E quanto mais penso, mais embruteço.
Gostava que o futebol, em Portugal, mantivesse (e crescesse) em tudo aquilo que tem de melhor. Em tudo o que de excelente já conquistou. Em tudo o que ainda ambicionar concretizar.
E gostava também que fosse substancialmente diferente naquilo que tem de menos apelativo e bonito. Naquilo que tem de mais criticável e censurável.
Queria, por exemplo, que os jogos tivessem mais qualidade e que fossem disputados a ritmo elevado, com intensidade e emoção até ao apito final.
Queria partidas mais equilibradas, com mais talento "Made in Portugal" e com mais tempo útil de jogo. Queria que isso atraísse mais gente aos estádios e mais patrocinadores para as competições. 
Queria que todas as equipas tivessem lideranças fortes, movidas pela busca permanente do sucesso. Do seu sucesso. Queria que orientassem a sua prioridade para o que depende de si e não para fora, para o que depende dos outros.
Queria que imperasse a ética, o respeito e o desportivismo. Que houvesse tranquilidade, educação e personalidade. Que houvesse verdade. E que isso abrangesse jogadores e árbitros, treinadores e dirigentes, jornalistas e comentadores.
Queria que os discursos bélicos, irónicos e acusatórios dessem lugar a outros, de maior elevação e dignidade. Que dessem lugar a diálogos frontais, discussões honestas, conversas civilizadas.
Queria que as boas práticas fossem contagiantes e que as menos abonatórias deixassem de proliferar. 
Queria que parassem os ataques ferozes, os ataques covardes e os ataques sem sentido. Queria que, em torno do jogo, tudo fosse absolutamente transparente e cristalino. Que tudo fosse claro e insuspeito.
Queria que árbitros, jogadores, treinadores e dirigentes soubessem assumir os seus erros relevantes e reconhecer as suas falhas evitáveis. Queria que o fizessem com responsabilidade, nos momentos adequados, de forma adequada. E queria que fossem aí coerentes e corajosos, determinados e humildes.
Queria que toda a imprensa fosse livre. Verdadeiramente livre. Que equilibrasse, com critério, o dever de informar com a obrigação de sobreviver. Que servisse o interesse público e não o interesse de determinado público. E que se consciencializasse da importância do seu papel na formação de opinião.
Queria que o carácter das pessoas, de todas as pessoas, não dependesse apenas de vitórias ou derrotas, mas da sua estrutura moral. Da sua verticalidade. Da sua integridade.
Queria que o "produto futebol" fosse cada vez mais vendido pela positiva. Que os aspectos bons fossem mais focados do que os maus e que as suas virtudes fossem mais valorizadas do que os seus defeitos.
Queria que não houvesse violência dentro e fora dos estádios.
Queria que os adeptos soubessem usufruir e participar no jogo, sem esquecer que têm o dever de o tornar num espectáculo onde impere a cidadania, a segurança e o respeito à diferença. Sem atitudes racistas, sem xenofobia, sem intolerância.
Queria que houvesse mais controlo emocional em momentos de maior tensão. Que quem é mais relevante percebesse que o seu discurso tem o poder de serenar ou incendiar os ânimos.
Queria que houvesse mais prevenção e maior punição.
Queria que houvesse respeito institucional.
Queria que todos mandassem por igual.
Que não existissem lobbies, influências ou manobras menos éticas. Que não existissem cargos a troco de votos ou favores. Que o poder não fosse do mais forte porque todos deveriam ter a mesma força. 
Queria que o vencedor de cada partida fosse aquele que mais a mereceu vencer. Que mais procurou a sua sorte. Que mais trabalhou para chegar à vitória.
Queria que o futebol privilegiasse a meritocracia. Que só os melhores, os mais capazes e qualificados estivessem no topo da pirâmide. A arbitrar e jogar, a treinar e dirigir. A informar e a comentar.
Queria que todos percebessemos que somos co-responsáveis pelo sucesso ou fracasso deste espectáculo. Que ele será sempre aquilo que nós quisermos que seja. E que quanto mais o valorizarmos e defendermos, mais ele crescerá. Mais ele será melhor e evoluído. Mais força terá.
Isso será sempre bom para a indústria, óptimo para a sociedade e excelente para o país. Perfeito para todos nós.
Algo assim, ambicioso mas concretizável, tem que ser um objectivo a atingir, não uma utopia fora de alcance.
Onde os conformados e desistentes vêem lirismo, os resilientes têm que ver um desafio a superar. Ainda que difícil, ainda que "impossível".
Não se rendam. As mudanças acontecem quando todos quisermos que aconteçam.
A História está cheia de bons exemplos."

Árbitros vs. Vídeo-Árbitro: duas faces... de moedas diferentes

"Na passada semana o grande protagonista da Allianz CUP foi o VAR. Nesta competição verificaram-se os 4 erros possíveis de intervenção: i) chamar o VAR quando não era necessário (Seferovic); ii) não chamar o VAR quando era necessário (Oliver v Gabriel), iii) após consulta do VAR, marcar indevidamente falta (Acuña v Diego Sousa); iv) após consulta do VAR, não marcar falta quando se deveria marcar (Coates).
Mas olhemos para o VAR com mais atenção. Após as primeiras 11 jornadas da Liga foram 27% do total de intervenções do VAR terminaram em avaliações erradas. Falta saber se estas situações resultaram de alteração da avaliação face à intervenção do VAR ou qual o resultado destas avaliações erradas no resultado final do jogo, pois no final será isso que interessa… Para além dos resultados até ao momento, interessa olhar o futuro.
Como poderá ser melhorada a actuação do VAR de modo a diminuir as avaliações erradas? 
Investigação científica demonstra que o modo como o árbitro percepciona e avalia a mesma situação em campo ou em vídeo é completamente diferente. Enquanto em campo a expertise do árbitro passa por movimentar-se de forma a recolher a melhor informação para decidir, a expertise do vídeo-arbitro passa apenas pelo foco do olhar na informação relevante para a decisão segundo diferentes perspectivas. Num estudo científico que procurou avaliar a tomada de decisão no desporto, verificou-se que o tempo de resposta e a exactidão da resposta variam em função do modo como o estimulo é captado (campo ou em vídeo) e em função do objectivo da acção a realizar (julgar uma decisão em campo num dado instante ou julgar uma decisão em vídeo e verbalizar se esta é correta ou errada). Estes dados significam que a acção do árbitro ou do VAR são diferenciadas e consequentemente que o seu treino deve ser diferenciado, de modo a que a capacidade de intervenção no cumprimento das suas funções seja maximizada. Neste momento, imagina-se a dúvida do dia-a-dia de um árbitro… como deverei treinar? Tenho condições para treinar VAR? Como deverei olhar para o jogo de modo a preparar-me para o jogo do próximo fim-de-semana… como árbitro, como VAR?
Do mesmo modo, investigação científica com árbitros de futebol já demonstrou que o número de monitores e a disposição desses mesmos monitores, bem como o ângulo de visão utilizado e a sua velocidade afectam a percepção e avaliação do árbitro. De forma interessante, jornalistas desportivos com vasta experiência na análise do jogo de futebol, na experimentação do VAR, erraram na avaliação e enganaram o árbitro. Não é que lhes seja estranho o visionamento de vídeos sobre futebol ou o escrutínio de avaliações de árbitros no decorrer do jogo, mas porque olhar um televisor com diferentes imagens e em diferentes planos, com diferentes velocidades de visionamento e ter que realizar uma avaliação num curto espaço de tempo encerram exigências próprias que obrigam à especialização nessa mesma função.
Face ao exposto, questionamos o porquê de os árbitros auxiliares e os árbitros possuírem carreiras distintas dentro da própria equipa de arbitragem, enquanto no VAR existe uma constante alternância de funções entre o desempenho de árbitro e VAR e entre equipas de arbitragem? A especialização de funções e a melhoria dos processos de comunicação são fundamentais para potenciar a actuação em momentos críticos de actuação! Cada um com as suas funções para como preconizado tenhamos um VAR com “mínima interferência para máximo beneficio”."

Desporto a prioridade adiada e outros equívocos: orçamento de estado 2019

"Após aprovação da proposta do orçamento para 2019, justifica-se a análise sobre o que o Estado (de sempre) e o Governo (de agora) consideram como determinante no Desporto.
Centraremos a nossa atenção na "despesa pública" que traduz a aplicação da receita recebida pelo Estado (dinheiro dos contribuintes, através de impostos ou de outras receitas) em bens ou serviços susceptíveis de satisfazer as necessidades públicas dos habitantes. Pela Europa fora, cada Estado aplica determinada percentagem do seu dinheiro, conforme entende ser melhor, para manter os serviços públicos a funcionar. Esta despesa, em termos médios em Portugal, ronda os 51.7%, sendo superior à média Europeia (48.2%).
A área sectorial da Juventude e Desporto, integrada no Programa Orçamental, Educação Pré-Escolar, Ensino Básico e Secundário, possui um orçamento que corresponde a 0.08% da despesa total (96,885 mil milhões de euros) com 85,254.856 milhões de euros orçamentados e a actividade Desportiva (cuja intervenção pública aparece, mais uma vez depreciada com outras áreas de actividade no Instituto Português do Desporto e Juventude) possui um orçamento de 40,458 ME (0.04% da despesa da pública total).
Grosso modo, as grandes fontes de financiamento destes 85,254ME, são três: i) transferências do estado que em 2019 ascendem a 17,65ME; ii) receitas próprias, fundamentalmente dos jogos sociais que rendem ao IPDJ cerca de 9.85% do valor global apurado (DL n.º 56/2006, de 15 de Março, alterado pelos DL n.º 44/2011, de 24 de Março e DL n.º 106/2011, de 21 de Outubro) e 20.66% das verbas provenientes do imposto especial sobre o Jogo Online, que reverte para a Secretaria de Estado de Juventude e Desporto (Decreto-Lei n.º 66/2015, de 29 de abril, alterado pelas Leis n.ºs 13/2017, de 2 maio, e 101/2017, de 28 de Agosto), bingo e outras receitas do IPDJ com 65ME; iii) e fundos comunitários com 2.54 ME.
Estes valores absolutos (ME) e relativos (%) são um destrate da importância nacional quando comparada com a realidade europeia deste sector de actividade, que representa 1.76% do valor acrescentado bruto, com uma quota parte nas economias nacionais comparável à dos sectores da agricultura, da silvicultura e das pescas combinados e com taxas de emprego relacionado com o desporto de 2.12% do emprego total na UE.
Em Portugal, o Instituto Nacional de Estatística divulgou os resultados da CSD para o triénio 2010-2012, com três grandes conclusões: (1) o desporto representou em média 1.2 % do Valor acrescentado bruto; (2) representou 1.4% dos Equivalente a tempo completo da economia portuguesa, com dimensão económica semelhante ao ramo da metalomecânica, informática, vestuário, arquitectura e engenharias e técnicas afins.
Primeira constatação: apesar dos serviços recreativos, desportivos e comunitários não pesarem muito nas despesas dos estados da UE, valendo em média apenas 1% da despesa pública, em Portugal este sector de actividade representa apenas 0.08% e o desporto 0.04% o que traduz a pouca importância social que os políticos, de uma forma geral, e este Governo especificamente atribuem quer ao desporto quer, porque não dizer, à juventude.
Quando especificamos a origem destes montantes e analisamos a diferença entre os valores reportados pelas diferentes instituições para a elaboração do orçamento e os propostos pelo Governo em sede de orçamento, verificamos que o estado retira das receitas próprias geradas pelo Desporto, que lhe cabem, cerca de 6,888.901 ME, que são desviadas para outras prioridades e serviços públicos (educação; protecção social; cultura; saúde; habitação e desenvolvimento; protecção e ambiente; assuntos económicos; etc.).
O valor acumulado destes desvios só nos últimos três anos ascende a cerca de 17,5ME (4,2 ME em 2017, 6,5ME em 2018 e 6,8ME em 2019).
Segunda constatação: existe dinheiro do Desporto que está a ser desviado, inexplicavelmente para outras prioridades sociais, o que traduz objectivamente uma desvalorização desta área de actividade e uma falta inequívoca de peso politico dos responsáveis pela tutela do desporto em Portugal.
Terceira constatação: decorre das duas primeiras, contextual e relativa ao panorama actual do financiamento no desporto em Portugal. O sufoco financeiro que organizações desportivas (OD"s) vivem actualmente, algumas a crédito, e que recai sobre contratos estabelecidos e outros assumidos sem contratualização (desporto para todos, enquadramento técnico, eventos, actividade regular, etc.) e sem cabimentação financeira da tutela, traduz uma subvalorização de todas as OD"s com utilidade pública desportiva (UPD) que assumem, devidamente, competências delegadas do estado nesta área. 
Quando reportamos a despesa pública no desporto nas diferentes rubricas de classificação económica, verificamos que dos 40,458 ME para o Desporto:
Aproximadamente 35ME são relativos aos contratos programa de apoio às OD"s com UPD (desenvolvimento prática desportiva, organização e gestão, selecções nacionais e alto rendimento desportivo); plano nacional de desporto para todos; organização e realização de eventos desportivos internacionais em Portugal e deslocações das OD"s às regiões autónomas da madeira e Açores para 2018/2019;
Aproximadamente 1.25 ME para financiar entidades que representam e/ou coordenam o desporto federado (Comité Olímpico de Portugal (COP) Comité Paralímpico de Portugal (CPP); Confederação do Desporto de Portugal (CDP); Confederação Portuguesa da Associação de Treinadores (CPAT); Confederação das Associações de árbitros e Juízes de Portugal) (CAJAP) e 604.000 euros para financiar a Fundação do Desporto;
Aproximadamente 775.000 euros para prémios por medalhas obtidas em competições internacionais e medidas de apoio pós-carreira e 2.715 ME para os projectos de preparação olímpica e paralímpicas e;
Aproximadamente 130.000 euros para apoio à cidade europeia do desporto.
Quarta constatação: a distribuição das verbas para o desporto, entre o valor disponível já de si reduzido pelas cativações estatais, traduz uma necessidade urgente de se redefinir, quer os programas de actividade que dão suporte às prioridades definidas quer, ainda, as organizações que são alvo de financiamento para funções e competências as quais o estado e outras organizações existentes podem assumir, numa óptica de reorganização, indispensável, do sistema desportivo (federações desportivas com UPD; COP; CPP; FD; CDP; CNAPT; CAJAP, etc.).
Três considerações adicionais e uma nota final.
Importa relevar, como aliás foi feito nesta proposta de orçamento, as questões associadas com o combate aos fenómenos de violência, com a criação da Autoridade para a Prevenção e o Combate à Violência no Desporto, assim como a criação, operacionalização e manutenção da plataforma nacional destinada ao tratamento da manipulação de competições desportivas. Esperemos que este facto não pressuponha a diminuição das verbas disponíveis para a actividade regular de funções para as quais o próprio IPDJ tem competências delegadas.
Os problemas do desporto, como sistema, não se circunscrevem à aposta na valorização da Educação Física em todos os ciclos de ensino e do Desporto na Escola, porquanto há muito que se sabe que o real entrave é o próprio sistema que impede, salvo raras e honrosas excepções, a complementaridade entre o sistema desportivo e o sistema educativo (exemplo do seguro desportivo vs. seguro escolar e quadros competitivos mistos);
A melhoria do apoio ao Desporto de Alto Rendimento não passa pela aprovação de projectos olímpicos e paralímpicos a 18 meses dos eventos (Janeiro de 2018) nem tão pouco pela equiparação dos Projectos (Olímpico e Paralímpico) sem a necessária reflexão sobre as condições de acesso e participação a cada um destes subsistemas. Prioritário é dotar os clubes, atletas, treinadores e dirigentes das condições necessárias e medidas de apoio concretas, que resolvam aspectos tão elementares como as condições para treinar, controlar e avaliar o estado de preparação desportiva. 

Nota Final: de facto, o Desporto não é uma prioridade para Portugal e esta proposta de orçamento de Estado para 2019 confirma-o, entregando este sector à iniciativa privada e associativa, o que muitas vezes acaba por impor quadros de carência na qualidade da discussão e no potencial máximo a atingir. O Estado continua a tratar o Desporto como uma menos-valia, ignorando a sua múltipla dimensionalidade e, mais importante ainda, ignorando o Desporto enquanto prática, enquanto indústria e enquanto sector gerador de potenciais talentos com repercussões sociais inquestionáveis. Até quando?"

Benfiquismo (MLXXIX)

White Hart Lane...

Chama Imensa... Vigaristas Autorizados a Roubar (VAR)!!!

Benfica FM - ... do Bordalo !!!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A diferença entre árbitros e arbitragem

"Não se defende a arbitragem defendendo, em todas as circunstâncias, os árbitros. Quem o fizer estará muito enganado

O futebol português tem laborado num erro a que já me referi noutras alturas, mas a que vale a pena retornar. A páginas tantas, entendeu-se que haveria toda a vantagem em que o presidente do Conselho de Arbitragem (CA) da FPF fosse recrutado na APAF, órgão de classe dos árbitros. Percebe-se a bondade do raciocínio e a lógica de entregar as decisões a quem conhece por dentro o fenómeno, juntado-se a isto uma presunção de unidade dos árbitros em torno do seu Conselho.
O tempo tem-se encarregado de demonstrar que mesmo uma via seguida na melhor das intenções pode conduzir ao desastre.
Porquê, se estavam, em tese, reunidas todas as premissas para que a nau chegasse a bom porto?
Porque houve um pecado original que redundou em fracasso: vindos da APAF, os sucessivos presidentes do CA da FPF fizeram uma confusão trágica ao pensarem que ao defenderem corporativamente os árbitros, algo perfeitamente legítimo na associação de classe de que proviam, estavam a defender a arbitragem. Ora, os árbitros - a parte - e arbitragem - o todo - não são confundíveis e o bem dos primeiros não significa, automaticamente, a vitória da segunda.
Movidos por lógicas corporativas, os Conselhos de Arbitragem permitiram que se instalasse uma cultura de pouca exigência que manteve no activo elementos medíocres e impediu a progressão na carreira a candidatos promissores.
Hoje, e nem o presidente do CA da FPF se atreverá a desmenti-lo, temos um quadro de árbitros de qualidade mais do que duvidosa. Há alguns anos, até ao Apito Dourado, poder-se-iam imputar a lógicas corruptas os males da arbitragem. Nos dias de hoje, creio, estamos apenas perante incompetência pura e dura, fruto de uma geração que cresceu em regime de aviário, sem perceber o jogo e as suas motivações. Há uns anos havia uma expressão simples, «pisa mal» que se aplica que nem uma luva a uma série de árbitros-proveta que não têm a mínima noção do que é o jogo. Pedro Proença, hoje presidente da Liga, herdeiro do talento de Carlos Canuto, Joaquim Campos, António Garrido, Carlos Valente e Vítor Pereira, não poderá ter uma visão diferente desta. E será preciso que quem detém o poder arrepie caminho e assuma de uma vez por todas que defender os árbitros e defender a arbitragem são coisas muito diferentes...
(...)

O VAR na berlinda por acção e por omissão
Um golo marcado (de forma escandalosa) com o braço, esteve na eliminação do Everton de Marco Silva da Taça de Inglaterra. De imediato soaram gritos de revolta por não haver ainda VAR no melhor futebol do mundo (só chega em 2019/2020). Por acção ou omissão, o VAR está na berlinda, sem fronteiras...

As contradições de Sérgio
Sérgio Conceição mantém, como treinador, a matriz dos dias de jogador. De personalidade telúrica, é um daqueles casos em que é amado pelos seus e odiado pelos outros, defendendo a causa em que limita até à enésima potência. Por tudo isto, Sérgio nunca foi visto como exemplo de 'fair play', mantendo-se mais perto do guerreiro sempre disponível para dar o peito às balas em cada batalha. Nos últimos dias, relativamente ao treinador do FC Porto, a única coisa estranha foi o apelo que fez à paz e à concórdia e, até, ao respeito pelos árbitros (basta conferir o número de vezes que ele e o director de futebol dos dragões já foram expulsos por desavenças com os juízes de campo na corrente temporada). Só por isso se tornou mais contraditória a forma com o FC Porto reagiu à derrota na final da Taça da Liga, com incidentes na bancada e a ausência (tão justamente criticada ao Benfica na final de Taça com o V. Guimarães) no momento de consagração dos leões. Sérgio Conceição é um treinador de futebol de grande qualidade, disso ninguém tenha dúvidas. Mas não é, nem nunca foi, um modelo de 'fair play'. E, ao serviço do FC Porto ou em qualquer outro destacamento, assim continuará a ser. Sinceramente, do ponto de vista de adepto (e Sérgio já disse publicamente que o seu clube do coração é a Académica), antes alguém que 'morra' pelo clube que representa num determinado momento, que muitos que juram fidelidade eterna a um só clube e por lá permanecem mais para serem servidos do que para servir..."

José Manuel Delgado, in A Bola

Uma sugestão ao VAR

"A Taça da Liga foi ganha pelo Sporting com sangue, suor e lágrimas. Dois jogadores de Alvalade partiram o nariz, com a coincidência de ocuparem o mesmo lugar em campo: um acabara de substituir o outro. Até por isso, a vitória foi um prémio merecido para os leões.
E a derrota acabou por ser um castigo merecido para o FC Porto, cujo treinador não soube respeitar o adversário. Desmereceu o triunfo leonino, classificando-o de “injusto”, num jogo quase igual ao que o Porto tivera com o Benfica, embora com história diversa. Nesse encontro, a primeira parte fora equilibrada e o Benfica dominara na segunda - mas o Porto acabou por ganhar. Neste jogo, a primeira parte foi equilibrada e o Porto dominou na segunda - mas o Sporting acabou por ganhar.
Perante isto, Sérgio Conceição só tinha de ficar calado. Quem com ferro mata, com ferro morre.
Mas esta Taça da Liga ficará célebre por outras razões: a violenta polémica sobre as arbitragens, que envolveu os presidentes dos quatro clubes participantes na fase final.
Diga-se desde já que ela teve um lado positivo: chamou a atenção para uma prova que era desprezada, trazendo-a para o primeiro plano. A Taça da Liga nunca mais será a mesma.
Mas a verdade é que as arbitragens das meias-finais foram incompreensivelmente desastradas. Não discutindo os outros lances, a anulação de um golo legal ao Benfica, por fora de jogo, atingiu foros de escândalo. É que, se nos livres ou nos penáltis há sempre um certo grau de subjectividade, nos foras-de-jogo não há dúvidas. Assim, não se compreende que um árbitro com recurso a tecnologia, que pode parar as imagens e andar com elas para trás, não tenha percebido que o avançado do Benfica estava atrás do último defesa do Porto.
Um homem que não conseguiu ver isto não pode arbitrar - e fez muito bem em retirar-se para reflectir e aprender.
Entretanto, para acabar com as dúvidas - e na esperança de que alguém com influência no futebol português leia esta crónica e leve a sugestão às instâncias internacionais -, faço uma proposta simples de alteração à lei do offside. A proposta é esta: um jogador só estará deslocado quando o seu corpo estiver “na totalidade” à frente do último jogador adversário. Assim, não haverá mais discussões sobre se o bico da bota está atrás ou à frente…
Tal como, nos foras ou nos golos, a bola tem de estar toda para além da linha, nos foras-de-jogo, um jogador, para estar offside, teria de ter todo o corpo destacado em relação ao adversário."

Hora de mobilização

"Depois de uma semana negra que ficará para a história como exemplo de como se pode desvirtuar a verdade desportiva, o campeonato está de regresso.
Para nós, Benfica, o jogo de amanhã frente ao Boavista assinala o início de um novo ciclo de enorme exigência – que inclui, logo de seguida, um duplo confronto frente ao Sporting que esperamos que seja um óptimo cartaz de promoção do futebol e do fair play.
Primeiro, o Boavista. Esta 3.ª feira não ficará apenas marcada por ser o dia em que o Benfica volta à luta no campeonato: é também o regresso da equipa ao Estádio da Luz, que não recebe qualquer jogo desde o passado dia 6. Ou seja, há 23 dias que equipa e adeptos não se encontram na própria casa. 
Estiveram juntos nos Açores, frente ao Santa Clara, depois em Guimarães (por duas vezes) e por fim em Braga (meia-final da Taça da Liga). A onda vermelha esteve exemplar em todos os momentos: apoio inexcedível e comportamento sempre correto. Foi assim na hora das vitórias, mas também na forma de lidar com a revolta provocada pela escandalosa arbitragem que nos custou a derrota na última 3.ª feira.
Mas o tempo é de olhar em frente. Há 3 pontos para conquistar já amanhã e, para isso, o apoio dos adeptos será fundamental na hora do reencontro com a equipa na Luz.

PS: A festa do futebol que se tentou fazer no Minho já estava irremediavelmente comprometida pelo desastre das arbitragens. Mas ver um treinador agredir adeptos é sinal que, de facto, “o futebol português está a ficar insuportável, já se está a passar o limite do respeito pelas pessoas”."

Cadomblé do Vata (Semanada)

"1. Fim de semana para esquecer: eliminados miseravelmente na meia final da Taça da Liga em futebol, fomos atropelados pelo FC Porto em basquetebol e humilhados em casa pelo Sporting CP em hóquei em patins... tenho alturas na vida em que eu adorava odiar desporto. 
2. O Sporting CP sagrou-se "bi-campeão de inverno", vencendo os 4 jogos das duas Final Four no desempate por penaltys, nos quais facturaram um total de 16 golos... mesmo assim, ainda ficaram aquém do registo de 17 penaltys concretizados, na última vez que foram "campeões de verão".
3. A imprensa tem feito um excelente trabalho de desculpabilização do treinador de guarda redes portista que agrediu à medalhada um adepto do Sporting CP, dizendo que foi "insultado e apupado"... diz quem ouviu que foram exactamente os mesmos insultos e apupos dirigidos pelo adepto do SL Benfica que levou com um calhau na boca, atirou a um pacato automobilista em plena A1 antes do Natal.
4. Naquela que terá sido a movimentação mais surpreendente deste mercado de transferências, o SL Benfica emprestou Bruno Varela ao Ajax... se me tivessem perguntado se eu concordava, eu tinha-lhes logo respondido "oh, nana! (badum, tss).
5. Em França dizem que Mitroglou pode estar de regresso ao Benfica por emprés... bolas, pinguei as cuecas..."

Benfiquismo (MLXXVIII)

Guilherme...

domingo, 27 de janeiro de 2019

VAR(iações)

"O VAR veio para ficar, mas o 'corporativismo arbitral' que 'não autoriza' uma estrutura própria para juízes VAR tem os 'dias contados'

1. (...)

2. O futebol português não pode ser nem um festival de vaidades nem um espaço de muitas e diferenciadas formas de comunicação e de intermediação. Vivemos uma semana dominada pela Taça da Liga e, apesar de muitas importantes e impressionantes presenças - incluindo presenças de vedetas espanholas, o que pressupõe, estou certo, reciprocidade, a curto prazo, do lado de terras do Rei Filipe VI -, foi o VAR que dominou as atenções. E por razões que levam a perceber que o futebol, e as suas diferenças análises, está sujeito a múltiplas variações. E despesas interessantes. Basta elrmos, ou escutarmos, com toda a atenção as reflexões de ex-árbitros para percebermos, se dúvida tivéssemos, que os lances mais controversos, mesmo com imagens, são vistos de várias formas. Para uns é falta, para outros não o é. Para uns aquele lance é fora de jogo, para outros, mesmo com linha, não é fora de jogo. E, assim, o VAR é sujeito a variações. Tem, afinal, que ver com as cores dos olhos. E, em Portugal - e parece que também em Espanha com o Real Madrid a queixar-se que o VAR parece ter o seu centro de análise em Barcelona -, o VAR, que é um instrumento útil, foi, nesta semana, questionado, e bem questionado. E nem a operação de relações públicas desencadeada, na passada sexta-feira, pelo Conselho de Arbitragem atenua a dor que atingiu Benfica e Sporting de Braga nos jogos das meias finais da Taça da Liga. O que fica é a sensação da injustiça do VAR. Mesmo que tenhamos a consciência das variações que a análise dos lances controversos suscita. E o que é interessante é que a Federação Portuguesa de Futebol não deixou de dar uma mão à Liga quando proporcionou, ontem, um duplo VAR para a final da Taça que atribuiu, no marketing, o título de campeão de inverno. A Federação tudo fez, acredito, para credibilizar do duplo VAR! Estou convicto que o VAR veio para ficar. Mas também estou certo que o corporativismo arbitral que não autoriza uma estrutura própria para juízes VAR tem os dias contados. Assuma-se que o VAR, entre nós, não pode ser uma forma de protecção ou de compensação dos árbitros de primeira. E ou a Federação - sim a Federação, esta Federação, e não este Conselho de Arbitragem - o assume e impõe ou, então, o VAR; entre nós, estará sujeito a muitas variações! E, neste caso, não haverá comunicação, por mais competente que seja a agência - e é-o! - que salve as variações que se multiplicarão e ampliarão. Tendo a consciência que o clima do futebol português implica, e determina, acrescidas cautelas. E daí que se em Braga houve momentos de festa também é inequívoco que, a partir de Braga, houve muito desassossego. Diria que até em Braga houve necessidade de ter muito cuidado. E variações de itinerários! Até por que «até a virtude precisa de limites»!

3. O nosso calendário atribui à Taça da Liga uma verdadeira e completa semana de festa. É bom para os patrocinadores e para a diversificada intermediação televisiva. Mas se ontem ocorreu a final hoje poderiam realizar-se muitos jogos das competições profissionais que estão marcados para os primeiros dias da semana que vai iniciar-se. Não se compreende que haja jogos marcados para o comum horário de trabalho. Jogos à segunda-feira às três ou às cinco horas da tarde é uma variação de horário que não tem em conta os comuns horários de trabalho nem a atractividade televisiva. E é bom que se diga isto. Não há verdadeira indústria do futebol que não respeite o adepto/cliente/consumidor. E não há comunicação, por mais insistente ou persistente que seja - ou mesmo, por vezes, limitadora ou condicionante -, que destrua a essência do futebol. Adeptos, antes de mais. E ir de Coimbra a Paços de Ferreira - bonita terra de gente amiga - às cinco da tarde de uma segunda feita é uma violência. É mesmo uma incrível variação! Para não dizer uma violência sem sentido! É caso para perguntar: Por que não neste domingo estes jogos? Uma explicação razoável, por favor. Incluindo a todos aqueles que aprovaram, porventura sem cuidado, este planeamento de jogos. Tanta variação para quê? Porquê?

4. Há vinte e cinco anos - tanto, tanto tempo! - publiquei um livro a que dei o sugestivo título Memórias de um espectador atento. Uma das reflexões do livro dizia respeito aos apitos limpos. Em 1994! Quase bodas de prata! A minha memória leva-me a múltiplos casos e diferentes deliberações. E a luta por esses apitos limpos era uma luta justa que deve motivar a colaboração imediata de todos aqueles que amam o futebol. É que os outros fazem do futebol uma mama! Uma mama! Vinte e cinco anos depois, muitos casos depois, essa busca é um permanente desejo, diria quase que uma ardente quimera. E, direi, com idênticas mamas! Mas também, aqui, e apesar dos novos constrangimentos - e dos donos disto tudo que o futebol criou, sedimentou e continua a alimentar - a diversificada opinião pública - diria que, em rigor, as coloridas opiniões públicas - não aceitam omissões investigatórias nem sequer impunidades e imunidades desportivas. E o que fica são, tão só, algumas variações. Poucas, muito poucas direi. Até o Conselho de Justiça da Federação continua a dar razão, ontem como hoje, a árbitros desclassificados, como é o recente caso do Jorge Ferreira. Mas, ontem como hoje, «a bajulação é a moeda falsa que só circula por causa da vaidade humana»! Afinal tão só variações!"

Fernando Seara, in A Bola

Derrota...

Benfica 1 - 4 Sporting

Estava à espera de muitas dificuldades. A verdade é que a troca de treinador ainda não surtiu efeito, até porque não houve tempo, para mudar tudo... e com o início deste ciclo de jogos decisivos com os nossos principais adversários, tudo indica que a época está 'perdida'!!!

O resultado é totalmente injusto, os Lagartos com este treinador, basicamente não arriscam nada, e ficam à espera das bolas paradas, ou de um chouriço de longa distância... o factor decisivo seria o Benfica conseguir uma vantagem, algo que nunca aconteceu... Tentámos não 'arriscar' muito, mas as faltas só caíram para um lado (como sempre...!!!) e quando tivemos vantagens numéricas (a maior parte por protestos) não aproveitámos os power-plays...  e os Lagartos chegaram à vantagem de penalty... conseguimos empatar, mas depois o lance decisivo do jogo é o absurdo cartão azul ao Nicolia, o jogo acabou nessa jogada!!!

Esta época já disse várias vezes, que a época tinha 'terminado', mas os resultados surpreendentes têm sido muitos... mas cinco pontos para os Corruptos, e como ainda temos que jogar ao Antro, parece-me que desta vez, a diferença é mesmo demasiado grande!!!

O comportamento de vários jogadores Lagartos voltou a ser inacreditável. A não expulsão do Girão é só mais um daqueles incidentes do absurdo... O Benfica no hóquei, se alguma vez quiser ser novamente campeão, terá que jogar 20 vezes mais do que os outros, é simples!!!

Vitória em Inglaterra...

Bayern B 0 - 1 Benfica B
Santos


Despedida da Premier League International Cup, com uma vitória... em mais uma participação discreta nesta prova.

O estado a que 'isto' chegou

"Não se pode querer ser parte da solução e continuar a ser, ao mesmo tempo, parte do problema. É hora de sermos homenzinhos

«Isto está a ficar quase insuportável, pois está a passar-se limite do respeito pelas pessoas, mesmo em termos de vocabulário, com afirmações e insultos que não é bom para ninguém». A frase é de Sérgio Conceição e merece ser aplaudida, como merece qualquer uma de alguém que chame a atenção para aquilo em que se transformou o futebol português. Encerra, contudo, dois problemas. O primeiro é que não está totalmente correcta. Porque isto não está a ficar quase insuportável nem está a passar-se o limite do respeito pelas pessoas. A forma correcta de dizê-lo, para não fugir à verdade, é que isto está insuportável e há muito se passou o limite do respeito pelas pessoas. O segundo é que não pode, ou não deve, o treinador do FC Porto fazer de conta que ele próprio, e o clube que representa, não são, também, responsáveis pelo estado a que isto chegou. Porque não há, ao contrário do que quase todos querem fazer crer, apenas um culpado por aquilo que se está a passar hoje no futebol em Portugal. São, somos, muitos os culpados. Presidentes, dirigentes, treinadores, jogadores, árbitros, jornalistas, comentadores e adeptos. Era bom que todos o percebêssemos, pois só com a admissão dos erros poderemos avançar, de facto, para a sua resolução. Não se pode querer ser parte da solução e continuar a ser, ao mesmo tempo, parte do problema. O futebol português só pode andar para a frente se deixarmos de ser como o miúdo que parte o vidro do vizinho e começa aos gritos a acusar o amigo que lhe deu a pedra para a mão, como se nada tivesse, ele próprio, a ver com o assunto. É hora de sermos, todos, homenzinhos e assumirmos as nossas culpas. Porque isto não chegou onde chegou por artes mágicas. E também não mudará por magia.

«Fico muito frustrado com as derrotas, mas gosto de olhar para dentro e ver onde errámos. O VAR é importantíssimo para o futebol português. Há que melhorar em outros aspectos». A frase é de Frederico Varandas e merece ser aplaudida, como merece qualquer uma de alguém que chame a atenção para aquilo em que se transformou o futebol português. Não encerra, nela própria, qualquer problema de maior, pelo menos enquanto o presidente do Sporting se mantiver fiel a este princípio mesmo depois de perder com um ou outro erro de arbitragem. Merece, ainda assim, Varandas o benefício da dúvida, pois será, de todos, aquele que menos culpas terá nesta espécie de vale tudo contra os árbitros - se por andar cá há menos tempo que os outros se verá mais à frente. O único problema da frase foi mesmo o facto de ter aproveitado aquele iluminado momento de superioridade intelectual para uma indirecta a Luís Filipe Vieira e outra a António Salvador. Porque um dos aspectos que há que melhorar é precisamente esse: resistir à tentação de atacar os rivais só porque se tem uma câmara ou um microfone à frente e por muito que eles o mereçam. Caso contrário será, sempre, pescadinha de rabo na boca. Não pode Varandas chegar a um cruzamento e querer virar para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo. Se quer ser diferente, que o seja de facto. E não só no que lhe convém.

Vários problemas tiveram as frases de Luís Filipe Vieira após o jogo com o FC Porto na Taça da Liga. É evidente que a dupla Carlos Xistra / Fábio Veríssimo teve noite para esquecer, em especial o segundo, que nunca conseguiu ser aquilo que o VAR nasceu para ser. Mas dizer, por isso que não apitar mais é ir demasiado longe. Seria o mesmo que o dizer que Vieira, por um dia ter contratado craques como Bebé, Taarabt, Carrillo ou Yannick Djaló, não poderia mais ser presidente do Benfica. Todos erramos.
(...)"

Ricardo Quaresma, in A Bola

PS:  O colunista, como bom sportinguista, é incapaz de despir a camisola, e não percebe que a satisfação do presidente do Sporting com o VAR deve-se simplesmente ao facto, de terem sido beneficiados pelo VAR em praticamente todos os jogos...
E quanto à comparação entre os erros do Vieira e o(s) erro(s) do Veríssimo, é absurda: pois se o Vieira comete erros na gestão futebolística do Benfica, é o Benfica que é prejudicado; quando o Verdíssimo comete erros sucessivos (sim, sucessivos), sempre em benefício dos mesmos clubes (Dragartos) e sempre prejudicando o Benfica, é óbvio que em condições normais nunca poderia apitar um jogo de futebol profissional!

O bom ganhador e o mau perdedor

"Muito deselegante a atitude de toda a equipa do FC Porto, que abandonou o relvado do Municipal de Braga antes da entrega do troféu ao Sporting. Tanta classe demonstrada neste e em outros jogos e tanta falta de classe na lamentável atitude. Seria, aliás, curioso saber quem deu aquela ordem de saída pela porta pequena. Não acredito que os jogadores o tivessem feito por vontade própria, tanto mais que depois dos jogadores leoninos terem aberto alas para os seus adversários passarem, quando subiram à tribuna de honra para receberem as medalhas de finalistas, se assistiu a momentos exemplares na forma como os jogadores se cumprimentaram e abraçaram.
Num tempo em que a imagem do futebol tem estado em causa; num tempo em que a esse futebol sobejam actos de um sectarismo talibã, a pouco digna atitude do FC Porto, perante um adversário que acabou por ganhar, com mérito, a Taça da Liga, é a atitude própria de um mau perdedor.
Bom ganhador acabou por ser o Sporting. Talvez um ganhador improvável, porque a maioria dos analistas apostava num FC Porto forte, consistente e que queria muito ganhar o troféu que ainda não ganhou, mas um ganhador justo. O Sporting teve uma primeira parte muito boa, na qual foi claramente superior ao seu adversário, teve, depois, uma segunda parte de menor rendimento, mas a verdade é que reagiu muito bem ao golo sofrido e poderia ter dado a volta ao resultado já nos minutos finais do jogo. Depois, voltou a ser mais competentes nos penálties e ganhou, assim, um título especialmente significativo para quem, ainda na história muito recente, viveu momentos traumáticos."

Vítor Serpa, in A Bola

FC Porto, uma atitude que lhe fica mal

"Sair do relvado antes da consagração do vencedor prejudica-o sobretudo a ele

A atitude do FC Porto foi feia e ficou-me mal, mas prejudica-o sobretudo a ele.
Não se lhe exigia que fizesse a guarda de honra ou batesse palmas, como fez o Sporting, até porque é mais fácil ter atitudes nobres quando se ganha. O FC Porto, é bom lembrá-lo, tinha acabado de perder um jogo em que foi melhor. Mas, apesar disso, exigia-se que tivesse um mínimo de respeito. Pelo adversário, pelos colegas de profissão, pelo espírito desportivo.
Ao abandonar o relvado antes da consagração do vencedor, o FC Porto mostrou não saber estar.
Foi ele, portanto, que ficou a perder: o clube e a marca, que viram ser-lhe naturalmente colada uma imagem de falta de elegância, de civilidade e de educação.

PS. Questionado na sala de imprensa sobre o comportamento da equipa, Sérgio Conceição fugiu à pergunta sem dar uma explicação. Porque há coisas que simplesmente não têm explicação."

O carnaval do VAR

"O essencial do Carnaval não é pôr máscara, é esconder a cara. Deve ser por isso que nosso futebol é tão sujo como era o Carnaval de Ovar nos anos 50. Só que o Carnaval de Ovar mudou, quando os ovarenses tiveram vergonha, e no nosso futebol isso ainda não aconteceu.

Felizmente, o mundo da "bola" pouco tem que ver com muitas outras áreas em que a nossa sociedade é reconhecida internacionalmente, como por exemplo a inovação, a tecnologia e o turismo. Se a imagem de Portugal dependesse do futebol, estávamos todos na quinta divisão do desenvolvimento. 
Esta história dos dois VAR deixou-me preocupado. Sei que quando este texto for publicado já tudo aconteceu e, entre F. C. Porto e Sporting , um deles levou a taça entre choros e alegrias dos adeptos, mas o meu medo é que as coisas não corram bem e para a próxima não chegue só dois VAR irem a jogo.
Se tudo voltar a correr mal (e espero que não) hão de ser 4 VAR, quatro equipas, 4 treinadores, 4 presidentes e mais um triste espectáculo de Terceiro Mundo que o futebol nos volta a oferecer à maneira de Saltillo. Outro carnaval sujo, como infelizmente há memória.
Acontecia nos anos 50 do século passado, precisamente em Ovar, onde tudo era permitido entre os dois toques dados pela sirene dos bombeiros. Como hoje, em pleno século XXI, tudo pode acontecer entre as quatro linhas e os dois toques com que o árbitro inicia e finaliza uma partida de futebol. 
Entre esses dois apitos, o Carnaval de Ovar transformava a cidade num campo de batalha; no carnaval do VAR é ainda pior, pois o campo de batalha e a chafurdice continuam, mesmo depois de o árbitro acabar com a festa.
O Carnaval de Ovar e o do VAR têm tudo a ver um com o outro, menos na forma como evoluíram ao longo do tempo. Os de Ovar não se reviam nesta festa e o "Carnaval sujo" terminou; os do VAR, não contentes com o espectáculo, duplicam a receita.
Só que uma coisa é um corso carnavalesco com cabeçudos e gigantones a desfilar nos bairros de uma cidade, outra é uma vergonha que nos empobrece a todos no horário nobre da TV."

Árbitros do TAD

"De acordo com o Artigo 20.º da Lei da TAD, este Tribunal é integrado, no máximo, por 40 árbitros, constantes de uma lista de juristas de reconhecida idoneidade e competência e personalidades de comprovada qualificação científica, profissional ou técnica na área do desporto, a qual é aprovada pelo Conselho de Arbitragem Desportiva (CAD). Para o estabelecimento desta lista devem ser apresentadas ao CAD propostas de árbitros por parte de algumas entidades elencadas no artigo 21.º. Pelo menos metade dos árbitros designados devem ser licenciados em Direito, sendo que a outra metade pode até apenas ter a escolaridade obrigatória.
Os árbitros são designados por um período de quatro anos, renovável.
Ora, tendo o TAD entrado em funcionamento em 01.10.2015, iremos brevemente assistir a uma renovação da lista de árbitros (podendo dar-se o caso da sua manutenção), sendo certo que já houve renúncia de alguns árbitros e a entrada de outros, no decorrer do quadriénio.
Nesse sentido, o CAD aprovou duas deliberações (01/CAD/2018 e 01/CAD/2019, publicadas no site do TAD), a primeira referente ao procedimento para o estabelecimento da lista para o quadriénio 2019-2013 e a segunda referente aos critérios de selecção de árbitros. De acordo com a deliberação de 2019, a experiência decorrente da avaliação de 2015 demonstrou que se devem introduzir algumas alterações, tendo sido, por exemplo, introduzindo um novo factor de ponderação na entrevista, o da capacidade de análise, e eliminado a factor autónomo da experiência profissional para os candidatos licenciados em Direito - e que se passa a incluir na apreciação global dos seus CV - a qual se mantém apenas para os não-juristas"

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Benfiquismo (MLXXVII)

Limpinho!

Daqui a 10 anos o vídeo-árbitro não cometerá erros

"Na primeira quarta-feira de Fevereiro o Benfica recebe em sua casa o Sporting no jogo da primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal. Um dérbi é sempre um dérbi e sobre esse assunto está tudo dito. A Federação Portuguesa de Futebol, entretanto, já fez saber que os quatro jogos das meias-finais da Taça de Portugal vão ter o contributo do vídeo-árbitro, o que não deixa de ser uma notícia sensacional para quem acompanhou criteriosamente as nomeações do vídeo-árbitro nas meias-finais da Taça da Liga. Acontece que os quatro semifinalistas da Taça de Portugal são exactamente os mesmos quatro semifinalistas da Taça da Liga, embora emparelhados de forma diferente. Aceitam-se apostas, portanto, sobre quem tombarão aos magotes as naturais "dores de crescimento" do VAR nestes iminentes desafios da maior importância do nosso calendário oficial de provas. Benfica ou Sporting? FC Porto ou Sporting de Braga? Onde é que vai doer é o que se vai ver. As casas vão esgotar, isso é certo.
O golo de Pizzi foi uma beleza. Um hino ao futebol "association", ao futebol colectivo que se afirma em desenhos geométricos e no esplendor das suas linhas de fuga. Mas não valeu. Que chatice. Eu, como sou do Benfica e vivo dez anos à frente, posso dizer-vos umas coisas sobre o funcionamento do VAR em 2029. Ficam já a saber que o recurso ao vídeo-árbitro melhorou imenso nesta década que vos levo de avanço. E, por incrível que pareça, melhorou ao ponto de ter deixado de haver erros de arbitragem, quer nas competições nacionais quer nas competições internacionais. O pioneirismo nacional nesta matéria continua a dar cartas por esse mundo fora e agora, se já ninguém se queixa dos árbitros e dos vídeo-árbitros, ao futebol português o devem, fiquem também a saber. A solução nasceu por mero acaso quando ainda antes do pontapé de saída de um desafio importante se registou uma falha técnica nos equipamentos de vídeo na Cidade do Futebol e a imagem nos ecrãs acessíveis ao vídeo-árbitro de serviço surgiu descolorida, turva, "indiferenciada", como clamaram depois os licenciados na matéria, de modo que ao VAR se tormou impossível distinguir com propriedade a identidade das equipas contendoras. Embora fossem 100% nítidas as evoluções dos dois onzes e suficientemente definidos os contornos dos jogadores e as linhas no relvado, nenhum vídeo-árbitro honesto até ao tutano poderia afirmar concerteza qual era o nome das equipas em ação. Foi um milagres. Com imagens "indiferenciadas", sem cores nem emblemas à vista desarmada, o vídeo-árbitro não cometeu um único erro de apreciação e saiu em triunfo. A patente desta invenção - nascida de uma falha técnica, nunca é demais repetir - foi imediatamente registada pela Liga de Clubes e depois comercializada para todo o Mundo civilizado. Os primeiros a comprar foram os chineses, naturalmente."