Últimas indefectivações

domingo, 5 de agosto de 2018

“No primeiro dia de treino, na Arábia, quando fiquei nu no balneário, os meus colegas atiraram-se para o chão e taparam a cara”

"Aos 13 anos o Benfica foi buscá-lo a Elvas, mas José Soares nunca conseguiu vingar na equipa principal dos encarnados. Andou por Alverca, Famalicão, Campomaiorense, mas também por França, Escócia, Alemanha, Arábia Saudita e Qatar antes de terminar a carreira, em Badajoz. Entretanto já trabalhou como modelo, vendeu vinhos, montou sistemas de rega e é personal trainer. Agora está empenhado em criar uma empresa de consultoria na área do imobiliário com dois sócios. Pai de um rapaz de 18 anos que joga basquetebol, em Dallas, no EUA, José Soares vive com a mãe, em Elvas, onde está finalmente a tirar a carta de condução. Sobre o famoso jogo Campomaiorense-FCP, em que marcou Jardel, diz que a partir daí colocaram-lhe uma cruz no futebol português

Nasceu em Elvas?
Sim, sou filho de mãe portuguesa e pai guineense.

Tem irmãos?
Tenho uma irmã mais velha, a Susana, que está com 47 anos, e um irmão mais novo, o Adolfo, que tem 40.

Quando nasceu o seu pai estava em Portugal há muito tempo?
Estava cá há 2 anos. Conheceu a minha mãe em Elvas. O meu pai, Feliciano Soares, era jogador de futebol. Primeiro na Guiné, em Bissau, e quando veio para Lisboa, a pessoa que o tinha trazido iniciou os contactos para ele começar a treinar na CUF do Barreiro. Ainda treinou no Sporting, que na altura tinha jogadores fabulosos, e alguém de Elvas soube da presença do meu pai em Lisboa, um jogador de futebol com muita qualidade, e acho que foi o senhor António Simões de Elvas que veio a Lisboa e levou o meu pai para Elvas. Por isso lembro-me perfeitamente que, desde miúdo, eu e o meu irmão estávamos sempre a jogar à bola e o meu pai a treinar.

Quando nasceu o seu pai ainda jogava futebol? Era assim que ganhava a vida?
O meu pai era jogador de futebol, mas naquela altura, e ainda por cima em Elvas, não havia muito dinheiro e ele tinha duas profissões. Era jogador de futebol e era mecânico bate-chapas, trabalhava numa oficina. A minha mãe, Laurinda, era costureira.

O futebol corria-lhe no sangue.
Sim, a minha família na Guiné também tem mais jogadores. É de família. O meu avô paterno era do Sporting, mas o meu pai era um benfiquista ferrenho. Eu e o meu irmão saímos da barriga da minha mãe já a jogar futebol (risos). Éramos pequeninos, mal andávamos e já chutávamos na bola. Essa é uma das partes boas da infância, jogarmos na rua.

Da escola gostava ou nem por isso?
Era malandro na escola, infelizmente. Faltava às aulas por estar sempre a jogar à bola. Por vezes, nos intervalos grandes, estava tão concentrado a jogar que nem dava pelo toque da entrada; e depois quando davam o toque de saída, eu pensava que era o da entrada (risos). Quando chegava à aula, o professor dizia: “já tens falta”.
Torcia por que clube?
Pelo Benfica, sempre. Ouvia os relatos na rádio. Era a equipa do Néné, Bastos Lopes, Humberto Coelho... Depois havia a Taça das Taças e a Taça UEFA, a maioria dos jogos não dava na televisão e eu, o meu irmão e o meu pai ficávamos os três junto da rádio a ouvir os relatos.

Como é que se dá o seu ingresso no Elvas?
Quando éramos miúdos, eu e o meu irmão jogávamos na rua mas depois, já com uma certa idade, víamos os nossos colegas mais velhos a jogarem federados nos clubes e gostávamos tanto de jogar que não nos passava pela cabeça não fazer o mesmo.Decidimos ir lá, ao clube, porque o treinador era amigo do meu pai, tinha jogado com ele. E apesar de ainda não termos idade, fomos na mesma. “Vocês ainda não têm idade”. “Mas a gente quer, a gente joga mais do que eles, joga tão bem como eles”. E foi assim.

Então começou a jogar com quantos anos no Elvas?
Com 8 ou 9 anos. Hoje em dia já se pode jogar federado com essa idade, mas na altura não. Fui sempre muito precoce no futebol jovem. Era mais novo e jogava sempre com os mais velhos.

Uma coisa é jogar futebol na rua outra é jogar num clube e começar a ter regras e treinos específicos. Gostou?
É diferente, mas gostei. Os miúdos que têm jeito para o futebol e que gostam e amam mesmo aquilo, têm uma facilidade inata em adquirir certas coisas do desporto. Está-te no sangue, às vezes as dificuldades são pormenores. Respirar o balneário é tudo o que nós estamos à espera.

Como é que vai parar ao Benfica?
Tinha 13 anos e houve um treinador que chegou a Elvas, viu-me a jogar e disse que eu tinha que jogar nos juniores. Tive que ir a Lisboa fazer o exame físico para ver se estava preparado, se a minha parte óssea aguentava jogar nos juniores, passar tantos escalões acima. E assim foi, comecei a jogar nos juniores, em Elvas, mas ainda com idade de iniciado. Começo a jogar, alguém que me viu e o senhor Peres Bandeira disse para ir ao estádio da Luz fazer um treino. Mas, entretanto o FCP, também queria que eu fosse para lá. Houve um dirigente do FCP que esteve na minha casa. Só que mal eu soube que o Benfica queria... (risos). Se o Benfica não me tivesse querido, se calhar tinha sido jogador do FCP. 
Veio fazer o tal treino à Luz. E depois?
Fiz um treino e assinei logo. Tinha 13 anos.

O seu irmão não foi chamado?
Foi. Por coincidência o meu irmão nesse ano tinha vindo a um torneio aqui em Lisboa, o Torneio Inter Associações, em que participavam todas as seleções de distrito de Portugal. O meu irmão jogava muito bem, participou e o Benfica mostrou interesse. Por coincidência viemos os dois em Agosto desse ano para cá.

O José com 13 e ele com 11 anos.
Sim. A minha mãe ficou assim....Ao início não foi fácil, deixar os 2 filhos em Lisboa ainda por cima muito novos. A mim também me custou bastante.

Ficaram a viver onde?
No centro de estágios, que era debaixo das bancadas do antigo estádio da Luz. Ficámos os dois juntos no mesmo quarto, foi o que nos salvou. Mas ao início custou muito. O que é que custava mais? Estava habituado a estar com os meus pais e com os meus avós, com a minha irmã, as minhas tias, e ali estava fechado dentro de um quarto só com o meu irmão. O centro de estágios tinha 25 jogadores. 

Ainda se lembra dos outros jogadores que lá estiveram consigo e que tenham singrado?
Sim, o Gil Gomes, o Kennedy, que lá ia almoçar sempre. Eu tinha 13, 14 anos e ele já tinha 16. O Rui Costa tinha subido a sénior nesse ano, o Rui Ferreira que jogou no FCP e no V. Guimarães, o Cândido Costa, o Paulo Lopes, o Edgar...

Quem era o treinador quando chegou?
O professor Arnaldo Cunha e o João Santos.

Vem de Elvas para uma grande cidade e um grande clube. Qual foi o primeiro impacto? Sentiu medo de não corresponder às expectativas?
Não, medo não senti. O que senti quando comecei a treinar foi que tinha que dar corda aos sapatos, como se costuma dizer, porque a qualidade era muito grande e nos clubes grandes todos os anos há jogadores que são dispensados, ou pela pressão ou por falta de qualidade. Os treinos são muito exigentes, a qualidade é muita alta. Mas pensei: vou conseguir porque também tenho qualidade e vou dar o máximo de mim em todos os treinos. A evolução é muito importante naqueles anos. Aos 13 és bom, mas aos 14 podes não ser e aos 15 também e aos 16 desapareces. Por isso, sabia que tinha que treinar muito diariamente, ter uma mentalidade forte; o meu objectivo era entrar na equipa e ser titular e aos 18, 19 anos estar na primeira equipa.

No meio disso tudo, a escola onde é que ficou?
Nós treinávamos da parte da tarde e tínhamos tempo para ir à escola. Mas essa é a minha parte negativa. Éramos miúdos, entrávamos às 8 da manhã e muitas vezes o que queríamos era ir dormir. Às sete da manhã levantávamo-nos, mas havia alguns jogadores que não estudavam e olhavam para nós: “Onde é que vais José?”. “Vou para a escola”. “Ah vais? Eu vou dormir”. Levantavam-se para tomar o pequeno almoço e iam dormir. Quer queiramos, quer não, não é fácil.

Em que ano escolar desistiu?
Só fiz o 9º ano.

Faz os 2 anos de júnior no Benfica. E depois?
Quando saí no último ano de juniores ainda estive no Benfica (acho que até Janeiro) e depois fui para o Famalicão, para a 2ª Liga.

Antes do Famalicão, nesses primeiros anos no Benfica quais foram as maiores amizades que fez? 
Sempre me dei bem com os da minha equipa. Por exemplo, com o Bruno Caires, Filipe Correia, Nuno Rosa, o João Peixe, o Xavier, Bruno Moita...

E namoros?
À volta do centro de estágios do Benfica havia sempre muitas miúdas, que falavam connosco e na altura namorei com uma.

Faziam muitas partidas uns aos outros no centro de estágios?
Muitas vezes o vigilante do centro de estágios saía, tinha que ir fazer qualquer coisa, e nós começávamos a jogar à bola nos corredores (risos). Quando ouvíamos o carro dele a chegar, ia tudo a correr para a cama, isto por volta da 1 da manhã. Era uma confusão.

Nunca tentavam sair também?
Sim. Éramos 22 miúdos e aquele senhor muitas vezes não tinha paciência para nós, mandava vir com toda a gente. E quando assim é, a vontade de fazer porcaria é muito grande. Mas nada de extraordinário. Um dia estava o Edgar e o meu irmão a discutirem. Quando ouvimos, fomos ter com eles e perguntamos: “Estão a discutir porquê?”. “Ah, estamos a discutir porque ele diz que quer ser o primeiro a jogar snooker. Nós vamos viajar para França para a semana”. O meu irmão nunca tinha andado de avião e o Edgar tinha vindo de Angola para cá, já não se lembrava. E nós: “Oiçam lá, vocês são burros os dois. Não há snooker no avião, isso não existe” (risos). Eles pensavam que havia snooker no avião e estavam a discutir sobre quem ia jogar primeiro (risos).

Estava a dizer que entretanto foi para o Famalicão.
No meu último ano de júnior fui campeão da Europa por Portugal. Eu, o Dani, o Beto, o Nuno Gomes, o Ramirez, o Bruno Caires. Nos clubes muito dificilmente iríamos jogar, éramos todos de clubes grandes. Eu, o Bruno Caires e o João Peixe ficámos no Benfica. Ainda fiquei lá uns meses, mas depois fui emprestado ao Famalicão o que era bom para mim, porque no ano a seguir tínhamos o campeonato do mundo no Qatar, e é importante jogarmos com regularidade. Por isso fui para o Famalicão.

Foi sozinho?
Fui. Às vezes o Beto (Severo, do Sporting) apanhava-me, ele tinha sido emprestado ao União de Lamas e ia ter comigo a Famalicão ou eu ia ter com ele a Lamas. Isso é que nos safou. E depois vínhamos muitas vezes para os treinos da selecção porque íamos ter o campeonato do mundo.

Ficou a viver onde?
Numa residencial, que tinha restaurante, era a minha sorte. A família da residencial era fantástica, tratou-me não como um hóspede, mas como um filho, foi uma coisa fabulosa. Mas cada vez que vinha para Lisboa era uma coisa impressionante: ficava maluco com tudo, mas depois tinha que voltar.

Lembra-se de primeira vez que foi chamado à selecção?
Fiquei maluco. Ainda por cima na altura sentia-me um bocado injustiçado, porque eu achava que já devia ter ido à selecção. Era titular no Benfica, era muito importante nos juvenis e nunca me tinham dado nenhuma oportunidade, nem para treinar. Achava aquilo estranho. Os meus colegas até diziam: “Zé, como é que é possível?”. Até que nos sub-17 fui convocado para treinar. Treinei bem e levaram-me para o Torneio do Porto. A partir daí fui sempre.

Como era esse grupo da selecção?
O melhor que já tive até hoje, fantástico. Somos amigos até hoje. Eu, o Beto, o Dani, o Nuno Gomes, o Bruno Caires, o pessoal que está no norte, falamos de vez em quando. Numa selecção não é fácil ter tantos amigos assim. Mas nós conseguimos e ganhamos muitas coisas por causa disso.
Quando assina o primeiro contrato?
Quando era júnior do Benfica.

Lembra-se do primeiro ordenado?
Acho que eram 200 contos. Comprei roupas, era muito vaidoso, e guardei o resto. Fui à inauguração do Colombo, fui lá comprar umas roupas.

No Famalicão esteve só uma época.
Nem chegou a uma época mas aprendi bastante porque o grupo era bom.

Quem era o treinador?
Acho que era o Francisco Vital.

É muito diferente passar de um campeonato de juniores para o seniores?
É nessa transição que muitas vezes o pessoal se perde. No meu caso, eu tinha tudo o que qualquer miúdo quer ter. Estava num clube grande, sou campeão da Europa, estou habituado a ter todas as regalias, numa semana estou em Itália, noutra estou na Suíça em torneios internacionais, vou para a seleção, sou invejado pela maioria dos miúdos em Portugal... E aí vem o duro, a transição para o futebol sénior. O treinador quase que nem te fala: “Tens que fazer isto”. És profissional, o carinho que te dão no futebol jovem não existe no futebol sénior e quem não acompanhar essa dificuldade, quem não for forte o suficiente para aguentar essa transição, não consegue. Estou habituado ao Benfica e metem-me num clube do norte, onde nunca tinha ido, a ser tratado da mesma forma que os outros jogadores seniores; eu com 18 anos, havia jogadores com 35 anos, e tratavam-me como se eu tivesse a mesma idade. Quem não for forte o suficiente, não tem hipóteses. Eu tive sorte porque apanhei uma mistura de jogadores experientes e jogadores mais ou menos da minha idade no Famalicão. Na altura estavam lá o Paiva e o Tiago Pereira, que jogou no Benfica, e os mais velhos tratavam-nos muito bem. A direção também tinha pessoas bem formadas, há muitos benfiquistas em Famalicão também. 

O que é que fazia nos seus tempos livres?
Muitas das vezes ia para o Porto, apanhava o comboio, ou então o Beto, o Edgar, o Rui Óscar, o Madureira e pessoal que estava norte, apanhavam-me lá e íamos passear. Também lá fiz alguns amigos em Famalicão. Às vezes recebia cartas de miúdas: “Zé Soares como é que estás?” E ficava todo contente (risos).

Quando é que começam as primeiras saídas nocturnas?
Eu já saía quando estava nos juniores em Lisboa. O engraçado é que íamos todos para o Alcântara Mar. Os porteiros já nos conheciam. Havia um, o Tó que nos apertava a mão e ainda hoje quando vou a algum sítio onde ele está a fazer de porteiro, faz a mesma coisa. Também íamos para as discotecas da Costa, mas era quando podíamos, não saíamos muito. Se, por exemplo, jogávamos ao sábado, à noite saíamos, andávamos sempre de um lado para o outro de autocarro, arranjávamos sempre forma. 

Nunca tirou a carta de condução?
Não, estou agora a acabar de tirar. Eu sou o atípico jogador de futebol, não gosto de carros. Ferraris, Porsches... Nunca tive essa vontade. Mas se soubesse o que sei hoje, tinha tirado logo aos 18 anos. Preciso de um meio para deslocar-me, mas não tenho nenhum. Há pessoas que ficam surpreendidas: “Mas como é que não tens carro?”. E por acaso até tenho sido prejudicado por isso, mas este ano disse: “Acabou”.

Depois de ter estado no Famalicão, regressa ao Benfica, mas mandam-no para o Alverca. Como é que reagiu?
Não reagi bem porque tinha feito um bom Campeonato do Mundo, no Qatar; não fantástico, mas bom e achava que pelo menos devia ter feito a pré temporada no Benfica, para ter uma oportunidade na equipa principal. Mas fez-me bem ir para o Alverca.

Quando lá chegou quem era o treinador?
Era o professor Arnaldo Cunha, que também era bom. O capitão do Alverca era o Raul José, o adjunto do Jesus. E foi comigo o Adriano, o Nelson Morais, depois mais tarde é que foi o Maniche, mas nessa altura acho que foram só o Adriano e o Nelson Morais.

O seu irmão no meio disto tudo onde é que andava?
O meu irmão era júnior ainda no Benfica.

Esteve dois anos emprestado no Alverca, sempre com o professor Arnaldo Cunha?
Não, também estive com o Mário Wilson no 2º ano.

Depois vai para o Benfica.
A minha transição da equipa B para a equipa principal aconteceu numa semana em que o Benfica ficou sem centrais. Lembro-me que chamaram-me, comecei a treinar e era para jogar a titular, em Braga. Era o Manuel José treinador. Mas na altura o Benfica trocava muito de treinador e às vezes era um bocado confuso. Comecei a treinar e ele disse-me “Miúdo vais ser titular com o Sp. Braga”. Fui, mas nem fiquei no banco, fiquei de fora. Depois acho que veio o Paulo Autuori. Mas o primeiro jogo como titular foi com o Graeme Souness.
Deve ser uma grande desilusão andar a treinar e não ser chamado.
Desiludiu-me bastante e não me fez bem. Treinava com a equipa principal, mas depois não jogava, ficava no banco, e no dia seguinte tinha que ir jogar com o Alverca para o norte, depois vinha e no dia seguinte ia para o estádio da Luz, depois voltava ao Alverca. Essa indefinição não faz bem e a mim não me fez bem. Uma semana estava a jogar no estádio da Luz com não sei quantas pessoas e na seguinte ia jogar não sei onde com o Alverca. Nunca tive aquela estabilidade que hoje em dia os miúdos têm.

Isso fazia com que tivesse menos vontade de treinar e de jogar?
Não, mas fazia com que eu muitas vezes desacreditasse que algum dia pudesse ser titular no Benfica. Muitas vezes tinha mais a ver com as pessoas e com o projecto que faltava ao clube. Tive muitos presidentes e o único que tem um projecto como deve ser é o Luís Filipe Vieira. Apanhei muitos presidentes no Benfica que era só meter dinheiro, mais dinheiro, mas ninguém tinha um projecto, ninguém fazia mais campos, ninguém se lembrou de fazer um estádio novo ou uma academia como a que o Benfica hoje tem. Não havia um projecto que consolidasse os miúdos na equipa principal. 

Entretanto, enquanto andava entre o Benfica e o Alverca, teve como treinadores no Alverca o Mário Wilson e o José Romão. Com quem é que tinha uma relação mais próxima?
Com o Mário Wilson era excelente.

Teve algum treinador de que não gostasse?
Tive um com quem nunca me identifiquei com a sua forma de treinar, o professor Neca.

Onde?
No Desportivo das Aves. Não digo que ele seja mau treinador mas não entendo uma pessoa que pensa futebol daquela forma.

Como assim?
Vou tentar explicar. Antigamente, há 50 ou 100 anos, no futebol os defesas eram para defender, os médios para defender e atacar e os avançados para atacar, mas há uma evolução e hoje em dia, os defesas são os que começam a atacar. O ataque começa pelo guarda-redes, ele defende mas depois começa o ataque, é o ataque organizado. A forma de pensar futebol do Prof. Neca não encaixa em lado nenhum. Eu fui treinado por ele há 17 anos e perguntava-me mas onde é que este homem tem a cabeça? Ele esburacava o campo para as outras equipas terem dificuldades! Ele dizia o Nuno Gomes vem jogar com o Benfica e assim tem dificuldade em jogar. Passava-se o mesmo quando vinha o João Pinto, com o Sporting. Mas será que ele não percebia que aquilo era mau para eles, mas para nós também? Ele dizia “Não, isto é mau para eles que são muito melhores do que nós”. É este pensamento que eu não entendo. Como é que alguém pode treinar futebol assim, e hoje ainda treina, não entendo. Depois ele foi despedido e apanhamos o Carvalhal que já era outra coisa, não tinha nada a ver.

Mas antes do Desportivo das Aves vai para o Campomaiorense.
Sim e no Campomaiorense foi excelente. Foi em 2000. Apanho o Carlos Manuel como treinador e foi fantástico a todos os níveis.
Já estava mais perto de casa, de Elvas.
Sim, mas nessa altura eu vivia Lisboa, em Miraflores, onde tinha comprado apartamento.

Esteve uma época no Campomaiorense?
Não chegou a uma época. Eu tinha começado a época com o Graeme Souness, as coisas até não estavam a correr mal. Joguei com o Heynckes também. Só que em Novembro ou dezembro fiz uma rotura no gémeo e estive uns dois meses parado. Em Janeiro o Campomaiorense fez-me a proposta de eu ir jogar para lá até ao final da época e assim foi. Fez-me bem porque joguei bem, as pessoas gostaram de mim. E gostei muito do Carlos Manuel, foi dos melhores treinadores que tive.

É no Campomaiorense que há o célebre jogo com o FCP do Jardel, que já foi falado muitas vezes. Esse jogo marcou-o muito.
Sim, marcou muito a minha carreira.

De que forma é que o marcou e o que é que sente em relação isso?
Marcou-me por várias razões. Eu sei perfeitamente onde é que estive mal. Devido à minha posição, devido às características do Jardel, aquilo que significava aquele jogo para ambas as equipas. Nós estávamos a lutar pela manutenção e para o FCP era fundamental ganhar para ser campeão nacional. Em jogo jogado, sejamos sinceros, nós fomos melhores do que eles. A arbitragem foi boa? Não foi boa, nem para o Campomaiorense nem para o FCP. Fui demasiado agressivo no jogo? Fui. Ele também não se deixou ficar. Mas há outra razão para tanto empolgamento, é que eu era jogador do Benfica na altura, juntando isso ao facto do FCP acabar por não ser campeão...Acho que o Sporting passou-lhe à frente ou aumentou a vantagem, não me lembro muito bem o que é que acontece. Tinha de haver um bode expiatório pela derrota do FCP. Quem foi? Eu e o árbitro.

Recorde quem era o árbitro.
O Bruno Paixão. O árbitro continua a arbitrar, a mim fizeram-me uma cruz no futebol português desde esse jogo. E no entanto o que aconteceu, para mim, são coisas que muitas vezes podem passar-se entre os centrais e os avançados. O Zidane que é o Zidane deu uma cabeçada na final do Campeonato do Mundo.

Está a dizer que a sua carreira no futebol português acaba por causa desse jogo?
Sim.

Sentiu muita revolta e injustiça?
Muita, porque ligava a televisão e os programas desportivos, era só para falarem mal de mim. Até que houve um dia em que tive que ir à televisão para me defender, no programa do Paulo Catarro. 

Ainda se lembra do que é que disse?
Lembro. Assim que cheguei ao programa havia um comentador do FCP, que se agarrou a mim e disse “Zé tenho que dizer mal de ti porque sou do FCP”. Não lhe passei cartão nenhum, ele levava as semanas todas a falar mal de mim e nem me conhecia. Tudo por causa de um jogo de futebol. Mas também lhe disse “Doutor isto é um jogo de futebol. Acha que é normal estar todos os dias a falar mal de mim? Por causa de um episódio e porque o seu clube perdeu? Você não me conhece de lado nenhum. Parece que matei alguém.” Era crucificado todos os dias, é impressionante.

Houve alguém que lhe tivesse dito alguma coisa para o reconfortar?
As pessoas do Campomaiorense, a minha família, os meus amigos, o meu pai, todos foram fantásticos, deram-me apoio, ligavam, até advogados porque houve uma altura em que o ataque era tão grande, que parecia que tinha dado um tiro em alguém. O Carlos Manuel também foi fantástico, toda a equipa técnica, os meu colegas do Campomaiorense. Só fiquei triste com o meu clube, porque nunca ninguém do Benfica me ajudou. Nessa altura eu era jogador do clube e recebia o ordenado pelo clube, mas nunca me ajudou. Sempre gostei do Benfica e o amor é para toda a vida, mas nessa altura afastei-me do Benfica porque nunca me ajudaram.

Não estava à espera?
Estava à espera que me defendessem. Mas nem uma palavra, nem um telefonema, nada. As únicas pessoas que me ajudaram dentro do futebol foi o Campomaiorense, por intermédio do presidente João Manuel e Do Carlos Manuel, o Chica Gatão e o Madureira que foram impressionantes na ajuda. Os meus colegas de outros clubes de futebol também ligaram-me. Se fosse o Benfica de agora, tenho a certeza de que teria sido diferente.

Como é que vai parar ao Desportivo das Aves?
Mais uma vez estava à espera do Benfica. Saio do Campomaiorense a jogar bem, a um nível muito bom e pensei que iria então ter oportunidade de jogar no Benfica, mas mais uma vez: “Vais ser emprestado”. O Desportivo das Aves ligou e eu fui. Fui muito bem tratado na Vila das Aves mas senti-me deslocado.

Foi outra vez sozinho?
Não, nessa altura já era casado e o meu filho nasceu nesse ano.

Onde é que conheceu a sua ex-mulher?
Em Lisboa. Tinha 19 ou 20 anos quando conheci a Mónica. Casei com 23 anos, acho eu. O Rodrigo nasce a 25 de Agosto de 2000. Quando vou para o Desportivo das Aves, eles também vão, ele era recém-nascido.

Como é que correu a época?
Joguei, mas não foi boa. Por muitas razões, minhas também. Eu sou culpado de tudo o que se passou na minha vida por esta ou aquela razão.

Por que diz isso agora?
Porque na altura desencantei-me um bocado com o futebol. Ao ser mal tratado todos o dias por aquilo que aconteceu, ao ver que o meu clube não me defendeu, tinha acabado a época no Campomaiorense num nível altíssimo, com 23 anos, esperava estar no top porque era um objectivo que tinha. Depois aparece o Aves e vejo o Benfica a descartar-se de mim, isso tudo fragilizou-me um bocado. Era uma época em que esperava estar num nível completamente diferente. Depois, o Aves, por mais boas pessoas que houvesse no clube, por mais que os meus colegas fossem todos fantásticos, por inúmeras razões, não gostava do treinador, foi ele que me convidou mas quando comecei a vê-lo treinar, percebi que não poderia evoluir com um treinador assim, não conseguia, por minha culpa a época não correu dentro das minhas expectativas.

E vai para França. Como é que isso acontece?
A ida para França também foi muito má. Acabo a época no Aves e volto ao Benfica, só que o Benfica não contava comigo e comecei a treinar na equipa B. Eu, o Maniche, o Paulo Madeira, o Sabry, o Bossio, inúmeros jogadores, e estivemos até Janeiro sem clube. Entretanto, o Manuel Barbosa liga-me e diz que tinha um clube francês interessado em mim. Mais uma vez, vou ao Benfica falar, acho que com o Vilarinho, e ele: “Olha Zé, o melhor é rescindir, vais para França e é o melhor para ti. O Benfica também não conta contigo”. E fui para França, sozinho, para tentar jogar o melhor possível porque havia a possibilidade de eu entrar no Olympique de Marselha
Ainda estava casado?
Estava. Fui para França, mas quando lá chego, não sei que confusão é que houve que não podia ser inscrito. Mas já tinha rescindido o contrato com o Benfica. De quem é a responsabilidade? A federação francesa não me aceitou porque já tinham inscrito dois jogadores em Janeiro. Entretanto havia um antigo jogador que era o Franck Sauzée. Ele conhecia-me e liga para o meu empresário a dizer que no Hibernian da Escócia gostavam muito de mim e para eu ir. Comecei a treinar no clube as coisas começam a correr muito bem...

Então foi para Escócia?
Fui e ainda nesse ano. Para Edimburgo, lindo, uma cidade fantástica, a treinar e a jogar bem e o Franck Sauzéé é despedido. Fiquei o resto do ano sem jogar.

Tanto em França como na Escócia esteve sozinho?
Sim, também tinha ido sozinho. Passado mais um ano divorciei-me. A pessoa começa a distanciar-se.

A sua mulher já não quis ir consigo para França?
Ela preferiu ficar cá com o nosso filho, porque ele era pequeno. E ainda bem que não foi, porque vendo bem as coisas, eu fui, depois não fui inscrito, tive que ir para a Escócia a correr e afinal também não deu.
Mas vai para a Alemanha.
As coisas estavam a correr tão mal e eu tinha que jogar. Surge então o Djukic, um jogador do Farense, que me liga a perguntar se queria ir para a Alemanha. Fui para uma equipa da 2ª divisão. E gostei. Trataram-me bem, joguei o ano inteiro, só que parti o peito do pé.

Como é que se deu com a língua?
Falava inglês com eles. Depois encontrei lá um português o Mauro Bastos, que agora está na Colômbia como adjunto. Ajudávamo-nos mutuamente.

Segue-se a Arábia Saudita. O que é que acontece?
Financeira e futebolisticamente precisava de mais qualquer coisa. Gostava de ter ficado num clube da 1ª divisão na Alemanha, mas as coisas não aconteceram e apareceu-me rapidamente um clube da Arábia Saudita, por intermédio do Faustino Gomes, o empresário. Era meu amigo e um dia perguntou-me se queria ir para a Arábia Saudita. O contrato era muito estranho, tinha muito risco. Era só de dois meses. Ele disse: “Zé, tu assinas. Eles dão muitos mil dólares, assinas e se gostas, gostas, se não gostas vens embora. É para um torneio do Egito, queres ir?”. Como tudo de mal que havia para acontecer já me tinha acontecido, resolvi arriscar. Assim que lá chego... meu Deus, onde é que eu estou metido (risos), Tinha visto até ao Barém, quando lá chego o árabe que me foi esperar meteu-me num hotel sozinho e disse para eu lá ficar 2 dias que depois ia buscar-me outra vez”. Assim que chego ao Bahrein, 50 graus, um calor, e eu sozinho a pensar como é que ia conseguir sequer correr ali. Depois há uma particularidade. No Bahrein ninguém te deixa dormir à noite, o telefone está sempre a tocar. Tive que tirar o telefone do descanso.

Mas porquê?
Porque na Arábia Saudita não se pode fazer nada e no Bahrein pode fazer-se tudo. Pode-se beber, há prostituição, os hotéis estão cheios de prostitutas, e por isso levam a noite toda a ligar para o teu quarto para saber se queres alguma coisa. A noite toda triimmm, trriimmm. “Que é isto? Vou ficar maluco” (risos). Estive dois dias sem poder dormir porque o telefone estava sempre a tocar. Porque tirava o telefone e pensava: e se alguém precisa de falar comigo, a minha família? Depois, um calor, aquelas estradas desertas, olhas para a direita deserto, olhas para a esquerda, deserto e estrada que nunca mais acaba. Só me lembrava de Lisboa.

O que acontece quando finalmente chega à Arábia Saudita?
Meteram-me no no centro de estágio, fiquei lá sozinho. Liguei para o Faustino e disse-lhe que ia embora. “Isto é só areia, vou ficar maluco aqui”.

Não estava mais nenhum jogador no centro de estágio?
Ninguém, estava tudo em casa. E outra coisa, só havia dois canais árabes, dois, o resto via-se mal. Mas aquilo até tinha boas condições. Eu pensava: estou na Arábia Saudita, vou ganhar algum dinheiro, mas vou ficar maluco aqui. O primeiro treino foi às oito da noite, com um treinador holandês. Falou comigo; disse que eu tinha que ter paciência, que aquilo era difícil. Depois fomos para o Egipto um mês. Quando vejo o professor Nelo Vingada, que na altura era treinador do Zamalek, digo-lhe: “Mister, até que enfim que vejo alguém” (risos). Fiz o torneio, correu muito bem, eles quiseram renovar por mais um ano.

E aceitou?
Sim, porque tinha uma coisa sólida na mão. Primeiro foram uns meses de Verão para o torneio, estive um ano no Al-Ettifaq e depois fui para o Al-Shamal, do Qatar.

Sozinho?
Não, o meu filho ainda foi ter comigo, ainda estive lá com ele.

A distância do seu filho custava-lhe muito?
Custa muito, é por isso que fiquei forte psicologicamente em todos os aspectos, mesmo em termos de relacionamentos, fiquei forte. Porque se eu consigo estar longe do meu filho, que vive a 10 ou 15 mil quilómetros de mim, nos EUA, consigo estar longe de qualquer pessoa. Sou muito forte em termos de relacionamento com as mulheres por causa disso.

O seu filho foi viver para os EUA quando?
Com 3 anos. A minha mulher foi viver para lá, trabalha numa companhia aérea, tenho um bom relacionamento com ela, com o seu marido e também gosto muito do outro filho dela.

Vivem onde?
Em Dallas, vou lá muitas vezes.
O que fazia nos tempos livres na Arábia Saudita?
Comprei um computador, lia muito, ouvia música. A minha sorte é que tinha colegas brasileiros de outras equipas da mesma cidade e íamos para a praia jogar à bola, fazíamos muitos almoços e jantares. Na altura não é como agora, era mais difícil, íamos sozinhos. O mister Jorge Jesus foi com 10 pessoas, a equipa técnica dele são 8 ou 9, é diferente. Está num hotel de 5 estrelas. No meu caso foi já há 14 anos.

Viveu algum episódio caricato na Arábia Saudita que possa contar?
No primeiro dia em que fui tomar banho, estava nu, só que lá um homem não pode estar nu ao pé do outro. Foi um problema do caraças, começaram a deitar-se no chão com as mãos na cara “Não podes fazer isso, não podes fazer isso” (risos).

Estava no balneário?
Sim, mas eles metem a toalha e vão tomar banho escondidos uns dos outros. Eu estava habituado há anos a despir-me normalmente e ficou tudo: “Não se pode, estás maluco?” (risos). Eu contava histórias daqui e eles diziam: “Vocês no ocidente são uns impuros, casam com mulheres que não são virgens”. Tínhamos muito este tipo de conversa e discutíamos várias coisas. Sei lá, há tantas histórias… Lembre-se de mais alguma história? Eles são boas pessoas e fartava-me de rir com eles, mas têm uma pancada que nunca tinha visto. Uma vez lembraram-se que tínhamos de treinar mais, a ideia foi do capitão da equipa: “Temos de treinar mais, vamos reunir com o mister porque temos de treinar mais”. Eu virei-me para ele: “Não temos de treinar mais, o que temos de fazer é, nas duas horas de treino diário, temos de dar tudo. Depois quando acaba o treino podemos ir para o ginásio. Não é preciso bidiários todos os dias”. Só que quando eles metem uma coisa na cabeça, esquece. Foram falar com o mister: “Temos de treinar mais”. O holandês: “Treinar mais? Mas eu peço-vos para vocês darem mais nos treinos e não dão!”. Eles insistiram para começarmos a treinar de manhã também. O treinador disse que sim, mas que tinha de ser logo às 7 da manhã por causa do calor. “Está bem mister, está bem”. No dia seguinte, para o treino da manhã só apareci eu, o ganês e o brasileiro, que éramos os estrangeiros, os 2 treinadores holandeses e o treinador de guarda redes que era egípcio, mais ninguém (risos). Os que disseram que iam, nenhum foi.

Viveu alguma situação em que se tenha assustado?
Não, tudo tranquilo. Só era um bocado estranho quando às vezes estava na praia e via os aviões de guerra a passarem, os aviões que iam para o Iraque. Estive lá na altura em que apanharam o Saddam. Essa altura era um bocado estranha, a Al Qaeda metia muitas bombas em Riade e eu ia lá muito. Às vezes assustava-me um bocadinho.

E como é que vai parar ao Qatar?
As coisas correram bem na Arábia Saudita. Futebolisticamente falando, os sauditas são muito melhores que os do Qatar, só que aquela equipa do Qatar pagava-me mais do que a saudita e fui. E a vida no Qatar não tem nada a ver com a vida na Arábia Saudita.Tem praia, tem muitos estrangeiros, pessoal da Argentina, do Brasil...

Quanto tempo é que lá esteve?
1 ano e meio, até 2004.

Vivia onde?
Num apartamento. Aí a vida era fantástica, deram-me um super apartamento, ganhava bem também. Tinha alguns jogadores conhecidos, o Akwá, o Caló um cabo verdiano que tinha jogado no Salgueiros. Também lá tinha um amigo meu, o Frederico. Estava lá o Guardiola, dava-me bem com ele. E havia outros jogadores estrangeiros, o Leboeuf, o Desailly, os irmãos De Boer. Vive-se muito bem, mas em termos de futebol não te acrescenta nada. A mim só me acrescentou por causa dos craques que lá estavam. Joguei contra eles. Jogava sempre, fiz não sei quantos jogos. Mas começas a perder aquele amor porque não há espírito futebolístico nesses países.

O que quer dizer com espírito futebolístico?
Aquele frio na barriga quando a imprensa fala no jogo de amanhã, por exemplo. Cá quando há um Benfica-Sporting é a semana toda com aquela pressão, aquele frio que tens no estômago, aquela responsabilidade. Lá é tudo demasiadamente tranquilo. O pessoal que jogou ao mais alto nível gosta é de responsabilidade. Ali não há responsabilidade, basta ver o treino. Se pegarmos no mesmo exemplo do Benfica-Sporting, se eu jogo no domingo, sei que na segunda-feira antes já começo a sentir aquele friozinho na barriga – e quem gosta de jogar futebol, gosta de sentir esse espírito, de ler os jornais logo na segunda-feira, sentir aquela picardia. Sabes que vais enfrentar o melhor avançado de Portugal, sabes que o Benfica tem 5 ou 6 milhões de pessoas e está tudo na expectativa para aquele jogo. Esse espírito não há no Qatar, na segunda-feira estás na praia, terça-feira também, no treino ninguém fala de nada, só um dia antes do jogo é que começam a falar.
Não chegou a jogar nenhum derbi cá.
Não, o que ia jogar, fui expulso na Luz contra o Rio Ave. Mas joguei grande dérbis nas camadas jovens, em sénior é que não.

Foi expulso porquê?
Dois amarelos, uma estupidez minha.

Era um jogador agressivo?
Dentro do campo, sim. Às vezes excedia-me um bocado.

Entretanto vem do Qatar para o Elvas.
Não, depois de sair do Qatar queria voltar a ter aquela sensação, a sentir-me jogador de futebol, não só antes do jogo, mas a semana toda. Ter aquela responsabilidade de no domingo fazer algo de bom. De treinar ao mais alto nível para no domingo estar ao mais alto nível também. Então tentei voltar a Portugal para jogar. Não sei o que é que pensei na altura, mas não tive hipóteses...

Nenhuma porta se abriu?
Nenhuma. Estive sem jogar um ano.

Foi viver para onde?
Voltei para Elvas, para casa dos meus pais. Foi uma altura complicada da minha vida. Estava separado, longe do meu filho...

O dinheiro que foi ganhando investiu-o de alguma forma?
Essa foi outra parte negativa da minha vida. Fui gastando. Mas também nunca ganhei assim muito. 

Onde é que ganhou mais?
No último contrato com o Benfica ganhava bem. Mas o problema é que eu sempre fui uma pessoa que gostava de ajudar os outros. Não estou arrependido de o ter feito, não conseguia dizer que não. Às vezes prejudicava-me. Sempre fui um bocado assim e depois os anos vão passando... Devia ter sido mais egoísta, no bom sentido.

Teve muitas pessoas que se aproveitaram de si?
Sim e depois chegas a uma altura em que pensas: com a ajuda que dei aqui e ali, estava bem.

Tirando o apartamento em Miraflores não investiu em mais nada?
Não. E já o vendi.

Não investiu em nenhum negócio?
Não, vou tentar fazê-lo agora.

Esse ano em que esteve em Elvas não fez nada profissionalmente?
Não. Tentei, tentei no estrangeiro também. Depois de vir do Qatar tentei vários clubes, mas nunca consegui nada. Depois surgiu-me o Wolverhampton, o Faustino Gomes ligou-me, só que eles lá já estavam na pré-temporada, eu treinava sozinho e eles pensavam que eu estava ao mais alto nível para entrar logo na equipa e quando lá cheguei... Precisava de uma pré-temporada e acabei por não ficar. Depois surgiu-me o Egipto. Ligaram-me para ir para o Zamalek. Cheguei ao Cairo, estive lá um mês, mas nunca me apresentaram o contrato, tive que vir embora. O Manuel Cajuda era o treinador e curiosamente disse ao presidente do Zamalek que não me conhecia de lado nenhum (risos), é inacreditável. Enquanto lá estive treinei com dois ou três jogadores e curiosamente o treinador português que me conhece desde sempre, disse que não me conhecia de lado nenhum. A partir daí desacreditei completamente no futebol.
Mas ainda foi para a Índia.
A mim tudo me acontece... Depois sai daí e estive mais não sei quantos meses parado e... apareceu-me um clube da Índia. Cheguei, pergunto pelo contrato e não havia nenhum contrato. Disseram-me que estavam à espera do presidente. Estive lá um mês e meio e não me apresentaram contrato, nem me deram dinheiro, vim embora.

Esteve onde?
Em Goa, mas tive que vir embora. Não sabia o que é que podia fazer mais. Fartei-me completamente do futebol. Era um clube pior do que o outro. Voltei para Elvas, estava lá o Paulinho que é meu amigo e que estava no Salgueiros: “Zé vem aqui ajudar-nos”. Convenceu-me e estive lá meia época com ele e depois fui para Badajoz.

Fazer o quê?
Eles conheciam-me porque Badajoz é muito perto de Elvas. Treinava três dias por semana. Estive a jogar dois anos em Badajoz. Espanha é diferente, tem um espírito diferente, não tem nada a ver connosco. Nós somos mais organizados do que eles e também temos melhores treinadores do que eles. Mas foi bom, conheci outras pessoas, o futebol para mim também já tinha passado, nessa altura já não tinha aquele friozinho na barriga. E quando um jogador de futebol deixa de ter essa coisa, aquela ambição de jogar, de não dormir bem por causa do jogo, se perde isso, acho que é quando chega a altura de se afastar. Deixe de ter essa sensação devido aos sucessivos insucessos que fui tendo.
Como é que surge depois a Academia do Benfica?
Em Espanha tirei um curso de PT e um amigo meu começou a trabalhar na Academia e convidou-me. Conhecia o meu passado no clube, achou que eu podia ser o elo de ligação entre a primeira escola do Benfica em Espanha e o Benfica em Lisboa e convidou-me para trabalhar lá. Estive acho que dois anos a trabalhar com eles.

Mas entretanto começa a trabalhar como modelo. Como é que isso acontece?
Estava numa discoteca em Badajoz, no primeiro ano em que lá estive a jogar, e houve alguém que veio falar comigo. Disseram-me: “Vai lá à agência, gostei da tua aparência física”. Isto foi há 7 ou 8 anos. Estava com uns amigos que se começaram a rir e a gozar, mas eu fui. A partir daí comecei a fazer coisas. Tirei um curso intensivo de 6 meses, dado pela agência.

E gostou.
Gostei.

O que é mais difícil em ser modelo?
Eu era mais introvertido, mas nesse tipo de vida o contacto com as pessoas, as personagens que tens que encarnar, isso é o mais complicado. Há pessoas que não estão preparadas para isso. Há pessoas que têm dificuldade de lidar com o público. Podem ser muito boas mas depois quando têm de lidar com o público não se conseguem expor. E a moda é um bocado isso, é o que tu transmites aos outros. 

O José não teve dificuldade?
Não, fui aprendendo, ensinaram-me a postura. Acho que a moda tem mais a ver com a postura do que com outra coisa, do que com beleza até.

Então gosta do trabalho de modelo...
Mas não é o que mais gosto. Se me perguntarem se sou fascinado com isso – e já trabalhei com pessoas que são fascinadas e felizes –, comigo não é assim. Há 200 outras coisas que gosto mais de fazer do que isso, mas se me convidarem e pagarem, eu vou. Agora é só de vez em quando.

Quando sai da Academia do Benfica em Badajoz, o que é que foi fazer?
Dediquei-me só ao ginásio, ao trabalho de PT, até há bem pouco tempo.

O que fez mais?
Também estive ligado a um empresário espanhol, uma marca espanhola (a Internacional Players) em que andava a tentar colocar jogadores. Ainda estive algum tempo com ele, só que eu tenho alguma dificuldade no mundo do empresários. Porque tentei ajudar amigos meus e não consegui.

Porquê?
Porque se digo a um amigo meu que vou tentar arranjar um clube, não posso mentir-lhe. E no mundo dos empresários tem que se mentir muito. Se vou vender um peixe que não existe, não o consigo vender, ainda por cima estou a lidar com amigos meus. Não consigo fazer isto com nenhum jogador de futebol, quanto mais com amigos. Eu já tinha estado na pele deles, de estar na expectativa. Cheguei à conclusão de que não tinha feitio para isso. Tenho que vender algo que é real.

Mas quando diz “vender algo que é real”...
No futebol vende-se muita coisa...Ele dizia “ligas ao Jorge Andrade, ao Maniche, ao Nuno Gomes e diz que há um clube do Dubai que dá um milhão por mês”. E aquilo não era bem assim. Eu falava com o Jorge e quando lhe perguntava pelo clube, ele: “Ah ainda não há nada”

No fundo o que ele queria é que garantisse o Jorge....
Sim e só depois é que procurava clube. Se desse, dava, mas não era assim que ele me vendia a coisa. Ele dizia-me que já tinha clube. No mundo empresarial do futebol há muito disso. Com o Maniche aconteceu a mesma coisa. Depois saí e comecei a trabalhar na empresa de um amigo meu que queria exportar vinhos.

Gosta de vinho?
Não bebo álcool. É muito raro. Mas esse amigo como tem dinheiro abriu uma empresa de vinhos. Não era produtor, queria exportar vinhos do nada. Comprava o vinho, fazia a marca dele e queria exportar. Pediu para lhe dar uma ajuda e eu como estava sem fazer nada, tentei ajudá-lo mas ele fez algo que, na minha opinião, não estava a fazer bem. Não fez uma prospecção de mercado para saber o que é que realmente se vende lá fora. Acordava de manhã e lembrava-se que o vinho ia custar três euros. As coisas não se fazem assim. Eu não tenho nenhum curso superior, nem nunca tinha trabalhado com vinhos, mas comecei logo a ver que não ia vender vinhos a ninguém. Entretanto a mãe dele um dia de manhã acorda e lembra-se: “José Soares eu preciso de alguém que vá a Angola vender vinhos”. Eu disse-lhe: “O seu filho não vai, os empregados não vão, você quer que eu vá? Então paga-me tudo e eu vou para perceber como é que se faz. Mas não é chegar lá e vender. A sua marca não é conhecida. Para entrar em Angola não é fácil, os ‘tubarões’ estão todos lá a meter produto”. Assim foi. No primeiro dia que cheguei a Angola, liguei-lhe a dizer: “Vocês não vão meter vinho aqui em lado nenhum”.

Porquê?
O processo de exportação é tão complicado que uma pequena empresa como a deles e a forma que queriam trabalhar, não tinham hipótese. A primeira coisa que ele me disse foi que não subornava ninguém. É para esquecer ali. Entretanto já fechou a empresa. Mas, pronto, ajudámo-nos mutuamente e tentámos fazer algo. Também ganhei alguma experiência porque um mês e meio em África, conta como um ano aqui na Europa. Gostei da forma como me trataram, mas há muita coisa em Angola que a pessoa não pode gostar, sinceramente.

Está a falar do quê em concreto.
Da corrupção.

A sua ascendência paterna é da Guiné. Alguma vez lá foi?
Não. Mas brevemente vou. É um sonho que tenho. Estive para ir muitas vezes com o meu pai, mas depois acontecia sempre qualquer coisa. Agora já só a minha mãe está viva, o meu pai faleceu há 5 anos, com um AVC. Foi horrível.

Estava presente quando aconteceu?
Ele saiu de manhã e passado um bocado bateram à porta a dizer que ele estava caído no chão, na rua. Fui a correr. Vi aquilo e passado dois dias faleceu. Foi um choque enorme. Até hoje.
Depois dos vinhos o que fez mais?
Continuei a fazer desfiles, mas não me dava para viver. Entretanto há um amigo meu, que tem uma empresa ligada à agricultura e monta pivôs de rega, disse-me que precisavam de pessoas para ajudar. Eu estava sem fazer nada; gosto de aprender, a empresa era recente, o dinheiro faz falta, e comecei a montar pivôs. Estive lá 4 ou 5 meses. Foi duro, a trabalhar das 6 da manhã até às 7 ou 8 da noite. Mas ganhava bem.

Por que saiu entretanto?
Temos que voltar atrás. Isto é antes de eu ir para Badajoz, para a Academia do Benfica. Os vinhos também. A academia do Benfica e ser PT durou apenas uns meses. Agora tenho novos desafios profissionais. Tenho uma parceria na criação e desenvolvimento de negócios, através da rede de contactos internacionais que fui criando, na área do imobiliário. Estamos a criar um consultoria de negócios imobiliários. Entretanto tenho uma marca desportiva, a Padany, que me patrocina, dá-me roupa.

É a primeira vez que se vai lançar por conta própria?
Sim, com mais duas pessoas. Mas continuo a fazer trabalhos de PT.

Qual é o seu maior sonho?
Neste momento é criar e consolidar esta empresa e ter sucesso. Que este sonho seja real e sustentável.

O que faz o seu filho?
Estuda e joga basquetebol, em Dallas, nos EUA.

Vê-o com frequência?
Uma vez por ano.

Alguma vez ele cobrou-lhe não estar mais próximo dele?
Não. Ele entende. Já houve um ano em que esteve a viver comigo, em Portugal. Julgo que foi há 7 anos, estava ele na 4ª classe. Ficou comigo em Elvas.

Ainda vive em Elvas com a sua mãe?
Sim.

E as tatuagens que tem, quando começou a fazê-las?
A primeira tinha 18 anos, foi feita no Bairro Alto. É um símbolo chinês do meu signo. As outras foram mais tarde. Tenho o nome do meu filho em português e em japonês também. Tenho um outro símbolo, de filho. E não tenho mais.

Qual é a sua maior frustração no futebol?
É não ter feito aquela carreira que imaginei no Benfica.

Acha que não fez porquê?
Primeiro por minha culpa. Se calhar tomei decisões erradas.

Que decisões?
Na altura do Campomaiorense era para ter ficado no Benfica, mas fui para Campo Maior. Deram-me a opção de ficar na equipa principal do Benfica. Só que como jogava pouco e eu precisava de jogar sempre... . Eu sabia que o Campomaiorense era uma equipa que me dava estabilidade para jogar. Pensei, vou jogar e depois volto. Mas depois nunca mais. Aquela instabilidade toda do Benfica da altura também não ajudou nada. Não tem nada a ver com o clube agora.
Quem eram os seus ídolos?
O Mozer, o Valdo, o Veloso, Ricardo Gomes, Neno, Silvino. Ainda joguei com eles.

Qual foi o treinador que mais o marcou pela positiva?
Os do futebol jovem do Benfica marcaram-me todos. O Prof. Arnaldo Cunha, João Santos, Nene, Bastos Lopes, o Mário Wilson...Mas também o Nelo Vingada, Carlos Manuel.

Depois do Mundial do Qatar voltou a ser chamado à selecção?
Às Esperanças sim. Fiz qualificação para o europeu.

Quais foram as maiores amizades que fez no futebol?
O Bruno Caires, que é padrinho do meu filho, o Jorge Andrade que é meu "irmão", o Ramires, o Kenedy, o Diogo que jogou no Sporting, o Beto, o João Pinto, o Nuno Gomes, o Dani.

Também é fã de karaoke como o Jorge Andrade?
(risos) Possa. Ele não deixa cantar ninguém não passa o microfone a ninguém (risos)."

Carlos Kaiser: Não há nada mais brasileiro do que a malandragem. E ninguém foi tão malandro quanto ele

"Esta é a história do futebolista que nunca pisou no relvado e que deu um filme. Este golpista brasileiro foi contratado pelos maiores clubes do país, jogou na Europa e conquistou o carinho de craques nos anos 80, sem saber dar um chuto numa bola

Poucas coisas estão tão enraizadas no futebol brasileiro quanto o conceito da “malandragem”, a capacidade de usar a inteligência para enganar os outros. O país teve a sua cota de futebolistas malandros na história, mas só um pode ser considerado o imperador desta classe. Carlos Kaiser conseguiu jogar em algumas das principais equipas brasileiras durante a década de 80, mesmo sem nunca ter precisado pisar no relvado profissionalmente.
Carlos Henrique Raposo ganhou a alcunha de “Kaiser” - imperador, em alemão -, pela semelhança com Franz Beckenbauer, diz, mas também pode ser por causa de uma marca de cerveja muito popular da época. Vestiu as camisolas das quatro grandes equipas do Rio de Janeiro – Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco –, entre outras. Apesar disso, nunca jogou no Maracanã; possivelmente, nem em qualquer estádio brasileiro. O malandro assinava com as equipas, recebia como um atleta profissional e fazia de tudo para não jogar.
Porque, afinal, não sabia.
Carlos chegava em todas as equipas fora de forma, então era imediatamente colocado para recuperar a condição física, apenas isso. Quando a comissão técnica dos clubes decidia, mesmo assim, colocá-lo para a jogar, era a hora de inventar uma lesão ou até mesmo pedir a um companheiro para lhe dar uma cacetada num treino.
A estratégia de Kaiser era simples: fazia contratos curtos, de cerca de três meses. O tempo era suficiente para fingir longas lesões e ao mesmo tempo receber o bónus da negociação. Muitas vezes, vinha contratado como contrapeso de negociações de outro nomes mais famosos, já que a equipa estava decidida livrar-se dele o mais rápido possível ao notar que ele nunca jogava. Assim, acabou nos maiores clubes do Rio de Janeiro.
Quando foi jogador do Bangu, nem mesmo essa estratégia deu certo. Um dia foi para o banco de suplentes e foi obrigado a entrar por ordem do presidente do clube, revoltado com a derrota da sua equipa por 2 a 0. Sem saída, Kaiser notou que um grupo de adeptos estava a ofendê-lo. Não pensou duas vezes: pulou para as bancadas e brigou com os adeptos.
Acabou expulso antes de entrar.
O problema é que o presidente que pediu que ele jogasse era Castor de Andrade, famoso por ser o barão dos jogos ilegais no Rio de Janeiro. Bom malandro, Kaiser rapidamente achou uma solução antes de fazer o notório criminoso como inimigo.
“Eu disse: ‘pô, doutor. É horrível ouvir dizer que seu pai faz isso ou aquilo, essas coisas que falam do senhor. Você sabe como é para um filho ouvir isso de um pai. Eu acabei brigando e prejudiquei o time”, contou Carlos em entrevista para a “TV Cultura” em 2012.
Segundo ele, o presidente ofereceu um novo contrato após a conversa.
As equipas brasileiras não foram as únicas vítimas. Chegou a jogar no Gazélec Ajaccio, da França. Os adeptos do clube, que oscilava entre a terceira e segunda divisão nacional, estavam eufóricos em receber um suposto craque brasileiro e esperavam ver o seu talento durante a apresentação oficial. Para não mostrar a sua falta de talento, Kaiser começou a chutar bolas para a bancadas. Quando foi pedido que mostrasse sua qualidade, não havia mais nenhuma no relvado.

Começo Sério, Amigo Dos Jogadores e Vida Boémia
Segundo conta, Carlos nasceu no Rio Grande do Sul, mas foi criado no Rio de Janeiro por pais adoptivos. Começou aos 10 anos nas escolinhas do Botafogo e depois jogou no Flamengo. A carreira profissional teve início no Puebla, do México. Diz ele que começou a vida de golpista após a experiência mexicana.
O motivo da vida de golpes é que nunca quis ser futebolista, segundo o próprio. “Com dez anos minha mãe já sustentava a família inteira com o dinheiro que eu recebia do Botafogo e chegava a me bater para jogar futebol. Eu criei um bloqueio. Eu fiz o caminho inverso. Todo mundo queria jogar futebol e eu queria estudar”, disse para a “TV Cultura”.
Muito do sucesso de seu plano teve a ajuda dos próprios futebolistas. Sempre educado, com linguajar de poucas gírias, ficava próximo dos atletas mais famosos. Esses, em contraponto, pediam a contratação do colega aos patrões dos clubes. Claro, os pedidos não eram de graça: Kaiser era o responsável por organizar festas e encontros com mulheres para todos. Todos.
“Ele diz publicamente que era ele que trazia as mulheres e a ‘sacanagem’ para os futebolistas. Era a babá deles. Cuidava de todos e arranjava tudo, isso - as indicações - era o preço dele”, conta ao Expresso Louis Myles, realizador de um documentário britânico lançado neste ano sobre o golpista, ainda sem previsão de estreia em Portugal.
Mulheres é a resposta para a pergunta do motivo de Kaiser lutar tanto para estar no mundo do futebol, apesar de não gostar de jogá-lo. O Rio de Janeiro da década de 80 era o zénite da vida boémia dos futebolistas.
Carlos podia não jogar, mas tinha o típico visual de atleta: era alto e forte, estava sempre de óculos escuros e ostentava um volumoso cabelo. Usava a conversa de ser futebolista e a amizade com famosos para suas conquistas. Afirma que teve casos com muitas famosas, mas não revela quais. Por respeito.
Às vezes, ia um pouco além. O visual descrito era semelhante ao de Renato Gaúcho, um dos principais futebolistas, e boémios, do Brasil. Kaiser gostava de se fazer passar por Renato Gaúcho para chamar a atenção de mulheres e ganhar vantagens nas casas nocturnas cariocas.
“Um dono de boate em Búzios me convidou na praia para ir naquele local à noite. Resolvi aparecer lá com a minha galera. Só que quando eu estava entrando, um segurança me barrou e disse: ‘Você não pode entrar porque o Renato já está lá dentro’", contou o ex-futebolista e agora treinador, em entrevista para o site “Globoesporte”, em 2011.

Mas, Será Tudo Verdade?
É necessário sempre ter cuidado com as histórias de Carlos Kaiser. Nas diferentes entrevistas que deu ao longo dos anos, é comum encontrar contradições. Além disso, simples levantamentos de informações colocam em xeque as anedotas.
Diz, por exemplo, que a briga no Bangu ocorreu em um jogo diante do Coritiba. Durante toda a década de 80, as duas equipas enfrentaram-se cinco vezes, e em apenas numa é que o Coritiba abriu vantagem de dois golos, na Libertadores de 1986. O problema é que o jogo foi no Paraná, e não em Bangu, como conta Kaiser.
Além disso, a história afirma que o treinador do jogo era Moisés, técnico do clube carioca entre 1983 e 1986 e responsável pela contratação do malandro. Porém, o amigo de Kaiser já havia saído da equipa neste jogo; esta foi comandada por Paulo César Carpegiani e não há relato de qualquer transtorno ou expulsão no duelo.
Sobre a passagem pela França, Kaiser tem fotos guardadas com a camisola da equipa e uma carteira profissional da época de 1987/1988. Porém, a revista inglesa “Four Four Two” entrou em contacto com dirigentes do Gazélec e ninguém se lembra dele. Havia um brasileiro no elenco, Fabio Barros, que admitiu ser amigo do golpista e tê-lo indicado para o clube.
Por jogar em muitas equipas de pouco prestígio e numa era de muitos amigáveis extra-oficiais, os casos beneficiam do relato oral e por isso do argumento de falibilidade da memória. Ele guarda reportagens feitas na época sobre sua carreira, porém admite, que muitas vezes se aproveitava da amizade com os repórteres para contar histórias e assim ter mais uma forma de enganar os clubes. 
“Eu não consigo até hoje dizer quais histórias são reais e quais são falsas. Há vários casos no filme em que pensamos que a história era falsa e após outras entrevistas pensamos que são verdadeiras. No final, achamos que a ambiguidade da história era tão fantástica que preferimos manter assim no documentário. Além disso, não conseguimos descobrir tudo apesar de três anos de pesquisa”, afirma o realizador Louis Myles.
A prova de que o golpista realmente passou por clubes cariocas está nos relatos de outros futebolistas. Além de Renato Gaúcho, os campeões mundiais Bebeto e o falecido Carlos Alberto Torres conversaram com o jornalista. Os relatos são sempre com muitos risos e carinho.
“Foi o caso com quase todos que entrevistamos. Mesmo que queria contradizê-lo, amava-o. Não podes fingir o carinho que as pessoas têm por ele”, conta o britânico.
A vida de golpes de Carlos Henrique Raposo acabou no início dos anos 90. Hoje, aos 55 anos, vive como personal trainer – exclusivamente para mulheres –, no Rio de Janeiro. Durante anos evitou os holofotes, mas quando sua história foi recuperada, no começo da década, não escondeu a fama de golpista. Não se arrepende. Na sua visão, era o que os dirigentes mereciam por enganar atletas em um futebol notório por atrasar os pagamentos aos futebolistas.
“O Rio dos anos 80 era uma verdadeira cultura. Era sobre festas, praia e futebol. Tudo era mais relaxado e o jogo menos profissional. Era como um mundo de faz de conta em que apenas assim um personagem como este pode existir. Não acontecerá nunca mais, seja em escala ou duração”, reflecte Louis Myles."

Pontapé de Canto - Liga e sub-19

'Faça-se Newton': e a luz enfim nasceu!

"Alexander Pope, um poeta iluminista inglês e que portanto rescendia de admiração incontida por Isaac Newton, afirmava “muito poeticamente” que Deus, ao criar o mundo, não disse: “Faça-se a luz”, mas “Faça-se Newton” e a luz enfim nasceu. Para os iluministas, a luta das ideias trava-se entre os que muito acreditam e de quase nada duvidam e os que, jungidos ao estudo, muito duvidam e em pouco acreditam. Na Idade Média, asseveravam os iluministas, eram mais os que acreditavam e de quase nada duvidavam. A redenção pela Razão, tão publicitada por eles, não foi, afinal, um anúncio de plenitude, pois que terminou na morte de Deus e na morte do homem. O filósofo brasileiro Sérgio Paulo Rouanet chamava “razão sábia” à razão consciente dos seus próprios limites e que portanto não é nem narcísica, nem individualista, nem arrogante; e apodava de “razão louca” a que não percepciona o quanto de irracionalidade emerge da discurso racional. Mesmo a “razão sábia”, que se fundamentava em Galileu Galilei, Isaac Newton, Augusto Comte e em Descartes, Kant, Hegel e Marx e Freud, não escondeu que a História é uma sucessão de contradições e antagonismos, principalmente quando se diz que “a existência precede a essência” e que portanto o ser humano escapa a qualquer “a priori”, a qualquer definição prévia. E assim, mesmo à luz de uma “razão sábia”, de muita razão físico-química e matemática, “a redenção de nós próprios não a procuramos em nada separado de nós, mas na vivência profunda dos nossos inexoráveis limites” (Vergílio Ferreira, Carta ao futuro, Portugália, 1957, p. 81) E passados quase 300 anos após Voltaire e Montesquieu e Diderot e D’Alembert, o saber que se ousou criar ainda não respondeu às 4 cruciais perguntas de Kant: o que posso saber? O que devo fazer? O que posso esperar? O que é o Homem?
Para os “iluministas” (e sirvo-me do livro de Fernando Savater, “História da Filosofia sem Medo nem Pavor”, nas citações subsequentes, que farei neste parágrafo) o progresso confundia-se com mais ciência físico-matemática e, no que à existência de Deus diz respeito, um declarado agnosticismo. Assim pensava Newton, um génio que ilumina boa parte da História das Ciências e que, na Filosofia, teve discípulos de grande argúcia e originalidade, como (e distingo três tão-só) François-Marie Arouet (mais conhecido por Voltaire) e Charles-Louis de Secondat, barão de Montesquieu e ainda Jean-Jacques Rousseau. Voltaire, francês (como afinal Montesquieu e Rousseau), viveu entre 1694 e 1778. Como todos os homens de excepcional craveira intelectual e moral, rodearam-no admirações rendidas, invejas sombrias e ódios sem limites. “Uns versos satíricos e atrevidos, contra o regente de França, valeram-lhe alguns meses na Bastilha, a prisão de Paris. Em seguida, enfrentou um nobre poderoso que ofendera uma actriz, sua amiga, e ganhou uma valente sova, proporcionada pelos criados do rancoroso aristocrata. Então, escapou para Inglaterra, para evitar mais problemas. Essa viagem mudou a sua vida. Encontrou na Grã-Bretanha uma sociedade muito mais tolerante, para com as opiniões religiosas, do que a francesa. “Cada inglês vai para o céu pelo caminho que prefere” comentou admirado”. O seu “Tratado sobre a Tolerância”, as suas “Cartas Filosóficas” (ou “Cartas Inglesas”) e a sua obra restante anunciam a Declaração Universal dos Direitos do Homem, proclamada, pela Organização das Nações Unidas, em 10 de Dezembro de 1948. No entanto, a primeira grande figura do Iluminismo, em França (cronologicamente anterior ao próprio Voltaire) é Charles Louis de Secondat, barão de Montesquieu. O seu primeiro livro “As Cartas Persas” é uma sátira às pessoas que, em Paris, se julgam intelectual e culturalmente superiores, porque são europeias e não são asiáticas. Mas o livro fundamental de Montesquieu é “O Espírito das Leis”.
Neste livro, estuda Montesquieu as leis que regem a convivência humana – leis que são produto da invenção do ser humano e não de qualquer imposição divina. Sempre a Razão a presidir ao progresso e ao desenvolvimento humanos. Para os iluministas, o real não surge do acaso e da necessidade, mas das conquistas da racionalidade, considerada o supremo atributo (e sirvo-me agora de umas linguagem bem actual) do “Homo Sapiens” e do “Homo Sapiens Sapiens”. Só que com muita razão matemática, com muita razão retórica (típica de todos os ditadores), com muita razão dialética – com tudo isto, há crimes inapagáveis na História. Blaise Pascal (1623-1662) falava, com impressionante insistência das “razão do coração”. Umas vezes, sinónimo de fé e, outras vezes, de sentimento e ainda de “esprit de finesse”, as razões do coração parecem-me uma síntese de sentir, de pensar e de agir. Passo a palavra ao Padre Manuel Antunes que, em tudo o que escreve, se dá todo inteiro, num diálogo vivo e comunicativo com o leitor: “Sendo assim, a expressão “razão do coração” (repare-se que não dizemos “razões do coração”) à primeira vista, paradoxal, aparece como perfeitamente lógica. Designa uma ordem do conhecimento não discursivo mas intuitivo, um sentimento de evidência directa e imediata, uma compreensão interior do indivíduo, uma impressão de certeza mais profunda e intensa do que a dada pela reflexão ou pela demonstração. A razão do coração triunfa em todos os planos, no da ciência como no da fé, no da psicologia, como no da moral, no da vida de sociedade como no da vida de contemplação” (Grandes Contemporâneos, Verbo, Lisboa, 1973, p. 54). No nosso tempo de hipercapitalismo, de hiperterrorismo, de hiperindividualismo, de hipermercado e também de hipermiséria (física, mental e moral), quase desconhecemos a razão do coração. E, sem ela, até o treino desportivo está errado!
Só com a Razão, é em quatro pilares que assenta, hoje, a nossa civilização ocidental: a tecnociência, o mercado, o consumo e o mais feroz individualismo. Só com o génio de Newton, a ciência e a tecnologia atingiram níveis que excederam as previsões mais optimistas. Mas a vida reponta, trasborda e palpita muito para além da tecnociência. Ainda há poucos dias, o Prof. Sobrinho Simões, médico ilustre e um incorruptível paladino da melhor investigação científica, afirmava, em entrevista televisiva que os idosos, que normalmente sofrem de doenças crónicas, precisam tanto, ou mais de ternura, como de fármacos e de exames que envolvem a mais avançada tecnologia. Com o decorrer da vida, os seus baldões, as suas tempestades, as suas alegrias e dores - o amor, a ternura e a amizade são, com toda a certeza, o que mais necessitamos. Não se põe em causa o extraordinário progresso da ciência médica, diz-se tão-só que há qualidades humanas, que estão antes de tudo o mais. Demais, dizem os antropólogos e os etnólogos, que o povo português tem o colorido, a piada, a originalidade, que inventam, dia após dia, novos ritmos, novos horizontes, na alegria de viver. Quando se diz, por aí, que os treinadores de futebol portugueses “sabem” mais do que os treinadores de futebol doutras nacionalidades, não nos esqueçamos de acentuar também que o cidadão português, tenha a profissão que tiver, é amável, gentil, bonzarrão, estudioso, trabalhador, ninguém, como ele, é capaz de mimar com mais graça e com mais candura o povo que o acolheu. No português, os excessos são transitórios e, com facilidade, uma serena confiança se estabelece, entre ele e os íncolas doutros países e nacionalidades. É preciso aferir a realidade, com a Razão. Mas, sem Fé, nada de novo e virginal e original se consegue. Percorra-se o mundo todo. Onde estiver um português ressalta sempre qualquer coisa de irredutível, de específico. Mesmo emigrante, mesmo exilado, ele ressuma a seiva que recebeu dos pais, que o faz um homem diferente, perscrutador de coisas mágicas, imprevistas, objectivas, que os outros ainda não viram."

Benfiquismo (CMX)

Ouro!!!

sábado, 4 de agosto de 2018

As meninas a 'limparem' o balneário !!!

Uma Semana do Melhor... com o Rakitic do Seixal!!!

Andebol 2018/19

Depois da vitória na Taça de Portugal o ano passado, este ano espera-se 'mais'!!!
A equipa de Andebol do Benfica, fez hoje a sua apresentação oficial, com um dos 'grandes' da Europa: Nantes. O jogo até foi equilibrado, mas o mais importante é que o vem a seguir...

Duas contratações relevantes: Ristovski (ex-Barcelona) e Carlos Martins (ex-ABC)... fica a 'faltar' um nome sonante para Lateral Direito. A aposto no Patrianova e no Terzic está sempre envolta em preocupação, devido às lesões recorrentes...
Aliás, estamos a começar a época com alguns lesionados...!!!

A equipa técnica provou a sua qualidade o ano passado. A concorrência é fortíssima, o orçamento Lagarto continua a ser digno de um Ali Baba!!! Os Corruptos também estão mais fortes... Portanto, tudo muito complicado... É obrigatório não perder pontos com terceiros...

Guarda-Redes
Borko Ristovski (ex-Barcelona)
Hugo Figueira
Miguel Espinha

Central
Pedro Seabra
João da Silva
Xico Pereira

Universal
Daniel Neves (ex-Sporting)

Lateral-Direito
Belone Moreira
Stefan Terzic
Gonçalo Nogueira

Lateral-Esquerdo
Alexandre Cavalcanti
Nuno Grilo
Arthur Patrianova
Tiago Costa

Ponta-Direita
Davide Carvalho
Carlos Martins (ex-ABC)

Ponta-Esquerda
João Pais
Fábio Vidrago
Pedro Côrte-Real

Pivot
Paulo Moreno
Ricardo Pesqueira
Ales Silva
Pedro Lourenço

Emprestados:
Diogo Valério e Pedro Santana (Boa Hora); Capdeville, Valter Soares e Hugo Lima (Madeira SAD); Hugo Freitas (Cherbourg)


Depois de Jonas

"Foram quatro épocas, três campeonatos conquistados e 122(!) golos oficiais de águia ao peito. Um abono de família. O melhor, e mais importante, jogador dos encarnados desde Jorge Jesus a Rui Vitória.
Chegou envolto em desconfiança. Dispensado pelo Valencia, jogador livre, na busca de relançar a carreira. Fez mais do que isso. Muito mais. Os melhores momentos de Jonas foram no Benfica. Com Lima ao lado. Com Mitroglou. Com Jiménez. Ou sozinho, em 4x3x3, na última temporada, onde terminou como melhor marcador da Liga (34 golos). E logo ele, de quem se dizia não ser capaz de jogar sem um parceiro no ataque. Sozinho ou acompanhado. Na área ou entrelinhas. Para Jonas o golo nunca foi um segredo. Está na história do Benfica. E do futebol português.
Aos 34 anos sai para a Arábia Saudita rumo a um salário de 5,2 milhões de euros líquidos por ano. Desportivamente é uma péssima notícia para o Benfica, mas Luís Filipe Vieira fez bem em não "cortar as pernas" ao brasileiro. É o contrato de uma vida. Não deixá-lo sair, perante tais números, poderia ser fatal para o balneário.
Sobram Ferreyra, Castillo e o ‘ressuscitado’ Seferovic. E talvez mais uma solução de mercado. Nenhum deles é Jonas. Nem podia ser. Não há clones.
Para o Benfica, em matéria de ataque, começa um novo ciclo. Com outra ideia. Outros protagonistas. Jonas, por tudo o que fez, irá sempre deixar saudades. Resta saber se será já esta época."

“Todos os domingos, eu e o Rui Costa festejávamos as derrotas do Saragoça, para irmos buscar o Aimar”

"José Boto não é um nome que, por si só, diga muito aos adeptos. Mas o caso muda de figura quando se associa este scout de 52 anos a outros nomes: Witsel, Markovic, Fejsa, Grimaldo, Zivkovic... Depois de 11 anos na Luz, o ex-diretor do departamento de scouting do Benfica, reconhecido mundialmente como um dos melhores no sector, mudou-se para o Shakhtar Donetsk, na Ucrânia, onde vai trabalhar com outro português, o treinador Paulo Fonseca, de quem diz ser admirador. E o mercado de verão está aí à porta

Quero ser scout. O que faço?
[risos] Eh pá, essa é a pergunta que mais me fazem. Todos os dias recebo mensagens com isso e é muito difícil responder. Se alguém quer ser treinador, pronto, vai tirar o curso. Se quer scout, já é mais complicado, embora já haja aí alguns cursos, mas que não são garante de nada, nem te dão qualquer habilitação específica para seres scout. Há um deles que pelo menos dá uns estágios, que é normalmente aquilo que aconselho às pessoas, porque assim pelo menos já entram no meio. Claro que isso não é garantia de nada, até porque é um meio onde os clubes procuram gente com experiência e com muito networking, que é algo fundamental nisto. Não é um mundo fácil onde entrar.

É preciso experiência prática, mas é difícil tê-la.
Sim, não dá para tê-la sem trabalhares nisto. Como é óbvio, há sempre que começar por algum lado. Normalmente se os clubes tiverem de escolher entre uma pessoa nova, que nunca fez isto na vida, por mais boas ideias que tenha, e entre uma pessoa que tenha experiência prática, normalmente preferem a pessoa com experiência prática, porque o scouting tem muito a ver com a experiência que vais adquirindo ao longo do tempo e com o networking, que te permite chegar mais rápido e de forma mais fácil às coisas. Embora em Portugal também não haja muitas pessoas com experiência - se calhar até é dos países onde é mais fácil para pessoas que não têm experiência na área entrarem num clube.

E antes disso também é preciso ter um bom entendimento do jogo?
Convém ter [risos]. Embora a observação de jogadores seja um pouco diferente da observação normal de um treinador ou de um observador, que quer ver os comportamentos da equipa. Aqui tens de partir um bocadinho o jogo, tentar tirar o jogador daquilo que é o contexto tático da equipa, para tentares perceber o que o jogador vale e o que podes transferir para a tua equipa, para aquilo que tu procuras. Portanto, não podes olhar tanto para os comportamentos táticos do jogador, porque esses são muitas vezes condicionados por aquilo que o treinador lhe pede. Tens de tentar perceber o jogador naquilo que é seu, embora isto não seja uma coisa linear, como é óbvio. Os jogadores também são muito daquilo que os treinadores lhes vão dando, não é?

Quando vais ver um jogador ao estádio, qual é a primeira coisa que tentas ver?
Normalmente aquela malta mais antiga - e eu também já sou um bocado dessa malta [risos] - costuma dizer que se vê logo qualquer coisa no pisar do jogador, na forma como se movimenta. Muitas vezes isso tem importância, porque hoje em dia olhas para muitos jogadores que parecem robôs, não só a andar, mas na coordenação motora que têm. Se reparares, aqueles jogadores que têm mais talento têm até uma forma de andar diferente. Mas é óbvio que não é por aí que olhamos [risos]. O que me chama mais a atenção num jogador é a relação que tem com a bola e depois o entendimento do jogo, se é inteligente, se entende a movimentação dos adversários, dos colegas... Isso é que são as coisas que me saltam mais à vista. Acredito que haja pessoas que olham para outro tipo de características para as quais não olho e não dou importância, mas para mim estas duas são as mais importantes.

Quando estás a ver um jogo com outros dez scouts, veem coisas diferentes no mesmo jogador?
Sim, completamente. Nós chegamos a estar rodeados por 70 ou 80 scouts nos torneios, como no Europeu sub-19 que esteve a decorrer agora, por exemplo. Se fores lá ver, metade da bancada estava cheia de scouts. É óbvio que as pessoas olham para o jogo e para o jogador de formas completamente diferentes. Aquilo que te parece bem a ti, a outro já não parece tão bem. Depois também depende muitos dos campeonatos. Se falares com um scout francês ou inglês, olham para um determinado tipo de coisas...

O poderio físico?
Exactamente. Nós às vezes até costumamos brincar com os scouts ingleses, o jogo ainda nem começou e nós já começamos a dizer quais é que eles vão achar que são os melhores jogadores - os mais altos e os mais fortes. Fazemos isto na brincadeira, claro, e eles aceitam perfeitamente, porque realmente dão muita importância a esse tipo de coisas. Agora já mudou um bocadinho, até porque o [Manchester] City já quebrou alguns tabus que havia, mas, se falares com um scout inglês, normalmente a parte física conta muito.

Ingleses e franceses são assim - e depois como divides o resto da Europa?
Sim, os franceses também olham muito para isso, mas depois também depende um bocadinho do clube, porque há clubes que são diferentes, mesmo dentro de campeonatos que têm determinadas tendências. Por exemplo, em Espanha preferem jogadores inteligentes, tecnicamente evoluídos, que se associem bem uns com os outros, mas dentro do campeonato espanhol também há um ou dois clubes que não pensam isso, pensam de forma diferente. Agora, no geral, os ingleses e franceses são os que olham mais para as questões físicas, para o tamanho, para a agressividade...

Portugueses e espanhóis olham mais para a técnica?
Os espanhóis. Os portugueses já não digo tanto. Depende muito do clube e das pessoas. Acho que não nos podemos comparar aos espanhóis nisso.

Utilizando este Europeu sub-19 como exemplo, normalmente estarias lá como scout do Benfica. Quem seriam os outros clubes portugueses representados?
Normalmente éramos poucos. Era o Benfica, o FC Porto, o Sporting e o Braga. Ponto. Nos últimos anos, o Benfica marcou em presença em tudo o que era competição internacional "grande", ou seja, desde os Europeus de sub-17 até aos Mundiais de sub-20. O FC Porto também esteve sempre presente. O Sporting tem alturas em que esteve presente e outras em que desapareceu um bocado. O Braga nos últimos anos também tem trabalhado bem nesta área e é natural vermos scouts do Braga nas grandes competições.

Faltam scouts nos outros clubes portugueses porque ainda não perceberam a importância do cargo ou porque não querem gastar dinheiro?
Se calhar se lhes perguntares ainda vão dizer que não têm dinheiro, mas penso que é um erro pensarem assim, porque um departamento de scouting ajuda o clube a poupar dinheiro. Ajuda-te a não comprares mal, a comprares segundo aquilo que o treinador quer... E os gastos também não são assim tão grandes como as pessoas possam pensar. Aliás, Portugal é talvez o único país da Europa que tem alguma importância no futebol e em que há equipas que estão na 1ª divisão e não têm gabinetes de scouting. Acredito que até possam ter alguém que veja isso por vídeo, mas não têm scouts presentes nos estádios regularmente. Se fores a Espanha, tanto os clubes da 1ª divisão como da 2ª divisão têm scouts nos estádios, na Alemanha também, Itália, França, a própria Holanda... Todos os clubes têm gabinetes de scouting. Em Portugal, tirando estes quatro clubes, não se vê ninguém. Nos estádios não estão.

Qual é a diferença de recursos entre o Benfica e os clubes europeus?
Nestes onze anos que passei no Benfica tive a sorte de contactar com muita gente e conhecer os gabinetes de scouting de praticamente todos os clubes. É óbvio que os clubes em Portugal, não só o Benfica, em termos de recursos, se compararmos com os ingleses... Eh pá, se te disser que o Manchester tem 40 e tal scouts e o Benfica tem quatro ou cinco, acho que dá para perceber que há uma diferença muito grande. Mas, se organizares bem um departamento de scouting, não precisas de ter muita gente, nem sequer precisas de ter gastos astronómicos, como se calhar as pessoas pensam que tem. Não me parece realmente que os gastos sejam uma desculpa para não ter um gabinete de scouting, porque isso vai ajudar-te a poupar. A diferença entre acertares e errares num jogador é essa. Ou teres um conhecimento mais profundo sobre o jogador. Claro que tenho ideia como se faz scouting em alguns clubes: é um empresário que fala de um jogador, dá-se uma vistas de olhos e pronto. Não é a melhor forma de se conhecer um jogador.

Quando chegaste ao Benfica, em 2007, já havia departamento de scouting?
Não. Quando entrei foi precisamente para começarmos a criar o departamento. Nessa altura o scouting era basicamente feito pelo treinador e nos moldes em que te estava a dizer, com os agentes a entregarem vídeos dos jogadores..

O best of de...
[risos] Exactamente, aqueles highlights em que os gajos marcavam o mesmo golo cinco vezes. Era um bocado assim. Na altura em que entrei, nós criámos o departamento e começámos a fazer muita observação in loco, porque também não havia as tecnologias que existe hoje.

Quantas pessoas estavam no departamento?
Era eu, era o Rui Águas, era o Pietra, era o Jorge Gomes, que ainda continua, e o Chico [Francisco Oliveira], no Brasil. Essa estrutura foi ficando a mesma, depois o Rui e o Pietra saíram e entraram o Abel [Silva] e o Mauro [Mouralinho]. É uma estrutura pequena mas funcional.

Antes de entrares lá, que experiência tinhas em scouting?
Fui treinador e enquanto treinava já fazia algumas colaborações com o Sporting, com o Aurélio Pereira. A minha experiência era essa, no futebol juvenil. Enquanto treinador ia vendo alguns jogadores e ia indicando ao Sporting. Depois, quando fui para o Alverca, já fazia um scouting mais sério, para a equipa profissional, indo ver jogadores ao vivo ou vendo DVDs que nos enviavam.

Há uma grande diferença entre ver um jogador ao vivo e ver num DVD?
Faz alguma diferença. Quando queres observar um jogador, principalmente no que diz respeito aos comportamentos sem bola, num jogo televisionado, seja num DVD ou através dos vários softwares que há hoje em dia, Wyscout ou InStat, não consegues ver esse tipo de coisas, porque normalmente a câmara acompanha o centro do jogo. Ao vivo consegues perceber tudo.

A transição de treinador para scout foi fácil?
Não foi muito fácil. Não só pela mudança na forma como tinha de começar a olhar o jogo, mas também na falta do contacto diário com o treino - tudo isso custou um bocado. Mas passado um ano ou dois já me tinha esquecido [risos].

Na época em que entras no Benfica, o treinador era o Fernando Santos...
[interrompe] Até te digo mais: o treinador era o Fernando Santos, eu vou ao Brasil ver uns jogadores e quando volto a Portugal já era o Camacho [risos].

Que tipo de relação tem um departamento de scouting com o treinador?
Isso depende muito da estrutura do clube. Há clubes onde a proximidade é grande. Por exemplo, agora no Shakhtar, a proximidade entre o treinador e o diretor de scouting é grande. Mas há outros clubes onde há uma distância maior, porque existe um perfil de jogador que não é do treinador, é do clube, e nós reportamos mais à SAD do clube do que ao treinador. É óbvio que há sempre relação entre o treinador e o scouting, mas o nível de proximidade depende muito do clube.

No Benfica não havia tanta proximidade com o treinador?
Não era uma relação tão próxima. Havendo reuniões com o treinador, não era um contacto diário. Tínhamos um perfil de jogador bem definido pela administração da SAD e era o que buscávamos, independentemente do treinador. Depois, claro que tentávamos adaptar algumas coisas àquilo que eram as ideias do treinador.

Nestes 11 anos que passaste no Benfica, como é que o departamento evoluiu?
Tal como o scouting a nível mundial, também o departamento do Benfica evoluiu muito, principalmente no que diz respeito à utilização de novas tecnologias, como o Wyscout e o InStat, plataformas que te permitem ver qualquer jogo, seja aqui seja no Bangladesh. Essas plataformas permitiram ter os jogos completos passadas 24 horas após a realização dos mesmos e depois isso ainda evoluiu mais, porque hoje tu consegues, se quiseres, ver apenas os eventos em que um jogador intervém num jogo. Por exemplo, queres contratar um lateral e já o viste várias vezes, mas ainda tens alguma dúvida em relação à qualidade dos cruzamentos dele. Nessas plataformas, carregas num botão e consegues logo ver todos os cruzamentos que ele fez durante uma época. Ou seja, consegues ver e dividir todas as ações do jogador, num jogo ou numa época. Tudo aquilo que podes imaginar que o jogador pode fazer com bola, podes ver. Carregas lá nuns botões e vês tudo o que queres. 

Antigamente tinhas um papel e uma caneta...
Íamos aos estádios com um papel e uma caneta na mão ou então esperavas por um DVD dos agentes, mas esses só tinham coisas boas dentro, não é? Para teres uma ideia clara do jogador, sem te sentires enganado, porque nos DVDs só vinham os melhores jogos dos gajos, tinhas obrigatoriamente de ir aos estádios. Atenção, acho que hoje também se deve obrigatoriamente ir aos estádios, só que estas tecnologias já te permitem tomar decisões de forma mais rápida.

Normalmente vês quantos jogos de um jogador antes de contratá-lo?
Depende muito.

Há um mínimo indispensável?
Não. Quando eles são muito bons não precisas de ver muito e quando eles são muito maus também não. Olhas para eles e vês logo [risos].

Há algum que tenhas visto e pensado logo à primeira "temos de ter este"?
Sim, posso dar-te um exemplo de um jogador que depois até nem singrou muito, mas que aqui teve uma época excelente. Não foi preciso ver muito, vi só um jogo dele ao vivo e fiquei logo encantado com o que vi. Depois ainda vi mais uma ou duas vezes, até porque na altura já tínhamos o Wyscout, mas foi mesmo só por descargo de consciência, porque sabia que aquilo que tinha visto já me chegava perfeitamente. Era o [Lazar] Markovic.

É engraçado, porque ele chega, faz uma grande época...
[interrompe] É vendido e sai.

E depois volta a Portugal, para o Sporting, e passa algo despercebido.
Isso é complicado, mas é um tema interessante. Em Portugal... quer dizer, não é só em Portugal, é em toda a Europa, temos a mania de dizer logo "aquele jogador foi um flop". Mas isso muitas vezes não tem a ver com a qualidade do jogador, tem a ver com os contextos em que os jogadores são inseridos e principalmente com uma coisa que para mim é fundamental, que é a confiança do jogador. É o treinador que tem de lhe dar essa confiança, porque ele do clube já tem a confiança, porque foi contratado. Mas depois é o treinador que o mete a jogar ou não. E normalmente quando os jogadores sentem essa confiança por parte do treinador têm um rendimento sempre superior a outro que não sente essa confiança, porque se um jogador sente que o treinador não confia muito nele, cada vez que vai jogar, vai jogar sobre brasas, porque quer mostrar que tem valor. Temos casos como o Markovic, que chega aqui e tem um rendimento excelente e depois a partir daí a carreira dele foi a pique. Para mim, não é por falta de qualidade, são contextos. Se calhar os contextos para onde ele foi não foram os melhores para ele. Mas também acontece o contrário: há jogadores que chegam aqui e não têm a confiança dos treinadores mas depois saem daqui e conseguem. Estou a lembrar-me, por exemplo, do Cristante e Jovic, jogadores que chegaram aqui muito jovens e que as pessoas rotularam logo de flops, porque não começaram logo a jogar. Depois eles vão perdendo confiança e a partir daí é muito difícil terem um rendimento bom e mostrarem aquilo que as pessoas viram neles.

Esses dois casos que mencionaste foram as tuas maiores desilusões?
Não digo que sejam desilusões, porque eles acabam por dar, não é? Tanto o Cristante como o Jovic. Em termos daquilo que observei, não considero que sejam uma desilusão, porque estão a dar agora. Mas há um jogador que para mim foi uma desilusão: o [Filip] Djuricic. Foi um jogador em que eu, pronto, não só eu, mas nós todos apostávamos muito, depois de tudo o que tínhamos visto nele. Tínhamos a ideia de que ia ser um craque e depois não foi. Nem neste contexto nem em mais nenhum. E quando assim é também serve de reflexão.

Mas não dá para perceber ou dá?
Não é fácil, sinceramente. Tentamos perceber, mas é difícil. Agora, quando os jogadores não dão aqui e não dão noutro sítio, aí sim é preocupante.

Quer dizer, na tua perspectiva não é preocupante, porque então a culpa é dele.
Sim, mas se calhar nós devíamos ter percebido isso antes.

Quando vais ver um jogador, só podes saber como ele é até determinado ponto ou também tentas saber coisas sobre a vida pessoal, por exemplo?
Essa é outra questão importante. As pessoas acham isso, mas não percebem bem como se trabalha hoje em dia e o que é o negócio do futebol moderno. Se calhar acham que devíamos ter um conhecimento profundo daquilo que é a vida pessoal e a parte psicológica dos jogadores, mas isso é completamente impossível nos dias de hoje. Tu para perceberes isso tens de te aproximar do jogador e se fizeres isso estás a dar indícios de que estás interessado e isso às vezes é a diferença entre pagares €1 milhão ou €5 milhões. Há pessoas que às vezes me dizem: "Mas não eram bom fazerem uma entrevista ao jogador, para perceberem a parte psicológica?" Era, mas isso é impossível. É como vê-lo treinar. Hoje é inconcebível tu conseguires ver um treino de uma equipa, porque os treinos são todos fechados. O que consegues - e agora voltamos ao início, porque é por isso que muitas vezes os clubes preferem ter pessoas com boas redes de contactos - é perguntar a alguém da equipa técnica ou a alguém próximo como é que ele é no treino, como é a vida pessoal... Mas é sempre informação obtida através de terceiros, não és tu que estás ali a ver em primeira mão, porque isso é impossível. 

Depois de veres um jogador que achavas que era indicado para a equipa, era fácil convencer o presidente do Benfica ou era preciso escrever muitos relatórios antes?
Isso depende, depende do jogador, depende do clube. Quando falas com um presidente o discurso tem de ser diferente daquele que tens com um treinador e é óbvio que há sempre relatórios. No caso do Benfica, havia uma relação de proximidade muito grande com o presidente, o que é, para mim, um dos fatores de sucesso do Benfica nesta área. Nunca aconteceu enviar um relatório e só dez dias depois é que liam o relatório, por exemplo. Não, o relatório era enviado e lido no próprio dia, havia um telefonema para conversar, havia uma relação muito próxima que permitia alguma rapidez no avançar para uma contratação.

Mas no início, quando ainda não tinham sido feitos muitos negócios de sucesso, como é que explicavas a alguém que ele tinha mesmo de contratar aquele jogador?
Isso é sempre uma questão de confiança, que se põe a toda a gente que trabalha nesta área, até ao Monchi [risos]. Quando mudas de um contexto onde estás inserido, onde as pessoas já têm confiança em ti, para outro diferente, é natural que tenhas de mostrar serviço e normalmente até teres uma prova de sucesso há sempre alguma desconfiança. No Benfica, como é óbvio, ao princípio havia alguma desconfiança, mas a partir do momento em que houve algumas situações que resultaram bem, não só desportivamente mas financeiramente, a confiança obviamente cresceu e depois já não era preciso explicar tanto por que razão é que aquele jogador era bom ou não. Tudo isso depende também muito da visão do clube, se quer jogadores só para o rendimento desportivo ou se também quer valorizá-los mais tarde.

Numa conferência em que te ouvi a relatar algumas experiências, disseste que tinhas visto o Eden Hazard com 16 anos. É difícil contratar um rapaz de 16 anos?
Isso aí é que é mais difícil. Porque vês que há um jogador que tem um talento enorme, mas também sei que é difícil convencer um presidente a pagar um balúrdio por um miúdo de 16 anos que, por um lado, não está pronto para jogar na equipa principal, mas por outro lado sabes que se não o fores buscar naquela altura nunca mais o vais conseguir ir buscar. E esse é hoje o grande desafio dos clubes - não daqueles clubes que podem pagar €60 milhões pelo Vinicius ou pelo Rodrygo, brasileiros com 17 anos, como fez o Real Madrid agora. Nós sabemos que há jogadores que só dá para ir buscar naquele momento, só que naquele momento eles ainda não estão prontos para jogar na equipa principal e não estando prontos para jogar na equipa principal corres sempre o risco da imprensa e do público achar que são flops: "Então para que é que pagaste €10 milhões por um miúdo de 16 anos que não joga na equipa principal?" Mas se não pagares naquela altura, passa um ano e já não consegues ir buscá-lo. Dou-te o exemplo do Rodrygo, o miúdo do Santos que o Real Madrid comprou por €60 milhões. Um miúdo que nasceu em 2001, atenção. 2001. Esse miúdo, para teres uma ideia, em novembro do ano passado custava €15 milhões. O que, para um miúdo de 2001, já é muito dinheiro, não é? E tu convenceres alguém que tem de pagar €15 milhões por um miúdo de 2001 é complicado. E quando convences, passado um mês ou dois, se calhar esse jogador já custa €60 milhões.

Iam buscar o Rodrygo?
[risos] Falou-se disso. Mas percebo que pagar €15 milhões por um miúdo que na altura até tinha 16 anos... Tu dizes assim: este miúdo chega aqui e joga na equipa do Benfica? Ou do Sporting ou do FC Porto, tanto faz. Com 16 anos, não sei. Pode dar ou não dar, o treinador pode ter medo de pô-lo a jogar e depois pagas €15 milhões por um jogador que passado uns meses toda a gente começa a dizer que foi um flop porque não joga.

E a partir do momento em que entra um clube como o Real Madrid na corrida, já não há hipótese? 
Não. Ou os clubes ingleses, por exemplo. Por isso é que no scouting em Portugal tens de ser muito rápido e tens de correr riscos. Porque se queres ter a certeza... O caso do Rodrygo é um bom exemplo. Ele era um miúdo que jogava na equipa sub-20 do Santos e ali já vias que ele tinha muita qualidade. Mas quando é que tens a certeza que aquele miúdo realmente pode jogar a um nível mais elevado? Quando ele começa a jogar na equipa principal do Santos. A jogar e a fazer a diferença. Tu aí percebes claramente, mas aí percebes tu e já perceberam todos os clubes do mundo [risos]. Aqui a questão que se coloca é tu correres o risco na altura exacta, pelos valores que são. O caso, por exemplo, do Jovic ou do Zivkovic, para falar de jogadores que vieram para o Benfica, são assim: ou ias buscar naquela altura ou então se deixasses passar mais algum tempo o valor deles ia aumentar. Depois o que é que acontece: chegam aqui e são muito novos e às vezes a adaptação não corre como se esperava. Se calhar não estão prontos ainda para jogar a um nível principal e depois lá está: "Eh pá, este é um flop". Tenho muitas dúvidas de que o Jovic não venha a ser um dos melhores pontas de lança do mundo.

Tem muito a ver com essa pressão de se catalogar logo de flop?
Um bocado. Acho que às vezes a gestão que é feita dos jogadores - e aí não sei se a culpa é dos clubes, se é do entorno do jogador ou da própria comunicação social - não é boa, porque se eleva as expectativas para patamares demasiado altos e isso faz com que os adeptos fiquem à espera que um jogador de 18 anos chegue aqui e seja o melhor marcador da Liga portuguesa. Depois não é e é logo um flop. Por outro lado, também tens outra coisa em que os clubes portugueses têm uma desvantagem muito grande em relação aos outros clubes: o projecto que podes apresentar a um jogador destes. Ou seja, normalmente quando estamos a falar deste tipo de jogadores, que são jogadores internacionais, que os clubes já os viram nos Europeus ou Mundiais, quando vais falar com um jogador desses, normalmente ele já tem proposta de algum clube inglês ou alemão, por isso o projecto que tu lhes apresentas não pode ser... Deixa-me dar um exemplo que é mais fácil para as pessoas perceberem: o Jovic quando chegou ao Benfica era júnior. Já jogava na equipa sénior do Estrela Vermelha e já havia vários clubes alemães interessados nele, que lhe davam um projecto de equipa B, com alguma projecção para a equipa A, com salários muitos mais elevados do que aqueles que nós podíamos pagar. Então, como é que tu consegues convencer um jogador destes? Dando-lhe um projecto de equipa A. Só que muitas vezes eles não estão preparados para isso e quando chegam à equipa A... E depois quando os baixas para uma equipa B a motivação deles também vai abaixo, porque não era isso que eles esperavam. "Se fosse para ir para a equipa B tinha ido para o Dortmund", por exemplo. Isso depois afeta muito o rendimento deles em campo.

É muito solitário ser scout?
Sim. É solitário porque passas muito tempo longe da família e dos amigos.

Não há dias nem horários?
Não. Vives em hotéis e em aeroportos, a maior parte das vezes sozinho. Por outro lado, é provavelmente a profissão no futebol na qual as pessoas mais se ajudam. Não há rivalidades entre scouts de vários clubes. Damo-nos bem e quando estamos em sítios juntos acabamos por ser a companhia uns dos outros. Mas não deixa de ser uma profissão solitária, porque nunca tens aquele dia normal em que sabes que às sete da tarde sais e vais ter com a tua família. Passas muito tempo longe e vais quase sempre sozinho, viajas sozinho, almoças e jantas sozinho...

E nem sempre corre bem.
Ah, isso então éne vezes. Estás sempre fora do teu meio, da tua zona de conforto, com carros alugados, em sítios para onde nunca foste na vida, então isso normalmente proporciona-te sempre aventuras engraçadas. Por exemplo, uma vez voei para Paris e depois fiz 300 km propositadamente para ir ver um jogador a Nantes. Cheguei lá e ele estava a aquecer. Fui beber um café e quando voltei o jogador já não estava lá. E eu penso: "Onde é que está o único jogador que vinha ver?" Lesionou-se no aquecimento [risos]. E depois voltas a fazer 300km para Paris para no outro dia apanhares o avião e foi uma viagem perdida, basicamente. Há colegas meus a quem isso aconteceu na Argentina, o que é bem pior [risos]. São coisas que nós não controlamos, obviamente. Outra coisa que me costuma acontecer, por dormir tantas noites em hotéis diferentes, é, às tantas, já não me lembrar do número do meu quarto. Já me aconteceu ir pôr a chave num número de um quarto que era o do hotel anterior e aparecer-me uma pessoa a abrir a porta para saber o que se passa [risos].

Esse tipo de questões são incontroláveis, mas se formos pensar bem nisto, um scout não consegue controlar praticamente nada. Mesmo que acredites que um jogador é muito bom, não és tu que decides se ele é contratado, e mesmo que seja contratado, não controlas a adaptação dele e não controlas se será utilizado ou não.
Sim, sim, é uma incógnita muito grande, porque a maior parte dos factores não depende de ti, são factores externos que não controlas. A contratação depende sempre de alguém que está acima de ti, mesmo que a palavra final seja tua em termos desportivos, mas depois há sempre a parte financeira. Depois, mesmo que seja contratado, não és tu que o vais pôr a jogar, é o treinador. E depois ainda há a questão da adaptação a um país diferente. É verdade que é uma profissão em que controlas muito pouco, a não ser a ideia que tens sobre a qualidade - ou não - do jogador.

Os jogadores sobre os quais davas aval de contratação - Witsel, Zivkovic, Markovic, etc - conheciam-te? Sabiam quem és?
[risos] A maior parte das vezes não sabem. São capazes de passar por nós no corredor e não saber. Mas também não é muito importante que o saibam.

Nestes últimos anos, começou a falar-se mais do scouting do Benfica, por ter acertado uma série de negócios.
[risos] Começou-se a falar muito, principalmente a nível internacional, principalmente pela forma agressiva como estávamos no mercado, porque chegávamos mais rápido do que os outros - ainda os outros estavam a ver e já nós os tínhamos contratado. E depois é claro que teve muito a ver com os preços pelos quais vendíamos os jogadores. Houve realmente uma altura em que tinha colegas scouts que me diziam assim: "Eh pá, nós fomos todos chamados pelo chefe a perguntar porque é que não vimos este jogador que o Benfica viu e agora vamos ter de pagar três ou quatro vezes mais por ele". [risos] Isso tem a ver com a agressividade com que os clubes portugueses - e aí não é só o Benfica, porque houve uma altura em que o FC Porto também trabalhava muito bem - se movimentam no mercado. Também porque se não for assim, de forma agressiva, depois não têm hipótese nenhuma. Sendo Portugal um país que até nem tem muita tradição no scouting, porque como já te disse há quatro clubes com scouting, a verdade é que os clubes que o tinham, neste caso mais o Benfica e o FC Porto, acabaram por ter uma visibilidade internacional muito grande, o que permite que os scouts portugueses sejam requisitados e saiam para clubes estrangeiros, como é o meu caso agora. Se falares e andares no meio, vais perceber que um scout inglês, por exemplo, demora muito tempo a tomar uma decisão e os portugueses são muito mais rápidos, com os riscos que isso acarreta, claro, para o bem e para o mal. Não precisamos de ver tantas vezes e não temos tantas dúvidas sobre o valor dos jogadores.

Achas que isso acontece porquê?
Acho que também tem a ver com questões culturais, porque nós somos mais desenrascados e achamos sempre que sabemos as coisas primeiro do que os outros.

Se calhar os ingleses também se focam mais em questões de análise quantitativa do que qualitativa? 
Sim, eles também trabalham muito com isso. Mas pronto, sempre foram assim, são muito indecisos. Os jogadores têm sempre todos defeitos. Costumo dizer que quanto mais vês um jogador, mais defeitos ele tem. Porque é natural. Tu olhas para o Messi e consegues arranjar-lhe defeitos - e é o melhor jogador do mundo - e o mesmo para o Ronaldo. E eles são muito assim: olham, olham, olham, tudo ao pormenor, depois muita gente a ver, depois opiniões diversas e depois não avançam para a contratação. E depois o que é que acaba por acontecer? Chegam os últimos dias do mercado e os ingleses compram qualquer coisa [risos].

Como podem pagar...
Sim, também tem muito a ver com isso. Têm um poder económico completamente diferente. O Fulham recentemente pagou €20 milhões por um jogador e o Fulham acabou de subir à Premier League. Eles têm essa facilidade, o que lhes permite também demorarem mais tempo e comprarem mais tarde. Mas o que me faz confusão neles é que ponderam muito e depois acabam por comprar pior.

Com a tua saída, o departamento de scouting do Benfica fica bem entregue?
Sim, completamente. A estrutura mantém-se praticamente igual, entra o Pedro [Ferreira], que estava na formação e que fez um excelente trabalho, basta ver aquilo que tem sido a quantidade de jogadores que o Benfica tem lançado, não só na primeira equipa como também nessas equipas pela Europa fora. Tudo aquilo que é hoje a formação do Benfica é uma referência na Europa e isso tem muito a ver com a qualidade dos jogadores, ou seja, não há boa formação se não escolheres bem os teus jogadores. Podes ir buscar os melhores treinadores do mundo, mas se lhes meteres paralelepípedos para treinar eles não conseguem fazer dali nada. Esqueçam lá isso. Portanto, o departamento fica muito bem entregue, porque o Pedro tem uma ideia muito boa do jogo e das características que devem prevalecer naquilo que é um bom jogador.

E quais é que são essas características que referes? Porque há uns anos o recrutamento na formação tinha como um dos critérios a altura dos jogadores, por exemplo.
Pois. Agora isso já não era assim, com o Pedro seguramente que não. O que se vai passar a seguir não sei. Em relação ao Benfica estou mais preocupado com o que se vai passar na formação com a saída do Pedro do que com o scouting no futebol profissional, porque acho que aí não vai haver grande diferença. Com maior ou menor dificuldade, o Pedro vai perceber como tem de se movimentar no futebol profissional, porque qualidade ele tem e porque o resto das pessoas continua na estrutura. Na formação, o Pedro foi nos últimos anos o responsável por estes bons talentos que o Benfica tem tido e não por jogadores grandes e altos. Aquilo que se vai passar agora é que me preocupa mais, porque não sei como é que vai ficar entregue.

Já começaste a trabalhar no Shakhtar Donetsk?
Sim.

Qual foi a impressão, comparando com o Benfica?
Sem querer estar aqui a entrar em grandes romantismos, o Benfica é um dos maiores clubes do mundo, em termos de adeptos e do impacto social que tem, é uma coisa impressionante. Um dia estava a chegar ao Estádio da Luz, ali numa rua inclinada que tem um semáforo, e sem querer deixei descair um pouco o carro e bati no da frente. Saí, pedi desculpa e disse ao homem para preenchermos os papéis. Ele fica a olhar para mim, até que pergunta: "O senhor é o José Boto do Benfica?" Respondi que sim. E ele diz assim: "Ó homem, então vá lá trabalhar, não se preocupe, vá embora". Meteu-se no carro e foi-se embora [risos]. Conheço bem a Europa do futebol e posso dizer que não há muitos clubes com o impacto que o Benfica tem. Nisso é óbvio que o Shakhtar não tem a mesma dimensão, até porque é um clube que era de uma zona na Ucrânia e neste momento nem sequer está lá, está desterrado da sua zona natural de adeptos e daquilo que é a sua implementação social. O clube neste momento está sediado em Kiev e logo aí é uma diferença grande, porque não está na sua zona. Agora, a nível de recursos é um clube que tem pelo menos o nível do Benfica, porque é um clube completamente moderno, que até me surpreendeu a nível de tudo o que é a estrutura, para um clube que ainda por cima está fora da sua zona. Porque o clube tinha um estádio que era um dos melhores da Europa, tinha uma academia brutal e de repente teve de abandonar isso tudo e criar novas estruturas, mas tudo o que está a criar é top. E depois é um clube que nos últimos anos tem dominado a liga ucraniana, é presença assídua na Liga dos Campeões e em 2008/09 ganhou a Liga Europa.

Em termos financeiros tem mais poder do que o Benfica?
Sim, mas também tem targets diferentes. Ainda estou um bocado a perceber o clube, porque entrei há pouco tempo...

Mas já percebeste que vais ver muito Brasileirão, porque contratam muitos brasileiros.
[risos] Sim. Mas eles contrataram-me também para terem uma abrangência maior no scouting e organizarem melhor o departamento, com base de dados, para ser um clube sempre presente em tudo o que são grandes competições, tal como o Benfica estava. É óbvio que por uma questão de tradição, por algo que tem funcionado bem, o mercado brasileiro é prioritário. Se olharmos para aquilo que era agora a selecção brasileira, tinha dois jogadores que jogavam no Shakhtar e mais três que já tinham passado antes pelo Shakhtar: o Fernandinho, o Willian e o Douglas Costa. Portanto, num universo de 23 jogadores ter cinco internacionais que passaram pelo Shakhtar é um sinal de que se tem trabalhado bem nesse mercado.

Isso acontece porque é um mercado barato e com muito talento bruto?
Não é tão barato assim, porque os jogadores talentosos agora saem por €60 milhões [risos]. Mas o Shakhtar é uma boa porta de entrada para os brasileiros, assim como foi há uns anos Portugal. O clube está na Europa, tem um bom nível, joga na Champions League e isso é apelativo para um jogador. Se calhar o Shakhtar é mais apelativo para um jogador brasileiro do que para um jogador português, por exemplo.

Gostas de ver os jogos brasileiros?
Gosto, porque é talvez dos poucos sítios onde o talento ainda se sobrepõe a tudo. Os jogos são um bocadinho anárquicos em termos tácticos...

É mais fácil observar um jogador assim?
É, é, porque tu vês aquilo que o jogador vale. Como o jogo não é muito controlado pelos treinadores, felizmente, tu consegues ver o jogador naquilo que é natural dele: o entendimento que ele tem do jogo, a sua qualidade técnica, as decisões que toma, que não são padronizadas, são mais o que lhe sai da cabeça... E é por isso que são um produtor de talentos como não há mais nenhum no mundo.

Na altura em que o Jorge Jesus foi para o Sporting, falou-se que ele te tinha convidado para o acompanhares. Foi assim?
Prefiro não responder. Isso são coisas que já passaram, já estão no passado.

E agora antes de anunciares que ias para o Shakhar falou-se no interesse do Manchester United.
Não, ninguém falou comigo sobre isso. Se calhar também é importante esclarecer bem isto, porque na última assembleia geral do Benfica até confrontaram o presidente com a minha saída: a decisão de sair foi minha e foi apresentada ao presidente quando já estava tomada. E queria também dizer, para que as pessoas o saibam, que o presidente, mais do que ter sido meu presidente durante estes 11 anos, é também um amigo. Portanto, quando falei com ele e apresentei a minha decisão já não havia volta a dar, porque tinha a ver com a minha vontade de sair de Portugal e experimentar outros desafios. E também tinha a ver com a possibilidade de poder trabalhar com um treinador que, em termos daquilo que são as ideias de jogo, se aproxima mais de mim - ou melhor, eu é que me aproximo mais dele - do que com os outros treinadores com quem trabalhei até agora. E também teve a ver com o projecto do clube e com a forma como mo apresentaram, através do CEO do Shakhtar, Sergey Palkin, que é uma pessoa espectacular. Quando ele me apresentou o projecto, fiquei logo apaixonado. Portanto, quando falei com o presidente, já era uma decisão tomada, não era uma questão de dinheiro, nem nada que se pareça, porque não havia mais dinheiro que me fizesse ficar. O presidente tentou demover-me, mas depois também percebeu as minhas razões para querer mudar de ares e continuamos amigos.

Gostas das ideias do Paulo Fonseca?
Sim, em termos daquilo que é a sua ideia de jogo, ele é, para mim, dos melhores treinadores portugueses - talvez o melhor mesmo. O que é diferente de ser o melhor treinador português ou não, isso já é outra coisa. O melhor treinador é aquele que ganha. É a única forma que tens de ver isso. O gajo que ganha é melhor do que o gajo que perde, pronto. Mas depois há uma questão de gosto e daquilo em que tu acreditas, e nisso o Paulo é, para mim, o melhor treinador português, porque tem uma maneira de jogar com a qual eu me identifico.

Então não gostas muito das ideias de Rui Vitória e Jorge Jesus.
São treinadores com os seus méritos, como é óbvio, mas em termos daquilo que é a ideia de jogo, estou muito mais próximo do Paulo do que qualquer treinador que tenha passado pelo Benfica desde que lá entrei.

Estavas a dizer que o melhor treinador é sempre aquele que ganha. E o melhor scout?
É difícil dizer. Se calhar é aquele que acerta mais vezes. Mas como o acertar mais vezes não depende de ti... Imagina isto: tu aconselhaste dez jogadores a um clube médio da Europa. Nenhum desses dez jogadores deu no teu clube, mas os dez deram no City, no Liverpool, etc, depois de terem saído do teu clube. Então e agora? Como é que tu valorizas o scout? Podes sempre olhar para isto de duas formas: o scout não é bom porque não percebe o que o clube dele precisa ou então é muito bom porque foi buscar jogadores de qualidade que depois têm uma projecção muito maior.

Quando falei com o Gilles Grimandi, chief scout do Arsenal, ele disse que tu eras um dos melhores do mundo.
O Grimandi é um gajo porreiro [risos]. É uma pessoa que tem uma experiência enorme, com muitos anos de scouting, sempre como braço direito do Wenger. Se calhar o trabalho dele também era mais fácil porque conhecia perfeitamente o Wenger e sabia perfeitamente o que ele queria. Se calhar o Grimandi disse isso muito pela tal rapidez de decisão. Em 11 anos já vimos éne jogadores a aparecerem e acertámos em muitos. Como o Hazard, que vimos com 16 anos e achámos que ia ser top mundial - e depois se ele realmente chega lá isso também te dá um certo reconhecimento por parte dos colegas. Às vezes há casos em que há colegas têm dúvidas e eu atravessava-me logo por eles e dizia que aquele ia dar, e depois se dava...

Por exemplo?
O Courtois e o De Bruyne, por exemplo. Vi-os ainda muito novos, na altura em que saltaram dos juniores para a equipa principal do Genk e ainda não eram titulares. Alguns colegas na altura tinham dúvidas, porque o De Bruyne era muito mole, não tinha intensidade e não sei quê, mas pronto, isso é normal, às vezes achamos umas coisas e às vezes outras.

Mas dá para apontar uma lista de melhores scouts do mundo, como se faz com os treinadores?
Acho que não. Tens é pessoas que são muito experientes na área e que conseguem ter uma flexibilidade grande para perceber o que os treinadores e os clubes querem, e que também têm uma capacidade para dirigir bem os departamentos de scouting, rodeando-se das pessoas certas. Se calhar é mais fácil dizeres o que é um bom chief scout do que um bom scout. Porque um scout também depende muito... Não vou dizer o nome dele, mas tenho um amigo meu que trabalhava para um clube francês de nomeada e ele dizia-me: "Eu não sou scout, eu sou fazedor de relatórios. Eu faço relatórios e depois ninguém os lê". [risos] Assim nunca sabes se essa pessoa é boa ou não, porque ninguém a ouve. Há clubes onde realmente isso se passa, há scouts mas depois ninguém lhes liga muito.

Temos agora um mês de mercado pela frente. O que te parece que os clubes portugueses podem conseguir?
Acho que, nesta altura, com o mercado em plena ebulição, o que os clubes portugueses normalmente conseguem, como têm provado nos últimos anos, são alguns jogadores que são mais-valias para a nossa liga, já com bons CVs, com experiência, e que não estão a dar e são descartados por clubes maiores. O foco é mais esse, já ninguém vai ao mercado agora para ir buscar um jovem de futuro, porque isso já houve o ano todo para ver. É altura de os clubes ficarem atentos, porque às vezes as coisas aparecem. Por exemplo, tenho uma história gira que acho que as pessoas não sabem, sobre o Aimar. Eu e o Rui Costa adorávamos o Aimar. E houve uma altura em que lhe disse: "Ó Rui, olha que o Saragoça está para descer". E ele: "Eh pá, se calhar é uma boa altura para tentarmos o Aimar". E então todos os domingos trocávamos mensagens a festejar as derrotas do Saragoça [risos]. Coitados deles, mas nós estávamos a torcer para que perdessem e descessem de divisão, para depois irmos buscar o Aimar. Portanto, aqui nem é uma questão de scouting, é uma questão de perceber as oportunidades e isso também acaba por fazer parte de um gabinete. Se perceberes que um jogador vai deixar de ter espaço num sítio, podes atacar essa oportunidade, no momento certo.

Pois, ia dizer-te que se calhar neste mês um scout até nem tem muito para fazer, mas pelos vistos até tem, numa outra perspectiva.
Pois, isto depende sempre dos clubes. No meu caso, no Benfica e no Shakhtar, nós avaliamos aquilo que são as oportunidades que surgem no mercado. Se nos dizem que há a possibilidade de contratar determinado jogador, temos de ver se vale a pena ou não. Ou seja, não podemos tirar férias nesta altura. Um scout que tire férias nesta altura é porque não tem muita importância no clube [risos]. 

Quando tira férias então?
Em Setembro, quando fechar o mercado.

E no dia 31 de Agosto...
[interrompe] Quando está toda a gente a bombar. Isso é uma estupidez, uma coisa criada para vender. As pessoas fazem do dia 31 a loucura total e depois não conseguem uma contratação por dez segundos... Acho que isso revela pouco profissionalismo dos clubes, porque tens dois meses, quer dizer, tens um ano inteiro para fazer as coisas. Acredito que há oportunidades que surgem nesta altura, até porque há um clube à espera de contratar um jogador para depois libertar outro e tu ficas à espera disso, mas depois não percebo essa loucura: "Faltam 20 minutos para fechar o mercado!" [risos]

Das contratações que temos visto neste mercado em Portugal, quem destacas?
Acho que o Estoril - e estamos a falar de um clube da 2ª divisão, atenção - foi buscar um jogador, o [Renat] Dadashov, que é um ponta de lança que pode ser um dos melhores pontas de lança da Europa, desde que o clube consiga que ele se centre naquilo que ele deve fazer, que é jogar futebol. Ele foi titular nas seleções jovens da Alemanha e entretanto decidiu mudar para o Azerbaijão, porque o pai é do Azerbaijão, e esteve no RB Leipzig e no Frankfurt. É conhecido por ter um feitio especial [risos], mas se conseguir moldar aquele feitio pode ser um caso sério, por isso acho que é um jogador que se deve seguir com muita atenção. Assim de repente é dele que me lembro, dos menos evidentes. Não vale a pena estar aqui a falar do Ferreyra, que já toda a gente conhece.

E relativamente aos jovens portugueses?
Acho que há três jogadores da formação do Benfica que têm todas as condições para serem jogadores de top mundial: o Félix, o Dantas e o Gedson. O Gedson porque tem condições ímpares, é daqueles jogadores que vai agradar a gregos e a troianos, porque fisicamente é um jogador forte, mas é inteligente e bom tecnicamente, e se for bem enquadrado pode jogar em qualquer tipo de modelo de jogo que o treinador queira. O Gedson já está pronto e os outros em breve. Mas os três têm tudo para chegar ao top mundial.

E fora do Benfica?
O Dalot, que saiu para o United, por exemplo. O Diogo Costa, guarda-redes que está na selecção sub-19, também pode ser um jogador de topo.

Há jogadores que andamos a desaproveitar?
Há alguns jogadores que acho que têm qualidade para mais e tenho alguma pena por ainda não terem dado, se calhar os treinadores também não souberam retiraram o máximo deles. Lembro-me do Francisco Geraldes, que para mim tem um potencial e um talento incríveis, e do próprio Podence também. Para mim, estes dois jogadores já deviam estar num patamar acima daquele em que estão. 

Dos óbvios não vale a pena falar, porque toda a gente vê, mas quem é te deixou uma boa impressão no Mundial? Ou o Mundial não é sequer um bom sítio para ver seja o que for?
Pois, acho que o Mundial não é um sítio nada bom para ver jogadores. Primeiro, porque é uma competição muito específica. Depois, porque os jogadores chegam em condições físicas e psicológicas até algo debilitadas, porque estão fartos de estágios e de uma época inteira, portanto o Mundial às vezes até é mais uma chatice e não os vês na sua plenitude. Por outro lado, se não conheces os jogadores que chegam a um Mundial, então não conheces ninguém [risos]. Agora, das selecções menos óbvias, das que acompanhamos menos as Ligas, houve um jogador que me surpreendeu bastante, embora já o conhecesse antes: o Arzani, da Austrália. Acho que é um jogador que daqui a uns anos pode estar noutro patamar.

É engraçado, porque ele sempre que entrava, entrava bem, mas não chegou a ser titular.
Acho que as selecções muitas vezes têm pouco a ver com a qualidade do jogador e mais com o peso que ele tem no grupo. E se calhar o jogador que jogava ali tinha peso no grupo e não dava para encostar, por exemplo. Porque ele cada vez que entrava mostrava qualidade acima da média da selecção dele. 

Gostavas de ser scout, por exemplo, no Real Madrid, onde podes comprar tudo o que te apetecer? 
Bom, mas o Real Madrid até é dos clubes que anda a trabalhar bem no scouting. Tudo o que é bom jogador espanhol eles têm conseguido e estão a ter mais talento do que o Barcelona.

Porque veem antes ou porque pagam mais?
Pois, aí é que já não sei. A capacidade financeira obviamente sabemos que têm. Pagar €60 milhões por um jogador de 2001, que ainda nem pode vir para a Europa porque tem de fazer 18 anos... Agora, que eles estão a ir buscar o talento, tanto espanhol como brasileiro, isso estão.

Mas a minha pergunta era mais no sentido...
Eu percebo, é: "Então quer o Ronaldo ou quer o Messi?" Acho que não me dava gozo fazer isso. Para tomar esse tipo de decisões acho que os clubes nem precisam de scouts. É perguntar ao treinador: "Prefere o Ronaldo ou o Messi?" E depois compram o que querem."

Benfiquismo (CMIX)

Wembley...

Jogo Limpo... Seara & Guerra

Alvorada... do Ricardo

Eu gosto é do Verão

"Ah, como eu gosto da pré-época! Todos os sonhos são possíveis. Imaginem vocês que uma equipa retalhada - alvo de processos, com as suas principais figuras a fugirem para bem longe do balneário, quase na falência e sem direcção efectiva - consegue vender-se à comunicação social como candidata ao título. A um qualquer título, aliás. É nestes meses sem futebol interno que até um veterano dirigente de um clube condenado por corrupção consegue inventar sermões de ética para parecer sério. Ele que dirige e pactua com um grupo organizado de cadastrados conhecidos pelos seus feitos em centros de estágios de árbitros, imediações de tribunais e relvados/pelados de escalões secundários.
É lindo o verão. Cobrem-se com máscaras de vitória ou de honestidade quando todos sabemos aquilo que andaram a fazer nos Invernos passados. E nas Primaveras e nos Outonos, de há décadas para cá. Entre mandantes e lacaios, há a crença de que o SL Benfica perdeu a hegemonia do futebol e do desporto em Portugal. E estão tão enganados, meus caros benfiquistas. O que se passou na época passada foi somente o Glorioso ter perdido um campeonato. Não foram os outros que o ganharam. Por diversas circunstâncias, o líder natural perdeu pontos onde não poderia perder, e os competidores - à base de bancadas defeituosas (isso já foi resolvido?), momentos de 'azar' dos defesas contrários e pontapés de sorte - aproveitaram o deslize. Sem brilho e sem chama, como é natural para aqueles lados.
Vou desanimar por causa disso? É que nem pensar. Nem eu nem vocês deixamos de acreditar no curso natural das coisas: a nossa supremacia."

Ricardo Santos, in O Benfica

O craque Almeidinhos

"Deu um contributo assinalável para o tetra, alcançou os melhores números da carreira em termos individuais na última temporada e, ainda assim, há quem torça o nariz perante a possibilidade de André Almeida assumir a titularidade do lado direito da defesa mais uma época. Sei respeitar opiniões contrárias. Aliás, estou calejado para a exigência suprema do Tribunal da Luz desde que vi a mãe do Cardozo receber algumas palavras, digamos, não muito agradáveis, depois de o Tacuara perder um lance em velocidade com o Mangala. Ainda assim, acho que está na altura de até os mais inflexíveis reconhecerem a devida qualidade ao nosso Almeidinhos.
Como se chama aquele jogador que foi amarelado no Dragão aos 60 segundos de jogo e sobreviveu com distinção os outros 89 minutos dentro de campo? André Gomes Magalhães de Almeida. Quem foi o anjo da guarda que, em cima da linha de golo, impediu por duas vezes no espaço de cinco segundos o empate do Vit. Guimarães na Luz em 2015/2016? André Gomes Magalhães de Almeida. Como se chama o artista do golaço ao Portimonense na época passada com o jogo empatado a pouco mais de dez minutos do final? André Gomes Magalhães de Almeida. Então e o durão que deu aquele encosto no rapaz de cabelo porco-espinho e, acto contínuo bateu com toda a pujança no emblema mais valioso do planeta? André Gomes Magalhães de Almeida.

A não ser que seja possível trazer o Kyle Walker do Manchester City, não vejo solução mais segura do que o Almeidinhos. Mas claro que, se o presidente quiser trazer o Kyle Walker, não serei eu a opor-me. Rui Vitória teria uma boa dor de cabeça. Mantendo o cenário com a perinha e o bigode, até acho que o André levaria vantagem."


Pedro Soares, in O Benfica