"Na minha infância quase não
havia futebol na televisão. Apenas eram transmitidos alguns
jogos da selecção no estrangeiro, a final da Taça dos Campeões e pouco mais. O Mundial
era, também por isso, uma
festa para os adeptos. Mesmo
sem a participação portuguesa
(em todo o século XX só houve
Magriços e Saltillo), o facto de
durante um mês termos jogos
diariamente na TV era suficiente para viver esse período com
enorme entusiasmo.
Recordo-me vagamente do
Argentina 1978, mas sobretudo
do Espanha 1982, quando
Maradona, Rummenigge, Zico,
Sócrates, Falcão, Platini e
Rossi, entre outros nomes lendários do futebol, fizeram as
delícias de um jovem ávido de
jogos e golos em quantidade
suficiente para alimentar a sua
paixão
Nesse tempo, as principais
selecções eram mais fortes do
que qualquer clube. Havia poucas transferências, e os clubes
tinham limite de estrangeiros –
não se assemelhando sequer
às multinacionais sugadoras
de talento que hoje vemos em
alguns campeonatos. Por isso,
os Mundiais eram o palco para
o melhor futebol, para a revelação de jogadores, e até para as
inovações tácticas. Esse lugar
foi tomado nas últimas décadas pela Champions League e
pelas principais ligas nacionais
da Europa, que durante todo o
ano, e quase diariamente,
vemos na televisão em doses
desmesuradas.
Em parte, o fascínio pelo Mundial já não é, pois, o mesmo.
Vamos ter jogos na televisão
diariamente… como no resto do
ano. Vamos ver equipas cansadas a pedir férias e longe do
fulgor físico e táctico a que
estamos habituados. Algumas
delas longe, muito longe, do
nível técnico dos principais clubes europeus.
Tudo se perdeu? Não. Ganhámos uma selecção portuguesa
candidata legítima ao título de
campeã do mundo – o que em
1978 ou 1982 era absolutamente fantasioso. Veremos se essa
ambição se concretiza."
Luís Fialho, in O Benfica

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