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quarta-feira, 24 de junho de 2026

A verdadeira descoberta da América é encontrar a porta de saída


"Sempre brinquei que Lisboa está para o país como os Estados Unidos estão para o mundo: fora das fronteiras, ninguém conhece mais nada. O que é um exagero, claro: uns conhecem o Alentejo e o Algarve, outros conhecem o Caribe, onde vão passar férias.
Brincadeiras regionalistas à parte, é verdade que sempre gozámos com os americanos por serem um desastre a geografia: daquelas pessoas capazes de apontar para a África quando se lhes pede para encontrar determinado país europeu num mapa. Agora, a viver este Mundial por dentro, finalmente fez-se luz e percebi a raiz do problema.
Não é que eles ignorem o resto do planeta, eles simplesmente não conhecem o próprio bairro.
Como é que podemos exigir que saibam onde fica Cabo Verde se eles não fazem a menor ideia de onde fica a Porta 7 do estádio onde trabalham?
A prova dos nove está na organização (ou falta dela) nos recintos. Pedir indicações para qualquer coisa é um exercício de futilidade absoluta. Há poucas placas, o staff não sabe de nada, mas o mais fascinante é a confiança inabalável com que te mandam para o lado errado.
Um americano pode não saber como se sai pela Porta 6 ou onde se apanha o shuttle, mas vai dar-te indicações detalhadíssimas, cheias de certezas, sempre repetidas uma, e outra, e outra vez. São tão convictos que até te fazem duvidar de que não sabem nada.
Tentar entrar ou sair de um estádio, portanto, transforma-se numa autêntica peregrinação a Santiago de Compostela, mas sem setas amarelas a indicar o caminho e sem um único albergue para descansar as pernas.
Anda-se quilómetros em círculos, guiados pela simpática ignorância local, a expiar os nossos pecados no asfalto, até percebermos que a verdadeira descoberta da América, por estes dias, não é chegar cá.
É conseguir encontrar a saída."

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