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segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Benfica, PAOK, Zivkovic: a única esperança é a de que a tragédia grega tenha servido de lição. Afinal, para isso é que servem as tragédias


"As tragédias são sempre gregas. Coitado do Aristófanes! Escreveu muitas comédias, mas ninguém fala em comédias gregas. Coitados dos trágicos alemães! Escreveram muitas tragédias, mas ninguém fala em tragédias germânicas. A única tragédia concebível é sempre grega. E como acontece normalmente com as tragédias, já se estava mesmo a ver onde é que isto ia dar. Sai o PAOK na rifa e os olhos saltam logo para o hipotético adversário no play-off, afastando a equipa grega como se fosse um mosquito incómodo a zumbir-nos aos ouvidos.
Os gregos antigos chamavam-lhe húbris e os heróis caíam fatalmente, tragicamente, nas suas armadilhas. Querer voar com asas de cera, coisas assim. E depois vinha a inevitável hecatombe. Não no sentido original. Hecatombe era o sacrifício de cem cabeças de gado que os gregos ofereciam aos deuses. Hoje é sinónimo de desastre, de catástrofe – outra palavra de origem grega que etimologicamente significa “virar para baixo”, virar subitamente o mundo de pernas para o ar – mas imagino que a direção do Benfica não se importaria de fazer uma hecatombe para que a catástrofe tivesse sido evitada e a nuvem da crise – outra vez os gregos – não tivesse ficado a pairar sobre o clube depois de a temível e caríssima esquadra troiana ter sido eliminada por pobres pescadores de Salónica. 
Não acreditam em divindades? Eu também não, pero que las hay, las hay. Veja-se o cruel sentido de humor que gostam de exibir. De outra maneira, como explicar que o segundo golo do PAOK saísse das botas de Zivkovic? Depois de meses de negociações, o Benfica lá se conseguiu livrar do peso salarial e físico do sérvio, libertando espaço para os ordenados milionários das novas contratações. Estava-se mesmo a ver – é assim, repito, nas tragédias, está-se mesmo a ver – que aquele aparente ato de boa gestão e o suspiro de alívio coletivo nos gabinetes da SAD teriam consequências insuportáveis. E Zivkovic lá marcou o golo que Sófocles ou Ésquilo o teriam posto a marcar.
Logo após o jogo, Jorge Jesus apareceu aos jornalistas em tom menor, estranhamente calmo, reflexivo e merencório, a falar em coisas positivas, como se tivesse acabado de empatar um desimportante jogo de pré-época contra o Sacavenense. O discurso analítico, anti catastrofista, parecia paradoxalmente irreal, o discurso de um homem que, no meio dos escombros após um terramoto de 9.1 na escala de Richter, aponta para a casa que resistiu e diz que, apesar da desgraça, nem tudo é mau porque na primeira parte, antes do tremor de terra e da derrocada, até estava um belo dia de sol.
Talvez este seja o novo Jesus, o Jesus transfigurado pela sua experiência no deserto arábico e pela aventura no Brasil, um Jesus que não se ajoelha perante as catástrofes, que sacode o pó das vestes e segue para Famalicão ou para outra terra qualquer a fim de cumprir a missão a que se propôs. Se, por um lado, esta nova serenidade confunde o adepto que ao primeiro desaire range os dentes e grita como um condenado, por outro, torna-o mais cerebral e menos oito-ou-oitentista, trazendo-lhe à memória aquela velha frase do evangelho do próprio JJ: isto não é como começa, é como acaba.
Só que o adepto não tem maneira de ver o futuro. Não lhe foi concedido o privilégio dos áugures. (Para dizer a verdade, o adepto também raramente consegue ver o passado para lá do último resultado). E nem cinco golos em Famalicão chegam para o sossegar. A única esperança é a de que a tragédia grega tenha servido de lição. Afinal, para isso é que servem as tragédias."

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