Últimas indefectivações

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Augusto Baganha: uma revolução moral

"Augusto Fontes Baganha (mais conhecido por Augusto Baganha) actual presidente do Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), nasceu em Coimbra, em 4 de Janeiro de 1951. Em 1975, ainda na Lusa Atenas, licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Faculdade de Ciências e, em 1999, completou o mestrado, em Gestão do Desporto, pela Faculdade de Motricidade Humana da Universidade Técnica de Lisboa. Como reforço dos conhecimentos, participou em 30 acções de formação, sendo de salientar as que se referem às áreas da gestão do desporto, da gestão da administração pública e da gestão orçamental pública. Foi um dos mais completos basquetebolistas da sua geração. Era um praticante de destra pontaria e de uma superior cultura táctica. Perfila-se, na história do basquetebol português, ao lado dos atletas de indiscutível grandeza. Vestiu 116 vezes o equipamento próprio da selecção nacional. E ainda treinou, no Clube Atlético de Queluz, os juniores e os seniores. Por fim, ao findar da década de 80, assumiu as funções, no Sporting Clube de Portugal, de director responsável, pela coordenação da actividade das modalidades de andebol, de atletismo, de basquetebol, de hóquei em patins. Vi-o jogar muitas vezes e transmitia ao gesto desportivo aquela beleza que é sinal de talento, numa palavra só: de classe! Por isso, hoje, quando fala de desporto, poda as palavras com o rigor de quem sabe do que fala. No entanto, a sua informação exaustiva, a sua destreza de raciocínio, o seu poder de penetração psicológica radicam numa longa experiência, que não teme cotejo, na direcção e gestão do desporto. Exímio praticante de uma conhecida modalidade desportiva, não é menos exímio no conhecimento que tem da gestão do desporto nacional e, acrescento sem receio, do desporto na “sociedade pós-capitalista” ou, na “sociedade do conhecimento”.
De facto, no tempo em que vivemos, o recurso económico básico deixou de ser o capital, ou o trabalho, ou os recursos naturais – o recurso económico básico é o conhecimento! Ficou célebre a fórmula de Nietzsche: “Não existem factos, apenas interpretações”. Não existem factos, apenas o que me permite perceber, principalmente, a minha história de vida. Lêem-se os pareceres do Dr. Augusto Baganha, escutam-se os seus discursos e cresce em nós a sensação que tudo o que faz, tudo o que diz constituem documentos de um desportista de admirável formação, de conhecimento original e seguro. Sem a dialéctica do jurista? Sem o economicismo do banqueiro, ou do homem de negócios? Sem a mentalidade dogmática dos grandes chefes políticos? Sem a verborreia dos oportunistas?... Mas com a mentalidade dos matemáticos: mentalidade silogística, precisa, lógica. E tão clara, tão retilínea que dispensa os lugares de relevo, nos “media” e nas redes sociais. Para ele, 2+2=4 e não lhe venham explicar, com uma hipertrofia pretensamente crítica, o que a matemática já concluiu. O Dr. Augusto Baganha, pelo rigor do seu método matemático e porque domina os temas que exigem a sua atenção, não diz o mesmo muitas vezes, não é pessoa para dar muitas respostas, mas para seleccionar e discutir tão-só as principais ideias. Aliás, quem fala demais é porque não tem nada para dizer. Creio que foi o Nietzsche que declarou que quem perde demasiado tempo a contar e a realçar aquilo que fez é porque, de facto, não fez grande coisa! Deste pecado de mediocridade ninguém pode acusá-lo: o presidente do IPDJ segue o modelo socrático (refiro-me ao Sócrates de Platão, o Sócrates do processo maiêutico) e não o modelo campanudo dos sofistas. Para o Dr. Augusto Baganha, as palavras são meios, não são fins…
Integrou com o Prof. Pedro Nolasco, com o Prof. Gustavo Pires, com um médico fisiatra (o Dr. Lourenço) e comigo um gabinete de estudos, na Direcção-Geral dos Desportos. Nesta mesma Direcção-Geral, foi Chefe de Divisão do Desporto Federado, foi Chefe de Divisão de Apoio às Actividades Desportivas, foi Vice-Presidente do ex-Instituto do Desporto, foi adjunto e chefe do gabinete de vários Secretários de Estado, foi Presidente do ex-Instituto do Desporto de Portugal, foi Secretário Executivo da Conferência de Ministros Responsáveis pela Juventude e pelo Desporto da CPLP. Foi Presidente do Comité Organizador dos VIII Jogos Desportivos da CPLP, foi Membro do Conselho Nacional do Desporto e é Presidente do Conselho Directivo do Instituto Português do Desporto e da Juventude. Manifestando, sem exibicionismos, as mais altas virtudes cívicas e desportivas, mais do que a lição do que já fez e fará, vai legar a quem lhe suceder o exemplo da sua vida. Toda a experiência que guardou da sua juventude e de praticante de um desporto altamente competitivo; os seus primeiros anos de técnico superior da Direcção-Geral dos Desportos e os que leva de alto dirigente, na Administração Pública – em tudo, muito aprendeu e muito quis aprender. A Sociedade do Conhecimento ensina, acima de tudo, a aprender, ensina-nos ao conhecimento e reconhecimento mútuos. Nos anos já distantes em que trabalhei ao seu lado e sempre que podemos conversar com alguma demora, torna-se evidente que, em Augusto Baganha, a sua vontade de aprender mais, de saber mais, de ser mais permanece intacta e ebuliente. De “ser mais”? Assim é, de facto, porque à concretização de um sonho ele se entrega, com diligência e denodo, com razões da razão e razões do coração: é preciso repensar a ética desportiva, no desporto nacional!
José María Cagigal, director do INEF de Madrid e um intelectual isento do pecado da mediocridade, respondeu-me assim a uma pergunta insistente: “Ao desporto, tanto em Portugal, como em Espanha, falta mais teoria do que prática”. E continuou: “A prática resolve-se com vontade política. Mas aos nossos países falta a teoria que é indispensável ao desenvolvimento. Nos nossos países, no desporto, há mais voluntarismo do que lucidez”. Esta minha conversa, que tem mais de 40 anos, com um mestre que foi um sangue novo, na teorização do desporto, na Europa, ganhou novo alento, quando li, anos depois, o livro do neurologista e psiquiatra, Boris Cyrulnik, L’homme, la science et la société (Éditions de l’Aube, Paris, 2000, p. 52): “O facto de ser médico neurologista e com muitos anos de investigação, na área da biologia, permite-me dizer que a condição humana é, em primeiro lugar, biológica, mas é como cultura que pode resolver os seus problemas, os mais complexos e os mais instantes”. Eu já me empolgara, anos antes, com o livro clássico de Arnold Gehlen, El Hombre (tradução e edição das Ediciones Sígueme, de Salamanca): “El hombre es un campo de investigación, en el que aun hoy día puede observarse un número indeterminado de fenómenos antes nunca vistos y a los que todavia no se há dado nombre” (p. 11). Porque o homem é tanto (ou mais) qualidade invisível do que quantidade visível; porque a ética é pessoal, antes de tudo, e reflecte portanto as nossas crenças, os nossos hábitos, os nossos projectos de vida - Augusto Baganha sabe que a ética desportiva surge sempre como reflexo da pessoa que o desportista é. E deixou-me portanto este desabafo: “O nosso desporto precisa de uma urgente e visível reforma ética. E não sei se a reforma ética, em que me encontro empenhado, com o apoio inestimável do PNED, não é, quase sempre, subalternizada pelo sensacionalismo de mentiras solenes, pelo ruído delirante de certas notícias e pelo vedetismo de alguns atletas e dirigentes”…
Deflagram casos sucessivos, na alta competição desportiva nacional, manifestando que uma oligarquia da mediocridade a manipula, a dirige, a corrompe. Ninguém, de sólida formação moral (como o Dr. Augusto Baganha), deseja um síncrono afã de “caça às bruxas”. Aliás, relembro o que já, há um bom par de anos, aprendi em Bergson: “o real é demasiado rico, para poder ser conhecido e previsto, com exactidão”. Mas, se com o 25 de Abril se procedeu a uma revolução política e a uma revolução económica e a uma revolução cultural, há necessidade de uma revolução moral, para que uma caravana de malefícios não se perpetue, no nosso país, já que continua ainda por aí acampada. E Augusto Baganha alerta, com emoção: “Falta-nos uma revolução moral. De que Portugal necessita, incluindo o nosso desporto, para que seja possível criar-se um consenso, entre pessoas de boa vontade. Sem ela, as outras revoluções não se concretizam”. E, sem disfarce, acentuou: “Não nos falta conhecimento científico. Mas falta-nos ética, por vezes. Na nossa democracia, as indecisões, as mistificações, as confusões, tão intensamente vividas pelos portugueses de todos os quadrantes ideológicos, são demasiadas vezes de ordem ética”. E, depois de um gesto mudo de desagrado, aduziu: “Fiz desporto altamente competitivo, durante tantos anos; joguei com tantos desportistas de irrepreensível conduta - que me dói, como uma dor física, que haja casos de violência, como o que se passou na Academia de Alcochete, e suspeitas de corrupção, no nosso desporto. Apetece-me dizer: O desporto não merece esta conexão com a corrupção e a violência”. É verdade que Virgílio quis destruir a “Eneida” e Cervantes por pouco não queimou o “Dom Quixote”, mas os motivos eram outros. Erradicar a violência e a corrupção de um espectáculo desportivo, onde os seus melhores intérpretes auferem milhões e milhões de euros, onde o dinheiro salta, em catadupas, é um sonho difícil. Mas saudemos este anúncio, esta promessa de um desportista, como o Dr. Augusto Baganha: é que ele entende, como uma missão a cumprir, a luta em prol de uma revolução moral, no futebol e no desporto nacionais. Saudemos portanto o Presidente do IPDJ."

Manuel Sérgio, in A Bola

Sem comentários:

Enviar um comentário

A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!