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sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O filho do carroceiro

"Tuberculose matou-lhe o pai, carta dum padre mudou-lhe o destino; Não quis assinar acta, nunca quis ser presidente

1. Nasceu, por Novembro de 1885, num casebre pobre da Travessa do Alqueidão, ao Lumiar, filho de um carroceiro - que haveria de morrer, tuberculose, 10 anos depois. Tinha então cinco irmãos - e a mãe, num ardume de lágrimas, pediu ao padre da freguesia que a ajudasse no que pudesse - para fugir à miséria...

2. A primeira ajuda do padre foi lembrar-se da Casa Pia - e em carta que de pronto escreveu (falando da «extrema pobreza? da viúva) suplicou ao Paço Real que providenciasse no sentido de lá lhe acolher o mais novo dos rapazes «para lhe dar educação que a desgraçada Rosa não podia».

3. Na CPL admitiram-no em Abril de 1896, atribuindo-lhe o número 2545 - e, do exame para lhe detectar o grau de instrução saiu como não sabendo ler e escrever - analfabeto como pai e mãe. Outra coisa se lhe percebeu depressa, porém: o jeito para «aprender bem tudo o que lhe ensinavam na escola».

4. Não tardou aperceberem-se-lhe outros jeitos - e empolgante espírito de iniciativa e de liderança. Arrastado por isso, em finais de 1901, entregou, a um director da Casa Pia, documento a requisitar «autorização para comprar uma bola de futebol» - juntando-lhe «lista de subscritores de 200 réis cada e de um regulamento para a prática do futebol por esse grupo de 14 alunos».

5. Aos 17 anos a Casa Pia de Lisboa achou-o «apto a ganhar os meios de vida», empregou-o como funcionário da administração da Casa Palmela. E ele fundou a Associação do Bem, para nela congregar os antigos alunos da CPL «com simpatia pelo desporto».

6. A Mário de Oliveira contou-o em Março de 1945 em A Bola: «Pensou-se, desde o princípio, nos jogadores que deram à Casa Pia a vitória estrondosa de 1897 contra os ingleses do Carcavelos, julgando-os dispostos a voltar ao jogo. Veio o primeiro treino,  marcado para o campo do Hipódromo de Belém, nele compareceram 24 jogadores. Ao segundo, no domingo imediato, apenas 18 - e ao terceiro 12 ou 13. E quando os treinos fundavam, os que podiam reuniam-se em almoço, na casa do António das Caldeiras, à esquina do Largo de Belém...»

7. Num desses treinos surgiu, afoito e exótico, figura que o espantou: «Apareceu como apareceria sempre depois: equipado por completo: Kepi preto, camisa branca, calção preto, meias e botas de futebol. Mas o que dava mais nas vistas era uma grande faixa sobre a camisa, a tiracolo, com as três cores da bandeira francesa. Não jogava, dava apenas uns pontapés». Era Manuel Gourlade, funcionário da Farmácia Franco - e a Associação do Bem transformou-o no seu treinador.

8. Querendo a Associação do Bem fazer partida contra o FC Lisbonense dos Pinto Basto - faltavam jogadores para equipa completa. Foi, então, que Gourlade se lembrou de que, no andar de cima da farmácia, viviam os irmãos Rosa Rodrigues, que tinham formado grupo de futebol com a alcunha do pai, armador de pesca: Os Catataus - e ao desafio os chamou. No primeiro jogo perderam, no segundo ganharam.

9. A vitória atirou-os para «festa rija» na cervejaria em frente à Farmácia Franco - e, ao soltar-se, num brado, a ideia: «Vamos fazer um novo clube» - foram fazê-lo para a sala da farmácia. Primeira sugestão de nome foi Grupo de Football Lisboa. José da Cruz Viegas (militar de na I Guerra Mundial, penaria, prisioneiro, nas masmorras alemãs), contrariou-a com curioso argumento: «As iniciais dariam GFL, talvez suasse Guarda Fiscal de Lisboa». Falou-se, então, em Grupo Sport Lisbonense - em Grupo Sport Lisboa se ficou (mas o Grupo caiu...)

10. Também foi ele quem o revelou nessa edição de A Bola de 1945: «A primeira manifestação de actividade do Sport Lisboa foi treino marcado para 28 de Fevereiro de 1904. Para a compra da bola fizemos empréstimo de 4500 réis - e o treino fez-se num terreno nas Salésias». A ele coubera-lhe a redacção da acta da fundação do SL - mas, por modéstia, esquivou-se a escrever o seu nome nela. O resto é o que se sabe - e o que se sabe (além dos ganhos de glória farta) foi o que aconteceu quando, por falta de campo, para evitar que o Sport Lisboa se esfumasse, ele teve a ideia de o fundir com o Sport de Benfica. Deu Sport Lisboa e Benfica (seu presidente não quis ser nunca - como não quisera ser do Sport Lisboa, antes já...)"

António Simões, in A Bola

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