"O desporto continua a ser um dos poucos palcos sociais que ainda premeia quem mais faz por merecer a felicidade. O talento vence pouco talento, mas talento sem trabalho tem mais dificuldade em superar trabalho com talento. E quando se defrontam equipas muito talentosas, percebemos que só o trabalho sustenta o sucesso. Estruturas e culturas pouco robustas raramente atingem resultados exigentes e ambiciosos. Cesc Fàbregas, treinador do Como 1907, disse este fim de semana algo relevante sobre estes milagres e a entrega dos seus jogadores: «Se o Bola de Ouro [Dembélé, do PSG] pode pressionar a campo inteiro, todos o podem fazer.»
Os campeonatos aproximam-se do fim e existe o hábito de recorrer às palavras sorte ou azar nestes contextos de decisão, mas em competições prolongadas, entre equipas com armas semelhantes, por norma vence quem mais fez para vencer e, goste-se ou não, a maioria das classificações finais reflete aquilo que cada um fez ao longo da época.
Fica cada vez mais difícil compreender como alguns clubes ainda acreditam que a mudança de treinador a uma ou duas jornadas do fim possa provocar milagres. Salvo situações excecionais em que o próprio treinador peça para sair, estas decisões têm uma probabilidade muito baixa de sucesso. Normalmente assentam na ideia de que o clube fez quase tudo bem, exceto, e esse exceto é fulcral, a escolha do treinador. Ignora-se quando dá jeito que o recrutamento e despedimento são processos que refletem valores, rotinas, virtudes e defeitos da organização.
Estas substituições são ações de desespero, compreensíveis, mas revelam também que, época após época, muitos dirigentes não aprendem. Olhar para despedimentos na última curva remete-nos para outro processo: a escolha inicial do treinador. Todos podem errar, mas a repetição do erro e o momento em que a decisão é tomada revelam a maturidade do clube e de quem decide.
Um presidente avalia a equipa com ferramentas diferentes de um CEO ou de um diretor desportivo. O que se exige é capacidade de analisar o processo de forma abrangente, não apenas com uma visão que defende um ponto de vista, mas com informação proveniente de vários ângulos e com o máximo de informação e de detalhes.
Detalhes esses que têm muito impacto nos jogos, mas também na construção de cultura organizacional, no recrutamento, no suporte à liderança, na estrutura e no alinhamento entre áreas são igualmente determinantes. Sabemos que o desporto coletivo não é uma folha de Excel onde o orçamento define a classificação final, ainda assim, quando uma equipa que investe mais no plantel, na estrutura e em tudo o que a rodeia fica sistematicamente atrás de outras com menos recursos, mesmo com vários treinadores, não deveria ser difícil identificar onde está o problema.
Aproxima-se mais um fim de semana com decisões importantes. E, independentemente da ideia de que podem acontecer milagres, quando eles surgem significam, acima de tudo, que houve trabalho consistente, estruturado e de qualidade, muitas vezes invisível."

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