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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

No pasa nada: o desporto português à lei da bala

"Acordou, levantou-se e logo pisou aquela peça de LEGO, cujas arestas confluem no vértice que perfura o pé calejado do desporto em Portugal.
O comum adepto pouco percebe de acórdãos, jurisdições e enquadramentos penais. Percebe de golos, fintas e foras-de-jogo. Se calhar, da última nem tanto, por VARiadíssimas razões.
Incluo-me no cada vez menos abrangente lote de adeptos comuns. A vós me confesso leigo no que refere a matérias que envolvam togas e leis. Sem prejuízo dos meus parcos conhecimentos do poder legislativo e judicial, não preciso de empunhar uma balança na mão esquerda ou dos olhos vendados para descortinar o bem do mal.
Uma plataforma digital, de passarinho branco em fundo azul, trouxe-me a notícia de que o Tribunal da Relação de Lisboa defende que “comportamentos reveladores de baixeza moral são de alguma forma tolerados na cena futebolística”, descriminalizando o insulto e as ofensas; deste modo, o enquadramento penal de injúrias não será tido nem achado, porque falamos de um jogo de futebol, andebol ou pólo aquático.
Entrando em considerações existencialistas, porque gosto de escrever sobre o que domino, parece-me que esta decisão dos juízes da 9ª secção do Tribunal da Relação de Lisboa é o perpetuar de um legado de sentenças que afastam dos recintos quem se comporta condignamente.
Por experiência – enquanto atleta federado durante um par de anos – e por constituir parte interessada e atenta ao fenómeno, noto que a educação está de forma constante em off-side nas bancadas. Se no campo a história é outra, fora dele são cada vez mais comuns os laivos de raiva e os assombros de frustração que descem em forma de sinapses do córtex para as extremidades do corpo e da língua. 
Quem resolveu vir a terreiro foi José Manuel Constantino, através da sua página pessoal de Facebook. Numa intervenção em que recorreu aos recursos estilísticos para estabelecer um paralelismo entre um recinto desportivo e um off-shore, o Presidente do Comité Olímpico de Portugal pareceu mais preocupado em deixar uma bicada política na ressaca das legislativas do que em contrariar este acórdão.
O desporto é, inequivocamente, um monopólio de emoções e deve ser encarado com rivalidade e competitividade. No entanto, o extrapolar de comportamentos aceitáveis, aliado à permissividade latente das leis que tratam da saúde desportiva portuguesa, não auguram um futuro auspicioso.
Cabe a quem gosta do jogo pelo jogo tentar mudar comportamentos e mentalidades, começando pela forma como olhamos e tratamos o outro fora dos estádios e pavilhões.
Não sou pai, nem sequer tenho muitos medos físicos. Mas sou filho, irmão, amigo e colega. No fundo, sou um comum adepto de futebol que deseja, apenas, sentir-se inseguro quando o adversário ataca a sua baliza."

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