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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

O dilema de Rui Vitória

"Ao treinador do Benfica só resta um caminho: o equilíbrio entre ganhar e jogar bem - ou, pelo menos, jogar mais vezes bem do que mal

O que é, de facto, mais importante no futebol: o resultado ou a exibição? Os mais românticos - e não há mal algum em para o jogo olhar com romantismo - dirão que ambas, mesmo sabendo que não é verdade: porque pode ser-se campeão jogando mal desde que ganhando mas o mesmo desfecho revelar-se-á impossível para quem, mesmo jogando o melhor futebol do mundo, não consiga ganhar mais do que os outros, mesmo que joguem pior.
Há, ao longo dos tempos, vários exemplos disso. A Selecção Nacional, por exemplo, venceu o Europeu graças a essa visão pragmática do futebol, trocando o jogar bonito sem nada ganhar de que tanto nos orgulhámos durante tantos anos pelo jogar bem, que é diferente de jogar bonito mas traz melhores resultados que, convenhamos, sendo menos atraente aos olhos enche de forma bem melhor o ego. Porque, olhado com romantismo ou pragmatismo, o mais importante no futebol é, deixemo-nos de lirismos, ganhar.

Vendo jogar este Benfica poderá pensar-se que o novo Rui Vitória decidiu, à falta de melhores soluções, olhar para o futebol pelo seu lado mais pragmático. Tão resultadista na Luz só há memória do Benfica de Trappatoni, campeão em 2004/2005, num outro exemplo de que é possível vencer mandando o espectáculo às malvas. É, contudo, preciso perceber que há um tempo para tudo. Trappatoni acabou com um jejum de títulos que durava há onze anos. Tinha, além disso, uma equipa com bem mais limitações do que a actual, ainda mais dependente de Simão Sabrosa do que esta é de Jonas. É, pois, natural que os adeptos tenham sempre perdoado ao italiano essa visão tão redutora do jogo, tal como os portugueses não deixarão de perdoá-la a Fernando Santos.
Rui Vitória não terá, já se percebeu, essa sorte, até porque a realidade é muito diferente; uma coisa é a Selecção ser pragmática contra a França, Itália, Croácia ou Polónia. Outra é o Benfica fazê-lo em jogos contra equipas que lutam pela manutenção. É por isso que o único caminho de Vitória (se não quiser seguir o das arábias...) será encontrar o equilíbrio entre a necessidade de ganhar e a obrigação de jogar bem - ou, pelo menos, de jogar mais vezes bem do que mal.

Os adeptos podem ser o que de melhor o futebol tem para dar. Mas neles também se encontram, às vezes, o pior que as sociedades têm para nos oferecer. O que os adeptos do Inter - um clube que vibrou com Ronaldo, Eto'o, Maicon, Roberto Carlos ou Seedorf, só para citar alguns - fizeram a Koulibaly no jogo com o Nápoles é a todos os níveis repugnante. Dois jogos à porta fechada é, até, pouco. Por cá - sempre atentos  à forma como lá fora actuam de forma mais dura e célere mas pouco dispostos a com isso aprendermos alguma coisa - o castigo aplicado ao Inter foi aproveitado para aquilo em que somos melhores: atacar os rivais e quem tem o dever de aplicar a justiça. Dá para rir. Ou não fossem os próprios clubes a aprovar o Regulamento Disciplinar da Liga. Mão pesada? Só interessa se bater nos outros. E como um dia me pode tocar a mim... mais vale ficarmos pela mão leve e fazer muito barulho, que sempre dá para enganar os tolos.

A bárbara agressão a um adepto do Benfica que regressava a Barcelos depois de ter visto, na Luz, o jogo com o SC Braga é um caso de policia. Não vale a pena estarmos a falar de punir um clube, por ser impossível responsabilizá-lo por acção criminosa a um grupo de adeptos a 20 quilómetros do seu estádio - ou, até, à sua porta numa noite sem jogo. Mas devia ser suficiente (mais um...) para alguém obrigar os clubes a definirem bem os limites das relações com as suas claques, legalizadas ou não. É esse o meu único desejo desportivo para 2019. Se bem que, em ano de eleições, talvez seja utópico pensar que alguém queira meter as mãos no assunto..."

Ricardo Quaresma, in A Bola

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