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terça-feira, 19 de novembro de 2019

A águia e a água varreram os homens do mar

"31 de Janeiro de 1937. Pela primeira vez o Benfica marca dez golos num jogo da recém-criada Liga. Frente ao Leixões, nas Amoreiras, num domingo de tanta chuva, que vários jogos foram adiados. Pela Europa toda se ouve o troar da guerra.

Lisboa andava num sino. O mundo lá fora, nem por isso. A Guerra Civil de Espanha acumulava mortos no campo de batalha e era de uma ferocidade nunca vista entre irmãos.
Corriam rios de sangue nas trincheiras. Hitler ia armando a Alemanha e fazendo gato-sapato da diplomacia internacional.
Tudo longe, no entanto.
E Lisboa queria divertir-se. Até porque a guerra do país vizinho, queixavam-se os grandes produtores do espectáculo nacional, impedia a viagem até nós de artistas de renome.
Isso não impedia que o São Luiz estivesse à beira de receber um histriónico número francês, Jean, Jack e Zo, com assombrosos bailarinos acrobáticos e que fizera furor em Paris.
Vinham a peso de oiro, noticiava a imprensa.
Seria algo nunca visto em terras lusitanas.
Entretanto, o futebol vivia dias prolíficos: pelos menos em golos.
No campo das Amoreiras, chovera que Deus e dera.
O Benfica, líder do campeonato, recebera o Leixões.
Vitória esmagadora: 10-2.
Dia 31 de Janeiro de 1937. Era a primeira enorme goleada dos encarnados para a Liga.
Choveu a potes sobre os rapazes do mar de Matosinhos. E choveram golos, sobretudo.
O terreno estava pesado, mas sem lama. E, cheios de ambição, os nortenhos entraram na liça com um à-vontade impressionante. Até parecia que jogavam em casa. Os primeiros minutos do encontro foram totalmente dominados por eles.
Jogo por alto: eis a solução encontrada. Até umas biqueiradas, se preciso fosse. Nada de deixar que o chão os prejudicasse nos intentos.
Os benfiquistas sentiram-se surpreendidos. Não contavam com a estratégia. Demoraram a instalar-se. A perceberem a forma de contrariar opositores.
Domingos Lopes foge pela esquerda, centra, Lino mete a mão à bola dentro da grande área: Penálti! Um erro leixonense. Golo de Rogério de Sousa.
No minuto seguinte, a história repete-se. Espírito Santo isola-se, chuta, sobre o risco de baliza Germano substitui o seu guarda-redes. Novamente penálti. Novamente Rogério de Sousa.
Estava decorrido um quarto de hora.
O golpe foi profundo na protérvia leixonense.

A revolta e a queda
Mitra revolta-se. Atira-se sobre a defesa do Benfica, descobre Mário sozinho, Cândido Tavares está batido: 2-1.
É um tónico. E que tónico!
Depois novo penálti. Desta vez contra o Benfica. Henrique faz o 2-2. O público, numeroso, assistia a um jogo frenético.
Rogério de Sousa (outra vez) e Valadas, a passe de Espírito Santo, fazem o 4-2 antes do intervalo. Os leixonenses reclamam e muito. Queixam-se de offside. De dois off-sides nos dois lances. O cronista consultado dá-lhe razão. Enfim. Nada a fazer.
O segundo tempo trouxe o descalabro do team de Matosinhos.
Sete-golos-sete: como se diria nas touradas.
A maior categoria dos encarnados impôs-se de forma brutal. A diferença poderia ter sido muito, mas muito maior. O Leixões desfez-se como se a chuva derretesse um conjunto feito de torrões de açúcar.
5-2 aos 46 minutos por Valadas. Era, sem dúvida, um jogador que exibia uma forma impressionante.
Aos 17 minutos da segunda parte, 6-2. Canto de Valadas e cabeçada certeira de Rogério.
Nove minutos mais tarde é a vez de Xavier: 7-2.
Depois, Espírito Santo: 8-2.
Rogério e Albino fecharam as contas dolorosas.
O povo está feliz. Muitos talvez antevendo uma noite no São Luiz depois da goleada das Amoreiras.
Chove sobre Lisboa, Janeiro no fim.
Os tempos na Europa são escuros de guerra. O céu parece chorar por isso."

Afonso de Melo, in O Benfica

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