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segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Joia Nakajima e a autodestruição do futebol português

"Uma das minhas séries preferidas quando era mais moçoila era a "Missão: Impossível", na qual Jim Phelps (Peter Graves, melhor dizendo) liderava um departamento tão secreto, tão secreto, tão secreto que as missões eram entregues em cassetes (ainda se lembra do que é uma cassete?) que se autodestruíam em cinco segundos. Foi disto que me lembrei quando, este fim de semana, Banksy decidiu, num ato de trollanço máximo, pôr uma obra a autodestruir-se depois da mesma ser vendida na Sotheby's por mais de um milhão de libras. “Parece que acabámos de ser banksiados”, disse então o responsável do departamento de arte contemporânea da leiloeira, Alex Branczik.
E o que é isso tem a ver com futebol, pergunta o excelso leitor? Tudo, explicarei eu. No domingo, entre tantos jogos para ver, consegui dar um olho no Sporting-Benfica em juniores (0-3), no Académica-Estoril da 2ª Liga (2-7 - sim, foi mesmo 2-7), no Southampton-Chelsea da Liga inglesa (0-3), no Atlético de Madrid-Bétis da Liga espanhola (1-0), no Liverpool-Manchester City da Liga inglesa (0-0) e no Portimonense-Sporting (4-2). Ah, sim, e no clássico dos clássicos: Benfica-FC Porto.
Entre sete jogos, de tantos níveis e competições diferentes, consegue adivinhar qual foi, de longe, o pior? O meu colega Diogo Pombo dá uma ajudinha, com o título que deu à sua crónica do clássico: "Futebol procura-se, urgentemente".
A quantidade de faltas, passes falhados e bolas pelo ar (66 duelos aéreos no clássico? A sério?) que se viram na Luz fizeram lembrar um jogo da distrital, no que deveria ser, supostamente, um dos melhores jogos da nossa Liga, já que envolvia duas das melhores equipas. Mas a verdade é que, comparando com os outros jogos que citei (e com o Braga-Rio Ave do dia anterior, por exemplo), nem parecia estar a disputar-se um jogo da mesma modalidade (felizmente para os programas do costume, houve uma expulsãozita, para terem tema de conversa para a semana toda, não fossem ter de efectivamente falar de futebol).
É como o discurso dos intervenientes. Em Espanha, Quique Setién diz: "Isto não é uma questão de intensidade, nem de ter mais tomates, nem de correr mais; é uma questão de capacidade, de inteligência, de precisão nos passes, de boas recepções, de bons remates"; em Inglaterra, Pep Guardiola diz: "Não nos vamos pôr a defender contra o Liverpool, porque isso seria aborrecido. Temos de jogar como sabemos. Se perdermos, parabéns para eles e tentaremos melhorar e conseguir da próxima vez"; também em Inglaterra, Jurgen Klopp diz: "Acredito mesmo que o mais importante no futebol é entreter as pessoas. Não salvamos vidas, não criamos nada, não somos bons em cirurgias médicas, só somos bons a jogar futebol. Se não jogamos para entreter as pessoas, então para que é que jogamos?"
Em Portugal, entre aqueles que deveriam ser dos intervenientes mais influentes, temos um que pouco gosta de falar de futebol e repete banalidades; outro que teve uma tirada deveras infeliz a enviar os adeptos para o teatro; e um clássico que tem um amarelo para um guarda-redes a perder tempo na 1ª parte, uma televisão que no intervalo tem um ex-árbitro a comentar "os casos" e uma estilista a falar de desfiles, e uma música de tourada a fechar "o espectáculo" no final.
Enquanto isso, em Portimão, pé ante pé, com a classe que lhe é habitual, Shoya Nakajima ("qualidade ao centímetro", como escreve o treinador Blessing Lumueno) espalhava magia, juntamente com um grupo de jogadores talentosos colocados em campo por António Folha (onde andavam Zivkovic, João Félix, Óliver...?), um treinador corajoso, que mesmo em último lugar joga como se estivesse em primeiro: "Eu quero jogar este futebol, porque este futebol é o futebol que projeta equipas e jogadores e dá espectáculo. Posso perder, mas não sou treinador para jogar para o ponto. Hoje foi possível ganhar, porque não tivemos medo de perder com o Sporting."
O futebol português é uma espécie de tourada e o mais provável é autodestruir-se em breve. Mas, enquanto isso não acontece, ainda temos alguns baixinhos a dar-nos esperança.
(...)"


PS: É preciso o Benfica ganhar um clássico, para aparecer os profetas do fim do mundo no Tugão!!! Quando o Benfica não ganhar, está tudo bem...!!!

2 comentários:

  1. É bem verdade. Sempre a mesma conversa quando ficam para trás.
    Mas vão ficar em 7º lugar.

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  2. Nem que as vacas tussem o glorioso vai arrasar os dragartos e algumas bonecas de porcelana verde

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