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sexta-feira, 1 de março de 2019

As lições de um jogo de futebol

"Na maior parte dos desafios de futebol disputados em Portugal não se aprende nada: são mal jogados, mal arbitrados, mal cronometrados e mal avaliados, quer pelos jornalistas que fizeram a crónica do jogo, quer pelos antigos árbitros que analisaram os "casos" ocorridos.
Mas, paradoxalmente, há jogos que, não diferindo muito daqueles, contêm lições que não podem ser ignoradas, a bem do futebol.
Referimo-nos, por exemplo, ao Marítimo-Sporting, da 23.ª jornada da Liga. Foi tão mal jogado que ficou mesmo 0-0; e foi tão mal cronometrado que a bola deve ter estado em jogo cerca de metade do tempo regulamentar, isto é, pouco mais de 45 minutos.
Foi tão mal arbitrado que foi permitido tudo e mais alguma coisa, como veremos mais à frente; e tão mal avaliado que só os dois especialistas de Record conseguiram dar nota positiva (4 em 5, nota bom!!), numa convergência que contrasta com outra apreciação recente, em que, num dado jogo, um deles deu nota 1 e o outro nota 5 (!!); enquanto as restantes publicações elencadas pelo nosso jornal atribuem negativas, nota 4 (em 10, A Bola), nota 5 (em 10, Correio da Manhã) e nota 2 (em 5).
Sobre Tiago Martins (árbitro internacional) citemos o Director Adjunto de Record (Bernardo Ribeiro): "o Marítimo fez o que o juiz lhe permitiu. Estranho é ainda tão pouco tempo de compensação quando só Charles foi assistido cinco vezes e nos descontos o guarda-redes foi novamente auxiliado durante dois minutos". Acresce que esteve mais de um minuto à espera que Edgar Costa fosse assistido para lhe mostrar o cartão amarelo por ter rebolado para dentro do campo depois de ter sido carregado e ficado fora, supostamente lesionado. Com seis entradas da assistência médica, foi manifestamente pouco o tempo extra concedido (3+4 minutos) até porque na maior parte dessas compensações o jogo esteve parado. E foi muito permissivo para Charles que, além das lesões simuladas, se fartou de gastar tempo nas reposições de bola, a merecer amarelo várias vezes, tudo a cortar o ritmo de jogo do adversário, logo desde os minutos iniciais.
Concordo ainda com Bernardo Ribeiro quando escreve "Péssima condução de jogo de Tiago Martins", mas não quando acrescenta "perante um leão silencioso". Isto porque o capitão Bruno Fernandes se fartou de reclamar e até o fleumático Marcel Keizer foi expulso; além de Coates, quando pretendeu, em desespero de causa, obrigar Charles a repor a bola em jogo, depois de a ter ido buscar ao outro extremo do campo.
Foi, além de tudo isso, uma arbitragem marcadamente caseira, já que ficaram por assinalar bastantes faltas ao Marítimo (além das 17 que marcou, muitas delas merecedoras de cartão), ao contrário das 10 do Sporting, salvo uma segunda de Borja, a pedir cartão amarelo.
Que lições, portanto, a retirar deste jogo?
i) É cada vez mais urgente adoptar a cronometragem exacta, nem que seja necessário reduzir o tempo de jogo (80 minutos seria razoável);
ii) Qualquer jogador deve ser obrigatoriamente substituído quando tiver de ser assistido à 3.ª vez (duas já são demais);
iii) É necessário punir o caseirismo de certos árbitros, conhecidos habilidosos e reincidentes;
iv) E rever os critérios de escolha dos árbitros internacionais, dados os festivais de incompetência que ultimamente alguns têm dado.
De salientar, também, a postura de Marcel Keizer neste jogo: bastante cauteloso ao retirar, ao intervalo, dois jogadores já com amarelo, certamente perspectivando possíveis intenções do juiz de campo; e uma progressiva percepção das envolventes que rodeiam o futebol em Portugal, jogado mais fora do que dentro das quatro linhas.
Mais dois pormenores: ao contrário de Marcel Keizer, sempre correcto, Petit tem normalmente uma postura agressiva e, neste jogo, não foram poucas as vezes em que invectivou de forma incorrecta os vários membros da equipa de arbitragem, sem que nada lhe acontecesse; e, à semelhança do castigo aplicado a Raul Silva (2 jogos), por agressão não sancionada pelo árbitro do Sporting-Braga, também é de esperar que o guarda-redes Charles seja objecto, no mínimo, de um processo disciplinar.
É claro que esta é a minha perspectiva sobre o futebol em Portugal: por vezes fico feliz pelo excelente espectáculo que me foi proporcionado, no campo ou na TV, por alguns jogadores e treinadores de alto gabarito que aqui trabalham; mas muito mais frequentemente desiludido com os altos responsáveis que permitem todos os dislates, ignoram olimpicamente o que se passa e não exercem a sua missão que deveria ser regeneradora do melhor desporto que se pratica ao cimo da terra. Há mais de 60 anos a ver futebol e ao fim de quase um ano a remar "Contra a Corrente", estou a ficar cansado de tanta incompetência, para não lhe chamar outra coisa..."

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