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segunda-feira, 24 de junho de 2019

Só o mercado é que está louco?

"Nem Simeone nem um único olheiro do Atl. Madrid viu Félix a jogar. Bastou-lhe ler os jornais... Alguém acredita mesmo nisso?

Tenho a certeza de que a primeira coisa que Diogo Simeone fazia nos últimos meses quando acordava era ver no telemóvel as primeiras páginas dos jornais desportivos portugueses.
A segunda era, claro, pedir aos responsáveis pelo scouting do Atlético de Madrid para comprarem, provavelmente na versão digital, as edições diárias para perceber o que os jornalistas escreviam sobre esse talento de nome João Félix, fazerem recortes ou print screens e enviaram-lhe para que pudesse ficar a par de tudo sobre ele: os golos, as assistências, se joga bem de pé direito ou se bate melhor com o esquerdo, se joga melhor nas linhas ou como segundo avançado, se tem um jogo de cabeça com o suficiente.
Tenho a certeza de que a última coisa que Diego Simeone fazia nos últimos meses antes de adormecer era sentar-se em frente à televisão - da sala ou do quarto, se a tiver - e escolher no seu comando os canais portugueses (cujo número já decorara, não precisando sequer de fazer zapping) para ver tudo o que os comentadores diziam sobre esse talento quase desconhecido.
Tenho a certeza de que isso bastou para que Simeone exigisse ao presidente do Atlético Madrid para bater os 120 milhões de euros exigidos pelo Benfica para quem quisesse garantir sem mais conversas um jovem de 19 anos com menos de seis meses na equipa principal dos encarnados.
Não tenho, claro está, dúvidas em afirmar que nem Diego Simeone nem qualquer olheiro do Atlético Madrid viu, ao vivo, um jogo de João Félix. Nem sequer um videozinho, atrevo-me a dizer. Para quê? Se os jornalistas escrevem que é bom e os comentadores televisivos dizem que é ainda melhor do que bom, é porque é. E se são precisos 120 milhões para levá-lo, porque não?
É, pelos vistos, assim que alguns acham que funciona o mercado do futebol. Um mercado tão louco que bastam umas manchetes, talvez um fenómeno em letras garrafais, para convencer, sem mais, um clube estrangeiro a gastar 120 milhões de euros num miúdo de 19 anos. Não é, percebe-se, o mercado que está louco. É quem pensa que as coisas funcionam, de facto, assim.

Muito se tem escrito sobre a anunciada transferência de João Félix para o Atlético Madrid. Da influência de Jorge Mendes, da qual não duvido. É por isso, afinal, que se trata daquele que é por muitos considerado o melhor empresário do mundo do futebol.
Talvez sem a sua influência ninguém desse, de facto, 120 milhões de euros por um miúdo de 19 anos com muito ainda por provar. Não tenho disso grandes dúvidas. Mas aquilo de que muitos se têm, porventura, esquecido, é que o principal motivo para que o emblema de Madrid esteja, de facto, disposto a dar 120 milhões por um miúdo de 19 anos com muito ainda por provar está no próprio João Félix e naquilo que demonstrou nestes menos de seis meses. Sem isso não haveria capas de jornais ou influência de Jorge Mendes que levasse um clube, qualquer que fosse, a embarcar numa aventura destas.
Porque não estamos a falar de 12 euros. Nem de 120. Nem de 1200. Nem de 12 mil. Nem de 120 mil. Nem sequer 1,2 milhões. Nem sequer de 12 milhões. Estamos a falar de 120 milhões. Não são trocos. Não se gastam 120 milhões só poque sim. Haja noção.

PS - Claro que pode discutir-se se João Félix vale ou não 120 milhões. Essa é outra conversa, que vale a pena ser abordada sem pelas coloridas nos olhos. Coisa que por cá é cada vez mais difícil..."

Ricardo Quaresma, in A Bola

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