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quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Futebol à tarde e outras maravilhas do ano novo

"Godinho Lopes saiu pela cabina do Rio Ave. Deseja-se que não seja outra vez multado pelo CD por ter trespassado mais uma cabina

O ano terminou com a Taça da Liga. Benfica e FC Porto cumpriram o seu dever, empataram. Mais não se podia exigir a jogadores extenuados pela pausa das Festas e por um sem número de viagens transatlânticas.
O Benfica foi jogar a Moreira de Cónegos no último sábado do ano. O jogo começou às 16 horas e foi transmitido em sinal fechado pela TVI24. O estádio estava cheio que nem um ovo, o que dá que pensar se não será o futebol jogado à luz do dia que faz falta a esta indústria onde se vão acumulando e perspectivando falências ao mesmo ritmo que o Olegário Benquerença mostra cartões amarelos num jogo normalissimamente disputado e sem picardias de maior entre os oponentes.
Por alturas de Natal e ano novo, Benfica e FC Porto abriram as portas do Seixal e do Dragão aos adeptos que, aos milhares, aproveitaram o convite para passar uma tarde em animado e descontraído ambiente familiar junto daqueles que mais gostam. Dos jogadores, evidentemente.
A torrente de transmissões televisivas e o deslocamento forçado dos jogos de futebol para o horário nocturno mataram a velha e original relação de proximidade entre os adeptos e as suas equipas. Note-se que nem o Benfica nem o FC Porto são dos que mais sofrem com a deserção do público dos estádios de futebol embora, certamente, ganhassem mais público se passassem a jogar à tarde.
Mas os outros, os menos privilegiados, sofrem a bom sofrer pela noitinha com assistências tão diminutas que mal dão para cobrir os gastos eléctricos com as torres de iluminação. Vale-lhes para sobreviverem os contractos que assinaram e vão assinando com a Sport TV. É um ciclo vicioso, disto não saem.

IZMAILOV, tudo assim o indica, deixará o Sporting e vai para o FC Porto. Nos últimos anos, vêm sendo já tradicionais as trocas de jogadores entre os dois emblemas.
Noutros lugares do planeta como, por exemplo, em Itália e até na Velha Albion - é assim que chamam à Inglaterra os que gostam de efeitos surpreendentes -, é muito frequente e respeitado o tráfego de jogadores entre clubes rivais.
Não só ninguém leva a mal, como tal facto é unanimemente considerado prova do sentido mercantil de uma indústria pujante, como é a do futebol, e também prova de uma saudável concorrência que não impede negócios entre todos ainda que lutem pelas mesmas posições. Enfim, o melhor dos mundos.
Em Portugal esse estado paradisíaco, esse grau de civilização à semelhança do estrangeiro, só se verifica no âmbito das relações entre o Sporting e o FC Porto. É uma excepção. Porque quanto aos demais rivais e rivalidades nacionais a regra é a velha de sempre: quanto pior para ti, melhor para mim...
E por isso não se vê chegar o dia em que, por exemplo, Vitória de Guimarães e Sporting de Braga troquem entre si jogadores como quem troca cumprimentos em pleno Minho e que Benfica e Sporting façam exactamente o mesmo em plena Estremadura.
Não deixa de ser verdade que as relações comerciais entre o Benfica e o Sporting de Braga são também muito apreciáveis considerando uma nascente rivalidade entre as partes, no entanto ainda incipiente, ou seja, sem maturação para proibir qualquer tipo de gentileza mútua.
Com justiça, não se pode concluir outra coisa: no futebol português, ao mais alto nível, relações civilizadas só existem entre Alvalade e o Dragão. E enquanto entre Sporting e FC Porto impera uma diplomacia de essência praticamente britânica, o resto é tudo uma grande saloiice de gente pequenina e sem visão de futuro.
Todas estas coisinhas contribuem no sentido de tornar aliciante para o grande público aquilo que será o futuro de Izmailov de dragão ao peito. E, curiosamente num país onde há tantas opiniões sobre tudo, especialmente sobre futebol, neste caso só há duas opiniões possíveis.
Ou se cura. Ou não se cura.
Izmailov, claro está.
Será que, ao contrário de Bella Guttmann que trocou o Porto pela Luz porque a mulher não se dava bem com a humidade da Invicta, a mesma humidade vai conseguir operar milagres no russo Izmailov ao ponto de o vermos recuperado das mil maleitas que o afligiram enquanto foi jogador do Sporting?
Ou será apenas um novo Sokota? - como tanto desejam os nossos amigos sportinguistas, a ver se escapam das futuras ironias dos rivais dando-se, por hipótese, o caso de a alcunha de Izmailov passar a ser o Miraculado ao fim de duas semanas de treinos no Olival.
A ver vamos. Temos aqui um grande motivo de interesse para a segunda volta do campeonato, como se faltassem motivos de interesse...

VOLTANDO à Taça da Liga. Em Vila do Conde, o Sporting não ganhou, nem empatou, antes pelo contrário. À saída do estádio, jogadores e treinadores e ainda treinadores de treinadores tiveram de suportar o desagrado dos adeptos veemente expresso em cânticos e em dizeres com rimas por vezes vernaculares.
O presidente do clube, mais esperto, poupou-se ao incómodo que sempre causa uma pequena multidão em fúria e abandonou o recinto por outro lado. A imprensa deu conta de que Godinho Lopes optou por sair pela cabina do Rio Ave que terá uma porta, considerado o efeito pretendido, suficientemente distante da porta da cabina da equipa visitante.
É de esperar que Godinho Lopes não seja outra vez multado pelo Conselho de Disciplina por ter trespassado mais uma cabina. Já basta o que o Sporting faz ao Sporting. Não é preciso vir gente de fora para chatear.

JOÃO LOUREIRO regressou à presidência do Boavista e não teve de esperar muitos dias para ouvir do presidente do Benfica uma nota de comiseração sobre a estrondosa queda dos axadrezados nos abismos do nosso futebol.
Luís Filipe Vieira dizia ontem nas páginas de A BOLA, sobre as conclusões do Apito Dourado, que o «bode expiatório de tudo isto acabou por ser o Boavista, mais fácil de condenar e que serviu para tapar muita coisa...». Concordo com o presidente do Benfica. E, por isso, saúdo o regresso de um  Loureiro ao Bessa no gozo pleno das suas funções. Não são menos do que os outros. Ou são?
Também, em entrevista a A BOLA, Pedro Proença se mostrou de algum modo desencantado com as conclusões do Apito Dourado em função do bom nome da arbitragem nacional de que é o maior expoente da actualidade, como facilmente todos reconhecemos.
Na verdade, não é de um dia para o outro que o Dourado muda de figura, pelo menos enquanto houver YouTube é praticamente impossível.
E, por isso mesmo, não teria Vítor Pereira, também entrevistado durante as Festas, conseguido inventar outra dominação que não fosse Período Dourado cheio de sucessos para os nossos árbitros?
É que a coisa, inocente e optimista à partida, ficou logo a soar ameaçadora.

O ano começou com a Taça de Portugal. O Benfica cumpriu o seu dever e goleou ontem o Desportivo das Aves por 6-0. Cardozo fez mais um hat-trick e levou a bola para casa. Merecido. Rodrigo jogou muito bem e marcou dois golos. Estava a precisar. Lima entrou na última meia hora e marcou de grande penalidade. O Nolito queria apontar o castigo mas Jorge Jesus não deixou. «É o Lima!», gritou bem alto. Treinador a sério não tem medo de arriscar o que foi preciso para moralizar um jogador. Lima falhou o penalty em Moreira de Cónegos mas não falhou ontem contra o Aves. O Lima é grande. Jorge Jesus sabe destas coisas como ninguém."

Leonor Pinhão, in A Bola

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