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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

As leis do futebol a sério e a feijões

"No Dragão, leis são leis, a sério ou a feijões. E que árbitro idiota se atreveria a expulsar Kelvin por se ter atirado em pontapés às canelas no Nolito que ainda tresanda a Benfica?

DE todos os estádios construídos propositadamente para o Euro 2004, confesso que, até ao passado sábado, só conhecia o Estádio da Luz. Agora também conheço o Estádio do Algarve porque fui lá ver o Benfica-Nice, um joguinho de Verão que começou muito animado, graças sobretudo às prometedoras agitações causadas por Lima e por Markovic na confundida defesa dos franceses, ao ponto de dar por bem empregue o dinheiro do bilhete.
Durou pouco, no entanto, o prazer do público. Coisa de meia-hora, apenas. Isto porque o árbitro, rigorosíssimo, entendeu ser merecedora de castigo máximo e de expulsão uma acção atabalhoada de Artur que terá atirado ao chão um adversário na sua área.
O árbitro foi pronto a mostrar o cartão vermelho ao guarda-redes do Benfica e Jorge Jesus também não pensou duas vezes. Tirou de campo Markovic para que Paulo Lopes pudesse substituir na baliza o infortunado Artur. E ali terminou o gáudio da significativa assistência porque Markovic, no esplendor dos seus 19 anos, é aquele tipo de jogador que leva gente aos estádios.
Foi, com certeza, em ensaio útil para Jorge Jesus ver a sua equipa jogar uma hora inteira com menos um em campo, lutando para segurar a magra vantagem de 2-1 e não descurando as oportunidades para dilatar o resultado a seu favor, o que poderia muito bem ter acontecido pela forma como o Benfica, mesmo em inferioridade, mandou no jogo.
Assim que Markovic abandonou o relvado, muito aplaudido como fez por merecer, apeteceu-me pedir ao árbitro a devolução de, pelo menos, o custo de meio bilhete. No entanto, nem todos os espectadores do Benfica-Nice terão pensado assim tão mesquinhamente.
- As leis são para se cumprir em jogos a sério ou em jogos a feijões - logo ouvi dizer, judiciosamente, a um consócio de bom sendo.
E, assim, fui levada a concordar com a decisão do árbitro, ainda que contrariada. O jogo perdeu muito do seu interesse, é verdade, mas não dei o dinheiro por deitado à rua porque com menos que ver no relvado havia oportunidade para melhor apreciar o dito Estádio do Algarve.
Trata-se de um imponente mono com velas, plantado num ermo que não serve nem a população farense nem a louletana e que, incluindo as derrapagens dos seus custos de construção, custou uma fortuna ao erário público em nome do inquestionável «desígnio nacional» em que se transformou ideologicamente a organização do Europeu de 2004 pelo nosso país.
Perante a obscenidade de semelhante desperdício enfunado, que terá feito glória dos seus promotores e construtores, passou imediatamente incólume a decisão do árbitro de expulsar Artur a meio da primeira parte, estragando o espectáculo ao roubar-lhe um artista.
- Leis são leis, em jogos a doer ou em jogos a brincar!
Isto é que é ser bom cidadão.

NO dia seguinte, 600 quilómetros mais a Norte, voltou a acontecer coisa semelhante. No jogo de apresentação do FC Porto com o Celta de Vigo, ficou provado que, a doer ou a brincar, há leis que serão sempre leis do Estádio do Dragão.
Os campeões nacionais averbaram a sua enésima vitória nesta pré-temporada. Foi um triunfo tangencial de 1-0 com um golo de Jackson Martínez que partiu de posição irregular à vista desarmada, legalmente sancionada pela bandeirola de serviço.
O jogo terminaria em grande espectáculo e com 11 de cada lado. No Dragão, leis são leis. E que árbitro idiota se atreveria a expulsar Kelvin - o herói do último campeonato - por se ter atirado em pontapés às canelas do Nolito que ainda tresanda a Benfica?
Leis são leis. Não se brinca em serviço. Isto é estrutura.

O pedido de explicações da CMVM ao Benfica no que diz respeito - ainda... - aos direitos sobre o guarda-redes Roberto poderá, certamente, ajudar a esclarecer os benfiquistas, entre os quais me encontro, para quem este vai-e-vem de grossos trocos entre o Benfica e o Atlético de Madrid causa alguma perplexidade.

O Museu Cosme Damião foi inaugurado e a Benfica TV chegou aos 100 mil assinantes. É obra. melhor dito, são obras. E em progresso. Porque um Museu para se afirmar como atracção permanente precisa de renovar o seu espólio com taças frescas e um canal pago de televisão para se impor precisa de ver crescer o seu número de assinantes até sabe-se lá onde.
O Museu Cosme Damião, na sua concepção e imagética, está ao nível de um clube como o Benfica. Maior elogio não se poderá fazer. A Benfica TV para lá parece caminhar, embora o seu sucesso enquanto projecto dependa sempre do percurso da equipa principal de futebol.
Assinar um canal de televisão por cabo é tão fácil como cancelar a dita assinatura. Faz-se tudo através do comando. Que os comandos da equipa de futebol - os desportivos e os políticos - entendam isto como um facto incontornável.
Negócios, negócios, vitórias à parte é coisa que não existe no futebol. Ou não devia existir.

FERNANDO MARTINS foi-se embora aos 96 anos. Como presidente do Benfica sucedeu, um tanto inesperadamente, a Ferreira Queimado em 1981. Depois de perder duas eleições para Borges Coutinho (em 1969) e para o mesmo Ferreira Queimado (em 1977), Martins chegou finalmente à presidência do clube. Para a sua vitória eleitoral contribuiu de alguma forma decisivamente a festa do título de 1980/1981 no Estádio da Luz.
À tradicional invasão de campo sucedeu-se uma inaudita carga policial sobre os adeptos que custaria a reeleição de Ferreira Queimado, castigado nas urnas pelos benfiquistas ainda doridos da pancada que apanharam naquela hora festiva. Martins não era de todo favorito naquele despique eleitoral mas venceria Queimado pela margem mínima (51% contra 49%) e, à terceira, viu-se finalmente presidente do Benfica.
Fez três mandatos. Viria a perder as eleições de 1987 para João Santos, também um vencedor altamente improvável visto que com Fernando Martins na presidência campeonatos nacionais e Taças de Portugal foi coisa que nunca faltou ao Benfica. No ano em que abandonou o cargo, Fernando Martins deixou a equipa a caminho de mais um título nacional e de mais uma final do Jamor.
No entanto, os benfiquistas, habituados ao bom e ao melhor, nunca perdoaram ao presidente Martins os 7-1 em Alvalade e exasperavam-se contra o treinador John Mortimore, acusado de ganhar campeonatos com um rol de intoleráveis vitórias por 1-0. Eram outros tempos, sem dúvida.
Fernando Martins foi eleito porque os sócios do Benfica penalizaram o presidente anterior por não terem gostado da intervenção policial na festa do título de 1981 e foi destronado porque os sócios do Benfica não gostavam do futebol que a equipa campeã praticava em 1986 e em 1987, sob o comando de John Mortimore, um treinador chato.
Que luxo!
Martins deixou a sua marca no Benfica, esse é um facto. Fechou o Terceiro Anel ainda que para isso tivesse de vender Chalana e Stromberg: contratou Eriksson que revolucionou o Benfica e, por contágio, o futebol português; manteve um pacto de não-agressão com Pinto da Costa porque o rival da altura era o Sporting.
O tempo e o andar da carruagem deram-lhe razão numas coisas e não lhe deram razão noutras coisas.
Foi, sem dúvida, um presidente carismático, da linhagem dos não-doutores. Fernando Martins, uma figura histórica do Sport Lisboa e Benfica."

Leonor Pinhão, in A Bola

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