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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

O meio da época no final do ano


"O ano civil está no fim, mas a procissão da bola ainda vai a meio. E é tão verdade dizer que as contas só se fazem quando acaba, como admitir que a forma como termina depende muito de como começa. É a velha ideia, que creio ter ouvido pela primeira vez a Guardiola, de que os campeonatos se perdem nas oito primeiras jornadas e se ganham nas últimas oito. Este ano em Portugal está a cumprir-se. Aparentemente, o Benfica já perdeu, enquanto FC Porto e Sporting decidirão quem ganha lá mais para diante.
O FC Porto lidera com a impressionante safra de 15 vitórias e um só empate (em casa, diante do Benfica) em 16 jogos. Os números dizem muito, porque nos recordamos bem da equipa à deriva de há uns meses apenas, na época medíocre cumprida entre a aposta tímida em Vítor Bruno e a aposta falhada em Martín Anselmi. A atual temporada provou uma vez mais que a escolha do treinador é a decisão mais crítica de qualquer direção. O novo Porto acreditou em Farioli e, por acreditar nele, foi em busca de jogadores coerentes com o seu jogar. Desta vez não facilitou na escolha para posições-chave, com as do centro da defesa (e acaba de juntar Thiago Silva à fiável dupla polaca), além de acrescentar nomes – Froholdt e Borja, também Gabri Veiga – que acrescentavam a agressividade que o futebol do italiano requer. Claro que fisicalidade não é tudo e se algo pode evoluir neste Porto é a qualidade em ataque posicional, sobretudo frente a adversários que também reivindicam a posse de bola e não a perdem em poucos segundos. Mesmo assim, a utilização crescente de William Gomes e Rodrigo Mora (sobretudo este!) torna, só por si, a equipa menos repetitiva nesse processo com bola e por conseguinte mais capaz de surpreender. Ainda nada está ganho para os dragões, mas não vai ser fácil retirá-los do topo.
E se nada está ganho para uma equipa que só cedeu dois pontos é porque logo atrás surge outro coletivo igualmente muito competente e individualmente ainda mais talentoso, o do Sporting. Aliás, o que faz a diferença pontual no cimo da tabela é principalmente o clássico de Alvalade que o Porto ganhou. Os leões vacilaram nesse jogo e empataram com Braga e Benfica, mas frente aos restantes têm também o pleno de vitórias. E depois jogam com qualidade e goleiam com facilidade, por via de um futebol com mais criatividade e variedade no momento ofensivo e mais soluções que qualquer dos rivais.
Rui Borges tem outros méritos, mas o maior será o de ter melhorado a equipa após ter perdido o jogador mais decisivo. A prova de competência do transmontano é, ao mesmo tempo, um ruidoso desmentido para tantos que insistem em ver o jogo pelo prisma individual e eram capazes de jurar – ouvi uns quantos – que íamos passar a época a falar da falta de Gyokeres e de como o Sporting já não resolveria os jogos com igual facilidade. Tem resolvido, com mais até, muitas vezes. Impressionam os 46 golos marcados, só no campeonato, mas, mais que a quantidade, é a qualidade do processo ofensivo que explica sucessiva goleadas. Um ponta de lança como Luiz Suárez, mais combinativo (mas igualmente operário e goleador), caiu como sopa no mel, porque em redor do colombiano cresceu o rendimento dos maiores talentos, como Pote e Trincão. E já havia outros de qualidade extra, como Quenda, mas ainda se juntou Ioannidis, para ter mais uma arma na zona onde os jogos de decidem. Falta aos leões, e ao seu técnico, gerir melhor os jogos, sobretudo os de exigência mais alta, onde oscila mais do que é aceitável, entre períodos de domínio e subjugação, mas de que teremos Sporting candidato até ao fim não me restam muitas dúvidas.
No Benfica surge o contraste, percebendo-se já, a meio da época, como o início irá condicionar o fim. A renovação do plantel, que foi mais uma desnecessária revolução, revelou-se desastrosa, nas más opções de cedência de jogadores nucleares como Florentino, Kokçu ou Akturkoglu, e de deficiente substituição de craques definitivos como Di María e Carreras. O plantel é menos valioso e sobretudo mais desequilibrado do que era. E, para agravar, voltou a mudar de treinador com a procissão no adro. Ao fim de um par de meses, José Mourinho já esgotou o impacto psicológico, tem a equipa a 10 pontos da liderança e vê-se que não aprecia vários dos jogadores de que dispõe. A equipa procura essencialmente recuperar para atacar e revela muita dificuldade com bola fora desse contexto. A preocupação com a pressão no momento defensivo, na promoção de duelos individuais na maioria das vezes, tem sido também uma camisa de forças da qual os jogadores só se libertam quando em desvantagem (vide os jogos com Sporting e Braga), além de que a insistência em manter o maior talento criativo, Sudakov, no ostracismo do corredor esquerdo para ter Barreiro como o 10 (ou 9,5) - o lugar que no verão esteve guardado para João Félix, imagine-se! - é toda uma declaração de princípios. Os reforços de janeiro podem ajudar, mas meia época está perdida e dificilmente 2026, pelo menos até ao verão, será um ano feliz para os adeptos das águias.
Para fechar o ano agarrado ao talento e ao que mais vale a pena no nosso jogo, deixo uma pequena lista de gente, com qualidades que me entusiasmam em particular: o nível de finalização do miúdo Zabiri do Famalicão, porque muito poucos rematam assim em Portugal (e delicio-me com avançados que sabem mesmo chutar, o que rareia); a qualidade técnica e a geometria de Alex Amorim no meio-campo do Alverca; o improviso talentoso e finalizador de Tidjany Touré, no Gil Vicente; o sentido tático, na dimensão física mas também na opção de passe seguro, de Ngom, do Estrela da Amadora; o drible e qualidade na assistência de Telmo Arcanjo do Vitória (que merece ser mais valorizado); a superior dimensão técnica e de entendimento do jogo de Pau Victor no Braga; e sempre Guitane, digam o que disserem (de defender pouco, de desequilibrar a equipa e blá, blá blá), que se houver Guitane em campo eu quero sempre ver o jogo."

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