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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A Era do Príncipe


"Nem mesmo Vieira tinha ido tão longe. No seu consulado, a sua versão de Estádio da Luz era — como sempre fora o verdadeiro — um templo de devoção. O centro do poder ficava noutro sítio. No Seixal. Agora é diferente. O que os cortesãos de Rui Costa pretendem é fundir o sentimento religioso, irracional e comovente, dos sócios com o poder político vigente. Pretendem Mafra

O Benfica está prestes a entrar num novo tempo. Não é força de expressão. Já não é a era pós-Vieira, essa fórmula preguiçosa, útil para conversas de café e análises sem risco. Sugere continuidade indistinta, gestão em piloto-automático: um clube a viver dos despojos de um regime semi-vivo, como um cadáver que ainda mexe. Nada disto é mentira. Mas é pouco. O que se passa hoje é outra coisa. Há mais do que inaptidão. Há vontade — e necessidade — de afirmar um projecto de poder legitimado nas urnas de Outubro. E há método. Há sempre método quando o poder se leva a sério. Rui Costa não será, então, mais um continuador. Isso seria cómodo.
Rui Costa será fundador, com nome, apelido, biografia e ambição. Um déspota por mérito próprio. Se tudo correr como previsto por esta direcção, no próximo Sábado o Benfica entrará numa nova fase da sua existência. Chamemo-lhe pelo nome, para não haver equívocos: a Era do Príncipe.
O Benfica District começou como expediente eleitoral: uma promessa grande, vaga, suficientemente mirabolante para marcar a agenda de campanha e baralhar a oposição. Era fogo-de-artifício. Hoje já não é. Transmudou-se em obra de regime. Como todas as grandes construções do poder, deixou de servir um propósito prático para cumprir funções simbólicas: fixar uma ordem, eternizar um nome. É assim desde sempre. Onde há poder absoluto, há arquitectura monumental. Há Mafra. O resto é conversa.
Ah Mafra! Mil e duzentas divisões! Mais de quatro mil e setecentas portas e janelas! Cento e cinquenta e seis escadarias! Vinte e nove pátios e saguões! O Palácio do Príncipe. A coincidência plena entre a Casa de Deus e a Casa do Rei. Cada entalhe, cada esquina, cada excesso comunica autoridade — divina ou soberana, conforme o caso. Corpo e espírito fundidos num gesto único, exuberante, próprio das monarquias de setecentos, cuja coroa seria a ponte para o mundo do invisível. Um arquétipo de arquitectura de síntese.
Nem mesmo Vieira tinha ido tão longe. No seu consulado, a sua versão de Estádio da Luz era — como sempre fora o verdadeiro — um templo de devoção. O centro do poder ficava noutro sítio. No Seixal. Agora é diferente. O que os cortesãos de Rui Costa pretendem é fundir o sentimento religioso, irracional e comovente, dos sócios com o poder político vigente. Pretendem Mafra. Mesmo mantendo o Seixal, simbolicamente é isso que acontece. E o símbolo, em política, manda.
É verdade que o Benfica District servirá também a quem prefere não olhar para o estado do futebol. Todo o palco decrépito tem sempre a sua cortina. Mas não é isso que o define. Mafra não foi construída para distrair. Foi concebida como sistema completo de representação do poder, destinado a conservar a ordem estabelecida. Também o Benfica District se apresenta assim, como arquitectura de poder.
A partir do momento em que esta obra for aprovada, ao templo juntar-se-ão o teatro para o divertimento mundano, a avenida para o cortejo e, claro, o palácio para a corte. Tudo no mesmo edificado monumental.
Numa palavra: a residência oficial do regime.
Vale a pena notar que algumas das críticas mais certeiras ao Benfica District não vieram daquilo que hoje se identifica como oposição. Ainda ontem Jaime Antunes apontou, no Record, a ausência de estratégia, a indefinição do projecto e a amplitude excessiva do cheque em branco (expressão do próprio) pedido aos sócios. Quando até Jaime Antunes acerta, qualquer benfiquista deveria inquietar-se, mesmo os que já desistiram de se inquietar.
Mas a questão mais intrincada é outra. E é decisiva. O verdadeiro golpe que se pretende consumar este Sábado não é arquitectónico nem financeiro. É mais grave. É político. E é subtil; por isso mais difícil de explicar, logo, mais fácil de passar em claro.
A Assembleia Geral existe num clube como o Benfica por uma razão simples: funciona segundo um modelo parlamentar. Os sócios reúnem-se no mesmo espaço, veem-se, ouvem-se, reagem uns aos outros, debatem e só depois decidem. Pode ser confuso, mas é o que temos. O melhor que temos. A deliberação não é um detalhe técnico; é a garantia moral da lisura do processo. Sem isso, sobra a aparência de democracia.
O que agora se propõe inquina esse modelo. A votação electrónica, a participação remota, a simultaneidade entre discussão e voto transformam a Assembleia num mecanismo binário. Uma pergunta. Um “sim” ou “não”. A discussão permanece, mas como uma cadeira encostada à parede. A decisão não nasce mais do saudável confronto entre pares e visões, mas da soma dispersa de cliques remotos.
Não lhe chamem modernização. Chamem-lhe pelo nome certo: mudança de regime. Onde antes vigorava E pluribus unum — da pluralidade, a unidade — passaria agora a vigorar outra coisa, talvez Ex maioritate temporaria, potestas perpetua — Da maioria momentânea, o poder permanente.
A direcção e a presidência da Mesa da Assembleia Geral insistem em apresentar qualquer crítica a este tipo de modelos como resistência antiquada ao progresso. É um truque velho, mas eficaz. Confundir tecnologia com democracia, acessibilidade com justiça. Não se trata de ser contra meios electrónicos. Trata-se de perceber que democracia parlamentar e democracia directa não são a mesma coisa. E que produzem efeitos políticos radicalmente diferentes.
Gonçalo Almeida Ribeiro chamou a atenção para isso com clareza, n’A Bola, há semanas. A legalidade e a natureza do processo são, no mínimo, discutíveis. Uma Assembleia não é um plebiscito. Quando passa a funcionar como tal, deixa de deliberar. Passa a legitimar.
O que nos faz pensar que, infelizmente, não estamos perante uma grande obra trágica, como Mafra; essa ópera ao divino paga com o ouro do Brasil. Estamos perante algo mais singelo. Talvez uma obra de medo. Medo de perder o assento.
O Benfica District ainda pode ser rejeitado. Ainda pode não existir. Mas o que se joga Sábado é mais do que isso. É a definição de um modo de governo; a passagem de um clube que discute para um clube que diz sim.
É neste ponto que a Era do Príncipe nasce.
No momento em que a deliberação morre."

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