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quarta-feira, 8 de julho de 2020

«Equipa atual do Benfica? Nenhum teria lugar no plantel em que estive com Jorge Jesus»

"Isolado em Israel por força da pandemia, David Simão não olhou ao relógio na hora de conversar com o Bola na Rede. Durante quase duas horas, fizemos aquilo que o “fascina”: falar de futebol. Da infância pintada a vermelho a branco, à redescoberta do prazer de jogar em axadrezado, o médio do Hapoel Beer Sheva deu-nos um recital de sobriedade e honestidade, ao nível do que costuma fazer à flor da relva. Politicamente incorrecto, pôs o dedo numa das várias feridas abertas do futebol português, explicou o motivo da saída para a Bulgária e o que falhou na Grécia. Do Benfica, clube do seu coração e onde esteve por mais de dez anos, disse não ter a qualidade doutros tempos, nomeadamente da época em que foi orientado por Jorge Jesus. Quanto ao futuro, está em aberto, com a certeza porém de que há uma Taça para conquistar e uma promessa por cumprir.

– Dedo na ferida –
«Quem faz mal ao futebol não são as pessoas do futebol, é quem não tem nada a ver»

Olá, David. Como é que estás?
Tudo a rolar.

Como tem sido vivida a pandemia por ai?
Acho que agora está a piorar, esta porcaria.

Podem sair ou nem por isso?
Os jogadores não podem sair (…) é um bocado estúpido, na verdade [pausa para desviar o aspirador do caminho] não faz muito sentido porque os treinadores podem sair e depois vão dar-nos treinos… 

Já foste à zaragatoa?
Não, não, não! Aqui é uma balda! É à vontade. Recomeçámos o campeonato e ainda ninguém fez o teste.

Por falar em campeonato, aquilo ontem…
Opá, a nossa equipa não é grande pistola. Para encontrar um “onze” vimo-nos à rasca, então o treinador anda constantemente a rodar. Como temos a final da Taça… jogamos sábado, jogamos terça-feira, voltamos a jogar sábado e ele não quer saber do campeonato; para nós acabar em quarto, quinto ou sexto é igual, então estão a apostar tudo na Taça, que dá acesso à Liga Europa. Ainda ontem estava a falar com o adjunto – que é quem está a preparar a equipa para o próximo ano – e ele dizia-me “Se tu, o Josué ou o Miguel [Vítor] se lesionarem, para nós é muito pior do que não jogarem estes jogos, porque precisamos de vocês para a final”. No último jogo saí ao intervalo, neste o Miguel nem foi convocado, o Josué também só entrou um bocado… andamos a rodar porque somos importantes e querem-nos disponíveis para a final da Taça.

Confesso que receei ficar sem entrevistado. A família já se habituou à ressaca das derrotas?
Já sabem! Falo com os meus pais, que estão em França, todos os dias por videochamada, mas quando perco já sabem que não vale a pena ligarem nesse dia, porque não estou disponível para falar. O meu filho, que até gosta de futebol, de vez em quando lá manda um ou outro toquezinho, mas leva logo uma “cotovelada” da minha mulher para não tocar no assunto, porque… opá, somos competitivos, gostamos de ganhar e nunca cai bem uma derrota, muito menos quando não é esperada; quer dizer, estou numa equipa que normalmente joga para ganhar – apesar de nos últimos dois anos ter baixado o nível. Por muitos anos que jogue, nunca me vou habituar a perder.

Se há denominador comum nas escassas entrevistas que já deste é a tua auto-exigência. Se te pedir um balanço, pensas que já saíste mais vezes beneficiado ou prejudicado por essa condição?
Tento fazer esse balanço dia após dia, jogo após jogo, ano após ano, mas não tenho bem essa noção. Pode já ter beneficiado em certas alturas e prejudicado noutras. Por vezes acho que posso dar mais e não estou a conseguir por uma razão ou outra e isso leva-me a entrar numa ansiedade que me é prejudicial, mas em outras tantas vezes essa exigência que tenho comigo no jogo e no treino faz com que melhore diariamente. É impossível dosear o que é que me deu, mas alguém exigente acaba por ganhar sempre mais do que perder, porque obriga-te a estar constantemente nos limites e a querer mais e melhor. 

As expressões faciais dentro de campo ainda induzem em erro quem está de fora?
Sim, é algo muito difícil de controlar, porque vivo muito o jogo. Sou muito transparente: tanto uma boa como uma má acção reflectem-se na minha expressão corporal e facial. Automaticamente consegues perceber que fiquei chateado comigo, com o colega, com o árbitro… vivo aqueles noventa minutos sem filtro. Aquilo que sou no dia a dia, transporto para o futebol, mas com uma adrenalina muito maior.

Enquanto cá estiveste, foste uma das vozes mais dissonantes do nosso campeonato. Como vês o actual momento do futebol português?
Não sendo o principal motivo que me levou a sair do futebol português, o ambiente que se vive aí não ajudou. Mas Portugal não é caso único: estive na Grécia e já houve corrupção; ainda agora o PAOK perdeu sete pontos. Quem faz mal ao futebol não são as pessoas do futebol, é quem não tem nada a ver com o futebol. Quem estraga este desporto são pessoas que nem tinham de aparecer e têm mais notoriedade que os verdadeiros protagonistas. O futebol vai ser sempre um negócio e não sou contra ele, mas quando isto é maior que o jogo, aí já tenho de ser contra. A legislação é contra o jogador! Muitas vezes diz-se que protege o jogador, mas apenas nas coisas mais simples; é inconcebível a questão do PER no futebol português, é algo ridículo! “Plano Especial de Revitalização”; compreendo isto uma vez, de um clube que passa uma má fase na sua vida desportiva. Uma má gestão aqui, uma má gestão ali, que levou a que o clube precise de um PER. Mas não posso aceitar que, cada vez que não querem pagar, ameacem os jogadores e isto é constante! Há vários clubes – de Primeira e de Segunda Liga – que dizem “Queremos rescindir” e nós “Ok, mas tenho seis meses para receber”; a resposta deles? “Ó amigo, rescindes assim se quiseres, senão vai para o PER e pagamos-te 50€ por mês em dez anos”. O clube no ano a seguir está na Primeira Liga e já tem três PER’s e vai meter o quarto quando quiser, e o quinto, e andamos nisto. Onde é que o jogador está protegido? Em Israel, existe um orçamento anual, seja ele qual for, e tens de dar garantias bancárias para participar naquele ano.

Senão não jogas.
Senão não jogas! Não é “Eu prometo x” e chego ao fim e digo “Este se não jogar vai querer sair, e até me deixa um mês ou dois porque está mortinho para se ir embora, e se não quiser eu meto no PER” e para o ano mando vir mais dez; é assim que vai funcionando. Alguns clubes vão passando entre os pingos da chuva, embora, felizmente, não seja a maioria. Para mim a punição era “Tens? Jogas. Não tens? Não participas, baixas de divisão”. Há muitas equipas na Segunda e no CNS com orçamentos realmente inferiores mas cumpridoras. Eu quando jogava no Paços de Ferreira ganhava dois mil euros e joguei o ano inteiro a titular; eu não sou contra o ordenado baixo. O que eles prometiam era o que eles te pagavam e tu só tinhas de fazer o teu trabalho.

“Nem sempre digo aquilo que as pessoas gostam de ouvir, mas digo as minhas verdades”. Em algum momento te sentiste condicionado enquanto profissional por expressar a tua opinião?
[Pausa para pensar] É assim, eu também não sou um exemplo, porque como já falámos sou um jogador que se excede um pouco dentro de campo e tenho plena convicção de que por vezes passei alguns limites. Lá está, outra situação: sou castigado com quatro jogos no Boavista por ofender uma pessoa da Liga, por dizer “É tudo uma máfia” ou “És corrupto”. Senti-me prejudicado e no calor do jogo, a caminho do balneário no intervalo (…) mas quer dizer, és expulso por ofender um árbitro e levas um jogo ou dois; ofendes um senhor que tem uma gravata e nem sabe o que é uma bola e levas quatro jogos, porque esse senhor tem muito mais poder do que os intervenientes. Contam-se pelos dedos de uma mão um jogador que apanhou quatro jogos por palavras; chamas filho disto ou filho daquilo a um árbitro e levas um ou dois jogos e àqueles senhores que estão na berma do campo, muitas vezes no telefone e que para um lado diz e para o outro omite, levas quatro jogos. Atenção que com isto não desculpo as minhas palavras: fui bem castigado. Muito por aqui se vê que as prioridades estão um bocadinho trocadas.

– Seixalinho –
“Na minha altura na equipa sénior com o mister Jorge Jesus, não é que os jogadores que lá estão agora não jogassem… não estavam sequer no plantel”

Quem era o David dos tempos do Abóboda?
Era um David apaixonado por futebol, muito por influência da família: o meu pai adorava futebol, o meu irmão [Bruno Simão] já jogava e desde sempre o acompanhei aos treinos e aos jogos… até a minha mãe era completamente apaixonada por este desporto! Era um rapaz muito feliz, sem sonhos, apenas a desfrutar da rua e do ringue ao fundo da minha rua, onde passava o tempo desde que saía da escola até à hora do jantar. Não ligava às consolas; preferia uma hora na rua a jogar à bola a três horas em casa a jogar consola ou a ver televisão – a não ser que estivesse a dar futebol. [risos]

A herança familiar pesou na hora de optares entre Benfica e Sporting?
Pesou na infância, quando me tornei benfiquista. Lá em casa, todos eram Benfica… começas a crescer nesse mundo e acabas por te envolver. Não pesou na altura de escolher por qual queria jogar, porque aí já era benfiquista e, tendo oportunidade de optar, logicamente escolhi o Benfica. Logisticamente também era mais fácil, porque o meu irmão já lá jogava e os treinos eram exactamente no mesmo sítio onde ele treinava.

Viveste por dentro o início do período de revolução do modelo de formação do Benfica, mas que só mais tarde veio a dar frutos. Como tens acompanhado este processo?
Tenho umas saudades imensas do velhinho Estádio da Luz… muitas! Aquilo para mim era Benfica! A equipa principal nem conseguia grandes feitos, porque apanhei a altura do Vale e Azevedo, mas era o Benfica que tinha um pavilhão onde jogavam todas as modalidades (…) eu entrava para jogar ou para ver o meu irmão, depois via os juniores, depois o hóquei, a equipa principal… ia de manhã, almoçava lá e só saía ao fim do dia. De quinze em quinze dias, era um convívio de família quase obrigatório para nós. Depois passei uma fase negra, negra, negra (!), a treinar em campos pelados, com pouca luz, sem água quente: nos Pupilos [do Exército], no Unidos… inimagináveis nesta altura para os jovens que jogam no Benfica. Os iniciados do Benfica actualmente têm mais condições de trabalho que um clube de primeira divisão em Portugal. Crescem numa bolha, que às vezes até pode vir a ser prejudicial, dependendo das personalidades. Passei por todas as fases de reconstrução e pelo início do Seixal.

Tiveste noção da magnitude desse projecto?
Dava para perceber que estava a construir-se alguma coisa de muito grande e diferenciada.

Foram essas parcas condições de trabalho que, nessa altura, prejudicaram o aparecimento de jovens formados no clube na equipa principal?
Nessa altura, a aposta não era na formação. Agora dás três chutos e uma finta e estás na equipa principal. A verdade é esta, mas é este o caminho. Se Portugal é vencedor nas selecções, é porque tem qualidade; só que não vão aparecer sempre o Bernardo Silva e o João Félix. Antes, a aposta claramente não era neste sentido. Costumava-se dizer-se que, se estavas no Alverca e fazias dois golos contra o Benfica, no ano seguinte estavas na Luz; era assim que acontecia. Ia buscar-se tudo e mais alguma coisa… por vezes faço aqui uns onzes de cabeça do Benfica dessa altura e minha nossa! Agora não jogavam nem no Abóboda. Houve jogadores com qualidade que passaram pela formação do Benfica: o Maniche foi campeão europeu no FC Porto. O ênfase que se da hoje é completamente diferente. Olhas para a equipa actual do Benfica (…) na minha altura na equipa sénior com o mister Jorge Jesus, não é que os jogadores que lá estão agora não jogassem… não estavam sequer no plantel! A qualidade dos plantéis, na sua globalidade, baixou muito. Não quero falar muito no Benfica porque tenho lá amigos, mas no FC Porto, por exemplo, tinham Hulk, James, Falcao…

O epíteto de um dos mais promissores jogadores da formação foi um fardo demasiado pesado?
Nunca me senti realmente reconhecido como tal pelo Benfica. Basta ver os meus dois últimos anos de júnior: faço as duas primeiras fases a titular e as duas fases finais no banco. Portanto um jogador em quem, supostamente, depositavam tanta confiança, jamais poderia ser tratado dessa forma. Há momentos de forma, mas quanto apostas num jogador, só se ele estiver mesmo de rastos é que não vais pô-lo a jogar. Jogava a titular até aos juvenis, era sempre um dos capitães – até pelo número de anos que tinha de casa –, mas nunca me senti com esse rótulo. Mesmo nas selecções fui sempre chamado, mas nunca fui um titular indiscutível: para o meu lugar havia o Diogo Rosado, o próprio Josué, o Diogo Amado, o André Martins… nunca me senti super valorizado pelo Benfica. Achava que tinha algumas condições, mas nunca tive grandes ilusões.

Qual a responsabilidade de um treinador das camadas jovens na formação humana de um atleta?
Um treinador tem de conciliar essa formação humana com o lado táctico. Não vale a pena sermos hipócritas. Pelo menos com o aproximar da fase final de formação, a verdade é que os clubes querem formar jogadores. A questão dos ideais e da formação da pessoa acontece mais no início da formação; a primeira intervenção do mister José Paisana, o meu primeiro treinador, foi com os pais “Meus amigos, vocês são os pais dos atletas, mas a partir do momento em que eles entram por este portão, passamos a ser nós, os treinadores, os responsáveis por eles”. Para estar a falar nisto hoje, com 30 anos, é porque teve algum impacto. Portanto nessa fase inicial é muito importante formar homens, com valores, ideais e regras, mas quando passamos para uma fase mais profissional, é muito importante teres alguém com sensibilidade para trabalhar com jovens, mas que já te consegue acrescentar alguma coisa e te prepara para o salto maior da formação: o início da carreira como profissional.

[David prossegue]
No meu tempo, não havia equipa B. Era como ires num lance de escadas e de repente falham-te ali três degraus e tens de dar um grande passo. Nem todos conseguem. Dou sempre este exemplo, não sei se por ter sido um passo maior do que a perna (…)

[Interrompo] Fábio Paim?
O Paim por outras razões. Teve todas as condições e várias oportunidades para poder agarrar. Mesmo quando não quis, foi-lhe dada mais uma e outra. Ia referir-te o André Carvalhas, que era uma coisa incrível; olhava com admiração e sentia que aquele gajo ia ser jogador do Benfica. Era pequenino e tal, mas havia um canto do lado direito e batia com o esquerdo, um canto do outro lado e batia com o direito, fintava e chutava com uma facilidade que eu não conseguia, uma leitura de jogo e uma destreza… a verdade é que no primeiro ano de sénior vai para o Rio Ave e não jogou, quando precisava de minutos. Tenho pena que não esteja num nível superior, porque aquelas imagens dele na formação não me saem da cabeça.

Pergunto-te em específico pelas experiências com Bruno Lage e Emanuel Ferro.
Tinha e tenho uma relação mais próxima com o mister Bruno. Acho que ele conciliava os dois lados de que falámos: era um treinador muito próximo dos jogadores, capaz de se preocupar contigo a nível pessoal e extra-futebol, mas com quem, no treino, sentias que melhoravas e que aprendias. Com ele, sentias-te mais capaz época após época.
O mister Emanuel também é uma pessoa formidável, com um tato muito bom para a formação. Treinar escalões mais jovens é totalmente diferente de treinar homens: uma palavra na formação é uma palavra bem dada, no futebol profissional pode já não fazer sentido. Hoje está completamente pronto para trabalhar com o futebol profissional.

– Pés no chão –
“João Alves disse a Rui Vitória para não me ir buscar”

No teu primeiro ano de sénior és emprestado ao Fátima. Foi Jorge Jesus quem te dispensou?
Foi o Benfica. Não me perguntaram, disseram-me que ia ser emprestado e eu também não achei que fosse má ideia. Lá está, eu acabei a fase final de juniores sem jogar, as expectativas não eram muitas. Não tendo aparecido nenhuma equipa de Primeira Liga – e hoje digo felizmente, porque se calhar tinha ido e não tinha jogado – acho que foi um passo certo e seguro na minha carreira, onde acabei por me cruzar com o mister Rui Vitória.

Foste, aliás, para o clube e para a cidade do Santuário pela mão dele. Como tens visto a sua carreira? 
É uma carreira muito boa. Não vou dizer que já perspectivava, porque no futebol o que hoje é verdade, amanhã é mentira. Rui Vitória já era conhecido por ter eliminado o FC Porto, mas nessa época jogávamos um futebol muito atractivo, apoiado, vistoso e que promovia os jogadores. O passo seguinte, o de ir para a primeira divisão, foi um passo natural, mas não vou dizer que já sabia que iria para o Benfica, ser campeão nacional e tudo mais. Via nele condições técnicas e, sobretudo, humanas – ele e a equipa técnica eram de um trato incrível. Quer no Fátima, quer no Paços de Ferreira, conseguiu criar um ambiente muito familiar.
[Pausa para ligar à mulher, com quem não está desde Fevereiro por força da pandemia. Não atendeu e retomamos]

Quem e porque é que lhe disseram para não te ir buscar porque eras um “grande maluco”?
O que me foi dito foi que que tinha sido o meu treinador de juniores, o mister João Alves, porque, segundo ele, eu era um rapaz que ia causar problemas; que eu era maluco e que havia lá um melhor para levarem, o Leandro Pimenta. O Rui Vitória teve uma expressão muito curiosa “Ainda bem que me disseste isso, João. Porque eu estava mesmo à procura era de um maluco”. Assim se estragam carreiras e assim surgem oportunidades. Se calhar não tinha arranjado um clube de segunda divisão e, hoje em dia, já nem jogava. Por um comentário infeliz. A verdade é que tive dois anos com o mister Rui Vitória e nunca tive problema algum com ele.

Antes de acompanhares Rui Vitória para Paços de Ferreira, tinhas esperança de integrar o plantel do Benfica na nova época?
Não. Sabia à partida que não ia acontecer, nem eu estava pronto. Quando surgiu a hipótese de ir para o Paços, fez-me todo o sentido: pensei “Ok. Fiz a formação no Benfica, passei para a Segunda Liga e agora Primeira; eventualmente, depois, um regresso”, que acaba por acontecer. Paços de Ferreira foi um passo natural e sustentado.

Nessa equipa jogava um extremo franzino com nome de craque argentino. Surpreendeu-te o protagonismo que Pizzi atingiu no Benfica?
Via-se que era bom jogador, mas à imagem do Rui Vitória não lhe adivinhava tal futuro. Até porque, durante o ano não, se falou muito do Pizzi: jogava bem, fez alguns golos, mas, se se falasse, era para o Guimarães ou assim.

Falava-se mais do Nélson Oliveira.
Muito mais, como é óbvio. E o Nélson acaba por nem ter um grande ano em Paços, porque quem jogava mais vezes na posição de avançado era o Mário Rondon.

[Volta-se ao Pizzi]
Durante o ano não se fala muito nele – muito bom jogador, com muita qualidade, claro -, mas quando olho para o nome Benfica, acho que é sempre preciso algo mais, algo muito diferente dos outros. A verdade é que o último jogo é o coroar de uma época boa do Pizzi, que ali passa a ser muito boa: o 3-3 no Dragão, com três golos dele. Se até então o Jorge Mendes nunca o tinha contactado, no fim do jogo tinha várias chamadas dele; já era da agência, mas até lá nunca haviam tido contacto.

– Missão Impossível –
“Jorge Jesus achava que eu era como o Witsel”

Na época 11/12 regressas finalmente à casa mãe, mas fazes apenas duas partidas antes de seres emprestado. Era missão impossível ganhar lugar naquele meio-campo?
Era muito difícil. Não sei se o Matic, até dezembro, fez mais jogos do que eu; era sempre o Javi [García] que jogava. Aliás, quando jogava o Matic, dizia-se que ele era a gasóleo, que não corria… quando um jogador destes não joga, está apresentada a qualidade do plantel. O Nolito, que era suplente, fez 15 golos…

Há umas semanas, Fábio Faria dizia-me que nunca tinha visto tanta qualidade num plantel.
É difícil pegares em alguém do plantel actual para entrar de caras nesse Benfica. Tens o Javi García e o Matic, tens o Axel, tens o Nico, o Pablo Aimar, o Saviola, o Cardozo, o Rodrigo, o Nolito, o Garay, o Luisão… vais trocar quem? É impossível.

Eventualmente o Grimaldo.
Sim, também é o nome que me vem logo à cabeça. O Pizzi podia intervalar com o Bruno César, que não era superior ao português no seu melhor… a memória no futebol é curta. O Pizzi foi considerado o melhor jogador da Liga; há dois anos que carrega o Benfica às costas com golos e assistências que não são sequer vulgares num médio. Ele é muito meu amigo e tenho a plena convicção de que ele sabe que não atravessa o melhor momento de forma, mas como a equipa toda. Portanto, ele cabe nessa equipa; o Vinícius pode caber, mas não eram titulares indiscutíveis como são hoje.

Um dos homens dessa equipa era Rúben Amorim. O ex-médio já dava ares de poder vir a ser treinador?
Acho que nem ele tinha bem definido que o futuro passaria por ser treinador. O Rúben sempre foi um excelente elemento de grupo, para além de um bom jogador: não era um craque, mas era super inteligente, por isso é que conseguia a jogar a defesa-direito, médio-direito, médio-defensivo. Se calhar, está aqui umas das principais características enquanto treinador. Não era o mais rápido, não era o mais técnico, o que batia melhor na bola, mas foi muito útil para vários treinadores desde o tempo do Quique Flores. Eu acho (…)

[David hesita]
Nós mantemos contacto. Aliás, ainda ontem à noite estivemos a falar. O Rúben tem uma história com a minha família: é padrinho da filha do meu irmão, com quem jogou nas camadas jovens do Benfica. Naqueles três meses de férias da escola, ele passou muito tempo na casa dos meus pais. A minha relação com o Rúben vai muito para além do futebol. É um amigo, que na pré-época que fiz com a equipa principal pediu para ser meu colega de quarto – no ano anterior tinha andado muito tempo com o David Luiz, precisamente porque eles eram melhores amigos.

Que também deve ser um excelente elemento de grupo.
O David?

Sim.
Fantástico. Um palhaço [risos]. Esses jogadores fazem sempre falta, porque a época é sempre desgastante. Por muito bem que corra, há muita pressão diária para conquistares um lugar, para seres melhor, porque o teu colega está bem e se quiseres ganhar melhor que ele tens de jogar… mentalmente, mais do que fisicamente, é muito desgastante. Mas quando tens alguém assim, que te consegue passar boa energia e fazer com que aquilo pareça menos sério, é muito importante. No entanto, nos treinos, quando fazíamos com o mister Jorge Jesus os 4 km em 16 minutos, o David Luiz ia sempre à frente e encarava aquilo com um profissionalismo incrível.

[Mais uma pausa, desta feita para atender uma chamada do filho, a quem diz que já devolve a chamada porque está a dar uma entrevista]
A meio da época és emprestado à Académica, onde encontras Cédric, Adrien e… Éder. O golo frente à França foi um merecido reconhecimento do talento de alguém que nem sempre foi valorizado?
Nem sempre foi valorizado por quem? Por pessoas que percebem de futebol o que eu percebo de política? Não era valorizado, mas continuava a ser chamado; alguma coisa tinha que ter. É claro que eu não dizia que ia ser o Éder a marcar aquele golo, e quem disser o contrário está a mentor, por mais amigo do Éder que seja. Fiquei muito feliz por Portugal ganhar – sou muito patriota e orgulhoso do meu país, apesar de não ter nascido em Portugal [David nasceu em Versalhes, França] – e por ser o Éder a marcar aquele golo; apesar de não ter jogado com ele – foi afastado da equipa por forçar a saída -, ainda estivemos juntos em diversos treinos e é um ser humano fantástico. Mais do que o jogador, que está aos olhos de toda gente, é um ser humano incrível.

Terminas a temporada com dois troféus conquistados, um por cada equipa. Qual deles teve o sabor mais especial?
Pela Académica. Quando fui para Coimbra, foi por minha vontade. O mister Jorge Jesus não queria que eu saísse e disse-me que percebia a minha vontade, mas que crescia mais a treinar todos os dias com aqueles jogadores do que a jogar em qualquer outra equipa da Primeira Liga. Era feliz, mas não era: chegar ao fim-de-semana e já nem ter o entusiasmo de ir ver se o meu nome estava na lista ou não… estava a viver um sonho por estar no plantel do Benfica, um orgulho imenso dos meus pais, mas queria jogar. A Académica já estava na meia-final da Taça de Portugal, tinha grandes probabilidades de ir à final e era uma competição que me dizia muito. Tudo isto pesou e essa final foi, sem dúvida, o melhor dia da minha carreira.

Como era a tua relação com Jorge Jesus?
Eu era um miúdo (…) parece-me que, hoje em dia, tem uma personalidade um pouco diferente, começou a perceber que o discurso dele, por vezes, podia não ser o melhor. Tínhamos uma relação normal, sem grande intimidade, porque nunca fui opção. Era mais um jogador do plantel, que estava ali para aprender. Chegou a dizer-me – e deu-me alguma graça, para ser sincero – que achava que eu era como o Axel [Witsel]; que quando o belga chegou ao Benfica era muito a gasóleo e que eu também era assim “Tu, com bola… o meu problema não é esse… mas precisas de desenvolver”. E eu pensava que se precisava de desenvolver, precisava de jogo. “Tens uma batida na bola muita boa, dos melhores que tenho aqui, jogas bem, mas andas a gasóleo”, dizia-me. E eu “Ok, percebo isso”, mas estar-me a comparar com o Witsel era demasiado. Como já falámos acabei por sair e, como precisavam de um português para preencher a vaga que ficou em aberto por causa da Liga dos Campeões, acabam por ir buscar o André Almeida.

Em Arouca ficas pela primeira vez como sénior num clube por mais de uma temporada. Estar ligado contratualmente a uma equipa grande condiciona a estabilidade e consequente afirmação de um jogador?
O problema de alguns empréstimos é que, se o clube a quem és emprestado não tem ambições, podes começar a ficar de parte, porque não lhes vais trazer retorno. É mais por aqui, porque se és emprestado e jogas, a ideia é essa: estas a mostrar-te, a valorizar-te e a crescer. O que eu não gostei, enquanto tive contrato com o Benfica, foi ser emprestado todos os anos: para um lado, depois para o outro… mesmo para a minha família não foi fácil. Hoje em dia utiliza-se muito o 50/50, como foi o caso do Chiquinho para o Moreirense, em que o Benfica teve de recomprar os 50% do passe; na minha altura isso não existia e as decisões acabam por nem ser tuas. Quando fui para o Arouca, não era para onde queria ir; não tinha uma proposta ainda no papel, mas tinha já uma coisa apalavrada a ganhar cinco vezes mais em comparação com o que fui ganhar.

De que clube?
Um clube russo. No entanto, pelos timings, fui para o Arouca, que nunca tinha estado na primeira divisão, depois de na época anterior ter jogado a Liga Europa pelo Marítimo.

– Vaivém –
“Isto que estamos a fazer fascina-me”

Sais para o estrangeiro em 2016, para representar o CSKA Sofia. Mais do que a proposta, foi o clima do futebol português que te levou a fazer as malas?
Nessa altura saí porque queria experimentar o estrangeiro, ir à aventura. Não fui ganhar muito mais do que ganhava em Portugal, na verdade. Arrependo-me dessa opção; pesou bastante o facto de já lá estarem portugueses – o Arsénio e o Diogo Viana iam trocar o Litex pelo CSKA e eu já sabia disso de antemão. Mas nunca estamos satisfeitos com aquilo que temos: se hoje ganho dez, amanhã quero ganhar 20 e quando ganhar 20 acho que já é pouco e quero ganhar 30. Apesar disso, passei dos melhores anos com a minha família, porque estávamos quase sempre sozinhos e apoiámo-nos muito. Esse ano culmina com o derby CSKA x Levski, em que ganhámos 3-0 e eu marquei dois golos. Na temporada seguinte apareci com uma imagem mais forte juntos dos adeptos, mas o entendimento com o treinador não era o melhor e surgiu a oportunidade de ir para o Boavista.

Já lá vamos. Foi na Bulgária fora que percebeste que o nível por cá não era assim tão baixo?
Já tinha essa noção, para ser sincero. Sou apaixonado por futebol e vejo muitos jogos. Há jogadores que não veem futebol e respeito; a nossa vida profissional consome-nos tanto que, quando chegas a casa, queres desligar. Eu gosto de ver futebol, falar sobre futebol – isto que estamos a fazer fascina-me. Tive sempre a noção de que em Portugal se jogava bom futebol e que havia bons jogadores, ainda para mais tendo em conta as dificuldades que os clubes têm. As pessoas são apaixonadas e percebem de futebol (…) quer dizer, algumas. Não percebo como é que os comentadores de televisão opinam tanto e nunca foram treinadores; já nem digo jogadores porque isso é uma questão física, às vezes. O curso está acessível a toda a gente… é tirá-lo e ir lá para dentro. Uma coisa é comentar aquilo que se vê, outra é a crítica gratuita.

Por exemplo?
O Bruno Lage, quando estava a perder, metia três avançados e eu dizia “Não faz sentido”, sou livre; não posso é dizer que o Bruno Lage não percebe nada e tem de ser despedido. Nós não estamos lá, não sabemos como foi a semana de trabalho. Toda a gente fala de um jogador em específico no Benfica: por que é que não joga, desapareceu e não sei quê; nós não sabemos se é bom elemento de grupo, se destrói um balneário… há jogadores, os denominados puxa-saco, que sabem exatamente como viver dentro do futebol. Isto num grupo (…) nós percebemos, mas para fora, quem vê umas imagens de meia hora, pensa assim “Aquele, que fica chateado quando a equipa perde, não joga” e aquilo é uma máscara, porque quando não há câmaras, aquele jogador não é nada disso: entra a rir quando a equipa perde e de cara fechada quando a equipa ganha.

Falamos de um jogador natural de um país onde já tenhas jogado?
Não vou dizer o nome.

O bom filho a casa torna e a meio da segunda época no estrangeiro, ingressas no Boavista, onde ficas ano e meio. Foi o casamento perfeito?
Foi o melhor ano desde que jogo à bola. Fiz coisas que não achava que conseguisse fazer. Senti-me num nível tão elevado… lá está, pelo casamento que foi. Não posso dissociar disto do treinador, que foi fulcral: o Jorge Simão. O próprio grupo – ainda há pouco estive a falar com o Vítor [Bruno], podia falar do Fábio Espinho, Rui Pedro, Kuca, o próprio Renato Santos… tínhamos uma equipa muito engraçada. O Jorge fez-me crescer, marcou-me muito e considero-o como um pai. O Pedro Emanuel e o Rui Vitória também foram muito importantes, mas o Jorge levou-me para um nível muito alto. Tenho-lhe um agradecimento profundo.

Resististe à primeira janela de transferências, mas acabaste por sair para a Bélgica, a que se seguiu a Grécia. Quais as principais diferenças que encontras do nosso campeonato para aqueles onde já estiveste?
O campeonato grego é o mais semelhante ao nosso. O belga é muito forte, muito competitivo, muito físico, muito rápido e com uma intensidade muito alta… gostei muito da Bélgica. Fui treinado pelo mister Laszlo Boloni, cuja imagem de marca é ser um treinador muito defensivo, e isso não beneficiava o meu estilo de jogo, apesar de ter excelentes resultados. Seis meses também foram pouco para me ambientar: dois são de “pré-época” e de repente passou meio ano. Não fui muitas vezes titular no Antuérpia, mas entrava quase sempre. Então quando entrámos na fase final… Genk, Gent, Brugge e Standard de Liège: equipas muito fortes! Top-5 em Portugal. A Bulgária é o campeonato mais fraco.

– Futebol por um canudo –
“Não assinei pelo Kayserispor porque uso óculos”

Em Janeiro deste ano conheceste um novo destino. Como está a correr a experiência em Israel? 
Quando vim para aqui tinha um único propósito: jogar. Foi conseguido. Depois da quarentena, parece que entrámos no campeonato como o Benfica e o FC Porto; existe, também, uma grande gestão da equipa – estamos a ter muitos jogos, à terça e ao sábado, e nem dá tempo para recuperar – e não temos plantel para isso. O nosso foco agora está na final, ao contrário dos restantes. Numa fase final onde, à excepção do Maccabi Tel Aviv, as equipas equivalem-se, se juntares a falta de compromisso à gestão da equipa, é normal que os resultados não apareçam.

O Miguel Vítor e o Josué fizeram jus à hospitalidade lusitana?
Sim, claro! Quando cheguei, como o Miguel estava mais com a família, passei mais tempo com o Josué. Com a pandemia, o Josué reagiu quase em pânico e nós respeitámos, então todos os dias ia jantar a casa do Miguel; no Benfica tínhamos uma relação cordial, mas não éramos amigos. Entretanto já tive oportunidade de lhe dizer que, quer ele, quer a família, foram fundamentais para eu conseguir passar este período, porventura, até de uma forma irresponsável. Treinávamos todos os dias, aqui, a correr, e depois jantávamos.

O modelo do campeonato israelita faria sentido em Portugal?
É um modelo diferente. Em vez de teres dois Benfica x FC Porto, tens quatro. Tens mais espectáculo e porventura vendes mais. É um modelo igualmente justo, mas que para algumas equipas pode ser desmotivante.

Já sabes se o Hapoel Beer Sheva vai exercer a tua opção de compra?
Dificilmente. A dona do clube saiu – nesta questão da negociação de cortes, ficou desiludida com os jogadores – porque nós quisemos renegociar e ela entendeu que era uma afronta. Actualmente o clube não tem condições de me comprar nem tão pouco de suportar o meu salário. Tenho contrato com o AEK e se, até ao final da época, não aparecer uma proposta que me agrade vou ter de regressar, apesar de achar que não contam comigo. Não é apenas pelo aspecto financeiro, mas é também, e não penso abdicar de nada do contrato que tenho com eles.

Ainda desfrutas de jogar futebol?
Os contextos, por vezes, tiram um pouco o brilho, mas claro que desfruto. Este ano tem sido atípico: assinei pelo AEK e ao fim de uma jornada o Miguel Cardoso é despedido e deixei de jogar; entra um grego, automaticamente afasta-me e passo a treinar sozinho sem me darem uma explicação – eu e o Francisco Geraldes. Em Janeiro, quando abriu o mercado, vou para a Turquia para assinar pelo Kayserispor e, quando chego lá, dizem que já nem querem ficar comigo porque uso óculos. Regresso à Grécia e, ainda que sabendo que não é legal meter um jogador a treinar à parte, eu e os meus representantes achámos melhor não ripostar para que o clube não me dificultasse a saída se aparecesse uma boa proposta; entretanto há uma troca de treinador – sai o grego e entra um italiano que não percebia por que é que eu estava a treinar à parte – e começo a treinar novamente com a equipa; não jogo, mas sou convocado. Nisto, fecha o mercado europeu – tinha tido uma possibilidade de sair, mas foi-me dito pelo treinador que contava comigo e que ia dar-me uma oportunidade – e fico na Grécia, porque amo Atenas. Voltas e mais voltas, acabo por vir para Israel, começo a jogar, passamos à final e aparece a pandemia. Comecei a treinar em Junho, já vamos em Julho e está a ser um ano muito desgastante, com muitas peripécias. Agora preciso de férias e de voltar para perto da minha família para recarregar baterias e encarar um novo projecto, que não acredito que seja o AEK. 

Voltar ao futebol português é uma hipótese? 
Portugal é sempre uma hipótese, mas, nesta altura, põe-se o entrave do salário. Quando voltei para o Boavista, perdi dinheiro, mas pensei “David, ou é agora, ou já não é, porque os anos passam”. Actualmente, com 30 anos, não posso abdicar de um contrato que, provavelmente, nem os jogadores do Braga ganham isso; ou seja, só os três grandes podiam oferecer-me condições semelhantes às que tenho agora. Se calhar as pessoas que lerem isto vão pensar “Só pensa em dinheiro”, mas, em média, daqui a quatro anos acabou e nós precisamos de guardar ou investir e é esse dinheiro que nos vai fazer poder encarar o futuro de uma forma mais ou menos tranquila. Ao vir para aqui, o AEK disponibilizou-se a pagar parte do meu salário; havendo um clube que possa fazer isso, Portugal é uma hipótese.

Para concluir, quero deixar-te um desafio: caso vençam o Maccabi Petah na final da Taça de Israel, convido-te a ti, ao Miguel e ao Josué a juntarem-se a nós numa emissão Bola na Rede TV. Aceitas? 
Eu aceito! O Miguel e o Josué acredito que também possam aceitar. Está prometido."

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