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segunda-feira, 7 de junho de 2021

O culto da derrota


"Se a derrota é a escola do carácter, a nossa seleção de “esperanças” (ou, como mandam as organizações, sub-21, embora eu prefira “esperanças” ou, em alternativa, “promessas”) é a faculdade. Três finais, três finais perdidas. Nem a “Geração de Ouro”, a primeira a chegar ao jogo decisivo, pôde fazer melhor e lá teve de se contentar com o paliativo prateado dos segundos lugares que no futebol, ao contrário do atletismo, não contentam nem aliviam. Três finais perdidas, dizia eu, duas por 1-0, outra nos penáltis, exigem uma certa arte, um saber perder, não no sentido do desportivismo, mas como se a derrota fosse um ofício com ferramentas e conhecimentos próprios.
Ontem, depois do golo alemão, viu-se logo que os rapazes não tinham aquele nadinha de arrogância, para vergar o adversário, para derrubar a muralha. Tiveram o mérito de não desistir, é certo, mas com a Alemanha a defender a vantagem, ou seja, autorizada a prescindir de qualquer vestígio de brilhantismo que pudesse ter em si, as diferenças entre as duas equipas tornaram-se evidentes: um conjunto de rapazes talentosos e franzinos de um lado, uma armada titânica de matulões teutónicos do outro. Se pedissem a um ilustrador para desenhar figuras que correspondessem aos estereótipos dos respetivos futebóis sairiam de certeza um Fábio Vieira (pálido, etéreo e tão leve que os pitons nem ferem a relva) e um Dorsch, aquele descendente dos gigantes genesíacos, barbudo como um bárbaro.
A propósito de Dorsch, acrescento que se a tez do rapaz fosse mais escura já haveria alguém a exigir certidões de nascimento. A sorte é que nós sabemos que em países como a Alemanha ninguém aldraba a idade, mas que fiquei desconfiado, fiquei. Se aqueles dois jogadores eram quase corporizações arquetípicas do futebol de cada um dos países, o momento em que Portugal foi Portugal, novecentos anos de história numa jogada, levando-me de volta aos tempos em que jogávamos muito mas não ganhávamos nada, foi o do lance magistral de Vitinha (outro talento sobrenatural num corpo de hóstia). O horror ao remate, meu Deus! Há quanto tempo eu não via essa interpretação da técnica como a procura das condições ideais, elementares, para se fazer um remate até não haver condições nenhumas para se fazer o remate e, muito simplesmente, não se rematar.
Desesperados, os comentadores bem que gritavam que Vitinha tinha tudo para fazer o golo, mas ter tudo é o mesmo que não ter nada. O que ele queria era o ideal. Aquele ponto perfeito, alquímico, em que o defesa adversário foi para as couves, a bola cai para o melhor pé e o guarda-redes, já sem noção do espaço atrás de si, deixa aberto o marco do correio em que só se tem de depositar, com elegância e educação, o envelope do golo. Como tudo o que é perfeito, esse momento é fugaz. Basta piscar os olhos e ele desaparece. Pela televisão, todos nós o testemunhámos e todos nós o vimos escapar, para sempre, aquele momento em que Vitinha devia ter chutado mas, portuguesmente, fatalmente, procurou as condições ideais, “ajeitou” a bola.
Não sei nada de alemão, mas duvido que haja naquela língua de filósofos e defesas-centrais o equivalente a “ajeitar” (diz-me o google que em alemão será “fix”, o mesmo que o inglês “to fix”, mas vê-se logo que não é a mesma coisa que “ajeitar”). Há pouco dizia que os nossos jogadores eram talentosos, mas os alemães também são. O que os alemães não são é “jeitosos” ou “ajeitadores”. Ontem perdemos não por falta de talento, mas por excesso de jeito. A derrota não foi a paga pelos nossos pecados, mas o corolário das nossas virtudes. A derrota foi o remate da nossa arte maneirista, do nosso barroquismo de chuteiras."

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