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domingo, 17 de maio de 2020

A crise do conhecimento cientifico

"Não me filio em qualquer uma das correntes irracionalistas, com um fio condutor a ordená-las: condenar a ciência moderna que proclama o perfeito acordo entre o real e o racional, senhora de uma técnica que quase se ocupa tão-só do domínio e manipulação dos fenómenos, incluindo os fenómenos naturais, e que de tanto cultuar a razão não tem o mínimo apreço pelo desejo, pelas emoções, pelos sentimentos.
Depois de Copérnico, Kepler e Galileu; depois do Iluminismo e do Positivismo; depois da Origem das espécies (1859) de Darwin: foram, gradualmente, excluídas as explicações sobrenaturais (e muito bem) para as epidemias, os vulcões, as tempestades, as colheitas. Enfim, tudo o que o ser humano faz e tudo o que resulta da práxis humana – tudo tem uma razão científica, racional, objectiva. La Mettrie, o médico mais célebre dos iluministas, descrevia o Homem como uma simples máquina. E, em finais do século XIX e princípios do século XX, já nas várias comunidades científicas se ensinava que a ciência físico-química “forma, hoje, um conjunto perfeitamente harmonioso e praticamente acabado”. Na década de 60 do século passado, Jacques Monod escreveu O acaso e a necessidade, onde refere que o homem não passa de um ser perdido, na imensidão infinita do universo, onde nasceu por mero acaso. Resta-lhe o desespero! “Por isso, por detrás dessa decepção, reaparece a velha nostalgia: pleitear contra a verdade dos dogmas religiosos, em favor da verdade dos dogmas da ciência (Hilton Japiassu, A Crise da Razão e do Saber Objectivo, Letras & Letras, São Paulo, 1996, pp. 9/10). O Homem não dispensa dogmas que a razão implanta na ciência e também na política e no direito e em tudo o mais: como esquecer a substituição do Estado confessional pelo Estado Laico? E folheio, de novo, o citado livro do HIlton Japiassu: “Claro que os homens actuais precisam tomar consciência da responsabilidade que têm em relação ao meio ambiente, pois a natureza corre o risco de ser torturada e ameaçada de asfixia”. Mas sem esquecer-se que “o contrato natural” está subordinado ao “contrato social”, ou seja que a ecologia não se transforme em ecologismo. Em poucas palavras: que brilhe em tudo o que se problematiza e legisla o princípio do Primado da Eminente Dignidade da Pessoa Humana sobre as coisas e as mercadorias.
O paradigma da filosofia iluminista e até a ciência da filosofia kantiana é a física de Newton. O Tratado de Metafísica de Voltaire, o “Discurso Preliminar” da Enciclopédia de d’Alembert e as Pesquisas sobre a clareza dos princípios da teologia e da moral, de Kant vivem dos mesmos conceitos, têm a mesma linguagem. É neste contexto que se impõe o poder da Razão, a qual nos ensina a movimentar, com o máximo de segurança possível, no mundo empírico. Segundo afirmação célebre de Foucault, em Les mots et les choses (1966), “o homem é uma invenção recente”. Permito-me acrescentar: Cabe também à Ginástica, ao Desporto, ao Jogo Desportivo, à Gestão do Desporto, à Dança, à Ergonomia, à Reabilitação (as valências da Motricidade Humana, afinal) recriá-lo para que aprenda a “viver” e não só a “durar”. Adolfo Yáñez Casal observa no seu Para uma Epistemologia do Discurso e da Prática Antropológica (Edições Cosmos, Lisboa, 1996):”Significação, interesse e valor, eis as três componentes a ter em conta, na delicada operação com que se deve iniciar o processo do conhecimento científico das ciências sociais (…). O objecto e objectivo de análise das ciências sociais será, pois, identificar, compreender e explicar o sentido que os indivíduos atribuem às suas acções e descobrir os motivos pelos quais os indivíduos as executam, em determinado momento histórico” (pp. 29/30). A Ciência da Motricidade Humana (CMH) só como ciência social e humana (ou hermenêutico-humana) poderá estudar-se. E, assim, os seus professores e treinadores não deverão mostrar-se indiferentes, ou neutrais, diante dos factos sociais e políticos, dado que, como o afirma, repetidas vezes, Edgar Morin: “Ciência sem Consciência e Consciência sem Ciência são mutuladas e mutilantes”. Demais, é muito mais importante educar uma alma do que instruir uma inteligência. Tanto o professor, como o treinador, como o técnico, cumprem uma tarefa de formação integral pois que são sujeitos humanos os seus atletas. São sujeitos humanos e não robôs e computadores (que usufruem tão-só uma “inteligência artificial”). E, com inteligência artificial, sem autocrítica e sem amor, podemos ver alçado ao poder um “mundo sem alma”, mas onde, mesmo rotulado de desportivo, o desporto não cabe.
Max Weber, como se sabe, identifica modernização e racionalização. De facto, durante a Idade Moderna, a Razão imperou… indiscutível! Ora, não pode aceitar-se uma ciência que não se questiona sobre os seus próprios fins. “No domínio social, o primado concedido à racionalidade tecnocientífica tem a seguinte consequência: promove os experts que, para suas tomadas de decisão, nos vários domínios da vida social fazem exclusivamente apelo aos conhecimentos científicos e técnicos. A partir do século XVIII (o século da Revolução Francesa) a Medicina constitui-se como uma ciência que “observa” e “experimenta”, isto é, uma ciência objectiva, em que a fisiologia é o seu radical fundante. Michel Foucault, em Naissance de la Clinique – une archéologie du regard médicale (PUF, Paris) tenta provar que a medicina surge, como científica, ou seja, como um estudo de um corpo que pode manipular-se, a partir do século XVIII. Sofrendo de um declarado reducionismp biológico? Mas só assim a Medicina podia apresentar o valor de Verdade, que o saber empírico, então, usufruía. Não foi por acaso que a expressão “Educação Física” surgiu e começou a disseminar-se, no século XVIII – surgiu e começou a disseminar-se, quando a Medicina era “física”, unicamente “física”. E, porque “física”, instrumento da Razão. E, porque instrumento da Razão, com a principal característica de uma verdadeira ciência. E é com velada tristeza que lastimo a inexistência de estudos epistemológicos, nos cursos superiores de Educação Física e Desporto, para que as novas gerações de licenciados entendam :
1. Porque devem fundamentar o seu trabalho profissional numa ciência autónoma hermenêutico-humana.
2. Porque a expressão “Educação Física” não “diz” a riqueza intelectual e moral da sua profissão.
3. Porque numa acção humana é impossível fazer ciência, pondo de parte a “face oculta e interna” de todas as acções humanas, quero eu dizer: qualquer acção humana se constitui de uma mistura inextrincável de factos da consciência e de situações objectivas. Daí, a necessidade do “método compreensivo”, no seu estudo. E não só do “método explicativo”, típico das ciências da natureza. 
Esta totalização, com o predomínio da Razão, transformou-se em terreno fértil para semear utopias. Muitos foram até os doutrinários que vertebraram a convicção de que o Racionalismo, com o seu inveterado mecanicismo e o seu dualismo antropológico cartesiano e o seu saber científico indutivo, positivo e experimental conduziria forçosamente a um novo Paraíso Terreal. Afinal, as grandes revoluções da Idade Moderna e da Idade Contemporânea (a Revolução Inglesa de 1688, a Norte-Americana de 1776, a Francesa de 1789, a Soviética de 1917, a Chinesa de 1949, a Cubana de 1959 e as Revoluções dos povos africanos colonizados) nem sempre resultaram compatibilizadas com o sonho inicial de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Na minha vida, que se escoa como areia, já acompanhei, com actualidade, algumas destas revoluções e do seu universo complexo e diversificado emergiram, tantas vezes!, ditadores no lugar de democratas e velhos vícios em vez de novas virtudes. Tudo me parece física e matematicamente inconsistente, sem a existência e orientação de um Espírito donde se divise o mistério do universo e da vida. “Sente-se a urgência de um novo ethos civilizacional que nos permitirá dar um salto de qualidade, na direcção de formas mais cooperativas de convivência, de uma renovada veneração pelo Mistério que perpassa e que sustenta o processo evolutivo “ (Leonardo Boff, Saber Cuidar, Editora Vozes, Rio de Janeiro, 2000, p. 26). Não deverá esquecer-se que o processo da “racionalização” se encontra intimamente relacionado com a “modernização”. Por isso, são muitos e de todos os estratos sociais e das mais distintas formações académicas (Max Weber está entre eles) os que, na modernização, anseiam pela tecnociência e desprezam a consciência, preferem a quantidade e olvidam a qualidade, idolatram a inteligência e desconhecem os sentimentos. Ciência não pode significar cientismo, porque todo o progresso deverá apresentar-se, sob três dimensões: a objectividade tecnocientífica, a legitimidade ética e a significação estética. Eu quero dizer afinal que é pelo dever e não mais pelo poder que o ser humano deverá realizar-se…"

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