"Numa semana de futebol europeu, com o Benfica forte, escrevo sobre Javi Poves, até há pouco um jogador (defesa) do Gijón da 1.ª Liga de Espanha. Que, em Agosto, decidiu deixar o futebol.
Ao longo da sua carreira várias vezes quebrou a norma. Recusou a oferta de um carro pelo seu clube, ao contrário dos colegas. Fez várias declarações, umas vezes de revolta sobre «o dinheiro e corrupção no futebol», outras de uma rebeldia utópica e até inconsequente.
Javi Poves decidiu virar missionário: «Quero ajudar quem mais precisa. No futebol não era feliz. Andava iludido. Agora quero ser últil ao mundo, ajudar o próximo. No Senegal vou voltar a sentir valores perdidos como a amizade, solidariedade ou companheirismo. Numa palavra, vou tornar-me mais humano».
Um caso que tem tanto de invulgar, como de respeitável.Perante um mundo desigual e injusto, o atleta sentiu o desassossego das incongruências que alimentam o futebol de elite.
As suas palavras e atitude têm tanto de romantismo ingénuo e sonhador, como de mal-estar perante uma actividade que se alimenta intensamente do fascínio efémero, da aparência falsa e demolidora e da busca vertiginosa do sucesso a qualquer preço.
Onde a linha de separação entre êxito e fracasso é perigosamente imperceptível. Quantas vezes, à euforia do sucesso, se seguem o drama da solidão e do esquecimento, num palco pouco ético e pejado de predadores?
Erich Fromm escreveu um dia: «A partir do momento em que o homem se sente não só como o vendedor mas também como o bem a ser vendido no mercado, a sua estima própria depende de condições que vão além do seu próprio controlo. Se ele é bem sucedido, tem valor; se não é, é inútil».
Será que Javi Poves o leu?"
Bagão Félix, in A Bola
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