"Enquanto Mourinho resiste, a imagem de Amorim cresce silenciosa, deixando a decisão mais importante em muito tempo do clube nas mãos de Rui Costa. Chegou o momento dos líderes
Ruben Amorim é muito mais do que um fantasma para José Mourinho. Talvez se lembrem da camada extra de pressão que o Special One criou para Roberto Martínez, com a cumplicidade de Pedro Proença, antes da conquista da Liga das Nações, e como esta se estendeu depois a Bruno Lage, assim que este se fragilizou. Agora, por muito que o negue e talvez até não o sinta, fica desde já debaixo de enorme sombra, exposto por alguém que, apesar do sucedido em Old Trafford, se mostra muito mais solução, sobretudo a médio e longo prazo, e até dispensa aparições públicas para se fazer notar.
O ex-ManUnited não precisa de deixar vestígios de ectoplasma no betão pré-District do estádio para dizer presente. Basta-lhe esperar. Tranquilamente. O seu nome aparecerá em todas as discussões, ainda que tal não garanta que as águias tomem, por fim, a decisão certa. Dependerá sempre de Rui Costa e de ter ou não entretanto aprendido algo em relação aos erros do passado.
Se Mourinho eventualmente ainda for a tempo de arrebatar a Liga, fá-lo-á não só contra todas as probabilidades, mas também por demérito claro dos rivais. Não se trata só da vantagem pontual. Há uma consistência regular nos dragões e pelo menos em muitos momentos nos leões — o que também deve ser alvo de estudo em Alvalade, tendo em conta o ponto de partida de ambas as formações — que os coloca, numa competição longa, um patamar acima. O primeiro troféu de consolação, a Taça da Liga, que Lage celebrou, perdeu-o sem espinhas diante do SC Braga e, dentro de dias, no Dragão, lutará por segunda oportunidade, a Taça de Portugal. Mesmo que vença, ainda faltará um jogo para garantir o Jamor, onde o antecessor teve um dos seus momentos-quase. Há a Liga dos Campeões, com o play-off ainda em aberto porém embates complicados diante de rivais como Juventus e Real Madrid, que dificilmente tirará aos adeptos o sabor amargo de insuficiente. É que aí também Lage chegou aos oitavos.
No pior dos cenários, a época pode acabar já este mês e restarão quatro meses penosos, de autoflagelação, até tudo voltar a animar no mercado, o berço de todos os sonhos. Ainda que queiramos esquecer os resultados e pensar no processo, algo que os resultadistas como Mourinho não gostam de fazer, a verdade é que raramente a equipa deu sinais de evolução, de controlar os encontros como deveria, através de posse de bola proativa, com os jogadores nas posições certas. Nunca conseguiu, porque também nunca quis, fazer crescer a equipa para que no relvado fosse aquilo que deve ser: grande. Com a solidez defensiva de que gosta, embora mandona e dominadora.
Leandro Barreiro, que não é mau jogador, apenas inútil para esse perfil seja em que posição for utilizado, é nada mais do que um pobre grito de eureka! de um técnico que já teve outras ideias e venceu com elas. Experimentar o luxemburguês uma ou outra vez ainda se admite, fazê-lo titular de um Benfica a querer honrar o passado e a aspirar ao sucesso no futuro é aberração. Deixá-lo em campo até ao fim um crime. Olhem para os onzes de Leiria e digam-me: quantos jogadores de equilíbrio tinha cada equipa? Quem pressionou melhor, quem roubou mais bolas? Quem dominou? Quem marcou mais golos?
Recuperei Lage para aqui como o mínimo olímpico de Rui Costa, não porque em algum momento entendi que fosse solução. Mas Mourinho também há muito que é insuficiente. E parece ainda ficar aquém de Lage. A ideia não convence, o processo mostra-se incompleto, mentalmente os seus já não são os mais fortes, os resultados escasseiam, ao contrário das desculpas, que tendem a afunilar para os árbitros e, por fim, para os jogadores. Os mesmos que para si, antes, eram intocáveis. Quando começa a atacar o grupo, precipita-se o fim. Porque para Mourinho a culpa nunca é sua ou do modelo.
Estamos a seis meses do verão. A meio ano de Rui Costa se poder livrar de Mourinho mais barato, como alertou na apresentação. Haverá coragem para fazê-lo? Ou acreditará o dirigente, pela terceira vez, que há sinais suficientes para manter tudo na nova época até se decidir por fim, com todas as provas mas o mercado já fechado. No verão, Amorim terá também cumprido o seu período de nojo por ver colado o seu nome ao pior United do pós-Ferguson — Mourinho continua a ser aquele que obteve melhores resultados depois do adeus do escocês —, e preparado para novo desafio gigantesco.
Não sei se Rui Costa vai ter tempo para esperar o cenário ideal para si, que lhe permitiria lavar mais uma vez as mãos. O de Portugal falhar no Mundial, Proença ter finalmente desculpa para levar Mourinho para a Cidade do Futebol — e que, mais uma vez, está longe de ser a ideia mais correta para esta Seleção e por razões bem semelhantes à dos encarnados —, o que libertaria o presidente para assumir Amorim. Se calhar, terá de antecipar o cenário. Muito já será perdido com este mercado que parece continuar a afastar o plantel do caminho certo.
Não tenho dúvidas de que, se o quiser, Ruben Amorim é a solução para este Benfica como o foi para o Sporting e será para qualquer grande equipa que precise de um rumo. Incluindo um Manchester United tão doente. Digo-o só pelo lado racional, esquecendo se calhar até o que mais será valorizado: a cor clubística. É verdade que na Luz o problema é maior do que o treinador, mas Amorim já era um manager em Alvalade e assumir mais responsabilidades ajudará a todos. Com peso na decisão, poderá fazer de Rui Costa um presidente eficaz. Haverá finalmente alguém que escolha bem os reforços, seja firme na filosofia e liberte a academia.
Num clube habituado a tropeçar em momentos determinantes, a continuidade de José Mourinho será um erro histórico tão evidente como o foi o seu despedimento em 2000. Haverá, contudo, outro pior: voltar a perder Amorim para o rival de Alvalade, onde a falta de resposta de Rui Borges pode também deixar entrar esse fantasma. Rui Costa não poderá adiar muito mais do que o verão: há decisões que definem um clube e não podem ser deixadas ao acaso. Esta pode ser a mais importante da sua liderança — só com ela poderá finalmente consolidar-se."

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