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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A CUF e Caiado, Pegado e Calado

"13 de Fevereiro de 1955: dia de estreias no Estádio da Luz. O Benfica empata (1-1), mas o espectáculo é interessante vívido, agradável. Com momentos que ficaram para a história...

Em 1955, o futebol já tinha importância suficiente para ser manchete dos jornais generalistas, diários pois então. Dia 13 de Fevereiro, houve uma jornada quente. E uma estreia: o Grupo Desportivo da CUF jogava pela primeira vez no Estádio da Luz. Teve direito a uma gentil lembrança.
CUF: Companhia União Fabril. Começou por ser uma indústria de fabricação de sabão, estearina e óleos vegetais. Durante mais de um século, marcou fortemente a economia nacional.
O Grupo Desportivo da CUF foi das equipas mais categóricas dos finais dos anos 50 e todos os anos 60. Esteve 22 épocas na I Divisão, chegou a disputar, até com brilho, as provas europeias, venceu mesmo o enorme Milan (2-0). Lembro-me de ver alguns jogos no Lavradio, na minha meninice. Eram giras aquelas camisolas à Braga, mas em verde-escuro. E por lá passaram grandes jogadores: Capitão-Mor e Abalroado, Manuel Fernandes, Mário João e Uria...
Voltemos à vaca-fria: isto é, ao dia 13 de Fevereiro de 1955.
Outra estreia: Pegado, na equipa do Benfica.
Curiosa tripla na equipa principal: Caiado, Pegado e Calado.
Pegado nasceu em Moçambique, em 1931.
Leonel Vasco Oliveira Pegado. Médio direito, interior direito, às vezes médio centro.
Nesse jogo, frente à CUF, ocupou o lugar de Alfredo, lesionado. Foi o seu único jogo, essa época. Mas isso não lhe retira importância.
Do lado dos do Barreiro, havia gente como o guarda-redes Libânio, o defesa Orlando, o avançado Aureliano.
Não vale a pena fazer suspense que isto não é nenhum file do mestre Hitchkok. O Benfica empatou 1-1.
Estava muita gente na Luz. Gente curiosa, ansiosa por ver a bola rolar.
Para além de Caiado, Pegado e Calado, o Benfica tinha Costa Pereira, José Águas, Jacinto, Coluna e Fialho.
E marcou no primeiro movimento do jogo. Parecia que ia ser fácil. Não foi. Não foi mesmo.

Uma surpresa estranha
Repare-se: em vantagem desde o primeiro minuto, os encarnados deixaram-se empatados aos 11. Mas antes disso já Costa Pereira tinha feito uma defesa de excelência.
Depois, um livre na zona do meio-campo, Sérgio a receber a bola, a oferecê-la a Pedro Duarte, e este a rematar certeiro, impecável. Empate. Surpresa estranha.
Jogava bem essa CUF. Batia-se pelo campo todo.
Mas o Benfica era melhor, naturalmente. Precisava era de o demonstrar com golos. Não foi capaz.
Águas e Azevedo estão, por mais uma vez, à beira de marcar. Os lances ofensivos das águias são vistosos, agradáveis, mas carecem de objectividade. A CUF bate-se com denodo, e os seus movimentos são bem ensaiados e têm perspectivas tácticas interessantes. Acrescente-se: as equipas do Lavradio sempre tiveram encanto. Tal como sucedeu durante anos a fio com a Académica ou com o Vitória de Setúbal, existia uma ideia de jogo, um estilo próprio, como se fosse uma assinatura.
Na segunda parte, o Benfica cai sobre os seu adversário. Calado tem um remete potente: Libânio está batido, mas a bola vai ao poste com estrondo. Depois, Calado outra vez: bola chutada a distância considerável, na trave.
É a imagem de um vencedor que não consegue sê-lo. E de um adversário valoroso que não enjeita a possibilidade de, por sua vez, se estender pelo meio-campo contrário. Foi a estreia da CUF no Estádio da Luz e uma estreia que ficou na memória de quem se deslocou a Benfica. Valeu a pena, terão pensado os espectadores que, saindo,lamentavam o espectáculo. Pegado faz o seu primeiro jogo, faria muito mais, ganharia títulos e ficou para a história do clube. Calado e Caiado também, este até por muitas outras razões. Haverá tempo para falarmos dele desde que não nos faltem estas páginas, que são vossas mas, sobretudo, dos grandes nomes que usaram a camisola da águia ao peito."

Afonso de Melo, in O Benfica

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