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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Os golpes assassinos dos paxás...

Roquete; Armando Martins, José Martins, Vítor Silva, Jorge Vieira, Carlos Alves e Tamanqueiro
César de Matos, Augusto Silva, Pepe e Waldemar Mota


"Agora que o ano mais brilhante da selecção nacional chegou ao fim, é altura de recordar a primeira grande aventura lusitana em competições internacionais - os Jogos Olímpicos de 1928. O benfiquista Vítor Silva foi o melhor marcador de Portugal.

1928: um dos primeiros anos de graça da selecção nacional, agora que chegamos ao fim do seu ano mais brilhante. Jogos Olímpicos, torneio de futebol. Reparem: só em 1930 tivemos o primeiro campeonato do mundo. Os Jogos era, por isso, o campeonato do mundo da altura.
Por sorteio, coube a Portugal defrontar o Chile no jogo inaugural do torneio, que se seguiu à competição de hóquei em campo que ocupara o Estádio Olímpico de Amesterdão até aí. Para o dia 27 de Maio estavam marcados dois encontros preliminares de acesso aos oitavos-de-final: o Portugal-Chile e o Espanha-Estónia. O abandono da Estónia deixou portugueses e chilenos sozinhos no «palco», concedendo-lhe risco pouco simpático de um deles ser condenado a regressar a casa logo no primeiro dia.
E as coisas não podiam ter começado de pior forma para o conjunto das quinas, já que, logo aos 3 minutos, Carbonell, com um remate fortíssimo e muito provavelmente indefensável, fazia o primeiro golo chileno. Não foi preciso esperar muito pelo segundo: 11 minutos apenas para que Subiabre ampliasse a vantagem. Queixam-se os portugueses de «off-side» mas o árbitro egípcio Mohammed faz orelhas moucas aos protestos.
O Chile é, agora uma selecção entusiasmada e confiante e provoca situações de perigo com frequência. Portugal tenta rebelar-se contra o estado das coisas, mas a lesão de Armando Martins obriga o conjunto a estar em campo longos minutos com dez jogadores - regressaria ao terreno mas nitidamente inferiorizado. Aos 38 minutos, um centro do «leão» José Manuel Martins encontra o benfiquista Vítor Silva bem colocado. O golo traz consigo o fervilhar de uma esperança arrefecida. Os portugueses atrevem-se no ataque e são premiados pela audácia. Aos 40 minutos é a vez de César de Matos colocar a bola milimetricamente nos pés de Pepe: o empate que Portugal leva para o intervalo engrandece-lhe a alma para o segundo tempo. A energia lusitana é, a partir daí, avassaladora. Pepe, de cabeça, e Waldemar Mota, na conclusão de uma jogada individual na qual se livra de quadro adversários, selam a reviravolta e o resultado final.
Era a primeira vitória portuguesa conquistada fora do país e a presença garantida nos oitavos-de-final onde nos caberia defrontar a Jugoslávia.

«Tarde primaveril, tarde azul, tarde portuguesa que os nossos jogadores trouxeram na bagagem juntamente com a nossa bandeira...», escrevia entusiasmado António Ferro, o enviado-especial do Diário de Notícias.


Desilusão africana
Os oitavos-de-final ficaram marcados pelo vincar dos favoritismos. Num dos grupos de equipas definidos pelo sorteio, o Uruguai afastava a Holanda (2-0), a Alemanha eliminava a Suíça (4-0), a Espanha goleava o México (7-1) e a Itália desembaraçava-se da França (4-3). Do «lado português», a Bélgica batia o Luxemburgo (5-3), o Egipto esmagava a Turquia (7-1) e a Argentina infligia aos Estados Unidos um resultado de 11-2 tornando-se na grande coqueluche da competição.
A Portugal coube defrontar uma das mais fracas selecções em liça, a da Jugoslávia, que vinha coleccionando algumas goleadas homéricas nos seus anteriores confrontos internacionais. Mas as facilidades esperadas tornaram-se num tormento não previsto.
Com um empate (1-1) no primeiro tempo, golos do benfiquista Vítor Silva e de Bonacic, portugueses e jugoslavos disputam uma segunda parte renhidíssima marcada por uma expulsão de parte a parte que fez Waldemar Mota sair do campo lavado em lágrimas. A um minuto do final, Augusto Silva decide-se por uma arrancada enérgica e solitária que o conduz em direcção ao golo, ultrapassado vários adversários. Os portões dos quartos-de-final abrem-se às escâncaras e já há quem sonhe com uma presença na final.
O opositor que se segue é o Egipto que vem de uma vitória grandemente moralizadora. As notícias vindas de Amesterdão falam de uma «equipa de paxás com um ataque velocíssimo no qual pontifical quatro negros». Não se exagera no optimismo e com razão.
Um vento de derrota parece soprar do mar do Norte nesse final de tarde do dia 4 de Agosto. Os ataques de Portugal são constantemente repelidos pela defesa africana e, em rápidos contra-golpes, os «paxás» fazem dois golos, um ainda na primeira parte, por intermédio de Moktar, o outro aos 3 minutos do segundo tempo, por Riad. Talvez a alma lusitana que levara a equipa a virar o resultado contra o Chile e a bater a Jugoslávia no minuto derradeiro seja capaz de mais um feito digno de elogios. Mas, se existe a vontade, não a acompanha a arte nem a força. Os portugueses esgotam-se na procura da sorte mas desperdiçam oportunidades. Waldemar reclama golo, mas o árbitro italiano Mauro nega que a bola tenha ultrapassado a linha por completo. Os minutos escoam-se e a derrota ganha forma definitiva que o golo de Vítor Silva não é capaz de atenuar. A maneira como o Egipto sai dos Jogos, batido pela Argentina nas meias-finais (6-0) e pela Itália no jogo para a Medalha de Bronze (11-3), torna a desilusão portuguesa mais amarga. A humilhação da vizinha Espanha nos quartos-de-final frente aos italianos (7-1) não serve de consolo.
Em Lisboa, a equipa é recebida com honras de vencedora: um cortejo de automéveis acompanha jogadores e técnicos desde a Estação de Entrecampos, onde o «sud-express» parou a especial pedido da Associação de Futebol de Lisboa, pela Av. da República, Av. da Liberdade, Rossio e Rua do Ouro até ao edifício da Câmara Municipal onde nova multidão os esperava."

Afonso de Melo, in O Benfica

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