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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O Benfica tem de aprender a ser responsável

"Quem gosta de teorizar sobre o riso costuma falar numa tese que diz que o humor é tragédia mais tempo. O que até é capaz de fazer algum sentido, dada a quantidade absurda de tiradas sobre o 11 de Setembro, anedotas sobre a relação de Hitler com os judeus, ou a própria passagem de Del Neri pelo FC Porto que também é, por si só, uma piada.
É uma adaptação desta fórmula que uso para defender que confiança é irresponsabilidade mais tempo. Ok, vá, e sucesso. Se não houver sucesso, admito, é apenas irresponsabilidade.
José Mourinho, por exemplo, poderia ter feito como todos os outros treinadores e prometer apenas lutar pelo título quando se apresentou no FC Porto, mas foi irresponsável e garantiu que o iria ganhar. Como, efectivamente, ganhou, foi confiante e não maluco.
Fernando Santos, já agora, teria sido bem mais ponderado se dissesse apenas que, depois de empatar com Islândia e Áustria, Portugal ia tentar passar a fase de grupos. Foi irresponsável e garantiu que só vinha no dia 11. E veio, o que deu jeito até a quem estava à procura de um nome para um espaço de opinião. E a um país que procurava ganhar, finalmente, alguma coisa, numa segunda ordem de importância.
Ora, vem isto a propósito do Benfica de Rui Vitória, que vive o momento mais duro da época, depois de ter andado muito tempo de mãos dadas com a irresponsabilidade. Quase sempre, mas não só, por necessidade - leia-se lesões - mas sempre com uma ousadia extrema que encantava porque resultava. 
Ricardo Araújo Pereira, insuspeito benfiquista, chegou mesmo a dizer o óbvio, tantas vezes difícil de sair: «Se me dissessem que íamos à Rússia [Zenit] ganhar, tendo como centrais Samaris, que nem sequer é central, e Lindelof, eu não acreditava.»
Quem o condena? Basta olhar para algumas das figuras recentes do Benfica e perceber onde estavam no início da época passada. Ederson chegava do Rio Ave, Nelson Semedo da equipa B, Lindelof ainda por lá andava, tal como os, entretanto, transferidos Gonçalo Guedes e Renato Sanches. Aliás, a forma como o, agora, jogador do Bayern Munique se afirmou, colou a equipa ao meio e ajudou a levá-la ao título, assentou, disse a generalidade da crítica, numa certa irresponsabilidade, própria da juventude, que, acrescento agora eu, se veio a traduzir em confiança.
A parte mais curiosa é que, esquecendo Clésio (e aposto que consigo seguidores para esta causa), todas as apostas de Rui Vitória resultavam. O Benfica perdia jogadores, substituía-os por outros e, incrivelmente, ficava mais forte. Um qualquer fenómeno que tem uma parte de mérito inequívoco do treinador, outra do talento natural do intérprete e outra ainda de um lado transcendental que só é possível em quem está com confiança.
E isto da confiança pega-se. Contagia. Convence-nos que o mundo tem dono e somos nós. Durante todo aquele tempo, a confiança vestiu de encarnado. Havia teorias para tudo. Guardiola destacava, por exemplo, a eficácia defensiva, mas era na frente que mais impressionava. Acima de tudo, de qualquer ideia ou plano, havia qualidade. Muita. Ora, quando à confiança se junta qualidade, o resultado só pode ser óptimo. Foi na época passada. Parecia encaminhado para isso na actual. E, de repente, um abanão e tudo muda.
Chegam as dúvidas. Desde a dupla investida de sucesso em Guimarães, o Benfica só ganhou ao Leixões e Tondela, viu a vantagem de sete pontos passar a apenas um, permitiu que um rival que já empatou este ano cinco jogos seguidos voltasse a depender de si para chegar ao título e, de caminho, perdeu a Taça da Liga, uma conquista crónica, para o menos candidato dos finalistas.
Está tudo perdido? Longe disso, como é óbvio. Continuo a defender o mesmo que aqui escrevi há umas semanas: mesmo tendo achando que o Sporting estava melhor apetrechado no início da época, o falhanço de vários dos reforços leoninos faz do Benfica, inequivocamente, o grupo com mais soluções. Terá, insisto, de ser bastante incompetente para não ser campeão, mesmo tendo perdido quase toda a vantagem que tinha.
Durante o tempo em que a confiança vestiu de vermelho havia solução para tudo. O que nunca houve, parece-me, foi uma alternativa clara à qualidade individual em que sempre assentou o futebol encarnado. Ter os melhores ajuda. Ter os melhores confiantes é vitória quase certa. Ter os melhores com dúvidas exige resposta de grupo. Que ainda não se viu.
É esse o passo que o Benfica vai ter de dar nos próximos tempos, sobretudo se o FC Porto, o rival mais próximo, continuar ali tão perto.
O Benfica já não é a equipa confiante que trocava meia dúzia de jogadores e não se notava. Que lançava miúdos e ficava mais forte. Talvez porque, ao contrário da época passada, não teve margem para irresponsabilidade. Pelo contrário: ficou cedo na frente e com o peso cinzento de carregar às contas o rótulo de favorito claro. A palavra irresponsabilidade perdeu o ‘ir’.
E responsabilidade assusta bem mais. Sobretudo porque, quando se lhe junta o tempo, não costuma traduzir-se em confiança. Quanto muito, vira lógica. Que, já se sabe, quase nunca tem piada.
A não ser, talvez, se lhe derem tempo."

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