Últimas indefectivações

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Uma bola no divã

"Como todos bem sabemos, Sigmund Freud era um neurologista austríaco que ficou perpetuado na História por ter sido o fundador da Psicanálise. Uma das suas obras mais marcantes, porventura até a mais conhecida do grande público, é 'A Interpretação dos Sonhos'. À sua época o futebol não tinha, nem de perto, a dimensão de que hoje goza, mas tenho a certeza de que, nos dias de hoje, Freud dificilmente encontraria outro microcosmo que invocasse tantos sonhos. Sim, não ignoro que não se pode viver sem sonhar. Literalmente. Mas a crueza da realidade obriga-nos a reconhecer que aquilo que faz girar a roda da vida é a vontade, não o sonho. Seja como for, não duvido que se possa descobrir muito sobre a verdadeira natureza de um homem só a partir do que ele sonha, mesmo sabendo que os sonhos são involuntários. Pessoalmente, todavia, de tudo quanto li de e sobre Freud o ensinamento que mais me marcou está contido numa única frase. Esta: «Quanto Pedro me fala sobre Paulo sei mais de Pedro que de Paulo». E não é por me chamar Paulo e não Pedro. É que quem diz Paulo e Pedro pode dizer também Aarão e Abraão ou Zaqueu e Zebedeu. Ou Bruno. Ou Jorge Nuno. Ou Luís Filipe. No entanto, o mais interessante nesta lição de Freud é a frase que imediatamente antecede a ora em análise. Aliás, creio mesmo que esta não pode ser amputada, porque as duas são, afinal, uma só. Desta sorte, o pensamento de Freud sobre Paulo e Pedro, para ser percebido em toda a sua latitude, obriga a que a citação seja completa, ou seja: «O homem é dono do que cala e escravo do que fala. Quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo».
Como seria o mundo da bola se todas as vozes soubessem ouvir?"

Paulo Teixeira Pinto, in A Bola

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