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sexta-feira, 8 de abril de 2016

A diferença

"Pode Rui Vitória ter-se emancipado definitivamente em Munique; pelo menos, mostra estar a aprender a ser treinador de um grande clube!

Um jornalista norte-americano de Chicago - recordou-me agora um companheiro de trabalho - prometeu um dia engolir literalmente o que tinha escrito sobre um jogador francês de basquetebol contratado pela equipa da NBA da cidade, os famosos Bulls, se ele viesse a ter algum sucesso.
O jornalista, Rick Morrissey, escreveu em 2007, quando os Bulls contrataram Joakim Noah, que o francês era má escolha e que jamais poderia tornar-se um jogador de elevado nível, prometendo, caso se enganasse, comer então a folha de papel onde seria impressa a sua crítica. Nos dois anos seguintes, as exibições de Noah desfizeram por completo as críticas de Morrissey e este, rendido à evidência, cumpriu mesmo a promessa. Comeu a página e Noah viu.

Por cá, ninguém prometeu comer as páginas onde foram escritas críticas a Rui Vitória e o seu Benfica, caso contrário já se correria o risco de seguir o mesmo caminho, agora que a equipa aguenta firme a liderança na Liga e surpreende a Europa com a manifestação de personalidade que se viu em Munique. Estrelinha da sorte, proteção divina, menos futebol e mais eficácia, incompreensível obra do além; já muita coisa serviu para explicar a época galopante dos comandados de Rui Vitória, e eu próprio, não tendo prometido comer qualquer página de críticas, já assumi que arriscaria engolir um pouco do que escrevi. Pelo menos do que escrevi sobre a capacidade de liderança de Rui Vitória, que me surpreende agora pela indisfarçável ligação que os jogadores, empenhadamente, lhe dispensam.

Também escrevi muito do que justificadamente me foi parecendo que deveria escrever, de acordo com a opinião de que o Benfica se mostrou muitas vezes ao longo destes meses uma equipa guiada pelo talento de alguns jogadores e pela inspiração e categoria de uma dupla atacante que já fez mais de 50 golos esta época, e pouco guiada pela verdadeira dimensão como equipa.
A verdade é que o Benfica que se exibiu em Munique foi diferente. Foi muito melhor. E foi surpreendente, porque esta época ainda não víramos o Benfica jogar assim frente a um adversário igualmente ou mais poderoso. O Benfica de Munique foi melhor no sentido táctico do jogo, foi muito forte em determinação, coesão, solidariedade e ambição. Foi fortíssimo defensivamente mas também foi atrevido ofensivamente. Foi uma equipa capaz de se estender no campo, de olhar o Bayern nos olhos, de o pressionar muitas vezes no seu próprio meio campo, foi uma equipa com aquele enorme espírito e nível de compromisso que noutras ocasiões já tinha revelado (e que não deixei aqui de reconhecer), e foi, por fim, um Benfica que deixou Munique com três ocasiões claras para fazer golo e uma grande penalidade a favor que ficou por assinalar. 
E que deixou Munique com resultado que o deixa, pelo menos, sonhar. Muito poucos esperariam isso.

Continua a ser muito difícil ultrapassar o Bayern, evidentemente, mas aquilo que o Benfica já conseguiu foi deixar água na boca nos adeptos, porque tendo perdido e uma derrota não pode ser transformada em espécie de vitória - a equipa mostrou estar, em condições de criar sérias dificuldades a uma das mais fortes equipas da actualidade.
Com inegável mérito de Rui Vitória, pelo menos relativamente à forma como a equipa se bate. Só uma equipa ligada claramente ao treinador pode fazer o que o Benfica fez em Munique, e é por isso que independentemente do que vier a suceder, quarta-feira, na Luz, o que já ficou para a história desta época foi um Benfica europeu com direito a bolinha vermelha no pequeno ecrã: adulto e muito ousado! 

Pode ter sido esta a noite da emancipação definitiva de Rui Vitória à frente do Benfica. Por um lado, pela ambição e coragem de levar a equipa a jogar em Munique sem alterar o esquema habitual, de que jogar com dois avançados foi sinal mais evidente; por outro, e sobretudo, por ter sido capaz de preparar a equipa para em qualquer circunstância manter o rumo, não se desorganizar. Claro que o Benfica teria sempre muito mais a ganhar do que a perder neste duelo, desde que cuidasse de evitar sofrer resultado pesadamente negativo que comprometesse animicamente a luta pelo título português ou mesmo a imagem de um quarto finalista da Champions. Disso, o Benfica cuidou. Mas fez muito mais. Perdeu, mas perdeu de pé. Com tremenda personalidade e sob a orientação de um treinador que parece realmente estar a aprender a ser treinador num grande clube.

Dificilmente poderiam os encarnados ter começado pior o jogo na Arena de Munique. Mas apesar de alinharem com três jogadores particularmente jovens - Ederson, Lindelof e Renato Sanches - a verdade é que em nenhum momento se sentiu a equipa tremer. E foram precisamente esses três mais jovens os maiores gigantes.
Ederson tem indiscutível categoria para defender a baliza do Benfica por mais de dez anos, e tanto Lindelof como Renato Sanches confirmaram em Munique a qualidade que já se suspeitava, mas mostraram sobretudo um claro crescimento tático e dimensão para jogar internacionalmente ao mais alto nível. O que vi em Munique foi um Ederson ao nível do que de melhor há nas balizas europeias, um guarda-redes que faz a diferença - pela qualidade das intervenções e não pela quantidade, e que foi, por exemplo, o único a perceber como o Bayern iria marcar um determinado livre e que por isso foi a tempo de evitar, de forma absolutamente espetacular, que Thomas Muller fizesse golo. 
O que também vi foi um Lindelof frio, concentrado, calculista, com sólida leitura do jogo e movimentos suficientemente precisos para anular a perigosa serpente que é Thomas Muller, e vi ainda um Renato Sanches já muito mais capaz de jogar sem bola e com a presença física que a Europa já reconhece notável.

Enquanto o Benfica se prepara então para uma noite intensa no Estádio da Luz, na próxima quarta-feira, por cá a luta pelo campeonato promete prosseguir com duelos dentro do campo (fantástico Sporting no Restelo em resposta à goleada do Benfica ao Braga) mas igualmente algumas batalhas travadas fora dele. É pena. 
Mas com nomeações como a do árbitro João Capela para o Académica-Benfica de amanhã o que podia verdadeiramente esperar-se se não o ataque dos rivais? Havia necessidade?
Depois não se queixem! 

O presidente do FC Porto vai ser, obviamente, reeleito, mas pelos vistos cresce o número de adeptos do clube que parecem já não o ver como o líder de outros tempos. À crise desportiva junta-se, a olhos vistos, uma crise estrutural e uma crise de identidade.
E o resultado é claro: o FC Porto corre de novo o risco de não ganhar qualquer título no futebol pelo terceiro ano consecutivo, como já tinha sucedido no início deste século, e a contestação vai subindo de tom como poucas vezes se deu conta.
Com uma significativa diferença: se no passado o que se contestou foram, sobretudo, situações de treinadores, que viriam a resultar nos despedimentos de Fernando Santos em 2001, Octávio Machado no ano seguinte, ou ainda, mais tarde, de Luigi del Neri, Victor Fernández ou Co Adriaanse, agora o alvos parecem bem diferentes e estão muito mais no interior da estrutura dirigente do que na equipa de futebol. 
Isso é claro!
Apesar de tudo, é visível no universo azul e branco a preocupação de ir deixando o presidente portista fora do tom das maiores acusações e críticas. Parece ser contestado não pelo que fez mas sobretudo pelo que permitiu que fosse feito. E é nesse sentido que alguns não o verão já como o líder que os habituou a ser.
O presidente do FC Porto vai, obviamente, ser reeleito quando se assinalarem 34 anos exactos ao leme do clube, e vai, portanto, continuar a ser o 33.º presidente da história da nação azul e branca. Mas também vai ter muito trabalho e precisar de muita determinação para conseguir inverter nos próximos três anos o caminho dos últimos três.
E vai precisar de tomar boas decisões. No mínimo, melhores decisões. E vai precisar de recorrer ao melhor da sua intuição. E experiência. E conhecimento.
Resta saber se ao fim de todos estes anos o presidente do FC Porto olhará, finalmente, para dentro da estrutura. E, se olhar, o que fará e que decisões tomará. Será essa, julgo, a maior das curiosidades da maioria dos adeptos.
Percebe-se porquê."

João Bonzinho, in A Bola

1 comentário:

  1. UMA BOA FORMA DOS JORNAIS RECICLAREM PAPEL.
    SE TODOS OS JORNALISTAS K ESCREVEM REBAIXANDO; DENEGRINDO; OPINANDO SARRAFEIRAMENTE, COM PREVISÕES CATASTRÓFICAS REFERENTES AO BENFICA TIVESSEM DEPOIS DE COMER O K ESCREVEM E DIZEM TALVEZ TIVESSEM MAIS CUIDADO E...RESPEITO. JÁ PARA NÂO FALAR K AS DESPESAS DE RESTAURANTE DO sporting de LISBOA COM OS JORNALISTAS IA BAIXAR DRASTICAMENTE, OS BICHOS IAM ANDAR SEMPRE DE PANÇA CHEIA...DE PAPEL!!!

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