"Em Outubro descobrimos uma nova especialização em Portugal: teóricos do tempo que um jogador pode aquecer para depois não ser usado, saíram das tocas com as suas certezas inabaláveis. Perante o argumento “acontece a muitos”, indignavam-se, que este não era um jogador qualquer, homessa!
Também se juntou à animosidade a negação. Ninguém gosta de ver um ídolo, um desportista bem-sucedido abandonar, deixando um vazio. Podemos vê-lo por aí, como treinador, dirigente, comentador, mas não voltamos a ver jogar, correr, saltar tantos talentos do desporto com estas carreiras de dias contados.
Não quero ser insensível, já aqui disse que gosto muito do jogador que Ronaldo já foi. Gosto, se possível, ainda mais, que mantenha o espírito de quando tinha 20 e 30 anos. Teria sempre pena no dia em que se soubesse da sua saída da Selecção Nacional. E tive, também me emocionei com o vídeo que publicou. Bem escrito, nostálgico, com bastante dignidade. Mas não gosto de confirmar que ou o treinador é do seu agrado, ou não brinca mais.
Mais uma vez não tive vontade de ouvir o desfile de comentadores nas TVs, painéis como pãezinhos quentes, fornadas de opiniões e sentenças em série. Já hoje, entre uma ou outra notícia e podcast, ouvi falar sobre esta decisão de Cristiano Ronaldo acontecer agora, em véspera de nova convocatória. E fala-se na frustração de não ver Jorge Jesus demitido, fala-se em contrariedade, confirma-se uma espécie de “assim não vou mais!”. O mais triste é que já nem surpreende. Não querendo sujeitar-se a ordens do treinador, que tem legitimidade para fazer jogar quem entender, preferiu este desfecho. Sou insuspeita, não morro de amores pelo popular trato do seleccionador nacional, admito mesmo que 99% da minha simpatia por si, vem de um perfil satírico de instagram (@jjbóçe, aconselho esta boa dose de humor). Mas aqui não tenho dúvidas que está ali para fazer a equipa como entende. E não há paciência para um novo episódio como o de Outubro.
Eu vi a selecção do Futre, que à data ainda seria a de outros, a mesma que foi ao México e voltou sem glória e com má fama, vi a do Figo e do Rui Costa que infelizmente não jogaram o Mundial do seu prime, em 1998. Deixei de os ver jogar a todos. E como sou adepta da Squadra Azzurra desde 1990, as despedidas a que já assisti não têm fim, campeões do mundo em duas datas diferentes incluídos. Trata-se de uma esfera superior, a de Ronaldo, dirão. Precisamente por isso, também devia ter uma outra forma de se despedir. O discurso do vídeo está digno e é o que ficará para sempre, felizmente.
Eu vi todos os 23 anos de Portugal com Cristiano Ronaldo. Se já eram nascidos e não os viram, se acordaram já depois de 2016 para ele, lamento, já não dá para andar para trás. Agora teremos uma reviravolta nos adeptos da selecção: regressam os que não o queriam ali, viram as costas os seus adeptos, quando isto devia ser sobre Portugal a jogar à bola, enfim.
Para quem acompanhou a história de Cristiano e Portugal do início ao fim, fica a clássica e pouco simpática imagem de ver o maior de todos fechar este capítulo como o miúdo amuado que depois de o jogo não lhe correr de feição, pega na bola e vai para casa. Só que o jogo não acaba aqui, há mais bolas no relvado de Portugal."

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