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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Cristiano Ronaldo: o luto da identidade desportiva


"Este texto não pretende analisar a situação de Cristiano Ronaldo, mas sim utilizar aquilo a que todos assistimos para refletir sobre uma das fases mais complexas da vida de qualquer atleta, o fim de carreira e reconstruir a resposta à pergunta 'quem sou eu?'.

Reconhecer e compreender que o tempo está a terminar pode ser doloroso. Não porque não haja nada depois disso, não porque não se possa continuar no topo em outras áreas, mas porque é necessário fazer o luto da única identidade que se teve até então.
Visto de fora, parece simples: reconhecer que o tempo passou, aceitar um papel diferente e escolher o momento de sair. Mas como se abandona aquilo que nos tornou quem somos? Como se deixa uma profissão quando essa profissão ocupa quase toda a resposta à pergunta 'quem sou eu?' 
A teoria da identidade, desenvolvida por Sheldon Stryker e aprofundada por outros investigadores, ajuda a compreender esta dificuldade. Os papéis que desempenhamos integram a forma como nos definimos. Quando um deles se torna dominante, a sua perda pode afetar o sentido global de quem somos. No desporto, esta perspetiva permite compreender por que razão deixar de competir pode exigir uma reconstrução pessoal que ultrapassa largamente uma mudança de profissão.
Um atleta pode ter família, interesses e projetos fora do desporto e, ainda assim, organizar a sua vida em torno da competição. Os horários, o corpo, as relações, os objetivos e o reconhecimento convergem para esse papel. Durante décadas, é ali que encontra pertença, competência e propósito. Quando esse lugar se altera, pode sentir que perde uma parte da estrutura que o sustentava, existindo espaço para um vazio que será sempre difícil de explicar.
É neste sentido que se fala de luto da identidade desportiva. Um luto pela versão de si que o atleta conheceu, pelo corpo em que confiava, pelo protagonismo que ocupava e pelos sonhos que sempre foram os seus. Esse processo pode começar enquanto ainda compete, à medida que confronta mudanças nas suas capacidades, oportunidades ou funções. Não acontece da mesma forma em todos os atletas, nem segue necessariamente etapas fixas.
Cristiano Ronaldo permite pensar nesta questão com particular intensidade. O futebol tornou-o uma referência mundial e ocupa um lugar central na história que construiu e na forma como é reconhecido. Aceitar que o seu papel pode mudar significa confrontar uma realidade que ultrapassa os minutos de jogo. Como continuar a reconhecer-se quando o lugar que sempre ocupou deixa de estar garantido?
Ronaldo construiu também um império de investimentos. Tem negócios, património e possibilidades de futuro que poucos atletas conseguem reunir. Contudo, possuir alternativas económicas não equivale a encontrar uma identidade com o mesmo significado. Ser proprietário de empresas não reproduz necessariamente a experiência de entrar em campo, decidir um jogo ou sentir que o próprio corpo continua a responder ao desafio. Não podemos saber quanto esses projetos o preenchem, mas a existência desse império não permite concluir que o espaço deixado pelo futebol esteja resolvido. Uma carreira pode estar financeiramente assegurada e a sua transição continuar emocionalmente por preparar.
A teoria da discrepância do self, proposta por E. Tory Higgins, acrescenta uma segunda chave de leitura. Distingue a imagem que temos de quem somos, a imagem de quem gostaríamos de ser e a imagem de quem sentimos que deveríamos ser. A distância entre estas representações pode produzir sofrimento: desilusão e tristeza quando nos afastamos do ideal; tensão e inquietação quando sentimos que não correspondemos às obrigações e expectativas que interiorizámos. No desporto, esta perspetiva permite pensar na distância entre o atleta que uma pessoa reconhece em si no presente e aquele que continua a desejar ser. Acrescem as expectativas que sente ter de cumprir: continuar decisivo, liderar, ganhar e corresponder à imagem que construiu. Quando essas referências deixam de coincidir, aceitar a mudança pode tornar-se emocionalmente difícil. Esta é uma possibilidade de interpretação, não uma conclusão sobre o que Ronaldo sente.
Há ainda um paradoxo. A persistência que ajuda um atleta a chegar ao topo pode dificultar a aceitação de uma nova realidade. Durante anos, aprende a responder às limitações com mais trabalho, a contrariar dúvidas e a provar que consegue. Perante a aproximação do fim, pode continuar a procurar resolver através do esforço uma mudança que também exige reorganizar expectativas. Como se pede a alguém que aceite um limite depois de uma vida inteira a ser premiado por o ultrapassar?
Quando esta transição encontra uma identidade demasiado exclusiva e poucos recursos para lidar com a mudança, os riscos merecem atenção. O desaparecimento das rotinas, dos objetivos e do sentimento de pertença pode alimentar vazio, isolamento e perda de propósito, contribuindo para sofrimento psicológico e dificuldades de adaptação. Não é um destino inevitável, mas também não deve ser desvalorizado por existir dinheiro, reconhecimento ou uma carreira extraordinária.
O sucesso acumulado não substitui a preparação psicológica para viver depois dele, muitas vezes pelo contrário. É necessário que a disciplina, a capacidade de aprender, a liderança e a persistência encontrem novas formas de expressão. Mas essa continuidade precisa de ser descoberta e vivida pelo próprio atleta.
Este texto não pretende analisar a situação de Cristiano Ronaldo, mas sim utilizar aquilo a que todos assistimos para refletir sobre uma das fases mais complexas da vida de qualquer atleta, o fim de carreira e reconstruir a resposta à pergunta 'quem sou eu?'"

FIFA: o dia seguinte a 15 de outubro


"O Conselho da FIFA reúne-se num momento decisivo para a credibilidade da organização. Impõe-se um compromisso inequívoco com o escrutínio independente e uma reforma profunda e duradoura da governação, que se traduza em medidas concretas para recuperar a confiança nas instituições do futebol
O futebol não pode continuar a crescer em receitas e a perder em confiança. Hoje, o Conselho da FIFA tem de assumir um compromisso inequívoco com o escrutínio independente e uma reforma duradoura da governança.
Os olhos do Mundo estão postos em Zurique. Cada um dos 37 membros do Conselho carrega uma responsabilidade perante toda a comunidade do futebol. Alcançar um entendimento político poderá ser difícil. Mas essa dificuldade não pode servir de pretexto para adiar o escrutínio ou esvaziar a reforma. Liderar exige coragem para corrigir o que falha, mesmo contrariando interesses instalados.
É de saudar a pujança financeira da FIFA e a sua capacidade de mobilizar recursos para o desenvolvimento. Esse desempenho merece o reconhecimento devido à instituição e ao seu presidente, enquanto responsável máximo. É, porém, um sucesso partilhado: resulta também do contributo das federações nacionais, dos clubes, das ligas que sustentam a competição semanal, dos jogadores e treinadores que lhe dão vida e dos adeptos que lhe conferem dimensão universal.
A proposta de destinar 6,35 mil milhões de dólares ao desenvolvimento do futebol em 2027–2030, divulgada pela Associated Press e ainda sujeita a aprovação, deve ser apreciada nesse contexto. Os recursos pertencem à FIFA e devem servir a sua missão em benefício de todo o futebol. A sua distribuição é uma responsabilidade institucional, não uma concessão pessoal. Não pode gerar obrigações de gratidão eleitoral. Mais investimento merece apoio. Mais dinheiro exige mais transparência, prestação de contas e escrutínio independente.

Examinar como o poder é exercido
As questões suscitadas pela FIFA Forward Enterprise, pelo Prémio da Paz e pela condução dos processos disciplinares devem ser examinadas pelos seus próprios méritos, com base em provas e respeito pelas garantias processuais. Escrutinar não é condenar antecipadamente. É estabelecer os factos e apurar responsabilidades. Mas explicações isoladas não bastam: a avaliação tem de incidir sobre o sistema que está na origem das decisões.
O exercício da autoridade pelo presidente, a capacidade do Conselho para deliberar e fiscalizar, as responsabilidades do Congresso e do secretariado-geral e a independência dos órgãos de fiscalização e jurisdicionais têm de fazer parte dessa avaliação. Tem de ficar claro quem pode assumir compromissos em nome da FIFA, ao abrigo de que autoridade e sujeito a que controlos. Quem aplica as regras deve poder atuar sem interferências, sobretudo quando estão em causa interesses poderosos.
Depois de mais de trinta anos a criar e a liderar instituições no futebol e no setor desportivo, sei que uma liderança forte é necessária. Mas uma governança eficaz não pode depender da disponibilidade de um líder para aceitar ser questionado. A força de uma instituição mede-se também pela capacidade de limitar o poder de quem a dirige. Importa distinguir regras violadas, mecanismos de salvaguarda que falharam e normas que permitiram decisões sem escrutínio adequado. O cumprimento formal não encerra a análise quando são as próprias regras que oferecem proteção insuficiente.

A independência protege a instituição
Quanto maiores forem as divisões e a desconfiança, maior será a necessidade de um escrutínio que não esteja sob o controlo de nenhuma das partes. Um grupo de trabalho interno pode ajudar a concretizar reformas. Não pode, por si só, garantir a independência da avaliação do sistema em que os seus membros exercem autoridade.
Também a designação de uma entidade externa não garante independência. São indispensáveis uma seleção transparente, a gestão dos conflitos de interesses, um mandato abrangente, acesso efetivo à documentação e aos responsáveis e liberdade para publicar conclusões. A independência tem de existir no mandato, nos meios e na execução, e não apenas no nome.
A análise deve seguir as provas, mesmo quando contrariam as expectativas de quem exigiu o escrutínio. Para a SIGA, este princípio aplica-se a todos: a responsabilização não pode ser exigida apenas aos adversários. A autonomia do desporto não é ilimitada nem incondicional. Sai reforçada quando as instituições prestam contas e corrigem as suas fragilidades.

A reforma tem de mudar as práticas
A direção política, a gestão executiva e a fiscalização devem estar efetivamente separadas. Os órgãos independentes precisam de autoridade, recursos e proteção contra interferências. Ligas, clubes, jogadores e adeptos devem ter representação efetiva e capacidade real para influenciar as decisões que afetam o seu futuro.
Os Standards Universais da SIGA sobre Boa Governança no Desporto estabelecem critérios concretos para avaliar estas exigências. O SIRVS, Sistema de Avaliação e Verificação Independente da SIGA, permite confrontá-los com provas. Em conjunto, oferecem instrumentos para identificar lacunas e verificar se as reformas produzem resultados.
No dia seguinte, o futebol deve conhecer o âmbito da avaliação, as garantias de independência e o calendário de publicação das conclusões. A FIFA deve responder publicamente às recomendações, identificar responsáveis e prazos para as que aceitar e explicar as que rejeitar. A execução e a eficácia das medidas devem ser verificadas de forma independente. Um relatório não pode ser o ponto final da reforma.
Uma eleição decide quem lidera. Não resolve as fragilidades do sistema. Todos os candidatos devem assumir estes compromissos. Quem vencer terá de os honrar.
Para Portugal, anfitrião do Mundial de 2030, a confiança em quem governa a competição tem relevância acrescida. Uma FIFA que não aceite ser responsabilizada fragiliza a confiança em si própria e no futebol que deve servir. O seu futuro exige salvaguardas que nenhum presidente possa contornar e uma responsabilização que nenhuma eleição possa suspender."

Integridade desportiva na América Latina: do esforço individual ao compromisso institucional


"Nas últimas semanas, tenho conversado com representantes de diferentes organizações desportivas da América Latina. Uma perceção tem sobressaído nestes encontros: a governação e a integridade estão a ganhar espaço nas prioridades institucionais, mas nem sempre encontram as condições necessárias para se traduzirem em práticas permanentes.
Estas conversas, realizadas no âmbito dos esforços de aproximação institucional da SIGA na região, têm envolvido interlocutores do Brasil, da Argentina, do Paraguai, do Peru, da Colômbia e da Bolívia. Do futebol ao voleibol, passando pelos desportos aquáticos, pelo judo, pela vela, pelo surf e pelo ténis de mesa, bem como pelo movimento olímpico, as realidades são diversas. Os desafios, porém, apresentam pontos de convergência.
Em algumas destas interações, chamou-me a atenção a realidade dos profissionais responsáveis por conduzir estas transformações. Numa das entidades, uma única pessoa acompanha as áreas da governação, do compliance, da proteção dos atletas e do desenvolvimento institucional. Noutra, o responsável pela integridade procura alargar os programas educativos e aperfeiçoar os mecanismos de denúncia sem dispor de uma equipa dedicada.
Não faltam empenho nem iniciativas relevantes. O desafio está em assegurar que estes esforços encontram apoio institucional, recursos e condições para produzir resultados duradouros.
Esta transformação acompanha uma tendência internacional. O Comité Olímpico Internacional tem desenvolvido orientações para um Desporto Seguro, destinadas a prevenir e a combater situações de assédio, discriminação, abuso e negligência, protegendo a integridade física e psicológica dos atletas. A FIFA, por sua vez, reforçou, no seu Manual de Integridade de 2024, a importância dos responsáveis por esta área, dos mecanismos de denúncia e dos programas permanentes de educação e prevenção da manipulação de competições.
São avanços importantes. Contudo, criar uma função, aprovar um regulamento ou estabelecer procedimentos representa apenas o início de um percurso. É preciso formar profissionais, afetar recursos, assegurar o apoio das lideranças e garantir a continuidade das políticas, incluindo quando ocorrem mudanças nos órgãos de direção.
Esta exigência também se faz sentir fora das estruturas desportivas. Patrocinadores, investidores e parceiros comerciais estão mais atentos à transparência, à gestão de riscos e à capacidade de prestação de contas das organizações com as quais se relacionam.
Neste contexto, a integridade deixa de representar apenas uma obrigação institucional. Torna-se também um fator de confiança, credibilidade e sustentabilidade para o próprio desporto.
É precisamente nesta passagem dos compromissos à implementação que a cooperação internacional pode contribuir. Na SIGA, procuramos apoiar este processo através dos nossos Standards Universais e de instrumentos como o Gap Analysis e o Sistema Independente de Rating e Verificação (SIRVS), que permitem identificar oportunidades de melhoria e avaliar a aplicação de boas práticas.
Este compromisso orienta também a MISSION 100, uma nova iniciativa global da SIGA que procura reunir organizações desportivas, governos, empresas, instituições académicas e sociedade civil em torno de um objetivo comum: tornar a integridade um compromisso institucional permanente, traduzido em padrões, práticas e resultados mensuráveis.
Nos diálogos que tenho mantido, percebo que muitos profissionais procuram mais do que soluções técnicas. Procuram referências, interlocutores e oportunidades para partilhar experiências e enfrentar desafios que, frequentemente, ultrapassam a sua capacidade individual de atuação.
A América Latina reúne organizações em diferentes fases de desenvolvimento institucional. Esta diversidade deve ser encarada como uma oportunidade para aproximar experiências e construir soluções adaptadas a cada realidade.
A integridade não pode depender exclusivamente da dedicação de profissionais isolados. Para se consolidar, precisa de estar incorporada nas estruturas, na cultura e nas decisões das organizações desportivas."