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sábado, 31 de outubro de 2026

O Benfica fez um favor aos organizadores da Taça da Liga e aderiu à reunião do G3 em Leiria


"Com um modelo feito à medida dos três grandes, a Liga teve o que procurou. Todos os principais emblemas do futebol português apuraram-se para a Final Four, que o Famalicão vai disputar como intruso. Ao bater o Gil Vicente nos quartos de final (4-1), o Benfica juntou-se aos rivais na decisão de uma prova em que o campeão em título, Vitória SC, não teve oportunidade de participar. Um momento de libertação de Sudakov, o inesperado surgimento de Durán e Lukebakio contribuíram para uma chuva de golaços

A Taça da Liga é uma competição entre aspas, um torneio que ignora à descarada a justiça e vulgariza o favorecimento de um pequeno grupo de intervenientes. O mínimo exigível para ser considerada uma prova com credibilidade era o vencedor do ano anterior poder defender o título, algo que não acontece graças à oligarquia em vigor.
As tecnologias de segurança nunca viram uma medida de proteção tão pouco desenvolvida como estes quartos de final desde que foi inventado o sistema do carregue aqui para provar que é humano. O objetivo, claro, é facilitar o acesso do G3 a um congresso realizado em janeiro que consiste em jogos enfiados à martelada no calendário disputados em Leiria.
A Liga, deslumbrada com a imaginária qualidade do produto, lá teve o que quis. O Benfica ficou com a última vaga na Final Four ao eliminar o Gil Vicente (4-1) e juntou-se a FC Porto, Sporting e ao intruso Famalicão. Uma vez que neste troféu só participam os seis primeiros classificados da última edição do campeonato, o detentor do título, o Vitória SC, ficou arredado à partida da possibilidade de o revalidar. Já Luís Pinto, treinador que na época passada pôs as mãos no caneco, só agora foi afastado devido à derrota sofrida pela sua atual equipa.
Para que este fosse um compêndio completo da bizarria do futebol português, Jhon Durán surgiu como titular nos encarnados. O avançado foi expulso no final do jogo contra o Santa Clara, para o campeonato, mas a abertura de um processo disciplinar permitiu ao colombiano ir a jogo.
Talvez a incerteza quanto à possibilidade de ser utilizado tenha sido causadora da impreparação mental. Os níveis baixos de concentração de Durán foram denunciados por um remate na atmosfera e um domínio falhado após recuperação alta, ambos demasiado escandalosos.
Marco Silva improvisou Samuel Dahl como lateral direito, circunstância provocada pelas mazelas de Alexander Bah e Daniel Banjaqui. Foi por esse lado que o Gil Vicente começou a criar perigo. Com um passe longo, o guarda-redes Samuel Portugal colocou David Moreira em posição de rematar para defesa de Trubin.
No geral, toda a equipa dos encarnados estava um pouco a coxear. As ligações entre a fase de construção e criação, em que o melhor Benfica se tem evidenciado, estiveram enferrujadas durante boa parte do primeiro tempo. Com tudo feito a custo, Echeverri não se inibiu de arriscar de fora da grande área.
As águias acabariam por ter quatro minutos de sonho antes do intervalo, um momento que curiosamente foi precedido da melhor jogada coletiva do encontro, proporcionada pelo Gil Vicente. Após um prolongado momento de posse, Ricardo Esgaio conectou-se numa incursão interior com o lateral do lado oposto. David Moreira definiu com minúcia e proporcionou um remate a Murilo que só foi travado com uma grande intervenção de Trubin.
Lukebakio rematou com uma visível raiva para adiantar o Benfica no marcador. No entanto, a jogada foi todo um momento de libertação de Sudakov. O ucraniano recebeu entre linhas, girou e deu ritmo ao ataque. Comprovando que o voto de confiança de Marco Silva tem sido proporcional à qualidade demonstrada, ele próprio foi autor de um remate potente e o Benfica chegou ao segundo golo em quatro minutos.
Um jogo pelo qual ninguém dava muito acabou por se tornar num concurso para eleger o melhor remate certeiro. Lukebakio submeteu mais uma candidatura ao executar um pontapé de bicicleta com rodinhas, num gesto situado entre o desespero para alcançar a bola e a qualidade técnica.
Porém, mais limpo foi o míssil de longo alcance de Andreas Lausen. Sem grande preparação, o médio da equipa de Barcelos armou um violento remate da zona central sem hipótese mesmo para a envergadura de Trubin. Era um justo reconhecimento para a ousadia do Gil Vicente na segunda parte. Luís Pinto preparou-se com o lançamento de Tidjany Touré para os momentos em que o jogo partiu. Os minhotos podiam ter reduzido ainda mais, mas Lenglet evitou em cima da linha o autogolo de El Karouani, detentor de sérias dificuldades em fechar por dentro.
Tratando-se de uma questão pessoal para o treinador, os gilistas não deixaram nada por apostar. O risco do adversário acabou por ser o combustível para Rafa que, fresco, furou em velocidade pela zona central. Depois de muitos remates precipitados, Durán conseguiu finalmente encontrar consolo no fundo das redes. O Gil Vicente já estava despedaçado e as lascas ficaram ainda mais à vista quando Espigares foi expulso por travar Rafa num lance sem bola. Só a baixa eficácia de Anísio Cabral impediu que o massacre final não se tenha traduzido em números ainda mais impactantes.
Não foi a mais esplendorosa exibição do Benfica esta época. A rotação no plantel, a prioridade baixa da competição, tudo contribuiu para um desempenho que começou pouco perfecionista e acabou em crescendo. Segue-se um clássico contra o FC Porto para decidir quem joga a final diante do vencedor do Sporting-Famalicão."

Lukebakio ganha concurso de talentos com elevada nota artística


"Belga marcou dois golos, o último numa acrobacia que levantou o publico das cadeiras. Trubin fez defesa à Courtois ainda com 0-0. Echeverri voltou a deixar água na boca dos adeptos. Prestianni... foi Prestianni

O melhor em campo: Lukebakio (8)
Estava o jogo meio adormecido, com o Benfica a vencer confortavelmente na segunda parte, quando Lukebakio pegou na bola, fez com ela uns malabarismos e umas fintas, junto à linha lateral, animou a plateia, como que a dizer para não se esquecerem dele. Sim, o extremo belga aproveitou a oportunidade. Não apenas pelos golos. No primeiro, aproveitou um ressalto para disparar forte, de pé esquerdo, na área. No segundo dele, terceiro da equipa, após um pontapé de canto, virou-se de costas para a baliza, na pequena área, e, numa acrobacia, rematou com o pé direito ao ângulo esquerdo. Esteve perto de fazer o terceiro, também num disparo malabarístico. Fez movimentos típicos, abriu espaços onde não existiam, lançou alguns companheiros em direção à baliza.

Trubin (7) — Defesa à Courtois, com o braço esquerdo, depois de um disparo forte de Murilo; no mesmo lance, ato contínuo, no relvado, corta a bola com o pé direito e evita a recarga de Kaba (34'). Impediu, numa intervenção tão espetacular como eficaz, que o Benfica sofresse o primeiro golo. Já aos 5', com o pé esquerdo, travou remate cruzado e perigoso de David Moreira. No golo sofrido, remate fortíssimo de Lausen, ainda levou a mão direita à bola, mas não havia força que a travasse.

Dahl (4) — Adaptado à direita, foi assistente involuntário no primeiro golo — bola sobra para Lukebakio após corte de Zé Carlos. Se apanhou só um susto contra David Moreira, tudo mudou contra Tidjany Touré, na segunda parte. Ficou pregado duas vezes no relvado a vê-lo passar. Ainda viu cruzar Touré para El Karouani quase marcar na própria baliza.

Circati (6) — Muito prudente com a bola nos pés, sem trabalho a defender contra Kaba.

Lenglet (7) — O bom jogo de pés na saída para o ataque, em especial os passes longos, foi ferramenta usada pelo Benfica várias vezes, em especial na primeira parte. Quase marcou de cabeça, após canto de El Karouani (19'), voltou a ameaçar da mesma forma na segunda parte (61'). Grande corte, em esforço e sobre a linha de baliza, a evitar autogolo de El Karouani. Walace deu muito mais trabalho que Kaba.

El Karouani (6) — Aos 85' rematou cruzado na área ao poste direito, no início da segunda parte tinha protagonizado lance semelhante, que Samuel Portugal desviou para canto. Muito em jogo, mas sem impacto positivo relevante. Algumas dificuldades a defender e péssima abordagem a um centro de Touré, que desviou para a própria baliza. Foi salvo por Lenglet.

Sudakov (6) — Foi o segundo médio na construção do ataque, posicionou-se mais ao lado de João Palhinha a defender. Está a dar os primeiros passos nessa posição. Entrou na área no lance do primeiro golo e procurou os companheiros no centro. E marcou um golo com muita classe — remate fora da área e de primeira ao ângulo esquerdo.

Palhinha (7) — Como conhece tudo do jogo e o interpreta bem, sabe como e quando pressionar para incomodar ou desarmar o adversário ou posicionar-se para cortar linhas de passe. Tem larga área de ação e por isso são muitos os companheiros de equipa que se sentem com as costas quentes. Equilibra a equipa. Viu amarelo por falta sobre Zé Carlos e cortar contra-ataque perigoso. Às vezes tem mesmo de ser assim.

Echeverri (7) — Quis fazer muito, depressa e bem, nem sempre foi capaz, mas quando a bola lhe chegou aos pés teve muitas vezes a capacidade de acelerar o jogo, desequilibrar o adversário com dribles vertiginosos e encontrar espaços em lançamentos para companheiros em melhor posição. Deixou por isso mais água na boca aos adeptos. Cheirou o golo em dois remates perigosos.

Schjelderup (6) — Remate cruzado na área ao poste esquerdo (49'). Também esteve no segundo golo de Lukebakio — marcou o canto que sofreu ligeiro desvio de Esgaio antes de chegar ao belga. Mas vezes demais trapalhão e vários remates contra pernas minhotas.

Durán (6) — Golo delicioso — servido por Rafa, esperou, com paciência olímpica e um movimento a ameaçar um toque, a queda de Samuel Portugal para lhe picar a bola com o pé esquerdo. Mas perdeu duelos com Buatu e esteve longe de oferecer o mesmo que Pavlidis quando é servido.

Prestianni (7) — O jogo acabou depois de criar perigo num lance individual. Entrou aos 72 minutos e deu nova alma à equipa, fosse a servir companheiros ou a fintar adversários e inventar jogadas de perigo. Lançou Rafa para o último golo e perto do fim para mais um lance que Anísio não concluiu.

Manu (6) — Entrou para Palhinha descansar. Recuperou a bola no início do quarto golo.

Aursnes (6) — Apoiou Dahl, manteve a equipa calma, viu amarelo por cortar contra-ataque perigoso.

Rafa (7) — Três minutos depois de ter entrado, arrancada à Rafa, deixando tudo para trás e oferecendo golo a Durán. Pouco depois foi derrubado quando se isolava (vermelho para Espigares).

Anísio Cabral (-) — A equipa quis oferecer-lhe um golo. Poderia ter marcado aos 89', mas rematou fraco e à figura."

Benfica com uma ideia de jogo já assimilada pelos jogadores


"Ao fim de quatro meses de competição é possível dizer que a equipa de Marco Silva, jogue quem jogar ( e o plantel tem qualidade), apresenta-se com uma matriz que já é imagem de marca. Um galo de crista alta não teve argumentos para contrariar a águia

O calendário é exigente, desde 27 de julho o Benfica já disputou 19 jogos oficiais, e a equipa ainda em construção que Marco Silva se propôs edificar, começa a ser realidade. E isso vê-se como?
Ao necessitar fazer uma gestão de recursos perante a avalanche de jogos que enfrenta, o treinador do Benfica, jogue quem jogar, implementou na Luz uma filosofia, à qual os jogadores aderiram, que torna coerente os processos e cria uma identidade própria, baseada em alguns princípios: pressão alta com rápida reação à perda da posse de boa; recuperação de linhas para trás da linha da bola quando o adversário consegue sair a jogar; circulação rápida e a toda a largura do campo nos ataque planificados; velocidade e assertividade nos ataques rápidos.
Num jogo que garantia a presença na ‘final four’ da Taça da Liga (atente-se nos 53.654 adeptos que estiveram na Luz, a uma quinta-feira, com dia de trabalho a seguir, o que sugere confiança na equipa), os encarnados geriram meios dentro do razoável, deram minutos a quem deles precisava e apenas optaram por uma ‘invenção’ - colocar Samuel Dahl na direita - para, confrontados com a lesão de Benjaqui, pouparem Bah e Aursnes.
Perante um adversário exigente - Luís Pinto, treinador gilista, venceu a última Taça da Liga com o V. Guimarães -, que se apresentou de forma muito inteligente, com um 4x3x3 de base que tanto era tansformado em 5x4x1 como em 4x4x2, o Benfica teve de mostrar argumentos e não chegou à vantagem sem antes ter apanhado um susto (grande defesa de Trubin aos 34 minutos), superado pelos golos de Lukebakio (que grande exibição, a justificar ser dono da direita encarnada) e Sudakov (nas intermitências habituais assinou um remate ‘cinco estrelas’).
Com Echeverri, que se percebe ser um jogador de tremendo potencial, a assinar alguns bons momentos, Durán ainda rematou à malha lateral antes do intervalo.

EFEITO LUKEBAKIO
Para o segundo tempo, Luís Pinto, apesar de alguns momentos de boa circulação de bola da sua equipa e uma ou outra aproximação mais assertiva à baliza de Trubin, mexeu com as entradas de Touré e Lausen, mas seria o Benfica a manter a batuta da partida, tendo chegado ao 3-0 com um golo de elevada nota artística de Dódi Lukebakio, que finalmente está a aproximar-se do jogador que é.
Mas se o belga marcou aos 54 minutos, aos 56 o dinamarquês Lausen teve um pontapé fulminante de meia-distância que reduziu distâncias para diferença de dois golos. Um prémio merecido para a atitude positiva da equipa de Barcelos, que até podia ter ido mais longe, com Lenglet a tirar em cima da linha fatal aquilo que podia ter sido um autogolo de Karouani (69).
Marco Silva percebeu o que estava em cima da mesa e mandou a jogo Aursnes, Prestianni e Manu, refrescando setores e dando maior lucidez à equipa (72), lançando Rafa (78) para aquilo que seria o ‘coup de grace‘ aos gilistas. Com Lukebakio na direita, Rafa nas costas de Durán (e depois de Anísio) e Prestianni na esquerda, o Benfica entrou na sua melhor versão, fez o 4-1 por Duran, aos 81 minutos (que bela execução…) e podia ter ainda castigado mais os forasteiros que, diga-se em abono da verdade, não mereciam punição mais severa, especialmente a partir do momento em que Espigares foi expulso (83).
Benfica na ‘final four’, onde medirá forças com o FC Porto na meia-final, com justiça, e a certeza de que há na Luz uma equipa que está longe de ser projeto acabado, mas que para lá caminha, assim haja tempo e espaço para Marco Silva mostrar o que o fez trocar a Premier League pela I Liga portuguesa."