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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

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Bola de Ouro: qual é a lógica disto?


"A France Football até pode escrever trinta textos para trinta vencedores diferentes, ninguém vai estranhar

Na tarde da gala, o site oficial Bola de Ouro publicou, por engano, três textos a felicitar três vencedores diferentes: Lamine Yamal, Harry Kane e Mbappé.
Perante o burburinho na sala, a organização apressou-se a explicar que não havia batota, era tudo perfeitamente normal: os textos estavam preparados para cobrir os três possíveis vencedores. O que, parecendo que não, se revelou o momento mais transparente da noite.
E é precisamente aí que interessa chegar.
A France Football, no fundo, teve o bom senso de assumir que era capaz de encontrar um conjunto de argumentos para justificar qualquer vencedor. É como Groucho Marx: tem estes princípios, mas se não gostarem, ele arranja outros.
Finalmente fez-se luz, portanto.
É que estava difícil encontrar uma lógica naquela classificação final. Senão, pensem comigo.
Disseram-nos que os portugueses foram prejudicados pelo mau Mundial da Seleção. Vá, aceitemos a regra. Mas se o Mundial pesa tanto, porque é que Lamine Yamal, campeão do mundo, ficou atrás de dois jogadores que não chegaram à final? E como é que Kvaratskhelia foi o melhor jogador do PSG, se nem sequer esteve no Mundial?
Não, calma, o primeiro critério afinal é o rendimento individual: é isso que diz o regulamento da Bola de Ouro.
Então porque é que Fabián Ruiz ficou à frente de Vitinha? Aliás, que explicação pode haver para o patrão de todo o futebol do PSG bicampeão europeu não passar do 14.º lugar? E como é que Cucurella ficou à frente de Nuno Mendes? Já agora, e Bruno Fernandes, eleito o melhor da Premier League e recordista de assistências, não merecia mais do que a 27.ª posição? Quer dizer, o homem fez 21 assistências, será que o júri não viu nenhuma? Ou acha que o rendimento individual podia ter sido melhor? Ao nível, porventura, de um Upamecano?
A verdade é que cada resultado, sozinho, até pode ter uma explicação razoável. Por experiência já sabemos que a France Football arranja argumentos para qualquer um.
Harry Kane ganhou pelos golos. Lamine Yamal perdeu apesar dos títulos de campeão de Espanha e do Mundo. Mbappé ficou no meio sem precisar de nenhum dos dois.
O problema aparece no fim, quando se tenta juntar tudo numa única lógica. Aí damos de caras com a falta de coerência e percebemos que não vale a pena tentar mais. A Bola de Ouro não distingue o melhor do mundo: distingue o mais votado. É no fundo uma espécie de Festival da Eurovisão, mas de smoking. E com um ar menos absurdo, vá."

Os três grandes querem um futebol maior ou apenas ser maiores?


"O futebol português tem três clubes de enorme dimensão, com uma história que merece respeito, milhões de adeptos e uma capacidade de mobilização que ultrapassa fronteiras. Benfica, FC Porto e Sporting são referências incontornáveis do nosso desporto e protagonistas da sua afirmação internacional. Mas talvez tenha chegado o momento de colocar uma pergunta: estarão empenhados em construir um futebol português mais forte ou demasiado concentrados em garantir que continuam a ser os mais fortes dentro dele?
Defender os interesses de um clube é uma obrigação dos seus dirigentes. Mas compreender que esses interesses dependem também da qualidade, da competitividade e da sustentabilidade do futebol onde compete deveria ser uma responsabilidade estratégica.
Durante demasiado tempo, habituámo-nos a discutir o futebol português a partir das rivalidades, das disputas de influência e das vantagens imediatas. Falamos de quem ganha, de quem perde e de quem consegue impor a sua posição. Falamos bastante menos sobre aquilo que estamos a construir em conjunto. Talvez resida aí uma das nossas maiores fragilidades estruturais.
O futebol não é apenas uma competição entre clubes. É um ecossistema de interesses interdependentes.
Nenhum clube, por maior que seja, consegue criar sozinho uma competição valorizada. Precisa de adversários competitivos, estádios com público, organizações credíveis, estabilidade financeira, talento e um produto desportivo capaz de despertar interesse dentro e fora do país.
Os clubes são adversários dentro das quatro linhas, mas também parceiros na construção do espetáculo que procuram valorizar. Esta realidade, aparentemente simples, nem sempre encontra tradução nas decisões estratégicas do nosso futebol.
Um campeonato forte não se constrói apenas com três candidatos ao título. Constrói-se com clubes capazes de competir, investir com responsabilidade, desenvolver jogadores e oferecer contextos desportivos exigentes ao longo de toda a época. A competitividade não é um obstáculo ao crescimento dos grandes. É uma condição para que esse crescimento seja sustentável.
Não se trata de pedir aos clubes de maior dimensão que renunciem à sua ambição. Trata-se de reconhecer que a liderança também se exerce através da capacidade de promover consensos em matérias que ultrapassam os interesses particulares.
A valorização dos direitos audiovisuais, a organização dos calendários, a internacionalização das competições, a sustentabilidade financeira, a formação e a melhoria das infraestruturas deveriam integrar uma agenda estratégica capaz de aproximar instituições que, desportivamente, continuarão sempre a ser rivais.
Naturalmente, não podemos atribuir toda a responsabilidade aos três grandes. Seria uma análise redutora e injusta.
A Liga, a Federação e os restantes clubes têm igualmente responsabilidades na definição de prioridades, na qualidade da gestão e na construção de soluções duradouras. Não podemos exigir uma visão coletiva aos mais poderosos e aceitar que os restantes intervenientes se limitem a reclamar melhores condições sem assumirem compromissos de profissionalização, transparência e sustentabilidade.
Um ecossistema saudável exige direitos, mas também obrigações. Exige solidariedade, mas igualmente responsabilidade. Exige liderança, mas também instituições preparadas para a exercer. É nesta capacidade de conciliar interesses diferentes que se distingue uma organização madura de um conjunto de entidades que apenas partilham o mesmo espaço competitivo.
O verdadeiro desafio não é conseguir que todos pensem da mesma forma. É conseguir que todos reconheçam aquilo que têm interesse em construir em conjunto.
A formação é um exemplo evidente desta interdependência. O percurso de um jogador raramente se esgota numa única instituição. Começa muitas vezes em clubes de menor dimensão, desenvolve-se em diferentes contextos competitivos e pode culminar nos principais palcos internacionais. Cada etapa acrescenta valor.
Quando um clube formador perde capacidade de investimento, quando faltam infraestruturas ou quando os escalões competitivos deixam de oferecer condições adequadas ao desenvolvimento, não é apenas essa instituição que fica prejudicada. É toda a cadeia de valorização do talento que se fragiliza.
O mesmo raciocínio aplica-se à sustentabilidade económica. Uma Liga mais atrativa, competitiva e bem organizada poderá aumentar receitas comerciais, captar investimento, valorizar jogadores e reforçar a sua presença internacional. Mas essa ambição exige continuidade estratégica e uma visão que não se altere em função dos resultados de cada jornada. 
O futebol português precisa de deixar de confundir influência com liderança.
Ter influência significa possuir capacidade para defender uma posição. Exercer liderança significa também mobilizar outros em torno de objetivos que produzam benefícios duradouros. Os três grandes, pela sua dimensão, têm condições privilegiadas para assumir esse papel. Não porque lhes pertença a responsabilidade exclusiva pelo futuro, mas porque dificilmente conseguiremos transformações estruturais sem a sua participação ativa.
Importa que essa liderança seja acompanhada por instituições fortes, mecanismos de decisão transparentes e uma cultura de compromisso que sobreviva às mudanças de dirigentes. O nosso futebol não pode depender exclusivamente da boa vontade momentânea de quem ocupa determinados cargos. Precisa de uma estratégia partilhada, com prioridades claras, objetivos mensuráveis e capacidade de execução.
Talvez esteja na altura de substituir parte da energia dedicada às disputas institucionais por uma discussão séria sobre o futebol que queremos construir na próxima década. Que modelo competitivo pretendemos desenvolver? Como aumentar o valor das competições? Que condições oferecer aos clubes formadores? Como atrair investimento responsável e garantir maior estabilidade às organizações?
Estas perguntas não deveriam pertencer a uma direção, a um clube ou a um mandato. Deveriam integrar um compromisso transversal com o futuro do futebol português.
Não precisamos de eliminar rivalidades. Fazem parte da identidade e da riqueza do nosso futebol. Precisamos de distinguir os momentos em que devemos competir daqueles em que temos a obrigação de cooperar.
Porque a verdadeira dimensão de um clube não se mede apenas pelos títulos que conquista, pelas receitas que gera ou pelos adeptos que mobiliza. Mede-se também pela capacidade de contribuir para o desenvolvimento do contexto em que está inserido.
Benfica, FC Porto e Sporting não precisam de ser menos grandes para que os outros possam crescer. Precisam de compreender que a sua própria grandeza pode ser reforçada por um futebol português mais forte.
O futebol português não precisa apenas de clubes cada vez maiores. Precisa de clubes capazes de tornar maior o futebol português."