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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Cristiano Ronaldo entre lulistas e bolsonaristas


"Cristiano Ronaldo não merece os ataques à personalidade e caráter; muito menos merece que quem o apoia lhe minta e bajule… A virtude morou sempre no meio. Jesus tem agora a faca e Ronaldo na mão.

Lamento que a discussão em redor de Cristiano Ronaldo se faça mais numa perspetiva de claque do que do ponderado peso das palavras e dos argumentos. Em que preferimos as trincheiras à capacidade de ouvirmos e pensarmos nas razões do outro. E lamento que também aqui se detete um vírus que está a alastrar na sociedade: o debate a partir dos extremos, como se no meio não existisse um enorme palco para pessoas que não se consideram, passe a expressão, nem lulistas nem bolsonaristas…
Lamento que a avaliação do castigo aplicado a Cristiano parta não do mérito, ou demérito, da decisão, antes da avaliação de personalidade e de carácter de CR7. Como se não fosse possível elogiar quem não gostamos ou criticar quem admiramos. Como se não fosse possível ter o cravo e a ferradura na mesma opinião.
Cristiano Ronaldo errou. Sem pingo de razão. E Cristiano Ronaldo não foi alvo de qualquer tratamento de exceção. O castigo de 30 dias de suspensão e 255 euros de multa foi aplicado de acordo com a regulamentação disciplinar vigente. Pode criticar-se a proporcionalidade das penas, não qualquer tipo de tratamento especial. Uma pena, de acordo com o regulamento, atenuada em função do assumir da culpa por ter abandonado o estágio e dos relevantes serviços prestados a Portugal e à Seleção. Se Cristiano Ronaldo não é digno de beneficiar dessas atenuantes – tendo a agravante de ser capitão - então acabe-se com essa possibilidade porque mais ninguém o merece. E não façam comparações com Ricardo Carvalho, já que a moldura era mais pesada do que é hoje. Quanto aos 255 euros de multa, somos mesmo os maiores a gerir o dinheiro dos outros… Se Ronaldo apanhar uma multa de estacionamento deve pagar quanto? Os 30 euros previstos na legislação? E porque não 300 mil euros, já que ganha tanto? E seria mais justo que pagasse 230 euros por cada litro de gasolina? Não ficaria mais pobre…
Cristiano Ronaldo cometeu um erro e está a pagar o preço previsto pelos regulamentos. No final do castigo, volta a estar nas mesmas condições que os restantes. Não gosto de penas de prisão perpétua. Não gosto do sempre e do nunca. A vida troca-nos as voltas a cada sentença. Mas antes de voltar a ser chamado, há que ficar tudo clarinho entre Jesus e Ronaldo. O capitão pediu desculpa pela atitude que tomou, mas acusou o selecionador de lhe ter faltado à palavra duas vezes e não se retratou disso. Em que ficamos? E também antes, Jesus tem de avaliar o que pensam realmente os restantes jogadores da Seleção. A razão só produz frutos se for entendida e aceite pelo grupo.
Lamentaria se Ronaldo saísse da Seleção pela porta pequena, por muito que se estivesse a deitar na cama que fez. Mas também não merece que tenha pena dele. Muito menos merece que não lhe digam a verdade e prefiram a bajulação. Dizer a Ronaldo que está muito longe de ser o melhor jogador do Mundo é, acima de tudo, um ato de profundo respeito por tudo quanto alcançou na carreira. E lamento que Portugal seja o 2.º país do mundo com mais adeptos que odeiam Cristiano Ronaldo.
Não mudo o que penso de CR7, até porque nunca exigi que fosse perfeito. Nem a ele nem a ninguém. Também não sou. Se todos os portugueses fossem como ele em foco, ambição, capacidade de trabalho e talento seríamos o mais próspero país do Mundo. Da minha boca ouvirá sempre um muito obrigado. O resto, que Jesus decida. Concorde ou não, terminarei sempre a minha argumentação com um viva Portugal."

O acórdão que falta a Cristiano Ronaldo


"«Não se pode considerar que esse abandono tenha ocorrido por razões justificadas, na medida em que o conceito de abandono justificado aponta exclusivamente para causas imprevisíveis e de força maior»
Acórdão do Conselho de Disciplina da Federação Portuguesa de Futebol no processo disciplinar a Cristiano Ronaldo

A decisão do Conselho de Disciplina de suspender Cristiano Ronaldo por um mês, e sobretudo de multá-lo em 225 euros, foi alvo de chacota em toda a Europa, desde o facto de a suspensão terminar, providencialmente, dias antes do regresso da Seleção ao trabalho, para os dois últimos jogos da fase de grupos da Liga das Nações, ao ridículo do valor da multa, que equivale a 39 segundos de trabalho do avançado do Al Nassr.
A ridicularização é injusta. Os relatores do CD da Federação Portuguesa de Futebol têm de trabalhar com os regulamentos aprovados, por muito que possam parecer desadequados às circunstâncias. E no acórdão aprovado por unanimidade não se escondem as críticas ao «abandono» de Ronaldo do estágio da Seleção, em conflito com Jorge Jesus.
Só que as atenuantes — a admissão de CR7 de todos os factos, o arrependimento, o currículo e a folha disciplinar limpa (parece que a expulsão ridícula com a Irlanda por bater num adversário não conta) foram diminuindo as molduras penais, e de repente a suspensão máxima era de 45 dias, quando tinha começado em seis meses, e a multa máxima de 225 euros, pese a formulação do artigo em causa prever 900 euros.
A multa foi a máxima, considerando a redução por causa das atenuantes; a suspensão ficou pelo meio, que os 15 dias adicionais impediriam Ronaldo de estar na concentração da Seleção até depois do jogo com a Dinamarca...
Agora falta só um acórdão que obrigue Jesus a pô-lo a jogar."

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