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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Representar é muito mais do que negociar


"Durante muito tempo, quando se falava de um agente de futebol, a imagem era quase sempre a mesma: alguém que negociava contratos, tratava de transferências e procurava o melhor acordo para o jogador. Essa função continua a ser fundamental, mas hoje é apenas uma parte de um trabalho muito mais amplo.
O futebol mudou. Tornou-se mais global, mais competitivo e mais exposto. As carreiras são cada vez menos lineares, os mercados estão ligados entre si e uma decisão pode ter impacto muito para além do relvado. Neste contexto, também o papel de quem representa um jogador tem de evoluir.
Uma transferência não começa necessariamente quando abre o mercado. Muitas vezes, começa meses antes, numa conversa sobre objetivos, numa análise ao momento da carreira ou na avaliação de um contexto que pode não ser o mais evidente. A responsabilidade, no entanto, não termina quando o contrato é assinado. Passa também por acompanhar o jogador, perceber como se integra, como se adapta e se as condições que motivaram a decisão continuam a fazer sentido.
Representar um atleta exige hoje uma visão mais estratégica. É preciso conhecer os clubes, os treinadores, os campeonatos e as dinâmicas de cada mercado, mas também compreender a pessoa que está por detrás do jogador. As suas ambições, os seus receios, a sua realidade familiar e a forma como lida com a pressão.
A experiência de ter sido jogadora ensinou-me que, por vezes, aquilo que parece uma grande oportunidade do lado de fora pode não ser a melhor escolha para quem está dentro. Um contrato mais vantajoso, um campeonato de maior visibilidade ou um clube com um nome mais reconhecido não garantem, por si só, uma evolução positiva. O contexto é determinante.
Também a relação entre atleta e agente tem de acompanhar esta transformação. A confiança não se constrói apenas nos momentos em que há uma negociação para fechar. Constrói-se na transparência, na disponibilidade e na capacidade de dizer aquilo que nem sempre é mais fácil ouvir. Um agente não deve limitar-se a apresentar oportunidades, mas ajudar o jogador a interpretá-las e a tomar decisões informadas.
Essa proximidade deve também traduzir-se na criação de condições para que cada atleta possa trabalhar e evoluir melhor. Através de parcerias com profissionais e entidades especializadas, é possível disponibilizar ferramentas e soluções que respondam às necessidades individuais de cada jogador, seja ao nível da preparação, da recuperação ou do bem-estar. Mais do que procurar respostas iguais para todos, importa perceber o que pode fazer a diferença em cada realidade e garantir que o atleta tem acesso ao apoio certo, no momento certo.
É verdade que o mercado se tornou mais rápido e que a informação circula a uma velocidade difícil de acompanhar. Mas a rapidez não pode substituir a reflexão. Nem todas as decisões têm de ser imediatas, nem todas as oportunidades devem ser aproveitadas. Em determinadas fases, saber esperar pode ser tão importante como saber avançar.
O futebol continuará a mudar. Novos mercados vão ganhar relevância, novas formas de investimento vão surgir e as exigências sobre os jogadores serão cada vez maiores. O trabalho de representação terá, por isso, de ser cada vez mais preparado, próximo e responsável.
No fundo, representar um atleta é estar presente ao longo do percurso, compreender as suas necessidades e contribuir para que tenha as condições certas para evoluir. Uma carreira não se constrói apenas através das decisões que se tomam, mas também da forma como se acompanha cada uma delas."

A Bola de Ouro de um homem comum


"Harry Kane é o novo Bola de Ouro, à boleia de 73 golos em 65 partidas em 2025/26, 61 ao serviço do Bayern e 12 pela seleção de Inglaterra. O pódio do troféu mais desejado completou-se com o francês Kylian Mbappé (Real Madrid) e o espanhol Lamine Yamal (Barcelona). Num futebol em que as estrelas planetárias parecem pertencer a outra dimensão, a consagração do ponta de lança inglês, aos 33 anos, tem um sabor especial.
Harry Kane não precisa de transformar a vida numa montra, de exibir carros de luxo, de cultivar polémicas nas redes sociais ou de fazer de cada aparição pública um acontecimento. É um homem comum, no sentido positivo da expressão. Alguém com quem nos cruzaríamos na rua ou puxaríamos conversa no café sem imaginar que estaríamos na companhia do melhor jogador do mundo.
Uma história que começa longe dos grandes palcos, no leste de Londres, em Chingford. No Ridgeway Park, entre brincadeiras com o pai e o irmão mais velho, nasceu o sonho de ser futebolista. Pelo caminho, a primeira desilusão — aos oito anos, foi dispensado pelo Arsenal, decisão justificada pelos gunners por ser... «gordinho». Um episódio que poderia ter deixado marcas, mas que acabou por ser apenas uma curva apertada numa estrada longa.
Aos 17 anos, estreou-se como sénior no Leyton Orient, seguiram-se o Tottenham e o Bayern, além da seleção dos três leões, sempre a acumular golos e recordes.
Do parque em Chingford ao London Palladium, onde recebeu a Bola de Ouro. Uma viagem extraordinária que explicou em longo discurso com elogios à família, aos clubes, aos treinadores e à comunidade que o viu nascer. É aqui que Harry Kane também se distingue com uma imagem de simplicidade a contrastar com colegas de profissão egocêntricos que vivem numa realidade paralela, rodeados de ostentação, assessores e uma necessidade permanente de protagonismo.
Harry Kane não precisa de nos convencer que é especial. Os golos encarregam-se disso e mesmo assim continua a ser um de nós, como se ainda jogasse no Ridgeway Park. Talvez seja esse, afinal, o seu maior prémio."

VAR à Sexta #23 - Especial Halloween- Era Rui Borges perto do fim?

Hora do Desporto - S03E13 - À Conversa Com... Lenine Cunha

BolaTV: Falso Plano #142 - Prémios falso plano: Parte I