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domingo, 18 de outubro de 2026

Letria, a letra fundamental


"Acabei de aterrar em Madrid. Tinha pensado escrever sobre o futebol espanhol, a atractividade da sua liga profissional. Fica para a próxima semana. Porque faleceu o Joaquim Letria.
Quem me conhece, sabe que não sou necrológico, nem das páginas de jornais, nem nas redes sociais. Mas Letria não é um qualquer jornalista. Aliás, ele foi o primeiro, na minha carreira, a demonstrar que era muito mais do que um escriba ou um bem falante.
Relembrar agora Letria é, sobretudo, olhar para um período único da comunicação social portuguesa, em momentos social e politicamente conturbados.
Escrevo aos mais jovens, aos jornalistas cuja memória será menos abrangente e o olhar mais absorvido pela espuma dos dias, pela emergência do falar, mais do que dizer, do contar, mais do que esclarecer.
Porque o jornalismo está, de facto, a atravessar períodos muito complexos. E não se trata, apenas, da emergência da atualidade, da rapidez, das redes, do agora ou nunca. É uma questão ética, deontológica, e que se refere, no essencial, à preparação do jornalista, à sua capacidade de entendimento do real, ao seu momento de definição do que é verdadeiramente importante, e da distinção em relação a tudo o resto.
Em todos estes aspetos, Joaquim Letria era Mestre. Na perceção do essencial, na derivação em relação ao acessório, na confrontação com Cadilhe ou Mário Soares.
Ele (Letria) contou-o em livro: quando o antigo Presidente da República lhe solicitou, antes de uma entrevista de fundo, que não lhe fizesse determinada pergunta… pois foi justamente por essa questão que a entrevista começou.
Entrevistou Cadilhe para uma cadeira vazia. Lançou, tal e qual o jornalismo deve ser defendido, o 'Tal & Qual'. Foi sempre equidistante e independente, mesmo quando foi a França encontrar-se com um dos gurus da comunicação política gaulesa, a propósito do convite para ser porta-voz de Ramalho Eanes.
Os mais jovens devem cultivar a memória de uma História do jornalismo português que não se faz nas secretárias, que não se motiva nos likes, que não se resume aos soundebites, que não resulta, definitivamente, se só pensarmos nas escolhas efémeras.
Esta ideia de um Joaquim Letria que marcou gerações permanece, no sentido ético da profissão. O essencial distinguido do acessório, a capacidade de mostrar um país real, longe da evolução propagada e forçada pelas narrativas políticas, de dar voz aos cidadãos, de com essa voz legitimar a condição mais pura, simples, efetiva e marcante do ser jornalista, é o elemento diferenciador de uma carreira profissional.
Letria sempre o foi. Polémico, distintivo, marcante, desafiante.
E é interessante verificar e testemunhar a evolução do jornalismo português, nos últimos anos, muito por força de dois fatores: a formação académica, na minha opinião deficitária e não efetivamente preparatória dos futuros licenciados para o exercício da profissão, e a não demarcação do jornalismo em relação à emergência das redes, à sua verificação sistemática e à condição de aproveitamento que muitos media e imensos profissionais delas fazem, quantas vezes ao arrepio das mais básicas e elementares bases da profissão.
Tenho — confesso — muitas dificuldades em compreender a adesão de respeitáveis órgãos de comunicação social aos modismos digitais, travestindo notícias, priorizando clickbites em detrimento da seriedade e da verificação prévia das fontes, em duplicado ou em cruzamento triplicado.
Do mesmo modo, não suporto o sensacionalismo para o qual parecem formatados tantos e tantos recém-licenciados, ávidos de ganhar lugares a todo o custo, e incapazes de perceber o que está em causa e como o defender: a credibilidade do jornalismo.
E, neste aspetos, conviria conhecer Joaquim Letria, uma das referências essenciais para se compreender a História e a Memória do jornalismo em Portugal. Sobretudo, no que diz respeito à dignidade, à independência e à equidistância. Valores únicos e sempre suportados pela elementar capacidade de ouvir e escutar, de olhar e ver, de tocar e sentir, de conhecer e perceber.
Hoje, quando soube do passamento físico do Joaquim, percebi que tudo o que escrevesse nesta página teria, forçosamente, a ver com ele, com a sua carreira, com o seu legado.
Faleceu como viveu: discretamente. Tentando inovar, tentando diferenciar, tentando democratizar, tentando humanizar. E é nessa múltipla dimensão, da memória e da consciência, que todos, mas sobretudo todos os jornalistas, o merecemos recordar.
Se o fizermos, estaremos mais próximos de ser melhores, mais justos, mais equilibrados, mais credíveis. Acima disso: mais humanos.

CARTÃO BRANCO
Gosto muito de Roma. Da cidade, da sua história, do modo como convive com o Vaticano. Das suas gentes, da forma como me sinto em casa em qualquer momento e em qualquer recanto da Cidade Eterna. Não me espanta o amor imenso que os tiffosi da AS Roma têm por José Mourinho. Mas o que fizeram, na curva sud do Olímpico, na receção ao Real Madrid, ultrapassa o normal e roça o celestial. Mourinho conseguiu criar, com os adeptos da Roma, uma relação talvez inimaginável à partida. É muito mais do que momentos partilhados entre treinador e adeptos. É umbilical, pessoal e intransmissível. De levar às lágrimas, a homenagem dos tiffosi ao treinador português demonstra que o futebol é muito mais do que um jogo. É a vida. Ela própria, vivida e sentida ao limite.

CARTÃO AMARELO
Sou do tempo em que o hóquei em patins era uma da modalidades mais queridas dos portugueses. Estive no Mundial de San Juan, na Argentina, em 1989, e no de Wuppertal, na Alemanha, em 1997. Conheci os principais protagonistas, heróis, extraordinários praticantes. É constrangedor ver o que se passa com o Mundial no Paraguai. Bancadas vazias, entusiasmo nulo, reflexo direto na dimensão mundial da modalidade, cada vez menor abrangência de algo que, em tempos áureos, enchia pavilhões e mobilizava multidões. É urgente repensar o hóquei em patins, as suas regras, o seu modelo competitivo, sob pena de, dentro de muito pouco tempo, acabar por ser um desporto residual…"

O tempo, o adversário que nem Cristiano Ronaldo conseguiu vencer


"Aquiles foi confrontado com uma escolha: viver uma vida longa e anónima ou morrer jovem, coberto de glória. Escolheu a segunda e, três mil anos depois, continuamos a falar dele.
Aquiles morreu jovem, no auge da sua glória.
Foi o maior guerreiro da Guerra de Troia, quase invencível. Mas a sua superioridade dependia também da juventude, não apenas da força, da coragem ou da proteção dos deuses.
Segundo a mitologia, a mãe mergulhara-o nas águas do rio Estige para o tornar invulnerável, mas, ao segurá-lo pelo calcanhar, deixou uma pequena parte do corpo desprotegida.
Aquiles também conheceu os perigos do orgulho. Humilhado por Agamémnon, o comandante dos gregos, que lhe retirara Briseida, a sua cativa, abandonou o combate.
A sua ausência teve consequências devastadoras para os gregos. Só regressou para vingar a morte de Pátroclo, conquistando a glória que o tornaria imortal.
Segundo a tradição, uma flecha de Páris atingiu-o no calcanhar, pondo fim à vida do maior dos guerreiros.
Cristiano Ronaldo fez uma escolha diferente: quis a glória de Aquiles, mas recusou a brevidade da sua existência.
Durante mais de duas décadas, desafiou adversários, recordes e os limites do corpo humano.
Prolongou a juventude desportiva até aos limites do sobre-humano, mantendo uma capacidade competitiva que parecia incompatível com a passagem dos anos.
Mas até o extraordinário tem limites. O tempo acabou por chegar, muito mais tarde do que qualquer um poderia razoavelmente esperar.
A história do desporto está cheia de heróis que tiveram de enfrentar esta escolha.
Eusébio terminou a carreira longe dos grandes palcos, depois de passar pelo Beira-Mar e pelo União de Tomar.
Muhammad Ali recusou abandonar os ringues quando já não era o mesmo. A sua grandeza permaneceu intacta, mas nos últimos combates já não era o campeão que o mundo admirara.
Michael Jordan teve a despedida perfeita em 1998. Conquistou o sexto título da NBA, marcando o lançamento decisivo. Mas não resistiu à tentação de regressar aos 38 anos, pelos Washington Wizards, onde continuou a ser um excelente jogador, mas em duas épocas não conseguiu sequer atingir os playoff.
Michael Schumacher também teve a oportunidade de abandonar no topo. Despediu-se da Ferrari em 2006, com sete títulos mundiais e ainda capaz de lutar pelo campeonato.
Regressou quatro anos depois, aos 41 anos, pela Mercedes. Em três temporadas não venceu uma corrida e subiu apenas uma vez ao pódio.
Tom Brady, considerado por muitos o maior jogador da história do futebol americano, anunciou a retirada aos 44 anos, depois de conquistar sete Super Bowl.
A despedida durou apenas 40 dias. Voltou para mais uma temporada, antes de finalmente abandonar aos 45 anos.
Outros escolheram sair enquanto ainda podiam vencer. Zinedine Zidane abandonou depois de conduzir a França à final de um Mundial, Pete Sampras despediu-se conquistando o US Open e Nico Rosberg retirou-se poucos dias depois de se tornar campeão mundial de Fórmula 1.
Cristiano escolheu um caminho diferente. Não abandonou no auge, nem se retirou para depois regressar.
Continuou, ano após ano, a desafiar os limites da idade. E conseguiu-o.
Seria injusto condená-lo agora pela mesma ambição que o tornou extraordinário. Foi precisamente por nunca aceitar os limites que se tornou um dos maiores desportistas de todos os tempos.
A determinação que constrói os grandes campeões é também aquela que lhes dificulta a despedida.
Há, contudo, uma diferença fundamental entre Cristiano e alguns destes heróis.
Jordan regressou numa equipa que já não disputava o título e Schumacher voltou numa Mercedes que ainda não era a potência dominante da Fórmula 1.
Ambos continuaram na elite das respetivas modalidades, mas em condições competitivas inferiores às dos seus anos de glória.
Cristiano também aceitou baixar o nível competitivo quando trocou o futebol europeu pela Arábia Saudita. Uma escolha legítima, que lhe permitiu continuar a jogar, marcar golos e prolongar uma carreira sem paralelo.
Mas há uma contradição que não pode ser ignorada: a Seleção Nacional é uma das melhores do mundo.
Portugal tem hoje uma geração de jogadores capaz de competir com os melhores. Não pode subordinar o seu futuro à vontade de um único futebolista, por maior que seja a sua história.
A questão não é saber se Cristiano ainda consegue marcar golos, nem sequer se pode continuar a ser útil à Seleção.
É saber se a sua presença, nas condições que ele pretende, torna Portugal uma equipa melhor.
São perguntas diferentes, que exigem respostas igualmente diferentes.
Também não seria justo exigir-lhe que renunciasse voluntariamente àquilo que sempre definiu a sua existência.
A ambição, a disciplina e a recusa em aceitar a derrota não desaparecem porque o corpo envelhece.
O último grande desafio de Cristiano já não é marcar o golo 1000 ou bater mais um recorde. É aceitar que deixar de ser o melhor jogador de Portugal não significa deixar de ser o maior da sua história.
Aquiles escolheu morrer jovem para que a sua glória fosse eterna. Cristiano Ronaldo quis prolongar a juventude para continuar a conquistar a glória.
Ambos alcançaram a imortalidade, mas há uma diferença entre desafiar os limites e recusar a sua existência.
O tempo acabou por vencer Cristiano Ronaldo. E isso não diminui a sua grandeza. Pelo contrário: demorou mais a vencê-lo do que a todos os outros.
A recusa em aceitar o inevitável não pode prejudicar a memória de tudo o que conquistou."

Aplausos são no final do jogo


"Quando um Governo anuncia a «maior dotação de sempre» para o Desporto, a primeira pergunta deve ser: quanto chega ao terreno? As verbas anunciadas no OE2027 só terão significado se melhorarem as condições de quem faz o Desporto acontecer diariamente. Um Orçamento não se lê pela chamada de capa. Lê-se pelo que permite fazer.
Troquemos as contas por miúdos. As transferências correntes, onde estão incluídos os apoios do IPDJ às federações, passam de 93,8 para 94,1 milhões/€. Um aumento de 0,3%. O Governo prevê uma inflação de 2,9% para 2027.
Para esses apoios valerem em 2027 o mesmo que valem hoje, teriam de rondar os 96,5 milhões. Faltam cerca de 2,4 milhões. É como receber um aumento salarial de 0,3% num ano em que tudo fica 2,9% mais caro. No papel, ganha-se mais. No supermercado, leva-se menos no carrinho.
Para uma federação, esse carrinho chama-se competições, deslocações, arbitragens, treinadores e seleções. Para um clube de base, é a diferença entre abrir mais um escalão ou limitar os existentes. O envelope cresce, mas o dinheiro que chega ao terreno pode encolher. É um Orçamento de continuidade e não de reforço estrutural.
Isto preocupa-nos porque já conhecemos o filme. No ano passado, o anúncio foi semelhante. Saudámo-lo e alertámos para a necessidade de chegar à atividade regular das federações. Ouvimos, depois, de quem está no terreno, que o impacto ficou aquém. Em abril, o próprio Governo reconheceu essa necessidade e anunciou uma verba extraordinária para o efeito. Respondeu a insuficiências, mas não substitui a sustentabilidade e previsibilidade necessárias. Não podemos aplaudir duas vezes o mesmo cenário sem saber o ponto de chegada.
Está em jogo mais do que números. Perdemos demasiados jovens pelo caminho e os escalões juniores e seniores perdem peso relativo no total de federados. Os apoios olímpicos e paralímpicos são fundamentais, mas o alto rendimento começa muito antes: no trabalho invisível dos clubes e nas condições que damos a milhares de jovens para continuarem a competir. E o direito à prática desportiva exige oportunidades de continuidade também para quem nunca chegará ao pódio.
Mas a CDP não se fica pela crítica. Insistimos, por isso, na criação de um Fundo de Desenvolvimento Desportivo, financiado por parte das receitas do Imposto Especial sobre o Jogo Online, sem aumentar o imposto nem pesar no OE2027. Seriam 12 a 15 milhões/ano, para desenvolver as modalidades, com critérios claros e exigentes definidos pelo IPDJ. Uma proposta aprovada por unanimidade pelas federações que voltaremos a levar aos grupos parlamentares.
O debate parlamentar pode transformar um recorde de verba em impacto concreto. Os partidos que celebram as medalhas dos nossos atletas podem agora garantir condições para os percursos que as tornam possíveis. Os aplausos ficam para o final do jogo. Agora, é preciso garantir condições para o jogar."