"Com um modelo feito à medida dos três grandes, a Liga teve o que procurou. Todos os principais emblemas do futebol português apuraram-se para a Final Four, que o Famalicão vai disputar como intruso. Ao bater o Gil Vicente nos quartos de final (4-1), o Benfica juntou-se aos rivais na decisão de uma prova em que o campeão em título, Vitória SC, não teve oportunidade de participar. Um momento de libertação de Sudakov, o inesperado surgimento de Durán e Lukebakio contribuíram para uma chuva de golaços
A Taça da Liga é uma competição entre aspas, um torneio que ignora à descarada a justiça e vulgariza o favorecimento de um pequeno grupo de intervenientes. O mínimo exigível para ser considerada uma prova com credibilidade era o vencedor do ano anterior poder defender o título, algo que não acontece graças à oligarquia em vigor.
As tecnologias de segurança nunca viram uma medida de proteção tão pouco desenvolvida como estes quartos de final desde que foi inventado o sistema do carregue aqui para provar que é humano. O objetivo, claro, é facilitar o acesso do G3 a um congresso realizado em janeiro que consiste em jogos enfiados à martelada no calendário disputados em Leiria.
A Liga, deslumbrada com a imaginária qualidade do produto, lá teve o que quis. O Benfica ficou com a última vaga na Final Four ao eliminar o Gil Vicente (4-1) e juntou-se a FC Porto, Sporting e ao intruso Famalicão. Uma vez que neste troféu só participam os seis primeiros classificados da última edição do campeonato, o detentor do título, o Vitória SC, ficou arredado à partida da possibilidade de o revalidar. Já Luís Pinto, treinador que na época passada pôs as mãos no caneco, só agora foi afastado devido à derrota sofrida pela sua atual equipa.
Para que este fosse um compêndio completo da bizarria do futebol português, Jhon Durán surgiu como titular nos encarnados. O avançado foi expulso no final do jogo contra o Santa Clara, para o campeonato, mas a abertura de um processo disciplinar permitiu ao colombiano ir a jogo.
Talvez a incerteza quanto à possibilidade de ser utilizado tenha sido causadora da impreparação mental. Os níveis baixos de concentração de Durán foram denunciados por um remate na atmosfera e um domínio falhado após recuperação alta, ambos demasiado escandalosos.
Marco Silva improvisou Samuel Dahl como lateral direito, circunstância provocada pelas mazelas de Alexander Bah e Daniel Banjaqui. Foi por esse lado que o Gil Vicente começou a criar perigo. Com um passe longo, o guarda-redes Samuel Portugal colocou David Moreira em posição de rematar para defesa de Trubin.
No geral, toda a equipa dos encarnados estava um pouco a coxear. As ligações entre a fase de construção e criação, em que o melhor Benfica se tem evidenciado, estiveram enferrujadas durante boa parte do primeiro tempo. Com tudo feito a custo, Echeverri não se inibiu de arriscar de fora da grande área.
As águias acabariam por ter quatro minutos de sonho antes do intervalo, um momento que curiosamente foi precedido da melhor jogada coletiva do encontro, proporcionada pelo Gil Vicente. Após um prolongado momento de posse, Ricardo Esgaio conectou-se numa incursão interior com o lateral do lado oposto. David Moreira definiu com minúcia e proporcionou um remate a Murilo que só foi travado com uma grande intervenção de Trubin.
Lukebakio rematou com uma visível raiva para adiantar o Benfica no marcador. No entanto, a jogada foi todo um momento de libertação de Sudakov. O ucraniano recebeu entre linhas, girou e deu ritmo ao ataque. Comprovando que o voto de confiança de Marco Silva tem sido proporcional à qualidade demonstrada, ele próprio foi autor de um remate potente e o Benfica chegou ao segundo golo em quatro minutos.
Um jogo pelo qual ninguém dava muito acabou por se tornar num concurso para eleger o melhor remate certeiro. Lukebakio submeteu mais uma candidatura ao executar um pontapé de bicicleta com rodinhas, num gesto situado entre o desespero para alcançar a bola e a qualidade técnica.
Porém, mais limpo foi o míssil de longo alcance de Andreas Lausen. Sem grande preparação, o médio da equipa de Barcelos armou um violento remate da zona central sem hipótese mesmo para a envergadura de Trubin. Era um justo reconhecimento para a ousadia do Gil Vicente na segunda parte. Luís Pinto preparou-se com o lançamento de Tidjany Touré para os momentos em que o jogo partiu. Os minhotos podiam ter reduzido ainda mais, mas Lenglet evitou em cima da linha o autogolo de El Karouani, detentor de sérias dificuldades em fechar por dentro.
Tratando-se de uma questão pessoal para o treinador, os gilistas não deixaram nada por apostar. O risco do adversário acabou por ser o combustível para Rafa que, fresco, furou em velocidade pela zona central. Depois de muitos remates precipitados, Durán conseguiu finalmente encontrar consolo no fundo das redes. O Gil Vicente já estava despedaçado e as lascas ficaram ainda mais à vista quando Espigares foi expulso por travar Rafa num lance sem bola. Só a baixa eficácia de Anísio Cabral impediu que o massacre final não se tenha traduzido em números ainda mais impactantes.
Não foi a mais esplendorosa exibição do Benfica esta época. A rotação no plantel, a prioridade baixa da competição, tudo contribuiu para um desempenho que começou pouco perfecionista e acabou em crescendo. Segue-se um clássico contra o FC Porto para decidir quem joga a final diante do vencedor do Sporting-Famalicão."

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