"Talvez tenha sido uma elaboradíssima operação de terapia de exposição intensiva. Talvez alguém do marketing do clube se tenha entusiasmado com a perspectiva de os sócios enfrentarem os seus fantasmas ali mesmo, na Luz, com transmissão televisiva para futura consulta. Em todo o caso, quem quer que tenha tido a ideia de pôr os jogadores do Benfica a posar no pórtico publicitário de uma marca de ovos, precisamente depois de o clube se ter insurgido contra uma canção sobre o animal que os põe, é, quero acreditar, uma criatura superior
A Liga das Nações só regressa em Novembro. É um alívio: está bom tempo, os clubes jogam, os adeptos cantam e o Affair Ronaldo, que virou tudo de pernas para o ar durante quinze dias, foi finalmente devolvido aos parlatórios secundários a que pertence. Tudo está, enfim, no seu lugar. E, para quem ainda não se deu conta disso, nada como uma boa anormalidade para darmos o devido valor à normalidade.
Neste caso, ovos. Ovos? Sim: ovos. Essas formas elementares, primordiais e perfeitas. Esses pequenos milagres da criação, anteriores à filosofia e à Liga das Nações. Ou, na brilhante definição que encontrei escrita no motor de pesquisa Google, “o potencial da vida num recipiente fechado”. Não sei quem escreveu isto, mas queria aproveitar este momento para lhe agradecer por ter resolvido, em sete palavras, um dos grandes mistérios da existência e, sem querer, parte considerável dos problemas do Sport Lisboa e Benfica.
Comecemos pelo princípio. O Benfica jogou (e jogou bem). Também foi fotografado, como normalmente acontece ao onze inicial numa partida de futebol. O problema é que os jogadores foram postos atrás da placa publicitária de uma marca de ovos cujo logótipo é a silhueta de uma galinha. Entretanto, nos ecrãs gigantes do Estádio da Luz, podia ler-se: “Os ovos das galinhas mais felizes de Portugal”.
Antes de mais, enfrentemos a questão: como se determina a felicidade de uma galinha? Que instrumentos existem para sondar a sua alma, caso essa alma exista? A galinha é um animal recatado e, tanto quanto se sabe, incapaz de distinguir um bem-estar momentâneo de um duradouro estado de comprazimento. Ainda assim, alguém teve a audácia de declarar que aquelas eram as galinhas mais felizes de Portugal. Nem sequer algumas das mais felizes. As mais felizes. O superlativo relativo de uma condição interior de que os próprios homens sabem tão pouco.
E foi o escândalo. Não consta que alguma daquelas galinhas tenha cometido qualquer irregularidade desportiva. Mas bastou a sua aparição para que o Benfica entrasse, uma vez mais, em estado de emergência moral. Quer dizer, não diria “o Benfica” assim sem mais nem menos. O homem contemporâneo, infelizmente, já não se interessa pelas grandes questões. Mas parece ter havido uma data de almas antigas que não acharam graça nenhuma.
Para piorar, há poucas semanas o Benfica pediu a interdição do estádio do Porto, a propósito de uma cantiga infantil sobre galináceos (e saúde mental) que os portistas quiseram partilhar com os seus adversários. Agora, perante dezenas de milhares de testemunhas, era o Benfica a associar-se à mesma espécie avícola.
Além da magnífica ocasião de zombaria que esta trapalhada publicitária ofereceu aos adversários do Benfica — e todos sabemos que, para os seus adversários, fazer troça do Benfica é a parte mais significativa de apoiar um clube de futebol —, o benfiquista viu-se como num sonho, despido no pátio do liceu, forçado a enfrentar ao vivo e a cores o dilema que lhe tem feito perder cabelo desde 1994: águia ou galinha, Paneira ou Paulão, Benfica ou outra coisa qualquer?
Talvez tenha sido uma elaboradíssima operação de terapia de exposição intensiva. Talvez alguém do marketing do clube se tenha entusiasmado com a perspectiva de os sócios enfrentarem os seus fantasmas ali mesmo, na Luz, com transmissão televisiva para futura consulta. É uma hipótese. Em todo o caso, quem quer que tenha tido a ideia de pôr os jogadores do Benfica a posar no pórtico publicitário de uma marca de ovos, precisamente depois de o clube se ter insurgido contra uma canção sobre o animal que os põe, é, quero acreditar, uma criatura superior. Um desses espíritos providenciais que, sem saberem, fazem mais pela literatura do que vinte feiras do livro nos jardins do Palácio de Belém. É alguém que vê mais longe, é alguém que vê melhor; é, numa palavra, alguém que compreende o ovo.
O ovo: ou o potencial da vida num recipiente fechado. Não há imagem mais eloquente da esperança. Enquanto a casca não se parte, tudo pode acontecer. Sobretudo um campeonato. Imaginem que alguém se aproxima de um ovo e lhe pergunta: “Então, é para ganhar?”
O ovo não responde. Tem a dignidade dos grandes mistérios. Limita-se a existir, magnificamente fechado, com todas as possibilidades da vida lá dentro. O ovo é sábio."

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