"EM WEMBLEY, NEM
OS PROTAGONISTAS
DA FINAL EUROPEIA
ESCAPARAM ÀS
REGRAS DA CASA.
Desde pequenos que elegemos os nossos jogadores
e treinadores favoritos.
País do futebol, a Inglaterra conseguiu, ao longo do
tempo, revelar não só futebolistas e treinadores de eleição,
como também estádios que
entraram no imaginário dos
amantes do futebol. O misticismo de determinados recintos,
onde vimos tantos craques brilharem e onde foram disputados
jogos que entraram para a história, contribuiu para transformar
esses palcos em verdadeiros símbolos da modalidade.
O Estádio de Wembley pertence a esse núcleo restrito. É um
dos palcos que fazem parte do
imaginário de qualquer adepto,
que sonha um dia assistir a um
encontro nas suas bancadas. Os
próprios jogadores desejam pisar
aquele relvado e sentir a atmosfera que só os grandes estádios
são capazes de proporcionar.
Nesses grandes palcos há o prazer de jogar, mas também uma
exigência acrescida: “Até o
menos habilidoso tem obrigação
de ser um jogador de classe.”
Essa responsabilidade era ainda
maior quando aí se disputava a
final da competição que reunia
os campeões da Europa.
A 19 de maio de 1963, três dias
antes da final, Benfica e AC Milan
viajaram para Inglaterra para disputar o jogo decisivo da Taça dos
Clubes Campeões Europeus. Os
encarnados, bicampeões europeus, marcavam presença na terceira final consecutiva da competição e estavam, por isso, fami -
liarizados com o protocolo que
envolvia a grande decisão.
A comitiva benfiquista aproveitou
para visitar o Estádio de Wembley
acompanhada pela imprensa
portuguesa. O que seria um procedimento normal acabou, contudo, por surpreender os jornalistas: aos jogadores, os principais
protagonistas daquele encontro,
foi pedido um bilhete para poderem visitar o recinto.
Não se tratava, porém, de um
episódio isolado. O estádio era
propriedade privada e, como tal,
obedecia a algumas regras pouco
habituais. Benfica e AC Milan
foram informados de que não
teriam direito a realizar um treino
de adaptação ao relvado. Segundo
os responsáveis pelo recinto, esse
procedimento apenas era permitido quando a seleção de Inglaterra
defrontava outra seleção, garantindo assim igualdade de circunstâncias. Tratando-se de duas
equipas estrangeiras, entendia-se
que ambas se encontravam em
condições idênticas. Desta forma,
os dois conjuntos só tiveram
acesso ao relvado no próprio dia
da final, 22 de maio.
O afamado cavalheirismo britânico acabaria, contudo, por ser
salvo por Matt Busby, treinador
do Manchester United. Retribuindo o convite dos dirigentes do
Benfica, que no início da época
lhe haviam proporcionado a possibilidade de assistir, em Lisboa,
à segunda mão da Taça Intercontinental, frente ao Santos, Busby
convidou os dirigentes benfiquistas a assistir à final da Taça de
Inglaterra, disputada no mesmo
recinto apenas três dias depois da
final europeia. Assim, num estádio onde os protagonistas da final
europeia precisavam de bilhete
para entrar, pelo menos quatro
dirigentes do Benfica regressaram a Wembley, desta vez na condição de convidados.
Saiba mais sobre esta e outras
histórias das campanhas europeias na área 12 – Honrar o País,
do Museu Benfica – Cosme
Damião."
António Pinto, in O Benfica

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