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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Protagonista, mas só com bilhete


"EM WEMBLEY, NEM OS PROTAGONISTAS DA FINAL EUROPEIA ESCAPARAM ÀS REGRAS DA CASA.

Desde pequenos que elegemos os nossos jogadores e treinadores favoritos. País do futebol, a Inglaterra conseguiu, ao longo do tempo, revelar não só futebolistas e treinadores de eleição, como também estádios que entraram no imaginário dos amantes do futebol. O misticismo de determinados recintos, onde vimos tantos craques brilharem e onde foram disputados jogos que entraram para a história, contribuiu para transformar esses palcos em verdadeiros símbolos da modalidade.
O Estádio de Wembley pertence a esse núcleo restrito. É um dos palcos que fazem parte do imaginário de qualquer adepto, que sonha um dia assistir a um encontro nas suas bancadas. Os próprios jogadores desejam pisar aquele relvado e sentir a atmosfera que só os grandes estádios são capazes de proporcionar. Nesses grandes palcos há o prazer de jogar, mas também uma exigência acrescida: “Até o menos habilidoso tem obrigação de ser um jogador de classe.” Essa responsabilidade era ainda maior quando aí se disputava a final da competição que reunia os campeões da Europa.
A 19 de maio de 1963, três dias antes da final, Benfica e AC Milan viajaram para Inglaterra para disputar o jogo decisivo da Taça dos Clubes Campeões Europeus. Os encarnados, bicampeões europeus, marcavam presença na terceira final consecutiva da competição e estavam, por isso, fami - liarizados com o protocolo que envolvia a grande decisão. A comitiva benfiquista aproveitou para visitar o Estádio de Wembley acompanhada pela imprensa portuguesa. O que seria um procedimento normal acabou, contudo, por surpreender os jornalistas: aos jogadores, os principais protagonistas daquele encontro, foi pedido um bilhete para poderem visitar o recinto.
Não se tratava, porém, de um episódio isolado. O estádio era propriedade privada e, como tal, obedecia a algumas regras pouco habituais. Benfica e AC Milan foram informados de que não teriam direito a realizar um treino de adaptação ao relvado. Segundo os responsáveis pelo recinto, esse procedimento apenas era permitido quando a seleção de Inglaterra defrontava outra seleção, garantindo assim igualdade de circunstâncias. Tratando-se de duas equipas estrangeiras, entendia-se que ambas se encontravam em condições idênticas. Desta forma, os dois conjuntos só tiveram acesso ao relvado no próprio dia da final, 22 de maio.
O afamado cavalheirismo britânico acabaria, contudo, por ser salvo por Matt Busby, treinador do Manchester United. Retribuindo o convite dos dirigentes do Benfica, que no início da época lhe haviam proporcionado a possibilidade de assistir, em Lisboa, à segunda mão da Taça Intercontinental, frente ao Santos, Busby convidou os dirigentes benfiquistas a assistir à final da Taça de Inglaterra, disputada no mesmo recinto apenas três dias depois da final europeia. Assim, num estádio onde os protagonistas da final europeia precisavam de bilhete para entrar, pelo menos quatro dirigentes do Benfica regressaram a Wembley, desta vez na condição de convidados.
Saiba mais sobre esta e outras histórias das campanhas europeias na área 12 – Honrar o País, do Museu Benfica – Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

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