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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O acionista CR7 e o advogado do Diabo, perdão, advogado de Jesus


"Um corrupio por causa da condição de acionista de Cristiano Ronaldo na MediaLivre, através da CR7, SA, com uma participação de 30% do capital, que faz dele o maior acionista individual da empresa de média, adensado pelo facto de Luís Miguel Henrique (LMH), advogado de Jorge Jesus há mais de 15 anos, ter tomado a decisão de deixar de colaborar com aquele Grupo de comunicação, alegando ‘conflito de interesses’, depois de ter deflagrado o episódio das divergências que oscilam entre o sanável e o insanável.

1. O tema do conflito de interesses é particularmente atual e sensível, em Portugal, entre aqueles que se situam na zona do poder e geram esse poder através dos órgãos de comunicação social, através da sua condição ou de articulistas ou de comentadores. Poucos se interessam a fundo sobre esse tema, entregando-se à convicção de que ele encerra questões de natureza ética e que cada qual deve resolver, individualmente, esses conflitos, o que na verdade é uma forma mui romântica de fugir à questão de fundo, porque somos um país pequeno e para alimentar as dinâmicas da oferta em quantidade no meio do comentariado não sobram ‘especialistas’ suficientes para sustentar a alegada procura e, portanto, o negócio e alguns são ‘feitos à pressa’ porque o… ‘show must go on’…. Mas que é um assunto sério, não apenas no futebol, é.

2. Importa recordar que, entre os múltiplos negócios em que Cristiano se envolveu, desde turismo e imobiliário, passando por moda e produtos de marca; desporto e entretenimento; saúde, bem-estar e indústria, a entrada no mundo dos média aconteceu formalmente no final de 2023, cerca de mais ou menos 7 anos depois daquele episódio do microfone atirado ao lago na sequência de um ror de críticas que já nessa altura lhe eram dirigidas e, recentemente, a participação na LiveModeTV, plataforma de streaming desportivo ligada à CazêTV, demonstra que Cristiano Ronaldo parece interessado em manter ligação ao setor dos média e, provavelmente, reforçá-la.

3. O negócio na área dos média é um negócio como outro qualquer, com as suas particularidades, mas há um fator que ainda hoje, mesmo no tempo actual da força e de uma certa desregulação e impunidade no domínio das redes sociais, cujo problema é urgente que ache uma solução, gera distinção, que é naturalmente a visibilidade e, sobretudo, o que se faz com ela. No caso da relação entre os acionistas de média e o futebol, a problemática ascende a um patamar completamente diferente, que se torna numa situação complexa e difícil de dirimir quando um dos acionistas de referência é, também, um jogador de dimensão mundial, com um fortíssimo poder mediático e financeiro, como é o caso de Cristiano Ronaldo. 

4. Acredito que a causa da entrada de CR7 na área dos média fosse para tentar mitigar e controlar a onda de críticas que já nessa altura tinha antecedentes bem visíveis, mas enquadrados na letra constitucional da liberdade de expressão; todavia, o desencontro de expectativas entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus atirou o conflito para outra dimensão, sobretudo depois do advogado de Jesus (LMH) se ter transformado em ‘advogado do Diabo’, depois de ter escrito no jornal desportivo do Grupo (Record) que «não existe independência intelectual sem independência financeira. Quem opina sobre o poder não pode depender do poder sobre o qual opina». Nem mais. E, sobre o círculo à volta do jogador, opina que «cada vez mais se rodeia de quem lhe diz o que precisa de ouvir», chegando a afirmar que «é a sina dos deuses e dos autocratas: acabam sozinhos no Olimpo, cercados de espelhos».

5. Não será fácil o papel de quem tem de emitir opinião em ca(u)sa própria, mas o desconchavo foi tão evidente e tão indecentemente brutal (a favor do patrão) na gestão da parte do conflito, com Jesus a ser crucificado na cruz, que a parcialidade não apenas teve o condão de prejudicar insensatamente o próprio Cristiano Ronaldo como ainda fez que certos episódios relacionados com a desova da espécie de pintos matinados entrassem nos anais do humorismo. «Não havia necessidade», como diria o Diácono Remédios celebrizado pelo grande Herman José.

6. E estamos perante uma lição para todos, até para a delimitação dos poderes, mas sobretudo para uma nova série de deslumbrados, que não despem o pijama nos ecrãs, convencidos da sua oleosidade dialética. Não está em causa nem o direito ao direito nem o direito ao direto. Neste caso, é o atentado ao bom senso, ao conteúdo e à forma.

7. E, depois, sim, vem o conflito de interesses. Não basta ser sério; também é preciso parecer, segundo o ditado. Quem é presidente do Conselho de Administração de quem faz a medição de audiências televisivas em Portugal não é menos sério por ser comentador de um canal que é quantificado pela empresa da qual é um dos principais responsáveis. Mas, lá está, não é preciso ser; é preciso parecer. Um caso de conflito de interesses que vale o que vale, à luz do padrão exegético que existe em Portugal. Como por exemplo quem tem clientes em agências de comunicação, que recebem por princípios prestados, e comenta deve fazer sempre declaração de interesses. E quem as faz fica muito mais protegido, como aqueles que na política e no futebol prestam serviços a clubes ou partidos e não declaram esses desempenhos.

8. Regressando à situação relacionada com CR7 e a Seleção Nacional.
Começo por dizer que a situação que envolve o enquadramento do Cristiano Ronaldo NUNCA (repito, NUNCA) pode ser interpretado como um mal-entendido, e isso ultrapassa-o em larga medida se quisermos olhar para a floresta e não apenas para a árvore ou, se quiser, para duas ou três árvores.
Houve falhas graves, de parte a parte, entre o jogador mais importante da história do futebol português, que atravessou fronteiras de uma forma brutal e é um símbolo para milhões de pessoas, a figura do selecionador nacional e a própria Federação e o seu presidente no âmbito da moderação de um processo complexo, que – é preciso lembrar – não começou agora; já tem muitos anos de gestação, de silêncios, de cumplicidades e até de falta de noção (neste caso de grandeza) e de coragem. Ninguém consegue fugir a isso: nem o Cristiano, nem o Jorge nem o Pedro [falo, claro, de Proença], nem estruturas do passado, através dos mais difíceis exercícios de contorcionismo.
Como observador, estive sempre do lado do reconhecimento da dimensão de um jogador especialíssimo, que merece de todos um tratamento compatível (sem recusa de olhar para as suas próprias responsabilidades), mas também do lado de a FPF ter contratado finalmente um treinador que assume as suas ideias e não permite que NINGUÉM (repito, NINGUÉM, pelo menos até à data) faça as escolhas técnicas que são da sua exclusiva competência.

9. Andámos anos a dizer, pelos sinais e provas evidentes, que a Seleção era uma espécie de coutada e que nela mandavam todos menos o selecionador. As influências dos empresários ou, se se quiser, de Jorge Mendes e de outras figuras que, perto do selecionador, faziam o seu trabalho no sentido de valorizar este em detrimento daquele, muitas vezes como figuras de mão do próprio empresariado, em diversos momentos, até, por causa das palpitações do mercado de transferências. Isso, com o Jorge, acabou, e sei que é assim e o imbróglio que se criou relaciona-se efetivamente com essa postura e forma de estar. Vamos lá a ser claros e sem poupar nas palavras.

10. Proença está a envidar todos os esforços para recuperar Cristiano para a Seleção, com a tal narrativa otimista para os próximos jogos da Liga das Nações (14 de novembro, 19:45, em Braga, e frente à Dinamarca a 17, em Cardiff), mas apesar das palavras e dos comunicados há coisas que parecem mas não estão adquiridas. Se Cristiano não estiver seguro de que tudo não passa de um jogo de sombras e de palavras não assumidas, esqueçam, ele não volta à Seleção, como também agora indiciaram as recentes palavras da sua irmã Elma.
Pergunto: é possível – com feridas ou cicatrizes – passar daqui? Ainda faz algum sentido forçar uma situação ema que ninguém se sente confortável?…

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