"DO BANCO DE SUPLENTES
AO TOPO DA LISTA DE
MARCADORES, O GOLEADOR A QUEM BASTAVAM
POUCOS MINUTOS PARA
FAZER A DIFERENÇA.
Como se motiva um jogador
que sabe, de antemão, que
não faz parte das escolhas
iniciais de um treinador?
Se, nos treinos, a única opção é
dar o máximo, como se controla
a ansiedade nos jogos? A ansiedade de ver os outros entrarem
em campo e esperar pela sua vez,
sem saber se ela vai realmente
chegar. E, quando chega, como se
gerem os poucos minutos disponíveis, quando se quer demonstrar tudo aquilo de que se é
capaz? Nesse breve intervalo, a
perfeição torna-se a meta.
No defeso de 1988, Vata chegou ao Benfica, proveniente do
Varzim, despromovido à II Divisão. Apesar dos 11 golos apontados e do interesse do Sporting, a
sua contratação foi mal recebida
por alguns. “Sei que houve muita
gente que riu da minha vinda
para o Benfica, mas vou trabalhar e, se o treinador me der uma
oportunidade, penso poder calar
essas vozes”, disse. A receita
estava dada: trabalhar em silêncio e estar preparado para aproveitar a oportunidade.
Nos primeiros cinco jogos
amigáveis, Vata não jogou um
único minuto. Ao 6.º encontro,
frente ao Nacional de Medellín,
entrou aos 81 minutos, com o
marcador empatado a duas
bolas. “Jogada de Paneira, a
meter a bola na área colombiana
para Vata dominar a bola e rematar imparável com o pé esquerdo”, foi relatado. Tinha acabado
de entrar e fez o golo da vitória.
Embora permanecesse como
suplente, tornou-se uma das
primeiras opções para entrar a
partir do banco. No Campeonato
Nacional, essa capacidade de
agitar o ataque encarnado e
mudar o rumo dos jogos revelou-se decisiva.
O Benfica conquistou o título e
terminou com o melhor ataque
da prova, com 60 golos. Vata contribuiu com 16, conquistando a
Bola de Prata. “Pode considerar
um quase meio-suplente da equipa, já que, em 38 jogos, perfez, em
tempo jogado, vinte partidas e
meia. Nestas condições, seria
injusto apagar o mérito da proeza, até porque a situação de ‘jogonão jogo’ não seria psicologicamente propícia”, escreveu-se, à
altura, no jornal A Bola.
O angolano demonstrou não
apenas a sua capacidade goleadora, mas também a capacidade
de estar confortável no desconforto: entrar quando o tempo
escasseava e transformar poucos
minutos numa oportunidade.
Os seus golos ajudaram o Benfica a sagrar-se campeão nacional e garantiram o regresso à
Taça dos Clubes Campeões Europeus na temporada seguinte. Em
1989/90, seria determinante para
o apuramento dos encarnados
para a final europeia, ao marcar,
frente ao Marselha, um dos golos
mais discutidos da história do
Benfica: a “mão de Vata”.
Foi assim que entrou para a
memória coletiva. Mas Vata não foi
só a mão. Foi um jogador que, com
pouco, fez muito e que, tal como
tinha prometido, calou as vozes
que o criticaram sem lhe terem
dado hipótese de se mostrar.
Saiba mais sobre este avançado na área 19 – Águias-Mundi, do
Museu Benfica – Cosme Damião."
António Pinto, in O Benfica

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