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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Vata não era só mão


"DO BANCO DE SUPLENTES AO TOPO DA LISTA DE MARCADORES, O GOLEADOR A QUEM BASTAVAM POUCOS MINUTOS PARA FAZER A DIFERENÇA.

Como se motiva um jogador que sabe, de antemão, que não faz parte das escolhas iniciais de um treinador? Se, nos treinos, a única opção é dar o máximo, como se controla a ansiedade nos jogos? A ansiedade de ver os outros entrarem em campo e esperar pela sua vez, sem saber se ela vai realmente chegar. E, quando chega, como se gerem os poucos minutos disponíveis, quando se quer demonstrar tudo aquilo de que se é capaz? Nesse breve intervalo, a perfeição torna-se a meta.
No defeso de 1988, Vata chegou ao Benfica, proveniente do Varzim, despromovido à II Divisão. Apesar dos 11 golos apontados e do interesse do Sporting, a sua contratação foi mal recebida por alguns. “Sei que houve muita gente que riu da minha vinda para o Benfica, mas vou trabalhar e, se o treinador me der uma oportunidade, penso poder calar essas vozes”, disse. A receita estava dada: trabalhar em silêncio e estar preparado para aproveitar a oportunidade.
Nos primeiros cinco jogos amigáveis, Vata não jogou um único minuto. Ao 6.º encontro, frente ao Nacional de Medellín, entrou aos 81 minutos, com o marcador empatado a duas bolas. “Jogada de Paneira, a meter a bola na área colombiana para Vata dominar a bola e rematar imparável com o pé esquerdo”, foi relatado. Tinha acabado de entrar e fez o golo da vitória.
Embora permanecesse como suplente, tornou-se uma das primeiras opções para entrar a partir do banco. No Campeonato Nacional, essa capacidade de agitar o ataque encarnado e mudar o rumo dos jogos revelou-se decisiva.
O Benfica conquistou o título e terminou com o melhor ataque da prova, com 60 golos. Vata contribuiu com 16, conquistando a Bola de Prata. “Pode considerar um quase meio-suplente da equipa, já que, em 38 jogos, perfez, em tempo jogado, vinte partidas e meia. Nestas condições, seria injusto apagar o mérito da proeza, até porque a situação de ‘jogonão jogo’ não seria psicologicamente propícia”, escreveu-se, à altura, no jornal A Bola.
O angolano demonstrou não apenas a sua capacidade goleadora, mas também a capacidade de estar confortável no desconforto: entrar quando o tempo escasseava e transformar poucos minutos numa oportunidade.
Os seus golos ajudaram o Benfica a sagrar-se campeão nacional e garantiram o regresso à Taça dos Clubes Campeões Europeus na temporada seguinte. Em 1989/90, seria determinante para o apuramento dos encarnados para a final europeia, ao marcar, frente ao Marselha, um dos golos mais discutidos da história do Benfica: a “mão de Vata”.
Foi assim que entrou para a memória coletiva. Mas Vata não foi só a mão. Foi um jogador que, com pouco, fez muito e que, tal como tinha prometido, calou as vozes que o criticaram sem lhe terem dado hipótese de se mostrar.
Saiba mais sobre este avançado na área 19 – Águias-Mundi, do Museu Benfica – Cosme Damião."

António Pinto, in O Benfica

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