"Os iranianos, que herdaram uma civilização muito mais antiga do que a nossa e talvez tenham aprendido algumas coisas pelo caminho, ainda lhe chamam Pai Toni. Devíamos seguir-lhes o exemplo. É extraordinário; um homem teve de viajar até aos confins do mundo para receber um nome que, afinal, fora sempre o seu. Grande Toni!
— “Grande Toni.”, repetiu o Sr. Vilhena. E começou a contar:
— “Fizemos a tropa juntos, em Mafra. Lembro-me de uma vez em que o vieram buscar para uma final da Taça contra o Sporting. Ganhámos 3–1. Ele regressou e ninguém deu por nada. Era muito discreto; um grande ser humano.”
Não fazia ideia de que o Sr. Vilhena conhecia o Toni, mas sabia que teria alguma coisa interessante para dizer sobre ele. Há precisamente uma semana, na Quarta-feira, 14 de Outubro, dia em que Toni cumpriu oitenta anos de vida, o que eu queria era ouvir histórias sobre ele. E há pessoas — pela idade, pela discrição, pela gentileza no modo como aceitam a vida — de quem se sabe que terão alguma coisa a dizer sobre o Toni. Foi o que aconteceu. O Sr. Vilhena falou do Toni como quem fala de um homem da mesma espécie. E é pena serem poucos.
Essa escassez é capaz de ajudar a explicar o desacerto na percepção pública que se tem do Toni. Trata-se de um mal-entendido que é fruto de uma ideia um pouco lisboeta, naquilo que de pior existe em ser lisboeta, e consiste em achar que as pessoas do campo são todas iguais. Por campo entenda-se tudo o que começa imediatamente a seguir à Segunda Circular. Basta uma certa bonomia, uma certa ruborescência, uma erupção temperamental de vez em quando e o lisboeta fica convencido de que já percebeu tudo. Mas não percebeu absolutamente nada. E é preciso explicar-lhe: um bigode não faz um Quim Barreiros.
Sabiam, por exemplo, que o Toni esteve em Direito? Que o tio é advogado e professor universitário em Coimbra? Que o pai era dono de uma gráfica em Anadia ou que a irmã é Professora de Matemática? Isto não encaixa propriamente no perfil do provinciano de modos rudes. Pois o Toni é o último dessa grande geração portuguesa de futebolistas-filósofos. Nos anos 70, em Portugal, a ideia de um jogador de futebol ser dotado de pensamento não era uma causa fracturante e dava em gente como Artur Jorge, que se licenciou em Filologia Germânica, Rui Rodrigues, que tirou Farmácia, ou Jordão, que chegou a formar-se em História da Arte — e outros que não nomeio para não encher este texto de títulos académicos. Porque o que realmente importa está no que o Sr. Vilhena disse: “[É] um grande ser humano”. Isto parece ser só uma coisa que se diz, mas é um lugar-comum que, pela absoluta ausência de pretensão, deixa de ser um lugar-comum.
Há um determinado subgénero de afectação que se caracteriza por tratar muito bem pessoas de classes sociais inferiores, numa devoção pela humanidade que exige ser testemunhada. Mas isso, claro, não é devoção nenhuma; é só uma forma sofisticada de desprezar os outros. Ora, o Toni não percebe nada disso. Não sabe estar com o povo, porque nunca lhe ocorreu que existisse semelhante categoria de seres humanos. Conhece pessoas. Cumprimenta-as com estima, pergunta-lhes pela vida, ouve a resposta.
Diante da doença de alguém próximo, há quem recorra àquelas máximas que parecem justificar o egoísmo de querer ficar com uma boa recordação em vez de se fazer o que se tem de fazer: “Prefiro guardar uma boa imagem dele.”, dizem. O Toni não tem semelhantes preocupações estéticas. E lá ia ele, visitar o Manuel Padeiro a Anadia, quando o amigo adoeceu. Não admira que, quando foi para Bordéus, muita gente da Bairrada tenha pegado no espumante e nos leitões, e alugado uma camioneta para ir assistir à sua estreia em França. Na semana passada, na festa dos seus oitenta anos, aliás, quase metade dos convidados vinha de Anadia, embora o Toni tenha passado sessenta anos da sua vida em Lisboa.
Conta-me o meu amigo Filipe Costa Almeida — que também é amigo do Toni — que certo dia depois de saírem do velório de alguém em comum o Toni lhe disse: “Ó Filipe, nós devíamos ir a um enterro todos os dias”. Não quero esticar a corda, mas quem diz uma coisa destas está, à sua maneira, a propor o mesmo exercício de lucidez moral que justificava a caveira sobre a mesa de São Jerónimo.
Do mesmo modo, no futebol, onde uma derrota se vive como se fosse o fim-do-mundo, o Toni, como quem leva uma caveira para o banco para não se esquecer da justa-medida das coisas, parece ter sabido aceitar os momentos em que a vida lhe disse que não. Quando em 1988, com uma equipa fraca, conseguiu chegar à final da Taça dos Campeões Europeus e, na iminência de ser o primeiro treinador português campeão europeu pelo Benfica, perdeu nos penáltis, ao sexto remate. E, muitos anos depois, no Irão, ao serviço do Tractor, esteve a uma unha de conquistar o primeiro campeonato da história do clube. A equipa deixou fugir uma vantagem de 3–1 e, para tornar a crueldade perfeita, uma informação falsa sobre o outro jogo decisivo da jornada levou Toni e os adeptos a festejar um título que não tinham ganho. Mas o Toni tem outros recursos para enfrentar as desgraças. Numa época de má memória, saiu-se com esta: “Está tudo a correr mal. Se tivéssemos comprado um anão, o anão tinha crescido.”
Para mim, que nasci nos anos 80 e não o pude ver jogar, o Toni foi, como se diz, pau para toda a obra. Campeão, descampeão, secretário, treinador, adjunto, treinador outra vez, adjunto outra vez. O que fosse preciso, sem fazer fretes. Como Wilson, Shéu ou Chalana. Como todos quantos fizeram do Benfica a casa que um dia foi.
Dizer “pau para toda a obra” tem os seus méritos, mas não tem todos. Os iranianos, que herdaram uma civilização muito mais antiga do que a nossa e talvez tenham aprendido algumas coisas pelo caminho, ainda lhe chamam Pai Toni. Devíamos seguir-lhes o exemplo. É extraordinário; um homem teve de viajar até aos confins do mundo para receber um nome que, afinal, fora sempre o seu. Grande Toni!"

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