Últimas indefectivações
quinta-feira, 19 de setembro de 2024
Benfica: do susto inicial à festa goleadora da águia
"Visão de golo é o espaço de opinião semanal de Rui Águas, ex-internacional português e treinador de futebol
Na Luz se brilhou e venceu com frequência ao longo de décadas. Muitos dos visitantes sofreram logo ao sair do antigo túnel ante o poder dominador do anfitrião Benfica. Desta vez, porém, não poderia ter sido mais oposto o início desta nova história, que marcava a importante volta de um Benfica cheio de diferenças.
Do falhanço e choque iniciais, resultantes de um golo sofrido ainda o apito inicial ressoava, 20 longos minutos se passaram até ao primeiro sinal reativo, em que Pavlidis conseguiu finalmente rematar. Até lá, a equipa tremeu, mesmo aqueles que pela sua capacidade e experiência justificavam a liderança da reação. A abrir a reviravolta, o efeito da maior presença na área adversária fez-se finalmente sentir, exaltando a arte turca. O golo do empate conseguido pelo novo craque, resultou de algo que o Benfica tem feito pouco: passe preciso no espaço entre a defesa e a baliza adversárias, para a desmarcação na área de outro jogador, que não o solitário avançado de referência típico, sempre merecedor de guarda de honra apertada.
Quanto a Otamendi, feliz aquele que tem a oportunidade e o mérito de contribuir para o resultado depois de no mesmo jogo falhar rotundamente. Se bem que a sorte dê jeito, a personalidade forte e a experiência de alguns permite, por vezes, reagir e olhar em frente sem pestanejar. Da falha ao acerto. Do tremor ao festejo. Desta redenção individual resultou o procurado alívio coletivo com um segundo golo que virava o resultado. No começo da segunda parte, o Benfica rapidamente decidiu o jogo e descomprimiu da visível carga emocional que carregava. Mais dois golos de perfil semelhante: mais um canto e outra desmarcação no espaço, novamente explorado. Até final do jogo, algo que há muito não se via: substituições criteriosas e no momento certo, que também trouxeram ao campo duas outras interessantes novidades: Amdouni e Schjelderup, que justificaram a sua entrada quase marcando. ...
Quanto a Lage, para rematar, mereceu e muito este começo feliz. Entrou como é, competente, autêntico e honesto.
Entrevista
Poucas vezes a inoportunidade de uma entrevista foi tão evidente. Este troféu bizarro, se houvesse, estaria merecidamente atribuído. Num período critico do clube que disse defender, o antigo presidente protagonizou um episódio de oportunismo candidato, pouco (ou mesmo nada) se importando com os efeitos negativos que tal populismo deveria provocar. Reconhecidamente obreiro de alguns projetos que beneficiaram o clube, tal verdade não apaga, no entanto, um dos períodos que mais negativamente marcaram a imagem do clube e no qual, é bom não esquecer, foi protagonista principal.
Papel social
Taremi, jogador internacional iraniano, usou recentemente a sua notoriedade enquanto representante da sua seleção, para falar dos problemas que afetam o país a que pertence. Diz-se que as figuras públicas podem e, quanto a mim devem, não só tentar ser um exemplo para os fãs que os seguem, mas também emitir ideias, mesmo que por vezes incómodas, que possam beneficiar os direitos dos seus compatriotas ou seguidores.
Esta altruísta posição de Taremi, recordou-me uma outra posição pública que tem mais tempo, com a qual contrasta drasticamente, a de Djokovic, figura infelizmente de expressão pública muito mais global.
Quando se é ídolo de muitos, convém ter a noção das eventuais consequências do que se diz ou faz. Durante a pandemia, o tenista desvalorizou consecutivamente os alertas da OMS relativamente às precauções das quais todos nos lembramos. Quantas pessoas terão sofrido na pele a sua má influência? Será que ele tem essa noção? A consciência pesa em quem a tem."
Nota de pesar
"O Sport Lisboa e Benfica lamenta profundamente a morte do seu antigo jogador, César, aos 68 anos, após internamento hospitalar, no Brasil.
No Benfica, César destacou-se com 37 golos apontados em 113 jogos, tendo envergado o Manto Sagrado em 4 épocas, entre 1979/80 e 1982/83.
Ao longo da sua permanência no Benfica, o atacante brasileiro venceu 2 Campeonatos, 3 Taças de Portugal, 1 Supertaça e 2 Taças de Honra.
Numa dessas finais da Taça de Portugal, disputada no Estádio do Jamor, César marcou o único golo do encontro, sendo decisivo para a obtenção de mais um título importante na história do Clube.
À família enlutada, o Sport Lisboa e Benfica apresenta as mais sentidas condolências."
Manchester City, o julgamento do século
"E se em fevereiro o Manchester City saber que vai descer de divisão? Isso pode acentuar a tendência de contração dos investimentos. Com impacto em Portugal
Chamam-lhe em Inglaterra o julgamento do século no que respeita ao futebol e não será por acaso: o Manchester City começou no início desta semana a ser julgado por 115 infrações de âmbito financeiro, numa acusação levada a cabo pela Premier League e cujo veredito pode ir da descida de divisão pela dedução de (muitos) pontos ou mesmo a expulsão da competição.
Foram precisos seis anos desde a publicação feita pelo Der Spiegel (em parceria com o Football Leaks, by Rui Pinto) da alegada batota para enganar o fair play financeiro da UEFA e da Premier League até ao arranque das audiências formais. Milhões de libras em encargos judiciais de parte a parte passaram entretanto pelos cofres dos advogados mas há a garantia de que o julgamento levado a cabo por um painel de três juízes irá durar cerca de 10 semanas e a decisão não é passível de recurso para o Tribunal Arbitral do Desporto (TAS, na sigla em francês), na Suíça.
Isto significa que, lá para fevereiro, a bomba poderá estoirar quando já se desenha o último terço do campeonato inglês e da Liga dos Campeões. Requer ainda alguma imaginação pensar no cenário que se seguirá a uma eventual mão pesada sobre os citizens, mas há sinais que revelam mudanças e que já se fizeram notar no último mercado de transferências.
O facto de o Everton, Nottingham Forest e Leicester terem sido punidos com subtração de pontos por irregularidades financeiras e a investigação em curso ao Manchester City e também ao Chelsea (dos tempos de Roman Abramovich) provocou uma contração da média de investimento dos clubes britânicos num único jogador. Não foi por acaso que pela primeira vez em 11 anos nenhuma transferência ultrapassou os €75 milhões. O medo também tem um valor económico.
Comparativamente a anos anteriores, inclusive durante a pandemia de Covid-19, houve uma baixa de preços que muitos consideram ter sido positiva para reduzir a bolha inflacionária em curso desde os famosos €222 milhões do PSG ao Barcelona por Neymar em 2017. Basta recordar que no passado muito recente a fasquia dos €100 milhões banalizou-se e hoje contam-se 16 passes de futebolistas transacionados acima desse nível - e nem metade vale realmente o que os clubes pagaram por eles.
Esta conjuntura já teve impacto em toda a cadeia de valor, atingindo em particular aqueles que se situam no primeiro anel à volta da grande roda dentada dos big 5, caso do mercado português e em particular o Benfica: em circunstâncias normais João Neves teria saído por 100 milhões de euros e não pelos €60 milhões que o PSG pagou (mais €10 milhões por objetivos), o que no contexto das contas atuais das águias implica uma grande dor de cabeça: pelo menos nas duas próximas janelas de verão poderão ter de sair duas joias da coroa em vez de apenas uma. E isso pode nem chegar.
PS: A Federação de Futebol da Turquia precisou de apenas dois dias para divulgar os áudios do VAR dos lances mais relevantes da jornada da Liga, um dos quais o vermelho sobre uma entrada dura sobre o ex-benfiquista Rafa. A transparência também se mede pela rapidez do processo, quando os lances ainda estão frescos na memória do público. Acredito que esse será o próximo passo a dar em Portugal."
Direitos de imagem dos atletas
"O Supremo Tribunal de Justiça (STJ) proferiu, em Maio deste ano, um interessante Acórdão sobre direitos de imagem dos atletas.
Neste caso concreto, o autor, jogador profissional de futebol português e residente em Portugal, teve conhecimento de que a sua imagem, o seu nome e as suas características pessoais e profissionais foram utilizados em jogos FIFA, de futebol virtual. Deste modo, o jogador intentou uma ação contra a Electronic Arts Inc., com sede nos EUA, pedindo que esta fosse condenada a pagar-lhe, a título de indemnização, por danos patrimoniais de personalidade, pela utilização não autorizada da sua imagem e do seu nome.
Em particular, era discutido no caso a questão da competência dos tribunais portugueses para conhecer o caso.
Entendeu o STJ que o autor alegou factos relativos a elementos de conexão suficientes com Portugal, nos termos da Lei, pelo que, nos casos em que os danos se prolongam no tempo e o centro de interesses do lesado vai variando ao longo desse tempo, localizando-se em diferentes Estados – uma vez que o jogador tinha representado vários clubes internacionais no hiato temporal em causa –, a ação judicial em que se reclama o pagamento de uma indemnização poderá ser intentada em qualquer uma das respetivas jurisdições.
Assim, decidiu-se que os tribunais portugueses são internacionalmente competentes segundo o princípio da causalidade, para conhecer de ações de responsabilidade civil extracontratual, propostas por jogadores de futebol, que pedem uma indemnização pela utilização ilícita do seu nome e imagem, em videojogos produzidos nos EUA, em que os danos invocados se prolongam no tempo e ocorrem também em Portugal e este é o centro de interesses do jogador."
Incêndios: desculpem mas não consigo falar de outra coisa
"O Sporting ganhou e há temas interessantes para debater no desporto, mas que interessa isso perante o flagelo por que o País passa de novo? Que o desporto faça o seu papel. Pouco pode ser muito
Provavelmente devia escrever sobre a Liga dos Campeões, que até saiu bem a Portugal, na primeira rodada, com a vitória do Sporting sobre o Lille.
Tinha pensado, porém, dedicar este espaço a algumas decisões iminentes na UEFA, que vão deixar na mão dos clubes de primeira divisão, em cada país, a possibilidade de dispensarem ou não aos da segunda alguma esmola dos dinheiros das competições europeias.
Mas o país está a arder, e desta vez infelizmente não se trata de uma figura de estilo. Devíamos, aliás, fazer um ato de penitência neste mundo do futebolzinho e dos outros desportos de cada vez que utilizamos expressões bélicas para falar de simples jogos. Sejam elas relacionadas com fogo, com guerras, com enxurradas ou com qualquer outro fenómeno que nos surja como boa imagem em determinado momento. Mais cedo ou mais tarde, vai revelar-se de mau gosto. Estamos sempre a aprender, essa é que é a verdade. Utilizei inúmeras vezes estas muletas. Hoje lamento-as todas.
Há pessoas em risco, casas ardidas, floresta para sempre perdida, vidas inteiras, conquistas de uma vida, destroçadas pelas chamas. Bombeiros a morrer, casas a cair em direto na TV (também podíamos falar um pouco sobre isto, mas fica para mais tarde).
Não vale a pena ir pela conversa populista de que «já em 2017 foi o que foi, se não acautelaram foi porque não quiseram». Muita coisa foi feita desde então, aprendemos com erros e tentámos melhorar. Não acredito que alguém em funções de responsabilidade consiga negligenciar a possibilidade de ocorrerem catástrofes como esta.
A verdade é que elas ocorrem. Em Portugal morre-se pelo calor e na Roménia e na Chéquia morre-se por inundações. Ao mesmo tempo. No fim do verão. Enquanto acreditarmos em demagogias baratas e negacionismos, e não percebermos o que estamos a fazer ao planeta, será muito difícil inverter a situação.
Países altamente evoluídos, e vamos diretos aos Estados Unidos, não têm menores dificuldades no combate aos fogos da Califórnia ou às cheias na Florida.
Não está sempre «tudo mal» em quem decide e faz ou não faz. Está muita coisa mal em nós. Em cada coisa que fazemos ou não fazemos no nosso dia-a-dia.
O desporto pode ser um ótimo veículo de difusão de boas práticas. Tem de ir além dos minutos de silêncio por vítimas e comunicados sentidos. Já houve excelentes exemplos, venham mais."
Vieira no planeta dos manos
"A entrevista do antigo presidente do Benfica só reforçou a necessidade de o futebol português se libertar de certos vícios do passado.
Como estava ocupado a fechar o FC Porto para o jornal quando Luís Filipe Vieira estava a ser entrevistado pela CMTV só retive uma palavra: 'mano'. Perdi-me nas divagações de uma personagem que não tem amigos. Pelos menos amigos honestos que o aconselhassem a não se expor daquela forma numa fase em que o Benfica estava tão fragilizado. Verdade seja dita, Vieira não escondeu o seu posicionamento: acima do Benfica, está ele.
No planeta dos manos, 'bué' de manos, tipo manos até dizer chega, o ‘flow’ de Vieira criou a sensação de que sem ele o ‘bote’ não anda ‘prá’ frente – e só para escrever estas parcas linhas estive três horas em Ramalde Norte a assistir a um duelo de MCs. Um curso intensivo muito útil, porque descobri que a rima improvisada é muito mais genuína que a intervenção de certos ex-dirigentes de que o futebol português não pode ter saudades.
Com o advento da eleição de Villas-Boas no FC Porto e a consolidação da liderança de Frederico Varandas no Sporting, sem esquecer que há uma mulher, Alexandrina Cruz, corajosamente na presidência do Rio Ave, o futebol português tem de se libertar dos vícios do século XX e ter uma visão, não de futuro, mas de presente.
E o presente são as famílias nos estádios, as claques registadas e controladas (veja-se o que fez AVB em poucos meses com os Super Dragões), os sócios que pagam as quotas recompensados pela sua fidelidade, os treinadores falarem mais de futebol e menos de arbitragens, a comunicação dos clubes ser mais livre e fluida. Entre isso e o planeta dos manos, não me parece difícil a escolha."
A propósito de uma entrevista. Para o luís com um abraço em tu
"Desculpa lá Luís, acabaste de encher as audiências daqueles que são os os maiores cúmplices de uma sinistra senhora que parece ir ser corrida a pontapé de um posto que jamais teve estrutura para ocupar.
Gosto de Luís Filipe Vieira. Tenho-o como amigo apesar de uma ou outra divergência. Conheci-o ainda vice-presidente do Alverca quando fizemos uma entrevista para A Bola (nesse tempo com maiúsculas) na qual apresentou o seu projecto de uma cidade desportiva e de um clube para a I Divisão. Cumpriu. Mas não escondia a sua ambição de vir a ser presidente do Benfica. Geralmente atento ao que diz encontrei-o em recentes imagens televisivas. Amargo como nunca. Não me espanta. Sou solidário com muito do que diz e como ele sofri maus tratos de um MP que parece uma reunião de Lauras do 14, sempre disponível para distribuir informações que deveriam estar em segredo de justiça, arrasando com a vida íntima de todos os infelizes que entrem na categoria de arguidos. Mete nojo? Mete. Mas, desculpa lá Luís, acabaste de encher as audiências daqueles que são os os maiores cúmplices de uma sinistra senhora que parece ir ser corrida a pontapé de um posto que jamais teve estrutura para ocupar. Francamente. Percebo-te a raiva. Também já fui tratado abaixo de cão em instituições pelas quais destruí a minha vida familiar. Até numa BTV da qual eras patrão e na qual teimei em ser sempre jornalista em vez de jornaleiro. Foi difícil para ti engolires opiniões minhas? Admito. Mas era o que faltava não saberes que não me vendo e que continuo a dizer o que penso, mesmo quando as matilhas da canalha que se arvorava em directores de comunicação me mordiam os calcanhares. Sinto-te a revolta. Tens direito a ela. Ninguém te julgou ainda que não a pasquinada. Percebo a tua necessidade de falar. Mas não a de apertares a mão ao inimigo. Nunca apertei a mão ao eterno presidente do Porto que fez o que pôde para que não tivesse trabalho em lado algum. É uma questão de dignidade. Mas há algo que verdadeiramente não percebo. Esta do TU é que me escapa. Logo tu? Tu que tratas toda a gente por tu? Que até o primeiro ministro tratavas por tu? Tu, o inventor do tu? E ainda bem. Trata-me por tu. Detesto que me tratem por você."
quarta-feira, 18 de setembro de 2024
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