Últimas indefectivações
quarta-feira, 3 de junho de 2026
Cinco ilações a tirar da vitória do PSG em Budapeste
"Ao olhar para a revalidação do título de campeão europeu por parte do Paris Saint-Germain, penso ser necessário destacar alguns dos pontos fulcrais desta conquista, a qual começou muito antes da chegada de Luis Enrique e vai muito além do investimento financeiro efectuado:
1 - A aprendizagem com os seus próprios erros. Isso sim é experiência, a meu ver. Perceberam que não bastava investir nas melhores individualidades para triunfar num desporto colectivo. Compreenderam ser necessária a criação de uma equipa em que o todo fosse não só mais do que a soma das suas partes, mas também mais importante do que qualquer indivíduo;
2 - Assimilada a aprendizagem, o PSG teve a coragem de decidir contra os seus próprios desígnios iniciais. Isso requer uma humildade rara no que diz respeito à gestão, à liderança e à própria humanidade. Graças a isso deixaram sair todos aqueles que poderiam não ser compatíveis com o novo percurso a ser iniciado;
3 - Assumidos os erros, tomadas as decisões corajosas, era tempo de criar uma cultura organizacional assente em princípios morais inegociáveis: mentalidade competitiva, superação, team work, humildade, sintonia, reciprocidade.
Para isso era necessário um perfect match entre o que estava a ser delineado e quem ajudaria a colocar em prática e em marcha todo esse plano;
4 - Eis que chega Luis Enrique, o homem a quem nada parece faltar, a quem nada parece afectar.
O treinador espanhol, um dos melhores do mundo na actualidade, é um case study que merece atenção. Genuíno, espontâneo, corajoso. Um pensador sem amarras ideológicas. Um espírito livre que promove e potencia a liberdade nos seus e entre os seus. Ver o PSG jogar é ver Luis Enrique em todo o seu esplendor. E isso só é possível quando ao treinador excepcional junta-se o ser humano de excelência;
5 - Para que o puzzle pudesse ficar completo faltavam os jogadores. E nesse campo o PSG também tem sabido dar cartas. Não só manteve aqueles que mais se adequavam à nova cultura, à nova filosofia e aos novos standards do clube (fora e dentro de campo), como também investiu em jogadores que acabaram por ser o rosto das duas Champions League.
Um investimento que vai muito além do dinheiro, pois há muitos clubes que têm dinheiro (à sua escala e realidade), mas não o sabem investir. O PSG de fundos aparentemente ilimitados tem dado lições de critério e inteligência no que diz respeito ao scouting, à análise, à antecipação negocial e à adequação aos seus objectivos.
O sucesso parisiense nasceu do investimento efectuado, mas só teve a dimensão desejada quando todos no clube passaram a estar imbuídos do mesmo espírito. A cultura organizacional de uma instituição, seja ela qual for, é a base maior de todo e qualquer sucesso que se pretenda alcançar.
Costumo dizer que é possível ganhar sem cultura organizacional, mas não é possível ganhar e vencer sem cultura organizacional. O PSG não só tem ganho, como também tem vencido."
Nutrição personalizada na otimização da performance
"O rendimento desportivo não depende apenas do treino e do talento. Com o aumento do número de jogos ao longo da época, a capacidade física e de recuperação dos atletas ganha cada vez mais importância. A nutrição assume aqui um papel fundamental, pois, sem uma alimentação adequada, o atleta dificilmente conseguirá potenciar o seu rendimento físico e manter um elevado nível de performance ao longo de toda a época.
A individualização da nutrição do atleta assume, atualmente, uma importância crescente. Não existem dois atletas iguais e, por muito semelhantes que possam parecer, dificilmente o mesmo plano nutricional se adequará a ambos. Variáveis como o peso, altura, idade, modalidade praticada, massa gorda, massa muscular e preferências alimentares determinam as necessidades nutricionais de cada atleta. A especificidade da posição ocupada em campo é também um fator determinante. Dificilmente um pivot e um ala terão necessidades nutricionais ou composição corporal semelhantes, tal como acontece entre um guarda-redes e um extremo.
Para perceber o grau de especificidade necessário, importa referir que o mesmo atleta poderá necessitar de estratégias nutricionais diferentes ao longo da semana. Numa semana típica, com treinos de segunda-feira a sábado e jogo ao domingo, o atleta poderá beneficiar de um aumento significativo da ingestão de hidratos de carbono nos dias de maior exigência física, bem como no período pré-competitivo, de forma a maximizar as reservas de glicogénio muscular. O glicogénio constitui a principal fonte de energia em atividades de alta intensidade e, por isso, garantir reservas adequadas antes da competição é fundamental para otimizar a performance.
Mais do que alimentar, a nutrição deve ser encarada como uma ferramenta estratégica capaz de otimizar a performance. Quando ajustada às características individuais de cada atleta, permite não só melhorar o rendimento em treino e competição, mas também potenciar a recuperação, reduzir o risco de lesão e promover uma maior consistência ao longo da época desportiva."
O Mundial ainda não começou, mas já está a gerar dinheiro em Portugal
"O estudo do IPAM que apresentamos esta terça-feira aponta para um impacto económico em Portugal que pode chegar aos 945 milhões de euros em caso de vitória no Campeonato do Mundo de Futebol, que está prestes a começar. E há um detalhe (grande) que muda tudo: Portugal não organiza sequer o Mundial.
Então a pergunta é simples. De onde vem este dinheiro? Vem das pessoas. E da forma como as pessoas vivem o futebol. O impacto económico do Mundial não aparece do nada. Constrói-se ao longo de várias semanas, em pequenas decisões que todos tomamos sem pensar muito nisso.
Começa antes dos jogos começarem. Quando as pessoas compram equipamentos novos para ver os jogos em casa, subscrevem canais, falam do Mundial nas redes sociais, começam a planear onde vão ver os jogos com amigos.
Depois vem a fase mais visível. Restaurantes e cafés cheios. Casas com televisão ligada durante horas. Mais consumo em supermercados, mais bebidas, mais refeições. Tudo aquilo que normalmente já fazemos, mas com mais intensidade.
Há também o consumo emocional. Camisolas, cachecóis, cromos, merchandising. São gastos que não seguem uma lógica racional. São decisões ligadas ao entusiasmo, à identidade, ao sentimento de pertença. E que continuam a ter um peso real.
Mas há uma parte do impacto que não se vê tão facilmente. Cada vez mais, uma parte importante vem do digital. Pessoas que comentam jogos, que partilham vídeos, que enviam mensagens, que seguem jogadores e marcas. Pode parecer que não há dinheiro envolvido, mas há. Está na publicidade, nas plataformas, no conteúdo criado e distribuído todos os dias.
O jogo já não vale apenas pelos 90 minutos. Vale pelo que acontece à volta desses 90 minutos. E é aqui que está a grande mudança. Antes, o valor do futebol vinha de consumir. Hoje, vem também de amplificar. Quanto mais se fala, mais se partilha, mais se comenta, mais o futebol vale.
Portugal tem uma característica particular: pode não ser um grande mercado em dimensão, mas é um mercado muito ativo. Vive o futebol com intensidade. E isso transforma-se em valor.
O estudo mostra precisamente isso. O impacto não vem de um grande investimento público, nem de infraestruturas, nem de estarmos a organizar o evento. Vem da soma de milhares de comportamentos individuais ao longo de várias semanas.
E é por isso que o Mundial já não depende da geografia. Depende das pessoas. E há aqui uma consequência importante, já a olhar para 2030. Portugal vai organizar o Mundial. Mas isso, por si só, não garante impacto.
O impacto já sabemos como se cria. Está nas casas, nos cafés, nos ecrãs, nas redes sociais, nos hábitos de consumo. Está nas pessoas. A diferença é que, em 2030, temos a oportunidade de transformar essa dinâmica em algo maior. Mas só se percebermos uma coisa simples.
O valor do futebol não nasce no estádio. Nasce fora dele."
Áustria: Matthias Sindelar, o ‘homem de papel‘ vigiado pelos nazis e assombrado por uma morte misteriosa
"Brilhou pela Wunderteam, a fantástica seleção da Áustria dos anos 30, com um futebol cerebral e criativo. Depois do Anschluss, recusou-se a representar a equipa da Alemanha nazi, estragando um diplómatico empate no encontro feito para celebrar a anexação. Acabaria por falecer em condições suspeitas, abrindo décadas de especulação sobre as causas da inalação do monóxido de carbono que o vitimou.
Classificar Matthias Sindelar como um declarado opositor do regime nazi seria um exagero. Dizer que se tratou de um dissidente ou de um vocal crítico seria fugir à verdade. Ainda assim, as frases anteriores não impedem que se tenha tornado um símbolo de recusa, um emblema da não colaboração. Fonte de orgulho pátrio, de orgulho austríaco.
O momento fundamental deu-se a 3 de abril de 1938. Sindelar fora o grande futebolista da Áustria da década anterior, obtendo fama e admiração internacionais. Contava já 35 anos, não se encontrava no auge, aqueles já não eram tempos do fulgor vivido previamente, quando a equipa por si capitaneada chegou a marcar 101 golos em 31 encontros nos três anos até ao Mundial 1934. Mas, a 3 de abril de 1938, Sindelar mantinha-se líder, referência.
O Anschluss, a anexação da Áustria pela Alemanha de Hitler, dera-se semanas antes. Para o celebrar, as autoridades nazis organizaram o Anschlusspiel, ou jogo da anexação. No estádio Prater, em Viena, a equipa da casa tinha como missão sorrir perante o seu próprio funeral.
Seria o último encontro da Áustria até ao fim da Segunda Guerra Mundial. Uma das melhores seleções de então, semi-finalista no Campeonato do Mundo em 1934, medalha de prata nos Jogos Olímpicos 1936, era absorvida pela Alemanha, passando os seus jogadores a serem selecionáveis para o conjunto do país invasor. A Áustria tinha presença garantida no Mundial que teria lugar pouco depois daquele 3 de abril de 1938, mas, apagada da competição, não chegaria a colocar um pé em França.
A ocasião pedia um diplomático empate. E, a partir deste ponto, as crónicas daquele dia tornam-se mais discordantes entre si, a história ganha asas e vida própria ao longo das décadas.
Há jornais do dia seguinte que escrevem que a equipa austríaca, superior, desperdiçou propositadamente várias ocasiões de golo na primeira parte. Até que, a 20 minutos do fim, Sindelar e Karl Sesta, seu colega, fartaram-se do desperdício. A Áustria ganhou 2-0. Nos tais relatos de veracidade difícil de verificar, entre o real e o mitificado, há quem assegure que Sindelar celebrou efusivamente em frente de uma tribuna cheia de dirigentes nazis.
Os meses seguintes acentuaram a narrativa de pouca simpatia da estrela com os novos governantes do país. Em agosto, comprou um café que era de Leopold Drill, um judeu que, de acordo com a nova legislação, não podia ser dono daquele negócio, pagando-lhe uma generosa quantia. Como gerente do espaço, Sindelar foi sempre muito pouco lesto a seguir as ordens para colar cartazes de promoção nazi.
A Gestapo tinha um ficheiro sobre ele. O seu café era vigiado. Descreviam-no como social-democrata e pró-judeu, conexão ampliada por jogar no Áustria Viena, o clube da burguesia judaica, e ser originalmente da Morávia — nasceu Matěj Šindelář, num território hoje integrado na Chéquia e então parte do império Austro-Húngaro, tendo-se mudado para Viena aos dois anos e visto o seu nome ser germanizado —, região de onde muitos judeus foram para a grande cidade imperial, mas a sua família era católica.
O mito do génio dissidente, do não alinhado com os horrores de Hitler, adquiriu outra dimensão a 23 de janeiro de 1939. Gustav Hartmann, amigo de Sindelar, entrou no apartamento de Camila Castagnola, sua namorada, e encontrou o casal sem vida. A justificação oficial foi inalação de monóxido de carbono, veredicto aceite pela polícia após dois dias de investigações. É fácil pensar como os parágrafos anteriores se conjugam com esta morte, aos 36 anos, para que as conspirações e teorias ganhem dimensão.
Friedrich Torberg, escritor austríaco, dedicou-lhe um poema em que sugeria que Sindelar se suicidara, tendo como causa dessa fatal decisão o Anschluss. Num documentário da “BBC“, um amigo do jogador apoia este tese, justificando a pressa com o fim das investigações oficiais com a vontade que os nazis tinham em classificar o sucedido como um acidente, para que pudesse haver um funeral digno - segundo as normas nazis, quem se suicidasse não poderia ter cerimónias fúnebres com honras de Estado - e não criar um mártir.
A ideia de assassinato também tem os seus partidários. O que parece factual é que, dias antes da morte de Sindelar e da namorada, um vizinho queixara-se de uma chaminé com defeito, apontada como culpada da morte do casal.
A Wunderteam
O talento de Matthias para a bola levou-o, aos 15 anos, para o Hertha Vienna. De lá foi para o Áustria Viena, onde foi campeão, triunfou na Taça, ergueu a Taça Mitropa, um dos primeiros torneios internacionais de clubes, juntando húngaros, checoslovacos, italianos, jugoslavos e austríacos.
Avançado habilidoso, o físico frágil era compensado pela técnica, a agilidade e a inteligência. “Tinha um cérebro nas pernas”, escreveu o crítico de teatro Alfred Polgar. No pós-Primeira Guerra Mundial, falar de futebol nos cafés de Viena era uma importante tendência cultural, discutindo-se o jogo, táticas, estilo. Sindelar era o apogeu do ADN dominante, o triunfo do cérebro sobre o músculo, fantasista, imaginativo. Chamavam-lhe o ‘homem de papel‘, pela fraca estrutura física, ou o ‘Mozart do futebol‘.
A idiossincrasia dos cafés, aquela explosão intelectual em torno da bola, encontrou expressão coletiva na Wunderteam, a seleção nacional. Com flexibilidade de movimentos e um estilo de passes curtos, influenciou os húngaros, anos depois, e, indiretamente, teve ramificações na Holanda do futebol total e no Barcelona e na Espanha de muitas décadas posteriores.
Sindelar, o grande herói daquela era de ouro, ganharia, em 1999, uma votação para eleger o melhor futebolista - e desportista - austríaco do século.
A sua carreira internacional fechou-se com o Anschluss. Foi sempre dando desculpas para não atuar pela seleção unificada. Jamais representou outra equipa nacional que não a sua. Se os nazis o calaram ou taparam a sua decisão fatal será questão que, possivelmente, jamais terá resposta."
Passou a estar no programa
"1. Pouco a pouco, a Europa vai fechando para o defeso as suas competições nacionais. Vem aí o Mundial, que tem a sua final marcada para o dia 19 de
julho, mas vamos ao que interessa.
2. O arranque dos trabalhos do Benfica foi anunciado
para 25 de junho e o primeiro jogo oficial do Benfica
da temporada 2026/27 será no dia 23 de julho. Não
era nada disto que se esperava que acontecesse
a partir do momento em que o Benfica chegou, com
todo o merecimento, ao 2.º posto da tabela do Campeonato Nacional de futebol, quando faltavam três
jornadas por disputar.
3. Mas é o que vai acontecer. Esfumou-se a hipótese
de o Benfica chegar à Liga dos Campeões porque
se perderam 4 pontos na antepenúltima e na
penúltima jornada da Liga e vimo-nos, assim, atirados para a Liga Europa, que é a segunda prova
em importância das competições da UEFA, uma
prova em que o Benfica já se viu por duas vezes
como finalista vencido. E não se passou uma eternidade desde que estas finais de Sevilha e de
Amesterdão aconteceram.
4. Deseja-se que o Benfica faça uma grande Liga
Europa e que, pela terceira vez, chegue à final e que
a conquiste, pondo fim ao enguiço das finais europeias. Quem não deseja uma coisa destas? A Liga
Europa é uma prova à medida do futebol português
de topo. Nesta sua última edição, que terminou
recentemente com o triunfo do Aston Villa, foi por
pouco, foi por muito pouco, que o Sporting de Braga,
por norma considerado o quarto grande da nossa
paróquia, não esteve presente na final de Istambul.
5. Onde é que íamos dois parágrafos atrás? Ah, sim,
relevávamos o facto de o Benfica se ter visto atirado para a tal Liga Europa. Acrescente-se agora
que, já estando o nosso clube apontado à referida
competição europeia, não passou muito tempo
sem que se visse ser atirado para as pré-eliminatórias de acesso à Liga Europa, uma despromoção
que, francamente, não estava no programa.
6. Não estava, mas passou a estar. A “culpa” foi do
Torreense. Conquistou a Taça de Portugal e baralhou as contas de terceiros. E “terceiros”, com
muita pena nossa, porque isso mesmo foi o que
fomos na Liga de 2025/26.
7. Resta-nos tomar nota, nas nossas agendas, do
programa internacional para julho e para agosto,
que nos vai preencher o estio com jogos internacionais de grande importância. A 23 e a 30 de julho
temos a 2.ª pré-eliminatória, a 6 e a 13 de agosto
temos a 3.ª pré-eliminatória e a 20 e a 27 de agosto
teremos, espera-se, o playoff. Melhor, não se espera, exige-se. E, pelo meio, em agosto, cabe ao Benfica disputar 4 jornadas do Campeonato. Prontos?"
Leonor Pinhão, in O Benfica
“Torres e Azulejos”
"A CAMPANHA
DOS AZULEJOS FOI
UMA DAS INICIATIVAS MAIS CURIOSAS
DO ANTIGO ESTÁDIO
DA LUZ.
A maioria dos benfiquistas estava de
acordo: o Estádio
da Luz precisava
urgentemente de ter iluminação noturna! Deste
modo, os adeptos uniram-
-se para darem o seu contributo nas várias campanhas de angariações de
fundos para a construção
das torres de iluminação.
As obras de construção já decorriam havia
perto de 5 meses
quando, em maio de
1958, foi anunciada
“mais uma grande iniciativa da Comissão Central”, na qual os benfiquistas podiam deixar
permanentemente a sua
marca nas torres. Como
estava prevista a colocação de
azulejos, quem tivesse interesse
teria a oportunidade de “perpetuar o seu nome nesta grande
obra do Clube”, podendo “inscrevê-lo num desses azulejos, apenas pela módica quantia de
50$00”. Conhecida como campanha dos azulejos, não ficaria circunscrita a este ano, sendo retomada mesmo após a inauguração das torres de iluminação, a 9
de junho de 1958.
Com um significativo número
de participantes, a materialização desta campanha teve início
em 1963, com a colocação dos primeiros painéis de azulejos nas
torres de iluminação. A razão
pela qual não seriam
colocados individualmente era que “o custo
de um painel completo é
menos elevado do que
mandar-se executar azulejos em separado”.
Para além das razões
estéticas e emotivas,
graças ao apoio dos
sócios, a Comissão Central também relembrava
as vantagens de se forrar as torres de iluminação com azulejos:
sendo uma iniciativa que
permitia a “todos os benfiquistas perpetuarem o
seu amor ao clube”, esta
era também conveniente
pois a torre “ainda fica
mais bem defendida das
intempéries. O útil e o
agradável, portanto”.
Passados 40 anos,
quando chegou o momento do antigo Estádio da Luz
dar lugar ao novo, as torres de iluminação ainda
tinham nas suas paredes
inúmeros azulejos com os
nomes dos benfiquistas,
com o mote “Campanha
dos Azulejos: ‘Inscreva os
seus nomes nas torres’”.
Saiba mais sobre as torres de
iluminação e o antigo Estádio da
Luz na área 17 – Chão Sagrado,
do Museu Benfica – Cosme
Damião."
Lídia Jorge, in O Benfica
Sem dramas
"Numa final da Taça de Portugal
entre o velho rival Sporting (no
papel de Golias) e o simpático
Torreense da II Liga (no papel
de David), um coração benfiquista nunca teria dúvidas
sobre para que lado desejar
que pendesse a vitória. Foi
engraçado ver a equipa teoricamente mais fraca erguer o troféu pela primeira vez no seu
historial, foi uma pequena
recompensa para uma cidade
que tanto sofreu com as cheias
de Inverno e, noutro plano, fez-se também alguma justiça face
a um clube que teve relevantes
ajudas da arbitragem, quer
para chegar a esta final, quer
para chegar à final de há dois
anos, quer para vencer a da
época passada.
Este surpreendente desfecho
teve, porém, o condão de dificultar a vida do Benfica, nomeadamente na preparação da próxima temporada – obrigando
agora a três pré-eliminatórias
para atingir a fase regular da
Liga Europa.
É um problema. Não é um
drama.
O último jogo oficial da nossa
equipa ocorreu no dia 16 de
Maio. As eliminatórias começam a disputar-se a 23 de Julho.
Pelo meio há um Mundial. Mas
dos 31 atletas utilizados no último Campeonato, apenas 9
estão convocados para as suas
selecções – sendo que um deles
já não voltará à Luz.
É importante sublinhar também
que a Liga Europa não é a
Champions. Nem quanto ao
nível dos potenciais adversários, nem, sobretudo, nas consequências (desportivas e
financeiras) de um eventual não
apuramento. A grande prioridade do Benfica para 2026/27 é a
conquista do 39.º, e nenhum
objectivo acessório deve desviar o Clube dessa rota.
Não me chocava que estas eliminatórias fossem utilizadas
como elementos de preparação
para que, a 9 de Agosto, então
sim, a equipa estivesse a top.
Sem acesso aos milhões da
Champions, a frente externa
torna-se de algum modo secundária. Se correr bem, tanto
melhor. O Campeonato, esse,
tem mesmo de correr bem."
Luís Fialho, in O Benfica
O Benfica faz Bem!
"E não é de agora: ainda não
havia República, em 1904, e já
um punhado de portugueses se
juntava em torno de um ideal
desportivo para promover o
bem-estar coletivo e, no fim de
contas, o progresso do país, que
passava por uma crise económica, social e moral sem precedentes. Depois foi jogar futebol,
muito e bom futebol, e abrir
mais e mais equipas de todas as
modalidades possíveis em todas
as idades e escalões, de maneira a fazer do Clube uma plataforma agregadora de todos
quantos partilham os valores do
desporto e compreendem a
importância da prática desportiva, do coletivismo e de um estilo
de vida saudável.
Não eram estas as palavras que
se usavam na altura, mas foram
sempre estes os valores e os
reais motivos da ação benfiquista dentro e fora dos campos.
Não é, pois, de estranhar que, de
cada vez que se revela necessário, o Benfica se mobilize e contribua para as causas sociais e
para a cidadania, com a educação e a ética à cabeça das prioridades. E isto acontece não
apenas com o futebol, cuja
maior popularidade é indiscutível, mas também com modalidades de adesão crescente,
como é o caso do futsal, que
também já mobiliza multidões.
Os atletas, todos os atletas do
Benfica, sabem bem da importância das suas atitudes e das
suas palavras, como exemplo
para as várias camadas da
população e, muito particularmente, para os jovens. São, portanto, aliados naturais do trabalho da Fundação e um recurso
precioso que o Clube coloca à
disposição da sociedade em
geral para promover a sua
melhoria contínua, a coesão e a
justiça social.
É isso mesmo que se faz em
todos os projetos desenvolvidos
pela Fundação, em nome da
solidariedade benfiquista, mas é
vincado de uma forma muito
especial no projeto cuja designação, no fundo, diz tudo: o Benfica faz bem…
E faz mesmo!"
Jorge Miranda, in O Benfica
terça-feira, 2 de junho de 2026
Indiscutível...
Os relatórios das arbitras e as versões dos delegados ao jogo confirmam o que se passou no pavilhão do Nun'Álvares, no sábado à noite. As jogadoras de futsal do Benfica foram injuriadas, insultadas e provocadas por pessoas ligadas ao clube local. Está tudo escrito. 👇 pic.twitter.com/8jgzqsQzGC
— Polvo das Antas - Em Defesa do SL Benfica (@moluscodasantas) June 1, 2026
Aprender com o Arsenal e o PSG
"Numa final, só pode haver um vencedor, e o sucesso sorriu, dos onze metros, aos parisienses. Mas tanto a equipa do Parque dos Príncipes quanto os ‘gunners’ não chegaram a Budapeste por acaso. Adotaram princípios corretos (e o dinheiro nada tem a ver com isso), que podem e devem servir de modelo aos clubes portugueses…
Quando o Sporting está em mutação acelerada, o Benfica continua mergulhado na indefinição e o FC Porto apostou na evolução na continuidade, valerá a pena refletir um pouco sobre a final da Liga dos Campeões disputada no último sábado em Budapeste, e na política dos clubes envolvidos na disputa pela ‘Orelhuda’.
Comecemos pelo Paris Saint-Germain, atual bicampeão europeu: desde 2011, quando a QSI, agora acionista de referência do SC Braga, e com ligações diretas ao Governo do Catar, comprou o clube, os parisienses passaram 13 anos a tentar resolver problemas e ganhar relevância europeia colocando dinheiro em cima dos problemas, esperando assim comprar o êxito desportivo. Demoraram 13 anos a perceber que, por mais Messis, Neymares e Mbapées que tivessem, pagos a peso de ouro, não passavam da cepa torta, sendo apenas Gullivers em Lilliput, quer dizer, no campeonato francês. A relevância do PSG surgiu apenas quando percebeu, muito por influência do homem-forte do seu futebol, o português Luís Campos, que não são os jogadores que ganham as competições, mas sim a equipas. Foi com jogadores que colocam o coletivo acima do ego que a glória sorriu à equipa do Parque dos Príncipes, deixando para trás a guerra de egos e a prevalência dos umbigos de anos anteriores. Quer isto dizer que, no futebol moderno, em qualquer equipa de clube ou seleção, ou correm todos, para trás e para a frente, ou nada feito. Acabou, ao mais alto nível, o tempo das ‘vacas sagradas’, e devemos estar gratos a Luís Enrique e ao PSG por terem tornado esta verdade tão cristalina.
Passemos agora ao Arsenal que, depois dos anos de Arsène Wenger, que ganhou títulos e a seguir viveu dos rendimentos (esteve 22 , eépocas no clube), passou por um período de dúvidas, coincidente com o período de Unai Emery, que nada de bom lhe trouxe. Foi então que, em 2019, os ‘gunners’ decidiram apostar em Mikel Arteta, adjunto de Pep Guardiola no City. Desta feita, ao contrário do que tinham feio com Emery, deram tempo a Arteta, que, sete anos depois, devolveu o histórico emblema londrino à condição de campeão nacional e só perdeu a final da Champions da marca dos onze metros. Num contexto em que toda a gente tem pressa, valeu a pena ao Arsenal manter a cabeça fria mostrar que sabia o que queria e com quem queria. Acabou por realizar a melhor época da sua história.
Juntemos, agora, os ingredientes destes dois percursos, de PSG e Arsenal, para concluirmos que, no futebol, ninguém ganha nada sozinho, por mais Messi, Mbapée ou Neymar que seja, e quem quiser subordinar os interesses coletivos aos desejos individuais está fadado ao insucesso. Mas há mais: o Arsenal mostrou que tinha um rumo, e não lhe faltou convicção para mantê-lo. Depois de alguns insucessos e desilusões, acabou por conhecer uma época de glória interna, tendo ficado a onze metros de ser campeão europeu.
Querem uma fórmula de sucesso para o futebol, onde tudo é demasiado volátil? Esqueçam os nomes e construam equipas. E deem tempo àqueles em quem apostaram. Porque se não souberem o que querem nunca hão de chegar a lado nenhum. Para quem navega sem rumo nenhum vento é favorável.
CAPA
O ‘Monumental’ é a nova casa de Otamendi
Depois de uma passagem pela Europa – FC Porto, Valência, Manchester City e Benfica – onde conquistou 18 títulos, Nico Otamendi regressou à Argentina para ser sucessor, no River Plate, de dois ‘xerifes’ à sua imagem, Roberto Perfumo e Daniel Passarela. Campeão do Mundo e vencedor de duas Copas América pela ‘albiceleste’, a camisola de ‘Los Millonarios’ assenta-lhe bem para fim de carreira.
FOTOLEGENDA
Hugo Viana
A época 2026/27 vai ser particularmente significativa para Hugo Viana, diretor-desportivo do Manchester City, porque só a partir de agora vai terminar o seu ciclo de influência no Sporting e notar-se a sua impressão digital nos ‘citizens’, onde a intervenção de Txiki Begiristain se desvanece, ao mesmo tempo que a marca de Bernardo Palmeiro surgirá mais nítida no Sporting. O antigo médio-esquerdo dos leões está ligado a dois momentos importantes na vida destes clubes, o primeiro, da sua lavra, a contratação Ruben Amorim, e o segundo, por vontade do técnico, o adeus a Guardiola. Novos desafios em Alvalade e no Etihad.
CARTAS
ÁS
Afonso Eulálio
Quando ainda se lamentava a ausência de João Almeida do Giro, onde iria desafiar Jonas Vingegaard, eis que surgiu Afonso Eulálio, primeiro de rosa, depois de branco, mas sempre excelente, a deixar a sua marca, e muitas promessas, na alta roda do ciclismo.
ÁS
Vitinha
O internacional português foi considerado pela UEFA ‘Homem do Jogo’ na final da Champions, o que o deixa em boa posição para ganhar a Bola de Ouro de 2026, onde o Mundial terá muito peso. Parabéns também a Nuno Mendes, João Neves, Gonçalo Ramos e Luís Campos.
ÁS
André Candeias
O avançado algarvio ,de 23 anos, que vai na 15.ª época no Farense, marcou, no estádio de São Luís, ao Belenenses, o golo que haveria de valer à sua equipa a permanência nas competições profissionais. Parabéns ao Farense e, para os azuis do Restelo, o seu dia chegará.
"
Benfica, PSG e Cristiano Ronaldo: continuemos a falar de liderança
"Na Luz prefere-se o vazio a partilhar poder. Rui Costa recusa entregar a autonomia que poderia ajudar o clube. E, enquanto Paris ensina mais que futebol, Ronaldo falha no papel de capitão
Quando se negoceia com um treinador a norma é que se perceba rapidamente se as pretensões deste estão ao alcance (ou perto) do clube. Não acredito que, em todos estes dias que se tem falado de Marco Silva como sucessor de Mourinho, Rui Costa não tenha percebido o quão longe estava do técnico desejado e o quão irredutível este também se apresentava nas condições pedidas. Concluo assim que o que o afasta da Luz é a autonomia que querem ou não conceder-lhe. Um maior controlo sobre a massa crítica ao seu dispor, ou seja, a palavra definitiva na entrada e saída de jogadores.
Rui Costa, que enquanto administrador e, depois, presidente, se mostrou pouco competente no assunto, não quererá perder o poder sobre o futebol. E as vistas curtas manifestam-se desde logo ao ponto de nem perceber que isso poderia devolver à equipa uma superior qualidade na decisão e, eventualmente, melhores resultados. O presidente estará a recusar precisamente aquilo que poderia ser a sua salvação. Já o seria com Amorim e acredito que Marco Silva também tenha, pelo menos, essa capacidade de ser o manager que preenche aqueles vazios que esta direção não consegue ocupar.
Podem argumentar que ambas as situações são legítimas, porém diria que a falta de provas dadas funcionará sempre contra Rui Costa. É incrível como, mais uma vez, entre o assumir o próprio destino ou deixar ver o que dá, escolheu não fazer nada. Vamos ouvir que a sua capacidade de negociação foi tão boa que conseguiu metade da verba de entrada na Champions sem fazer nada. Mas as contas far-se-ão no fim. E no fim chegará a resposta à questão que todos agora devem fazer: a que custo? O silêncio tenebroso que acompanha Rui Costa, à exceção das pancadas no padel, sem vir a público, mesmo no ambiente protegido da BTV, diz muito da sua (falta de) liderança. Mesmo que só se esperassem frases-feitas e as promessas de melhoria como resposta a mais uma temporada horrível.
Na Luz, até se podia levantar os olhos da negritude que resulta do esconde-esconde e das janelas fechadas, e se encontrar o exemplo de liderança na era que o PSG está a escrever. Tudo o que o futebol devia ser é-o na relação entre Luis Enrique, Campos e Vitinha e companhia.
E, por falar em líderes, Cristiano, talvez ainda nas nuvens com o seu título saudita, esqueceu-se da conquista dos companheiros de Seleção, a dias do Mundial. Um capitão continua a não ser isto. Não deveria."
Atividade do fim de semana
"O essencial da vida benfiquista nos últimos dias.
1. Contributos internacionais
Foram vários os jogadores do Benfica em ação por seleções nacionais nos últimos dias.
2. Final igualada
A equipa feminina de futsal do Benfica ganhou, por 1-4 no reduto do Nun'Álvares, o jogo 2 da final dos play-offs do Campeonato Nacional.
3. Em vantagem
Em hóquei em patins, no masculino, o Benfica está na frente das meias-finais dos play-offs com o OC Barcelos por 2-0. Na segunda partida, vitória benfiquista, por 4-5, após prolongamento. No feminino, triunfo das águias, por 4-2, ante a Sanjoanense na partida inaugural das meias-finais do Campeonato.
Em futsal no masculino, o Benfica ganhou por 0-4 ao Leões de Porto Salvo no primeiro encontro das meias-finais dos play-offs.
4. Outros resultados
Em andebol no feminino, vitória do Benfica, por 18-31, no reduto do Gil Eanes. No futebol de formação, os Juvenis bateram o Alverca, por 3-0, e os Iniciados superiorizaram-se ao Sporting por 3-1.
5. Título na formação
Em futsal no feminino, as Sub-19 do Benfica são pentacampeãs nacionais.
6. No topo
Vasco Vilaça venceu a etapa de Alghero (Itália) e comanda o ranking mundial do World Triathlon Championship Series.
7. Bons desempenhos
Vários atletas do Benfica em destaque.
8. Dia olímpico
O protagonista do 3.º episódio desta série da BTV é o nadador Miguel Nascimento.
9. Análise de um título
Em foco o Campeonato Nacional de Juniores B1 de voleibol conquistado pelo Benfica.
10. Benfica Basketball Camp
As inscrições estão abertas.
11. Concerto de balneário
Organizado pela Benfica FM, o concerto de Badoxa presenciado pelos campeões nacionais de râguebi.
12. As Marias
Foi apresentado o livro "As Marias do Benfica – Uma bolada no charco" sobre o notável percurso, durante uma década, da equipa feminina de voleibol benfiquista.
13. Casas Benfica Barcelos e Quarteira
Estas embaixadas do benfiquismo celebraram os respetivos 25.º e 16.º aniversários."
Toma Vitinha, é tua a bola que o João roubou
"Eu me confesso, tinha esta newsletter fisgada para dedicar por inteiro a Vitinha. Reparem: na era dos matulões de estampa no futebol em que pelo jargão dentro entram termos como a “dimensão física” ou a “fisicalidade”, o Paris Saint-Germain ganhou a segunda final seguida da Liga dos Campeões dando a bola, dizendo-lhe “toma, é tua, pensa-a tu”, ao tipo fininho de membros, baixinho em altura, de fraca figura à vista desarmada que tem no coração do meio-campo. Trata-se de uma divergência ambulante, o Vitinha, a quem cometeram o desplante de o batizar com um diminutivo de modo a que o que ele joga, além de extraordinário, ser irónico.
E condigno por reforçar a contradição.
Vitinha joga muitíssimo, uma barbaridade, afinal deram-lhe um pequeno troféu arredondado em forma daquilo que não lhe sai dos pés, feito das estrelas prateadas e iconográficas da Champions, que distingue o melhor jogador da final onde ele, o pequenote irrequieto, lá esteve a pedir a bola sem descanso, a querê-la por defeito que é feitio mesmo perante o antídoto do Arsenal que também foi buscar à ironia um dos seus ingredientes: para tentarem anular a influência do português, os ingleses não o pressionaram além do mínimo exigível quando tinha a bola.
Seria de rir não fosse de gabar. Trocado por miúdos, o Arsenal pôs um jogador na frente de Vitinha perto o suficiente para ele não se sentir à vontade mas longe o quanto baste de maneira a não ser atraído à sua beira e abrir um espaço atrás para o passe entrar.
Outra costela de ironia: tentar diminuir o alcance do jogador conhecido pelo seu diminutivo, que ditador de jogo é se a bola estiver na sua companhia, deixando-o tê-la, preferindo antes tapar as hipóteses de o português a passar a alguém que estivesse numa posição vantajosa. É mau que ele tenha a bola, pior fica se a conseguir passar, eis a lógica. Resultou até deixar de resultar, o PSG deu a volta à estratégia, Vitinha rodeado está de craques, imerso numa equipa fluída que mesmo sem a dinâmica do costume lá se desemaranhou do bloco compacto do Arsenal, por demais defensivo e aborrecido.
Quando o fez em modo cruzeiro, a partir da segunda parte, teve outro português, um mais discreto, no cerne de tudo. Se nos rendermos ao engodo do holofote e atentarmos só ao que o foco ilumina tendemos a não ver o que está literalmente ao lado, e é o caso de João Neves. Quando as cãibras queimaram os músculos de Ousmane Dembélé, o Bola de Ouro que continuamos por descobrir com que pé prefere chutar, do capitão Marquinhos e de Vitinha, tirando-os da partida, prevaleceu em Budapeste a fibra do discreto ladrão de bolas, igualmente pequenino como o conterrâneo do meio-campo, igualmente gigante no quanto joga.
Em João Neves não há cortes de cabelo desbastados ou aparados antes do jogo como é costume nos futebolistas dados a cuidarem da imagem, que fazem de barbeiros convidados de honra dentro dos estágios das equipas. João jogou com a guedelha com que acordou naquele dia, discreto nas funções e simples nas ações durante 120 minutos, uma formiga operária que engana: trabalha tanto, estando tantas vezes no sítio certo, que o seu lado gregário distrai da delicadeza do seu jogo.
Era impossível ignorar o português que joga com a ponta da língua encostada à bochecha a favor do que estica o dedo indicador da mão direita quando se entretém com a bola, cada um com o seu tique. Vitinha ser o tipo que mais passes e toques na bola deu na final da Champions entende-se por João Neves ter sido quem mais vezes roubou a bola, ganhou duelos (no ar) e sofreu faltas na sua equipa. As valias de um ligam às do outro, os seus trejeitos futebolísticos são umbilicais. Não há o Vítor de Santo Tirso, filho de pai jogador, sem o João de Tavira, cuja primeira experiência no desporto veio do andebol.
Outra ironia: como pôde um rapaz baixote, com os pés atolados em jeito, começar por fazer uso das mãos para se recriar com uma bola?
Faço eu ideia, mistério da vida, desta em que hoje o maior dos organizadores de jogo no futebol é Vitinha, exímio a dar um passe mas sem ser só isso, já não como Andrea Pirlo, Sergi Busquets ou Toni Kroos, últimos da geração onde receber para um lado e fingir com o corpo para o outro era o refogado do seu estilo; vergavam jogos à sua vontade usando os engodos da tanta técnica que tinham. Vitinha também, mas corre, farta-se de correr, o golo que marcou não nesta, na anterior final da Champions, é prova disso.
Ele tem algo de irónico assim como João Neves. Já que muito dado a comparações se assume o futebol, ele é uma espécie de sucessor de N’Golo Kanté. O francês era, ainda vai sendo, um destruidor de jogo omnipresente, incansável a cobrir todo o campo; o português encarna essas qualidades, acrescentando bastantes camadas: não se limita a correr, perseguir, disputar duelos, roubar ou desfazer o jogo dos adversários; também joga bastante no resto, excecional no controlo de bola, tentacular a guardá-la, movido por uma cabecinha pensadora com os neurónios em sintonia com os de Vitinha.
Seria ironia suprema que Roberto Martínez, elogiador em entrevista à Tribuna Expresso da “química natural” entre os jogadores, acendedor da brasa que esquenta a sua sardinha gabarola ao lembrar ocasionalmente ter sido quem os juntou pela primeira vez na mesma equipa, não aproveitasse esta telepatia na seleção nacional. Vitinha pensa a bola, João Neves vai buscá-la. Tenho para mim que separá-los deveria ser pecado futebolístico pelo que se vê quando jogam juntos.
Eu não os vejo nos treinos, mas não dá para ver como não dedicar o jogo de Portugal no Mundial aos dois que fazem mexer o melhor meio-campo do futebol europeu. Pode ser que seja por ter visto a final da Champions em Tavira, terra do menos badalado dos médios, atravessada pelo Rio Gilão que rima com João. Ou por ter olhos na cara."
Creaking Cristiano Ronaldo’s presence at World Cup is more a curse than a blessing
"Veterans such as Messi and Modric are much in evidence at the finals, but an obsession with celebrity may undermine Portugal
It turns out that 2022 wasn’t Lionel Messi’s last dance after all. He will turn 39 during the World Cup, but despite concerns over the “muscular overload” that led to him limping out of Inter Miami’s 6-4 win over Philadelphia Union on Sunday, he remains the figure on whom Argentinian hopes rely.
Messi won’t be the only veteran in Canada, the US and Mexico: Cristiano Ronaldo, aged 41, will also be there – inevitably, given how his career and Messi’s seem inextricably bound. So will Luka Modric and Edin Dzeko, plus the goalkeepers Manuel Neuer, Craig Gordon, Guillermo Ochoa and Vozinha, all of whom are 40. And there is one 39-year-old other than Messi: the Japan defender Yuto Nagatomo.
That is seven players aged 40 or older, a remarkable number given that only seven players have previously played at the World Cup having reached that age. The oldest was Essam El Hadary, who played in goal at the age of 45 years and 161 days when Egypt lost to Saudi Arabia in 2018. Both countries were already out and there were some qualms that he had been picked out of sentiment, a tribute to one of the undoubted greats of the Egyptian game, but he saved a penalty and performed well enough to justify selection.
Goalkeepers, not surprisingly, make up the majority of the previous seven. Faryd Mondragón, aged 43 years and 3 days, came on with five minutes remaining in Colombia’s 4-1 win over Japan in 2014. In his case, there was no doubt he was being introduced purely so he could become the oldest player at a World Cup.
There was no such favouritism, though, being shown to Pat Jennings in 1986, Peter Shilton in 1990 or Tunisia’s Ali Boumnijel in 2006, and certainly not to Dino Zoff when he captained Italy to World Cup victory in 1982. He had been heavily criticised after the 1978 tournament, but his late save, plunging on to an Oscar header, was just as vital in the 3-2 win against Brazil as any of Paolo Rossi’s three goals.
The exception is Roger Milla who, after coming out of retirement to inspire Cameroon in 1990, returned in 1994, aged 42, to become the oldest outfielder at a World Cup. He came off the bench against Brazil and Russia, scoring in the latter game, although his side were already 3-0 down and went on to lose 6-1.
But whatever the details, the comparison is striking: there could be more players over the age of 40 at this World Cup than in the 22 previous tournaments put together. In part, that is perhaps because of the expansion of the tournament. Vozinha is a regular for Cape Verde – he’s certainly not going for sentimental reasons – but would his team have qualified for a 32-team World Cup?
And would a team ranked higher than 69th in the Fifa standings be going to the World Cup with a goalkeeper who plays for Chaves in the Portuguese second division?
And in part it’s because sports science has improved. Injuries that once would have ended a career can be overcome. Nutrition is far better. Footballers no longer sink double digits of pints every time they get a day off. Understanding of recovery, stretching, prehab and rehab have all improved. While the 500-game rule still seems to hit some players, others are going on for longer. To take just two examples, James Milner, born 1986, and Robert Lewandowski, born 1988, have only recently begun to show signs of wear.
Modric and Dzeko are diminished by age, but they are, fairly clearly, the best Croatia and Bosnia and Herzegovina have to offer in their respective roles. Messi’s case is more questionable – however dangerous he looks in MLS, he is evidently not capable of operating at the highest level in Europe.
But it would be hard to say with any great certainty that Argentina would be better off had he been phased out. It remains just about conceivable, given the nature of international football, that Julian Álvarez and Messi’s clubmate Rodrigo De Paul can again do his running for him and that Messi’s capacity to produce a defence-splitting pass or other moments of inspiration will make it worth the sacrifice.
But Ronaldo is not the player he was. He is not even the player he became after he ceased to be the player he was. He lumbers about in an increasingly small sphere of influence, still decent in the air, still a good finisher, but barely able to move, lacking the explosive power that once made him great. He has won the Saudi Pro League this season, but that is less an endorsement of him than an indictment of the league.
Even at the last World Cup he seemed like a burden. When he was left out for Gonçalo Ramos against Switzerland, Portugal found renewed pace and verve and scored six, Ramos getting three of them. Yet still fans in the stadium called for Ronaldo, the biggest cheers coming as he came off the bench and then marked an obviously offside goal that was swiftly disallowed with his trademark celebration; a part of modern football is obsessed by personality and spectacle.
The danger is that Ronaldo’s presence could mean that a potentially brilliant generation of Portuguese creators is never truly unleashed. That is the irony of the suspension for his red card against Ireland being commuted; it may represent a preposterous injustice as Fifa ensures the biggest names are on the field as much as possible, but it will probably end up hampering Portugal.
There is no doubt Ronaldo is in incredible shape – for a 41-year-old. Nor is it wrong to point out that, Ronaldo aside, Portugal have not produced a world-class centre-forward since Eusébio. But there comes a point at which his immobility makes him an albatross and any halfway competent forward who can move is a better option.
The continued presence of familiar faces may be testament to how much better players are at looking after themselves than they used to be, but, in at least one case, it is also evidence of the modern world’s obsession with celebrity."
Afonso Eulálio, o improvável
"Já se aguarda, com ansiedade e também com expectativa, o que se seguirá. A afirmação está feita, mas a responsabilidade, Eulálio sabe-o, aumentou
O Giro de Itália descobriu um talentoso e carismático corredor jovem português e apaixonou-se por ele, pela coragem, superação e ambição. E o sorriso maroto. Não foi apenas a camisola branca, nem o sexto lugar final, nem os nove dias de rosa que impressionaram. Foi a forma como tudo aconteceu. O sorriso quando as pernas ardiam. A leveza quando a pressão apertava. A naturalidade diante das câmaras num desporto em que tantos aprendem a esconder emoções.
Afonso Eulálio apareceu como uma lufada de ar fresco num Giro dominado por Jonas Vingegaard. Sorriu no Passo Giau quando os outros sofriam em silêncio. Atacou quando muitos se limitavam a gerir. E conquistou adeptos muito para lá das fronteiras portuguesas. Dentro destas, muitos ainda não tinham sequer ouvido tal nome.
Talvez porque a história do corredor figueirense seja também a vitória da improbabilidade.
Não estamos a falar de um produto fabricado nas grandes academias do ciclismo europeu. Estamos a falar de um jovem que chegou tarde à estrada, descoberto através de uma pesquisa na internet por um dirigente que acreditou que aqueles resultados no BTT escondiam qualquer coisa mais. Estamos a falar de um corredor que teve de aprender quase tudo já na idade de júnior, quando muitos dos seus rivais acumulavam anos de experiência em pelotão.
E talvez por isso conserve uma autenticidade rara.
O percurso de Eulálio é também uma vitória do ciclismo português. Da passagem súbita do pelotão nacional para o WorldTour, da Volta a Portugal ao Giro de Itália, provou-se que ainda existem atalhos para o talento.
O mais interessante é que este Giro pode nem sequer representar o auge da carreira de Eulálio. Pelo contrário. Parece antes o início de qualquer coisa maior.
Quando José Poeira diz que, no Mundial do Ruanda, percebeu que Eulálio já não era apenas um jovem ao serviço da equipa, mas um corredor capaz de ambicionar mais, está provavelmente a resumir aquilo que todo o ciclismo percebeu nestas três semanas italianas.
Portugal já tinha um grande nome para as classificações gerais, João Almeida, agora pode ter dois. Mas, para já, o mais importante nem é o resultado. É a sensação. A sensação de que apareceu mais um corredor português capaz de ganhar corridas. E ao mesmo tempo conquistar a empatia e a admiração.
Num desporto que tantas vezes se perde em números, watts e algoritmos, Afonso Eulálio lembrou-nos que o ciclismo continua a ser feito de histórias. E a dele está apenas a começar.
«Foi um sonho viver tudo isto», é a frase que expressa a descoberta da glória no Giro por Afonso e a descoberta de Afonso pela grande Volta italiana. Pelo ciclismo mundial… e pelos portugueses.
Já se aguarda, com ansiedade, mas também com expectativa, o que se seguirá na carreira do corredor de 24 anos. Ainda esta temporada e nas vindouras. A afirmação está concretizada, mas a responsabilidade, Eulálio certamente sabe-o, aumentou. Os olhos do ciclismo mundial vão estar postos nele nos próximos tempos. A confiança que a equipa lhe confere redobra na mesma grandeza dos objetivos futuros. Afonso Eulálio não é um voltista tão completo como João Almeida, nem um portento de força em corridas de um dia como António Morgado. Apesar deste brilharete, vai continuar a procurar espaço e oportunidades."
COI, Kirsty Coventry e a mudança: milhares de milhões em receitas, mas qual o legado para os atletas?
"Costumo dizer que a mudança é a única constante do mundo em que vivemos. Quem não aceita ou não abraça a mudança, quem continua a fazer as coisas da mesma forma esperando resultados diferentes, quem não se prepara nem prepara os outros para a velocidade com que o mundo evolui, quem não arrisca, acaba inevitavelmente por ficar para trás.
Vem isto a propósito das recentes declarações da Presidente do Comité Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, quando afirmou que continua a não defender o pagamento aos atletas pela participação nos Jogos Olímpicos, acrescentando que existem outras formas de os apoiar apontando o seu caso pessoal como exemplo, esquecendo as enormes benesses em dinheiro, que o seu País de origem lhe concedeu enquanto atleta.
As declarações geraram debate. Mas, mais importante do que discutir a frase em si, é discutir aquilo que ela deixa por dizer.
Importa, desde logo, não confundir dois temas distintos. O primeiro é o reconhecimento e compensação dos atletas durante a sua carreira desportiva. Podemos discutir se os apoios existentes são suficientes, se deviam ser maiores ou menores, quais os critérios mais justos e como se comparam com os modelos do desporto profissional. Mas estas medidas são, por natureza, transitórias. Têm um princípio e um fim e esgotam-se normalmente quando termina a carreira competitiva.
O segundo tema, muito mais relevante e frequentemente ignorado, é o que acontece depois. A evidência científica disponível aponta para uma realidade consistente: entre 30% e 50% dos atletas de elite e olímpicos reportam dificuldades significativas na transição para o pós-carreira. Entre 10% e 20% apresentam sintomas relevantes de ansiedade, depressão ou sofrimento psicológico após o abandono da competição.
Ao mesmo tempo, os estudos demonstram que os atletas que conseguem desenvolver uma dupla carreira, combinando desporto, formação académica e preparação profissional, apresentam uma adaptação muito mais bem-sucedida à vida após o desporto.
Os números ajudam ainda a enquadrar outra realidade frequentemente esquecida. Em estudos realizados com atletas de alto rendimento, cerca de 26,5% declararam rendimentos anuais inferiores a 15.000 dólares durante a carreira desportiva, enquanto aproximadamente metade afirmou não receber qualquer compensação direta pela participação olímpica.
Perante estes dados, talvez a pergunta mais importante não seja se os atletas devem ou não ser pagos durante os Jogos Olímpicos; talvez a pergunta certa seja: o que acontece aos atletas quando os aplausos terminam?
Porque a verdade é simples: a esmagadora maioria dos olímpicos passará muito mais tempo como ex-atleta do que como atleta, e é precisamente por isso que o debate precisa de mudar.
Importa também colocar esta discussão na sua verdadeira dimensão financeira. O Comité Olímpico Internacional é hoje uma das organizações desportivas mais poderosas e financeiramente sólidas do mundo. No ciclo olímpico 2021-2024, as receitas ultrapassaram os 7,7 mil milhões de dólares, provenientes sobretudo dos direitos de transmissão televisiva e dos programas globais de patrocínio. 74% deste valor foi alocado ao desporto e muito do restante montante foi para alimentar salários chorudos dos Diretores e despesas de staff.
Mais impressionante ainda é o facto de o próprio IOC já ter assegurado cerca de 7,3 mil milhões de dólares em receitas contratualizadas para o ciclo 2025-2028, tendo igualmente garantidos mais de 6 mil milhões de dólares para o ciclo seguinte, demonstrando uma capacidade de geração de receitas e uma previsibilidade financeira raramente vista no panorama desportivo mundial.
Mesmo em anos sem Jogos Olímpicos, o COI continua a movimentar centenas de milhões de dólares. Em 2025, por exemplo, registou receitas próximas dos 650 milhões de dólares e ativos superiores a 6,9 mil milhões de dólares.
Perante estes números, torna-se difícil defender que os desafios relacionados com a transição de carreira, empregabilidade, saúde mental ou qualificação profissional dos atletas resultam de falta de recursos financeiros. A questão passa a ser outra: quais são as prioridades?
Porque se o Movimento Olímpico consegue mobilizar milhares de milhões de dólares em cada ciclo, então também tem capacidade para construir soluções estruturais para aqueles que constituem a sua verdadeira razão de existir, e essas soluções existem.
Passam por programas obrigatórios de preparação para o pós-carreira ainda durante o percurso competitivo. Passam por modelos de dupla carreira verdadeiramente integrados entre federações, universidades e empresas. Passam por programas globais de mentoring entre atletas ativos e antigos atletas. Passam por apoio psicológico estruturado durante os anos mais críticos da transição. Mas, se eventualmente o COI diz que tudo isto já existe, então o desafio passa pela responsabilização dos intervenientes e, sobretudo, pela criação de métricas de acompanhamento do pós-carreira que permitam medir taxas de emprego, níveis de rendimento, qualidade de vida e integração social dos ex-atletas.
Mas talvez exista uma solução ainda mais transformadora, ainda que mais desconfortável para o próprio sistema: o fortalecimento de uma associação mundial de atletas verdadeiramente independente, sustentável e representativa.
A World Olympians Association tem potencial para desempenhar esse papel. Mas, para tal, precisa de se libertar definitivamente das amarras institucionais que ao longo dos anos limitaram a sua capacidade de intervenção e afirmação.
Uma organização de atletas não pode depender exclusivamente daqueles que também deve questionar, sob o risco de se anular e de perverter a sua vocação na defesa dos atletas (ainda não ouvimos o que a WOA pensa sobre o assunto, um silêncio perturbador).
Uma organização de atletas deve ter voz própria, estratégia própria e sustentabilidade financeira própria. E essa sustentabilidade pode ser construída através de uma proposta de valor diferenciadora para a sociedade e para as empresas.
Durante demasiado tempo olhámos para os atletas apenas pelo que fizeram nas pistas, nos campos ou nas piscinas. Mas o verdadeiro valor dos atletas vai muito além das medalhas.
Os atletas olímpicos representam liderança, disciplina, capacidade de superação, gestão da adversidade e trabalho em equipa, competências cada vez mais valorizadas por empresas que procuram combinar desempenho económico com propósito social e impacto positivo.
Num mundo onde as organizações são cada vez mais avaliadas pelas suas métricas ESG e pelos seus compromissos de sustentabilidade, os atletas podem desempenhar um papel relevante na construção de programas de liderança, inclusão, bem-estar, educação e impacto social.
Trata-se de uma oportunidade de benefício mútuo, que já pus em prática com muito sucesso em Portugal. As empresas encontram parceiros credíveis para concretizar os seus objetivos sociais, os atletas encontram oportunidades de integração profissional, desenvolvimento pessoal e valorização das competências adquiridas ao longo da carreira desportiva.
Uma verdadeira solução win-win. Curiosamente, a independência financeira dá voz e capacidade interventiva, mas acarreta também um desafio: o receio institucional e o desconforto que uma voz verdadeiramente autónoma pode gerar no sistema.
O Comité Olímpico Internacional, em vez de ver aqui uma ameaça, tem uma oportunidade única, não para controlar esta evolução, mas para a apoiar; não para falar pelos atletas, mas para criar espaço para que os atletas falem por si próprios e façam o seu caminho.
Isso exigirá, de quem decide, inteligência institucional, visão estratégica e, acima de tudo, coragem. Existem hoje cerca de 100.000 olímpicos vivos em todo o mundo sendo que menos de 10% estão no activo. Representam experiência, conhecimento, diversidade e uma enorme capacidade de influência. Não são um problema para resolver; são uma parte fundamental da solução.
Existem dois obstáculos estruturais que continuam a impedir uma resposta eficaz.
O primeiro é que o sistema olímpico tem sido historicamente liderado por antigos atletas que, ao entrarem no sistema, muitas vezes acabam por se afastar das dificuldades reais que eles próprios viveram, tornando-se parte da manutenção do status quo que anteriormente questionavam.
O segundo é que os atletas têm tido dificuldade em construir uma voz coletiva forte, capaz de defender os seus interesses comuns. A ambição individual, a natureza altamente competitiva do desporto e a falta de solidariedade estruturada têm, demasiadas vezes, impedido uma ação coletiva eficaz.
O primeiro desafio é envolvê-los de forma efetiva na construção do futuro do Movimento Olímpico.
O segundo é explicar aos atletas que hoje estão no ativo que, mais cedo ou mais tarde, o seu momento inevitavelmente chegará. E quando esse dia chegar, quererão seguramente encontrar respostas para questões que hoje ainda parecem distantes.
Porque o verdadeiro legado do Olimpismo não se mede apenas pelas medalhas conquistadas; mede-se pela forma como cuida dos seus atletas durante a carreira, mas sobretudo pela forma como os acompanha depois dela terminar."
Arábia Saudita: Majed Abdullah foi o “Pelé do Deserto” e rei de Riade antes de Cristiano Ronaldo
"O melhor marcador da história da seleção da Arábia Saudita ainda é, também, a maior figura do Al Nassr. Com a camisola amarela, marcou mais de 300 golos e ganhou seis títulos nacionais. Avançado com técnica, faro de golo e capacidade de drible, no Mundial de 1994 os media ocidentais viram nele uma encarnação de Pelé, ainda que ele não se achasse digno de tal comparação.
Tempos houve em que não era Cristiano Ronaldo o nome gritado no estádio do Al Nassr, que não era o português o combustível da paixão do clube de Riade, que acaba de se sagrar campeão saudita. Majed Abdullah não foi campeão do seu país uma, duas ou três vezes: foram seis os títulos e uma vida dedicada ao Al Nassr, de 1977 a 1998, sem passagens rápidas por outros clubes ou enamoramentos pelo estrangeiro.
Ronaldo, sabemos, adora um bom recorde, mas terá de suar as estopinhas e mais umas quantas camisolas do Al Nassr para apanhar aquele a que chamavam “o Pelé do Deserto”. Nas mais de duas décadas vestido de amarelo, Abdullah marcou qualquer coisa como 259 golos, 320 contando com jogos de preparação. O português, cuja produção é indubitavelmente mais rápida, tem 129 remates certeiros, longe daquele que ainda hoje é visto como uma espécie de figura primordial do futebol saudita, dos tempos do romantismo, sem dinheiro de fundos soberanos, petróleo e quejandos.
Dotado de uma técnica crua e de uma capacidade inata de marcar golos, Majed Abdullah, que até nasceu em Jedá, há 67 anos, e não na capital saudita, foi protagonista em momentos históricos e inéditos do futebol do país, como a qualificação para a estreia em Mundiais, em 1994, e nas duas vitórias na Taça da Ásia, em 1984 e 1988. Em 1984, marcou também o único golo dos sauditas nos Jogos Olímpicos de Los Angeles. É, ainda hoje, o melhor marcador da seleção saudita, com 72 golos em 117 jogos.
Captain Majed
A família de Majed Abdullah mudou-se para Riade para acompanhar o pai, treinador de futebol. Majed até começou na baliza, mas a sua relação com as redes não seria de defendê-las, mas sim de abaná-las. Começou no Al Nassr, onde o pai era técnico, assinando o primeiro contrato aos 16 anos, em 1975. Cinco anos mais tarde seria decisivo para o Al Nassr conquistar o seu primeiro campeonato saudita.
Um verdadeiro rei entre portas, Abdullah mantinha e mantém uma pose discreta. Era homem de poucas falas e muitos golos, com uma aura quase mitológica. Reza a lenda que na adaptação árabe da célebre série “Captain Tsubasa” - que por cá, anos depois de passar a versão original japonesa, recebeu o inexplicável nome de “Oliver e Benji” -, a personagem principal recebeu o nome de Majed em homenagem ao avançado.
Numa era onde o futebol ainda batia à porta da verdadeira internacionalização, o ocidente só apreciou verdadeiramente Abdullah quando o avançado, já numa fase avançada da carreira, ajudou a Arábia Saudita a qualificar-se para o Mundial de 1994, nos Estados Unidos. É daí que vem a alcunha “Pelé do Deserto”, dada pela imprensa internacional ao jogador quando notaram a sua capacidade de drible, de encarar os adversários, o golo fácil e a liderança natural.
O atacante não se achava digno de tal apodo. Seria na fase de grupos desse Campeonato do Mundo, frente à Bélgica, que jogaria pela última vez pela sua seleção.
Daí para cá, e com o futebol da Arábia Saudita noutro patamar mediático, Abdullah tornou-se uma figura silenciosa, mas cuja opinião é ouvida e respeitada. Foi alvo de homenagens e até de uma produção teatral biográfica - “The Flaming Arrow” fala da sua relação com o povo e da sua carreira.
A ascensão de Cristiano Ronaldo como figura do Al Nassr não lhe causou mágoa ou despeito, mas apenas palavras de admiração. Quando o português bateu o recorde de mais golos numa só temporada na Arábia Saudita em 2023/24, sublinhou que era “um exemplo a seguir” e que estava feliz pelas conquistas do capitão da seleção nacional: “A idade tem um papel secundário no desempenho de um jogador quando a paixão está presente”, disse, citado pela imprensa local."
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