Últimas indefectivações

terça-feira, 12 de julho de 2016

Ganhar o Euro(milhões) com juros

"Um olhar sobre a conquista da Seleção, com base numa declaração do engenheiro do título

«Sou um crente, sou um homem que acredita em milagres, mas também em que é preciso que alguém faça alguma coisa para que aconteçam. Faz-me lembrar aquela história do homem que se queixava a Deus por nunca ganhar o totoloto, e Ele teve de intervir, dizendo-lhe que seria importante que ele fizesse alguma coisa por isso e que, pelo menos, registasse o boletim.»

A declaração de Fernando Santos, a três dias da conquista do título europeu, ilustra uma campanha em que a felicidade acompanhou o mérito mas não o ocultou. Não há campeões sem brilho, seja a trinta jornadas ou em sete jogos, por mais que a prestação lusa no Euro2016 tenha conciliado momentos sofríveis com apontamentos épicos.
Se na organização defensiva esteve a base da vitória – algo absolutamente legítimo -, em vários jogos a Selecção fez pouco com bola, tanto em ataque organizado como em transição. Sobretudo na fase de grupos, onde a margem de erro era maior, por força de um modelo competitivo que podia desinibir as equipas, mas que funcionou em sentido oposto com a grande maioria (e não apenas com Portugal).
O que estava em discussão não era tanto a estratégia delineada por Fernando Santos desde o primeiro dia, nem tão pouco a percentagem de posse de bola, mas sim a incapacidade revelada pela equipa no momento ofensivo, em várias etapas da competição. E apontar isto (de forma construtiva) é tão razoável quanto o oposto, quando não estamos a falar de uma ciência exacta. Até porque no futebol não se pode olhar apenas para o resultado e ignorar a forma, pois estaríamos a tirar ao jogo um conjunto de emoções para viver e um conjunto de circunstâncias para analisar. Nesse cenário utópico os adeptos ficariam em casa à espera do resultado final para então festejar ou reclamar, e os jornalistas elogiariam quem ganhou e apontariam sempre o dedo a quem perdeu.
Mas nada disto significa que o título tenha sido obra do acaso, até porque esta caminhada teve mais do que as hesitações frente à Islândia, a apatia da primeira parte com a Áustria ou a intranquilidade das contas com a Hungria.
Esta caminhada teve o «bis» de Jordão em Marselha. Teve o míssil de Figo, o cabeceamento inesquecível de João Pinto e a subtileza de Nuno Gomes na épica reviravolta com a Inglaterra. Teve a fezada de Ricardo a defender o penálti sem luvas, antes de bater David James dos onze metros. Teve Ronaldo a bater no peito com um «bis» que deixou a Holanda pelo chão.
Este título é de uma equipa que vai de Bento a Damas. De Vítor Baía a Quim. De Ricardo a Postiga. De Eduardo a Beto. De Rui Patrício a Adrien. De Fernando Cabrita a Fernando Santos, entre tantos outros nomes.
Este título foi conquistado diante da França, e em Paris. Com o melhor jogador remetido ao papel forçado de adjunto, na final, e com o golo da vitória assinado pelo nome mais discutido da convocatória. Este título foi épico, mas também muito merecido. O boletim foi registado e Portugal ganhou o Euro(milhões), com juros de 32 anos.
Que a euforia da conquista não passe a ideia de que esta é a única chave vencedora. E que o prémio seja investido de forma a que o sucesso do futebol português, que se pode medir de muitas formas, seja cada vez mais frequente."

Fernando Santos convenceu um país inteiro a abdicar do seu lado mais belo

"Foi quando desistimos do nosso futebol mais belo que fomos felizes.

Eu estava lá, e ainda é difícil de acreditar.
Escrevo ainda em França, com o eco das buzinas nos ouvidos, a caminho de Portugal. Estou a muitos quilómetros da festa que acredito que ainda se faz por aí, anda de boca em boca nas conversas e nos debates do dia. Não é todos os dias que um país se sagra campeão da Europa. E, para Portugal, esse foi apenas um, o de ontem.
Escrevo ainda a pensar como é que os deuses do futebol deixaram que uma ideia repetida várias vezes sem que tenha tornado verdade se concretizasse por fim. A ideia de que Portugal foi sempre candidato a alguma coisa.
Tivemos gerações fantásticas desde a década de 90 e ficámos sempre aquém. Faltou-nos sempre qualquer coisa. Sofremos com o chapéu de Poborski, e os penáltis de Zidane, o poder de salto de Charisteas, os misseis de Schweinsteiger. Perdemo-nos na pressa de Batta, na irreverência coreana, no crescimento do soccer. Desperdiçámos uma oportunidade única, entrámos em depressão com a nossa própria versão de Maracanazzo, que aparentemente calha a todos.

O contraste com o passado de artistas
Já jogámos muito à bola, enormidades. Fomos classe. Levados no pé direito de Rui Costa, nas arrancadas de Figo, nos ângulos desenhados por Paulo Sousa, nas certezas de Pauleta, nos pequenos monumentos levantados por um Nuno Gomes com uma vontade enorme, nos voos de João Pinto. Tivemos Bento, Baía, Damas. Fernando Couto, Jorge Costa, absorvemos o melhor do melhor entre os melhores Ricardo Carvalho. Vibrámos com Deco. Um Maniche imparável, que marcou um golo que apenas um estádio viu. Se alguém pestanejou… A garra de Conceição, as gincanas de Futre, a esperteza de Rui Barros. E falhámos, uma vez após outra, como sempre.
Fomos os melhores do mundo que jamais ganharam alguma coisa. E aprendemos a viver com isso. Tornou-se natural, normal. Até hoje.
Havia de jurar que ouço daqui os foguetes em Lisboa. A festa ainda em Paris. Sei que existem.
Jogar bem é estar mais perto de ganhar algo. É uma daquelas regras não escritas, mas com que toda a gente concorda. E foi quando menos bem jogámos – não acho que tenha sido nojento, mas andámos longe daquela ideia que nos aproximava do joga-bonito brasileiro – que ganhámos. Quando menos expectativas tínhamos, quanto mais parecíamos incapazes de marcar, de vencer jogos, a equipa portuguesa uniu-se em torno de si mesma e levou o caneco para casa. Com um jogo ganho em 90 minutos, dois no prolongamento e um nos penáltis. E três empates.

Convencer todos os jogadores foi o primeiro grande passo
Tivemos de ser um pouco Grécia e trocar a bola como se não houvesse balizas, à espera do momento certo. Do lado de fora desesperámos por passes de rotura, por um futebol de ataque continuado. Fernando Santos teve de convencer os jogadores que só dava assim: fechadinhos atrás, sem nunca se desequilibrarem, com a obrigação de começarem a aproveitar as oportunidades criadas. Fomos obcecados pelo controlo.
Teve de convencer Nani a aparecer nos espaços perto da baliza, a lutar pelo ar, Renato a não embalar e a sair curto, João Mário a ir muitas vezes sozinho. Quaresma a não sair em dribles e cruzamentos sem critério. André Gomes lutou corpo a corpo. Adrien focou-se primeiro no outro, do lado de lá, do que em si próprio e na bola. Moutinho só passou a aparecer nos momentos finais para aquele passe de morte. Todos eles acreditaram e foram enormes, incansáveis.
Fernando Santos ou o momento, ou ambos, foram responsáveis pela maior transformação de todas: Cristiano Ronaldo começou também a acreditar que era essa a única via. A olhar para o braço e ver lá finalmente a braçadeira. A chamar Moutinho para marcar penáltis, a voltar a coxear para o relvado para motivar Quaresma, a gritar que nem um Diego Simeone nos seus dias mais frenéticos, a apontar o caminho, a tomar decisões. Viram quem mandou Raphäel Guerreiro assumir o livre directo? Dou-vos uma pista: não foi o seleccionador. Vimo-lo festejar cada corte como um golo marcado por si, cada bola para o quintal, cada falta ganha a meio-campo. A coxear, depois de secar as lágrimas, fez a diferença. Foi enorme.

A felicidade premiou o trabalho
Claro que houve felicidade. O golo, tantas vezes repetido, da Islândia, nos descontos. Os três falhanços de Vida. A bola no poste de Gignac. Mas foi procurada até à exaustão pelos jogadores em todos os muitos minutos que jogaram. Uma atitude incrível. Uma confiança impressionante, que nem abanou quando Ronaldo saiu de maca do Stade de France. Uma confiança carregada às costas por Éder, o mais improvável dos heróis, aos 109 minutos.
O mérito de Fernando Santos é enorme. Até nessa decisão, inesperada, de lançar o avançado do Lille para o golo de uma carreira.
Confesso que faz-me alguma falta a magia de alguns craques de antigamente na Selecção. Aquele futebol rendilhado, de filigrana, apaixonante nas combinações e talento individual. Esta Selecção deixou de ser poesia, como se se tivesse apercebido de que ninguém pode subsistir apenas da vida de artista. É preciso foco, organização, concentração e sacrifício. É preciso que todos corram para o mesmo lado.
As novas gerações que aí vêm trarão ainda mais talento, e novas soluções. Portugal continuará forte, e pode crescer, mantendo estas chaves como base, e juntando-lhe, se possível, umas pitadas de magia.
No entanto, agora, o momento é outro. Façamos-lhes uma vénia. Merecem tudo. Foram enormes!
Não perdemos, Cristiano. Ganhámos! Querias acrescentar alguma coisa?"

Patrício, Pepe e Guerreiro: os mais consistentes de 23 heróis

"Portugal, Portugal, Portugal!
Nós somos campeões, campeões, campeões
Nós somos campeões!

E aqui estão eles:
Rui Patrício, Anthony Lopes, Eduardo;
Cédric, Vieirinha, Pepe, José Fonte, Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Eliseu e Raphael Guerreiro;
Danilo, William Carvalho, Moutinho, Renato Sanches, André Gomes, Adrien e João Mário;
Quaresma, Ronaldo, Rafa, Nani, Éder.
São estes os nomes dos jogadores que ficam para a história.
Faço parte de outra geração mas, tal como eu, acredito que todos os jogadores, antigos e actuais, estão felizes com a conquista desta equipa. Eles fizeram história e ficam para a memória do futebol português como sendo os primeiros a conquistar um título europeu de futebol.
Sinto um orgulho enorme por estes atletas que elevaram o nome de Portugal bem alto. Atrás deles tinham um povo a apoiar, como foi visível em todos os jogos nos mais diversos locais do nosso país. 
Mas é impossível não referir o apoio que foi dado pelos nossos emigrantes no local de estagio em França, bem como em todos os dias e todos os jogos de Portugal neste Europeu. Foram extraordinários na presença constante, em todos os momentos e sem dúvida que foi para eles muito especial esta vitoria, a forma como a viveram e vão continuar a viver daqui em diante.
Esta aventura por terras gaulesas terminou da melhor forma com a consagração em Paris. Na final foram 120 minutos de emoção, de sacrifício, de sofrimento, mas tudo terminou com uma alegria enorme. O jogo teve de tudo, desde logo com a lesão de Ronaldo, com as grandes defesas do Rui Patrício, com oportunidades falhadas dos franceses, com a bola à trave de Raphael e a terminar com o golo de Éder, o herói improvável.
Uma coisa é certa: independentemente da pouca ou muita qualidade exibicional, da sorte e do azar em certos momentos, dos adversários que tivemos, a equipa trabalhou e lutou para merecer o titulo. Fomos uma equipa bem organizada defensivamente e isso foi importante para a conquista do titulo mas do ponto de vista individual uma nota para três jogadores – Rui Patrício, Pepe e Raphael Guerreiro que foram ao longo da prova os mais consistentes e de melhor rendimento.
Valemos pelo trabalho colectivo, solidário, pela entreajuda e pelo sacrifício em prol de um objectivo. E aí o papel do líder e treinador Fernando Santos foi determinante. O seleccionador acreditou desde a primeira hora na conquista do título e disso fez menção em todas as suas intervenções e fez acreditar os jogadores. O segredo esteve na capacidade de levar os jogadores a interpretar em cada jogo um plano estratégico diferente do que é normalmente habitual e a acreditar que dessa forma era possível. Deu resultado e estão todos de parabéns.
O país sofreu e vibrou e a alegria foi contagiante. A forma como a selecção foi recebida ontem em Lisboa é reveladora do sentimento e do orgulho que os portugueses tèm na sua selecção.
Fantástico!
Somos campeões europeus!
Obrigado!

P.S. Este último fim de semana foi também extraordinário para outros atletas. As medalhas de ouro da Sara Moreira, Patricia Mamona e as de bronze da Jessica Augusto e do Tsanko Arnaudov nos Europeus de atletismo são bons indicadores para a nossa presença olímpica em Agosto."

Benfiquismo (CLIX)

Guarda de Honra...

O texto que explica porque isto é mais que futebol: “É o maior feito desde a entrada na CEE”

"Um artigo do site norte-americano “Politico” passa em revista a final do Euro 2016, considerando que o “carácter português triunfou perante a fragilidade francesa” e afirmando que o se passou não deve ser encarado como um mero jogo de futebol mas antes como um “drama humano”
“Uma equipa tinha a vontade de vencer. A outra apenas um je ne sais quoi”. É deste modo que o site norte-americano “Politico” começa por descrever o jogo que ditou a vitória de Portugal sobre a França na final do Euro 2016, algo que considera mesmo ter sido “o maior feito de Portugal como nação desde o dia em que foi admitida na Comunidade Económica Europeia, em 1986”.

No artigo intitulado “O carácter português triunfou perante a fragilidade francesa”, o seu autor, Tunku Varadrajan, aconselha a que se preste a devida atenção à vitória portuguesa, pois a “modéstia do resultado” (1-0, após prolongamento) pode “obscurecer uma multiplicidade de coisas: drama, coragem, pujança, perversidade, resistência e determinação”.

“Em tempos como estes, em especial nas finais de grandes competições, é melhor não pensar do jogo como sendo apenas futebol, mas antes, como um mais amplo drama humano, um teste de carácter, e em todas as artes de sobrevivência e de penetração” que envolve, refere.

O autor do artigo considera que após Cristiano Ronaldo ter sido forçado a abandonar o jogo, por lesão, ao 25.º minuto, Portugal ficou na situação de uma “equipa órfã”. “Paradoxalmente”, esse acabou por corresponder ao momento a partir do qual os portugueses “cresceram em força”, enquanto a França, que “até então parecia invencível”, perdeu o gás, pois com a saída do capitão português ficou “sem fazer ideia de quem era agora o seu oponente”.

A equipa francesa não apresentou capacidade para fazer frente ao prolongamento, descreve ainda o artigo, pois “o desejo de ‘jogar bonito’ foi demasiado sufocante”. “Falharam na tentativa de furar a defesa oposta” e tiveram ainda de defrontar o “heróico Rui Patrício”, descrito como “uma personagem dos Lusíadas”.

Nesta análise do jogo, o modo como a selecção de Fernando Santos jogou é comparado com o nosso “estilo nacional e histórico”: “Sempre usaram os escassos recursos da terra de modo sábio, sagaz, esticando-os ao máximo. De outro modo, como poderia um pedaço de terra no extremo ocidental da Europa ter construído um império de tal magnitude? Há uma determinação, uma coragem defensiva, uma teimosia infatigável dos portugueses, que os serviu bem no império e os serviu bem no campo de futebol no domingo à noite”.

“Gostaríamos nós que cada equipa jogasse futebol do mesmo modo que os portugueses o fazem? Certamente que não. Mas gostaríamos nós que cada equipa quisesse tanto ganhar como quis Ronaldo e o seu grupo? Eu penso que sim, que gostaríamos. Quase de certeza que nós gostaríamos”, conclui Tunku Varadrajan."

Portugal campeão da Europa

"PARIS - Quais foram os principais atributos de Portugal na noite mágica de ontem, no Stade de France?
1 - O primeiro foi a personalidade. Não é fácil para qualquer equipa do Mundo jogar em casa da França, num estádio cheio de gauleses histéricos, e nunca se deixar afectar, passar a bola de pé para pé ou colocá-la mais à frente ao som de assobios, como se o fosse a coisa mais natural do mundo. E neste âmbito da personalidade também deve entrar a forma superior como os jogadores de Portugal lidaram com um árbitro que se apresentou sempre com dois pesos e duas medidas, em nítido prejuízo da Selecção nacional. A personalidade que Portugal mostrou no Stade de França esteve ao nível do que a Itália conseguiu em Dortmund, na meia-final do Mundial de 2006, em que derrotou a Alemanha. Uma proeza estratosférica.
2 - O segundo foi a solidariedade. Dentro do campo, ontem, com a intensidade dramática própria de uma final, confirmou-se aquilo que tinha sido visto nos seis jogos anteriores: o lema desta equipa é um por todos, todos por um, Fernando Santos conseguiu entrar na cabeça dos jogadores e é um regalo ver, por exemplo, um jogador como Ricardo Quaresma, tantas vezes considerado por alguns treinadores como um jogador difícil, a ser mais disponível das criaturas. E como o Mustang foi essencial para a vitória de Portugal no Euro 2016!
3 - O terceiro foi a superação. Perder Cristiano Ronaldo na final do Campeonato da Europa aos sete minutos e não abrir brechas técnicas, tácticas e psicológicas revela uma força de carácter notável. Cristiano não merecia o Payet que teve. Mas depois, do lado de fora, fez uma exibição notável, de entrega à equipa. Mesmo sem ele, foi a vitória do Portugal de Cristiano Ronaldo."

José Manuel Delgado, in A Bola

Salvé Portugal campeão!

"Durante os 90', como se esperava, Portugal mostrou óptimo sistema defensivo e deu poucas chances à França. Faltou o gol de Ronaldo, que saiu contundido. A França, também como se esperava, não pressionou, jogou um futebol burocrático, com Pogba muito recuado, na posição de armador defensivo, fora de suas características, as de jogador inventivo e próximo à área adversária.
Na prorrogação, não houve mudanças. Até que Éder, em um petardo, fez o gol da vitória e do título. Portugal, que tinha perdido a Eurocopa em casa, em 2004, quando era favorito, ganhou na casa da favorita França. Salvé Portugal, campeão da Europa, merecidamente! Um título inesquecível, emocionante! #somostodosportugal."

A primeira de muitas

"Foi uma vitória acima de tudo emocionante e o nosso país já merecia há muito tempo. Que possa a ser primeira de muitas no futuro. Que Portugal possa ter muitas a nível de seniores, tal como a nível dos mais jovens. Até mesmo nas próprias modalidades. Portugal foi prova disso ontem, com as medalhas de ouro noutras modalidades. Acima de tudo, sinto um orgulho enorme por pertencer a este país que, apesar de pequeno, a cada dia que passa, mostra a grande qualidade que tem a todos os níveis.
Temos uma grande Selecção e um grande seleccionador capaz de motivar todos e incutir o espírito necessário para conseguir ganhar."

Teremos sempre Paris

"Já vai distante o tempo em que Gullit descreveu a Selecção portuguesa como jogando um "football sexy". A conquista de ontem foi construída de realismo e de uma dose adequada de cinismo. A Selecção já não entusiasma como no início da caminhada que consolidou Portugal nas fases finais das competições internacionais. Tudo terá começado com a vitória em Riade e, apesar de alguns percalços pelo caminho, esta vitória é parte desse ciclo iniciado já lá vão duas décadas e meias. Se o futebol tem muito de aleatório, no fim, acaba por premiar o trabalho e os corredores de fundo. Um país pequeno, com muitas fragilidades, também na organização do desporto de competição, tem no futebol um caso à parte."

Ouro, ouro, ouro!

"Que dia, Portugal! Histórico, para sempre inesquecível, 10 de Julho-2016! A rajada de ouro para o desporto português começou com Sara Monteiro e equipa nacional campeãs da Europa da meia-maratona, Patrícia Mamona campeã da Europa de triplo-salto (mais Dulce Félix vice-campeã nos 10.000 metros e medalhas de bronze para Jéssica Augusto, na meia-maratona, e Arnaudov, no lançamento de peso). E o absoluto êxtase chegou à noite, de lés a lés deste país enormíssimo porque se amplia a todo o planeta: Portugal campeão da Europa de futebol!

Fernando Santos várias vezes garantira que só hoje voltaria a Portugal e trazendo a Taça, frisando «é muito difícil alguém nos ganhar». A França, após eliminar Alemanha e disputando a final em Paris, foi a última, e a maior, vítima dessa convicção. Mesmo ficando a nossa Selecção sem Cristiano Ronaldo, com KO clínico logo aos 10 minutos! Tremendo golpe, dir-se-ia aniquilador! Mas treinador e equipa de imediato reagiram excelentemente. Na pronta, e certeira, mudança táctica e na alma... gigantesca. Portugal campeão da Europa porque em alma e capacidade táctica/estratégica ninguém ganhou à nossa Selecção! Ao cabo de 7 jogos e final em casa da França, esta é a pura verdade!"

Santos Neves, in A Bola

Somos nós!

"Começar com medo, jogar a sofrer, acabar em lágrimas. Foi uma final como nunca tínhamos visto, nem jogado, nem sentido. Nada do que se passou foi sorte, nada foi fugaz, nada foi acaso. Este campeão que somos fez-se de um campeonato em que fomos uma equipa paciente e humilde, estratega e consistente. Com um treinador brilhante que parecia plúmbeo. Com o incrível Ronaldo que foi capitão, treinador, motivador, jogador - e que, quando saiu lesionado depois de uma falta maldosa (e escandalosamente não marcada), deixou uma equipa a largar sangue na relva. Patrício, Pepe, João Mário - e até um Éder maravilhoso. Não é possível entender o cinismo de quem desdenha nem o azedume de quem não vibra. Somos campeões. Somos campeões! E tanta justiça."

Compromisso define a Selecção

"Tudo começou na coragem do nosso seleccionador, quer antes do Europeu, quer após o segundo jogo com a Áustria, em que repetiu que só voltava dia 11 e ia ser recebido em festa. Passou para fora e transmitiu muita confiança aos jogadores. Há que destacar o grupo, que teve um compromisso enorme.
A melhor palavra que define a nossa Selecção é compromisso. Houve crença muito grande entre todos os atletas. É difícil referendar uma individualidade na nossa Selecção. Isso define uma equipa. Fomos uma equipa, soubemos sofrer. Acabamos da melhor forma, com o jogador mais criticado a ser o nosso herói.
Tudo está assente na Federação, que dá grandes condições. E ainda há o apoio dos adeptos. É uma vitória muito grande para o nosso povo, para os nossos emigrantes.
Quando Ronaldo se lesionou, só pensámos no que nos podia acontecer mais. A equipa mostrou união e houve uma mudança táctica do nosso seleccionador. Continuámos a ser uma equipa sem a nossa grande figura mas com os outros predicados: o acreditar, a entreajuda, compromisso e ambição de que a sorte nos podia sorrir."

Vale dizer tudo, menos a palavra saudade

"PARIS - Escrevo esta coluna sentado no chão, na zona mista do Stade de France, enquanto espero por ouvir os homens que vão ficar na história do futebol português. Faço-o porque me dá jeito, mas também para tirar-me das nuvens. Para voltar a pôr-me no sítio onde devo estar e manter a racionalidade. Mas não é fácil. Depois da daquela noite de 25 de Janeiro de 2004, em Guimarães, quando assisti à morte de um jogador em campo, este é o dia mais difícil em gerir as emoções. Elas andam aqui por dentro, às voltas, borbulhando no estômago, querendo saltar, depois de assistir a 120 minutos delirantes, onde vi de tudo: um jogador perder a pose de deus e transformar-se no mais frágil dos humanos, no único momento em que a excepção nunca poderia contrariar a regra; assistir à ovação de pé que milhares de franceses prestaram a um jogador que tanto criticaram; o destino que parecia escrito naquele remate de um gaulês a jogar no México mas alguém terá soprado o couro para o poste e; a outra bola que bateu no ferro, mas no ferro mau; o jogador que afirmou, no início do estágio em Marcoussis; sonhar com um grande momento e poucos acreditarem; o mesmo jogador que usa uma luva branca quando celebra um golo como forma de expurgar males a críticas, mas fundamentalmente como amuleto motivacional. A luva que vi naquela mão negra, apontando o indicador para cima. E eu sem conseguir fazer qualquer comentário. Porque as cordas vocais por momentos ficaram inertes depois do esforço a que foram submetidas com aquele pontapé tão forte quanto a alma coletiva de 11 milhões de crentes.
Chega o apito final. Comovo-me como nunca em 18 anos de carreira. Porque é impossível não ter sentimentos quando se escreve sobre emoções. E sabermos que temos uma família a torcer para que se se juntem as palavras Portugal e campeão no mesmo texto, menos saudade, apesar de muita. É, pois com o enorme orgulho que digo: também sou campeão. Peço desculpa, o melhor é pôr-me novamente de pé."

Fernando Urbano, in A Bola

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Portugal de supercampeões

"Portugal é campeão da Europa! Finalmente, temos a recompensa do tanto que já contribuímos para o futebol com o imenso talento e a enorme paixão que sempre alimentámos. Dez de Julho de 2016 passa a ser uma data histórica para Portugal. Paris, que já era uma cidade especial para os portugueses, tornou-se agora a capital da nossa maior conquista. Não poderia haver local mais simbólico para uma proeza desta dimensão.
Queremos lágrimas de alegria foi o apelo que o Record fez no dia em que Portugal jogou a segunda final da sua história. No fim, o desejo cumpriu-se mas primeiro ainda vimos lágrimas de dor na face de Cristiano Ronaldo. O 'homem máquina' cedeu após uma entrada intimidatória de Payet e, de repente, a Selecção ficava órfã da sua superestrela. Se o desafio era enorme, ali tornou-se gigantesco. E, seguramente para muitos, parecia ser impossível vencer. Pensar numa final sem Cristiano Ronaldo era inimaginável. Acreditar que seria possível ganhar sem ele, era simplesmente inadmissível. No entanto, se perdemos o melhor jogador, ficámos com mais um líder no banco e reforçámos o espírito solidário de uma equipa que teve no compromisso total e na capacidade de superação duas armas que nenhum adversário foi capaz de igualar.
Naquele pontapé de Éder que nos deu um título histórico não ia apenas o destino de uma bola rematada por um herói improvável. Ia a força de um passado carregado de ilusões e desilusões e de um presente cheio de ambições.
Foi Fernando Santos o primeiro a colocar a fasquia no ponto mais alto. Abriu as portas ao sonho mas os portugueses tiveram dificuldade em sonhar com ele. Talvez por estarmos tão marcados por adversidades e fatalismos que na esquina da glória nos privam da felicidade plena. Talvez porque apesar do empenho e da generosidade, o nosso fado parece que tem de ser sempre triste. Aos poucos, porém, acendeu-se a chama da crença. Diria mesmo, a chama da fé. E ontem ela esteve presente não apenas no relvado do Stade de France, mas em todo o mundo português. As imagens e os testemunhos do dia de ontem assim o comprovam.
Há muitos heróis nesta aventura. Os jogadores os treinadores, os adeptos. Mas ninguém pode esquecer também muitos dirigentes e no caso particular, o presidente da FPF, Fernando Gomes. A escolha arriscada que fez revelou argúcia, convicção e visão. É o que distingue um líder."

António Magalhães, in Record

Éder: o caráter venceu a técnica

"Durante três décadas, Portugal nunca largou o violino, mas só lá chegou quando pegou na enxada. A última da fila

O jogador mais depreciado da selecção mais depreciada do Europeu é o herói desta segunda-feira. E o futebol mais "aborrecido" que Portugal jogou nos campeonatos da Europa foi o que permitiu, finalmente, levar a Taça. Há uma lição nestas surpresas e eu suspeito que seja a mais evidente: Portugal sempre quis ser violino, mas o seu papel no mundo é ser, primeiro, enxada. Nasceu para ter calos antes de usar luvas de pelica. Foi preciso que chegasse um treinador com olhos de engenheiro para trazer a selecção à terra e tirar dela as virtudes que Éder também tem, se calhar até em maior volume do que a maioria dos colegas. Humildade, capacidade de sacrifício, carácter e camaradagem são termos simplórios que enrolam nas nossas línguas sofisticadas e que são recém-chegados ao dicionário da selecção, e não me refiro ao que se usa dentro do balneário, mas àquele que usamos todos. Ao longo dos anos fomos sempre de uma presunção insuportável. Nenhum jogador servia; as segundas linhas eram miseráveis; as novas gerações sem futuro; o trabalho dos clubes inqualificável; e, finalmente, a selecção seria patética se não houvesse Cristiano Ronaldo. Até que não houve Cristiano Ronaldo e o campeonato da Europa acabou arrancado das mãos da França por Éder, o último dos últimos, símbolo de todos os maus tratos que fomos dando à estirpe de jogadores que, afinal, é o grosso do futebol português. Os geniais também existem e existirão - João Mário, Pepe e Raphael Guerreiro, por exemplo -, mas só para ajudar. Se tiverem carácter para isso."

Campeões. E depois?

"Admirável esta equipa portuguesa que, é verdade, apenas ganhou um jogo no período dos noventa minutos no Euro-2016, mas soube sempre como sair de algumas situações difíceis que se lhe depararam. E o futebol também é isto.

Para os que acreditam que o trabalho e a fé movem montanhas, a vitória da selecção portuguesa tornando-se assim no novo campeão da Europa, é um acontecimento revestido de alguma naturalidade.
Fernando Santos é o principal artífice desta ideia, que soube adaptar a um grupo com o qual estabeleceu, desde o início, uma relação séria, sem subterfúgios, e que por isso ficou fadada a permitir chegar ao objectivo maior que levou até França um grupo de 23 jogadores que ficam na história do futebol português.
Admirável esta equipa portuguesa que, é verdade, apenas ganhou um jogo no período dos noventa minutos no Euro-2016, mas soube sempre como sair de algumas situações difíceis que se lhe depararam. E o futebol também é isto.
Parece injusto tratar à parte alguns dos nomes que fizeram parte desta noite mágica, porque o sucesso é, acima de tudo, uma obra do colectivo.
Mas, em boa verdade, merecem referência especial Rui Patrício, para nós o jogador português mais valioso na final de Saint Denis, de uma utilidade inigualável, e Eder, a que muitos se habituaram a chamar de “patinho feio”, mas que obteve o golo da noite, e que por isso fica justamente para a história.
E, claro, Cristiano Ronaldo está também em primeiro plano.
Roubado ao jogo por uma lesão contraída muito cedo soube ser sempre, não obstante essa contrariedade, mais um pela confiança que foi capaz de transmitir a todos os seus companheiros.
Um campeão como CR7 merece estar a caminho da conquista de nova Bola de Ouro, a premiar também o futebol português por ter conseguido chegar a um patamar que para muitos parecia inalcançável.
A partir de agora, a Europa e o mundo vão passar a olhar o futebol português de uma maneira diferente: somos campeões da Europa, mesmo contrariando algumas aves agoirentas que com frequência se faziam ouvir por cá e lá fora.
Depois do melhor jogador do mundo, melhor treinador do mundo, melhor árbitro do mundo, melhor empresário do mundo, chegar ao título de campeão da Europa, é atingir o cume da uma imponente pirâmide."

As lições da nossa seleção para as equipas nas empresas

"O desporto sempre foi um dos campos onde as organizações procuraram exemplos, conhecimento e modelos para identificar, transferir e adaptar para as suas equipas de trabalho. Especialmente a liderança do treinador e de equipas, um dos campos mais fascinantes, num ambiente altamente competitivo, cooperativo e onde o trabalho individual e colectivo dos jogadores estão interligados. 
Esta selecção, até pelo modo pouco convencional como foi sendo construída e moldada à imagem do seu treinador e daquilo que o líder considerou ser o mais indicado para o objectivo e com os recursos que tinha ao seu dispor, possibilita a todos nós retirar algumas ilações importantes para o nosso dia-a-dia. Especialmente para as equipas empresariais, sempre em busca de boas práticas para conseguir elevar o seu patamar de desempenho.
As equipas devem estar em constante aprendizagem e desenvolvimento para se manterem competitivas. E a nossa selecção demonstrou isso mesmo. Conseguiu que o seu ciclo de existência para este campeonato assumisse um ritmo de crescimento. A formação e o treino permitiram que se conseguisse adaptar, competir, produzir, ser mais segura, melhorar e alcançar os objectivos.
A selecção liderada por Fernando Santos, ao contrário de outras equipas desportivas, foi sempre pouco autónoma. Mas foi aí que o seleccionador português encontrou o equilíbrio desta equipa. No entanto e ao contrário do que a investigação refere, estes processos mais controladores implicaram constantemente processos colectivos e que foram reforçados, especialmente, porque o seu funcionamento era de coesão, com uma dinâmica simples mas suportada por um controlo emocional elevado.
Retiraria três lições em especial para as empresas:
1- Predisposição interpessoal: Esta é uma das características que os CEO’s mais referem que gostariam que as suas equipas de trabalho alcançassem. E que na opinião deles faz diferenciar uma equipa de elevado desempenho de outras equipas menos competitivas. E a nossa selecção demonstrou que é mesmo uma das características que suporta o sucesso. O talento é importante, bons executantes, objectivos ambiciosos, etc. Mas a capacidade de os vários elementos de uma equipa estarem predispostos para ajudar os outros, estarem atentos se o colega vai realizar a tarefa com sucesso ou não, e estar lá sempre que seja necessário colmatar o erro, permite que um erro seja constantemente solucionado e mais do que isso, reforça o espírito de união e coesão da equipa.
2- Coesão e espírito colectivo: Mais do que palavras, vários exemplos foram-nos dados especialmente a partir dos jogos a eliminar. Suporte de alguns jogadores a outros. A capacidade de quando alguém parecia cair, ir outro colega levantá-lo. A capacidade que os jogadores demonstraram juntamente com o líder para colocar a clubite de lado. Importante, se não mesmo, essencial.
3- Abnegação da zona de conforto: Talvez a característica que mais surpreendeu nesta selecção. Mérito da sua liderança. A capacidade que o líder demonstrou para colocar dois, três ou quatro jogadores a jogarem fora da sua zona de conforto e que nem mesmo assim, retirou o espírito de luta, entrega e compromisso."

CR desprezou Hollande e gozou o prato

"Acabou o jogo. Portugal é campeão europeu. Está na hora de ajustar contas. Foi bestial ver os nossos rapazes a passar na bancada de honra por François Hollande - sim, o presidente francês empertigadote - e praticamente nem o cumprimentar. Deram-lhe com desprezo um aperto de mão suado e cheio de ranhoca (não faz mal, os franceses, “como se sabe, são todos porcos”, vem no Google). Digo isto assim porque temos contas a ajustar. Representa uma nação humilhada. França, de joelhos. Olha que bom. Olha que bem que sabe. É nisto que o futebol é genial.

Hoje viu-se na TV jogar uma série de estratégias de portugalidade. A frase parece pomposa. Não é. 

Vimos um Ronaldo lesionado a comandar de fora do campo. A dar ordens, naquela ânsia de querer ganhar. Ao Ronaldo aceitamos e desejamos que tenha essa ambição desmedida. Queremo-la nossa. 

Noutro jogo, as imagens de uma televisão espanhola revelaram um Cristiano a ir buscar o lado tímido e inseguro do tuga Moutinho e a empurrá-lo para a auto-confiança. E agora, no jogo da final, a ir buscar o Éder dizer-lhe palavras secretas que o levaram a marcar o golo que os franceses, com violência, negaram ao nosso melhor jogador. Cristiano Ronaldo é o modelo-base de um português “perfeito” que construiu o seu destino.

Mas entre as brumas das traças, umas horas antes, e Ronaldo dividia as primeiras páginas dos jornais franceses com outro português de alto perfil internacional: Durão Barroso. A nova contratação da Goldman Sachs foi ao Stade de France pavonear-se e falou à RTP na zona VIP sobre futebol. Só que quando lhe perguntaram o que achava do facto de os jornais franceses estarem a qualificar a sua personalidade (toque de calcanhar do jornalista) com o mesmo epíteto do futebol de Portugal ele respondeu: “Nojento”

Sibilino, Barroso indignou-se, como se ser ambicioso e querer ganhar tudo e ainda se dizer patriota fosse o mesmo que ser o Ronaldo. Não é. Gozemos pois o pratinho. Para os portugueses, grosso modo, Ronaldo é um herói e Barroso é assim como que o fulano que trata das cavalariças dos vilões. 

Mas foi durante a tarde que as TV's mostraram uma tensão que a polidez urbana, a estratificação social e o bom senso quotidiano têm mascarado durante décadas. E as virtudes da União Europeia nunca libertaram. Os franceses, tanto quanto se pode generalizar, desprezam os emigrantes portugueses. Ora isto é algo que até sabemos. Mas esta final do Euro em França, entre os dois países, a ansiedade, a tensão em Paris, a emoção e os insultos e bebida fizerem com que as bocas se abrissem em frente às câmaras de TV. E quem viu ficou perplexo.

Na tarde de 10 de Julho, os emigrantes portugueses em França decidiram assumir que não são bem tratados pelo comum dos franceses. São os pedreiros, os “petit portugais”, é o desprezo, o chauvinismo diário, as ideias feitas, os preconceitos. Um disse que era chamado de “filho de escravo” e só uma situação de crescendo de multidão permitiu tanto depoimento similar em tanta TV diferente.  
Ora, o absurdo repetido banalizou-se e levou a que os jornalistas passassem a assumir que os portugueses eram todos mal tratados. Ponto. E as perguntas às vezes já eram: “Acha que que a vitória vai vingar o que os emigrantes portugueses sofrem em França às mãos dos franceses?” ou “A sua vida vai melhorar em França se Portugal ganhar”.

Há quem diga que teve mais gozo ganhar a jogar mal. Que teve mais gozo ganhar sem Ronaldo. Esta coisas das vinganças e humilhações só servem se for dos fracos contar a história. Vamos ajustar contas.

Gozo mesmo foi humilhar os franceses. Devemos isso ao Ronaldo e seus muchachos. Mas o resto – as crises de confiança de Moutinho, as cenas de Barrosos sem espinhas, as fraquezas e complexos - temos que resolver nós com o espelho.

Somos campeões. Os franceses tomaram um banho de humildade. O que neles ainda é mais raro do que de água."

Cá se fazem, cá se Payet

"O que se viu no Stade de France foi história a ser concretizada - uma história com três 'F' e um 'E', de Éder, o homem que deu a Portugal o seu primeiro título de campeão europeu
Esta é uma história de Futebol, Fátima e Fado. Assim, por esta ordem. Porque Portugal é um país com uma tradição futebolística imensa, especialmente quando olhamos para o número de habitantes que tem, mas, nas grandes competições, raramente chega lá. Lá, ao momento arrepiante a que chegou esta noite, no Stade de France, porque os portugueses têm muito talento, pois têm, mas jogar bem não é ganhar e nem jogando bem Portugal alguma vez conseguiu ganhar o que quer que fosse.

Vai daí, Fernando Santos puxou da fé (ou da fezada) que tem de sobra e deu a Portugal o que Portugal não tinha: muita crença - começando naquele França-Portugal de 2014 em que disse aos jogadores que iam voltar para jogar a final - e muito pragmatismo - pensando primeiro em não deixar os outros marcar e só depois sermos nós a marcar -, porque se é para jogar bem, ouvir uns elogios e perder, então mais vale jogar mal, engolir umas críticas e ganhar.
Só que isto do Fado é como uma força que ninguém pode parar. Não foi possível pará-la em 2004, quando um miúdo de 19 anos chamado Ronaldo acabou a final dos nossos sonhos a chorar, nem foi possível pará-la esta noite, quando um capitão com coração acabou a final dos sonhos dele, aos 31 anos, a chorar. Cristiano Ronaldo não merecia a entrada dura de Dimitri Payet que o deixou a coxear logo nos primeiros minutos e nós também não, porque foi impossível não chorar quando o capitão chorou, saiu, reentrou, chorou e saiu. De vez.
Aos 24 minutos, Portugal ficou sem a sua referência ofensiva e a final do Europeu ficou sem a sua estrela - até porque nem Griezmann fez a diferença pela França. Se a selecção já tinha entrado no relvado tão inconsistente quanto a música de David Guetta que abriu a final, pior ainda ficou sem o capitão. Os jogadores juntaram a desorientação ao nervosismo e mesmo com a passagem do 4-4-2 inicial para um 4-3-3 (às vezes mais 4-5-1), já com Quaresma numa ala e Renato no meio, a equipa demorou a conseguir ter a bola e a acalmar os franceses, que entraram embalados pelo apoio dos adeptos, obviamente em maioria no estádio.
Só que a França não é uma selecção que se sinta confortável a assumir o jogo - é-o mais quando joga na expectativa e parte para ataques rápidos e contra ataques, como fez com a Alemanha - e só ia criando perigo quando a força física de Sissokho se fazia sentir. Só que, nessas alturas, Portugal teve um gigante na baliza, que defendeu tudo, tanto na 1ª como na 2ª parte - e mesmo quando Rui Patrício não defendeu, no prolongamento, teve o poste a defender por ele.
É verdade que, tirando uma dupla ocasião de Nani e Quaresma, Portugal também não teve grandes oportunidades de golo antes do prolongamento, muito por culpa (da pressão?) dos passes falhados na saída para o ataque. Mas esteve sempre seguro na defesa - Pepe mais uma vez em grande - e foi aproximando-se cada vez mais da baliza oposta, especialmente depois de Fernando Santos ter posto em campo o tão criticado Éder, que foi segurando todas as bolas que pôde - até àquela última bola. Aos 108 minutos.
Raphaël já tinha enviado um livre directo à trave e já se sentia um cheiro a Portugal no ar (entre os milhares de traças que invadiram o relvado porque alguém ontem não desligou as luzes do estádio), por isso quando Éder pegou na bola e embalou para a baliza, todos nos levantámos, todos rezámos, todos gritámos "chuta,
Éder!" - até Ronaldo, que já estava no banco de um lado para o outro a fazer de adjunto de Fernando Santos. Éder chutou, a bola entrou e esta história não poderia ter um final mais épico do que este. É uma epopeia portuguesa, com certeza - que já tinha começado esta manhã com as grandes vitórias dos atletas lusos no Europeu de atletismo. Há dias assim, em que é tudo nosso. Chama-se Fado. E o nosso está a mudar."

Perguntei à noiva se podemos chamar Éderzito ao segundo filho

"Aqui se reconta o que aconteceu no França-Portugal que deu o título à equipa das quinas
Bom, tenho muito pouco tempo para vos falar sobre o que se passou hoje. Como seria de esperar, acabei de perguntar à minha futura mulher se podemos chamar Éderzito ao nosso segundo filho, colocando em risco o nosso noivado. Isso e tenho ali mais 27 minis no frigorífico que não se vão beber sozinhas. Posso vir a tornar-me um pai solteiro, mas uma coisa já ninguém me tira: A TRAÇA É NOSSA.

Sem vos roubar demasiado tempo: ainda o jogo não tinha começado e já o Stade de France tinha sido atacado por uma praga de traças e uma inundação de azeite provocada pela música de David Guetta. Temia-se o pior, e assim foi.

Num jogo até então sem grande história, com Portugal moderadamente borrado e a França a comportar-se como favorita, um filho de uma meretriz, primeiro nome Dimitri, resolve espetar um joelho no Cristiano que mais pareceu um pontapé nas partes podengas de um país inteiro, que instantes depois cairia prostrado aos pés da República Francesa: Liberté, Egalité, Payet. Ronaldo fez uma cara de chorão que já tinha feito no Euro a propósito de situações menos importantes, mas desta vez não se parecia dever a uma jogada mal interpretada por Nani.

Não. Desta vez todos chorámos com a lesão que obrigaria Ronaldo a abandonar o campo. Dirigimos mais alguns nomes às mães dos franceses entre soluços, mas estão a ver aquele tipo de soluço quando um gajo já bebeu bastante que transita involuntariamente para arroto do almoço e quase nos faz vomitar? Esse tipo de soluços. Complicado. Porém, num assomo de consciência colectiva, lembrámo-nos que teríamos de crescer com esta adversidade e que aquilo que não nos mata torna-nos mais fortes. Estou a brincar. Na verdade pensámos todos que já tínhamos ido com o c”#$%&.

O jogo prossegue a ritmo acelerado, que é como quem diz, vamos lá encurtar a crónica que eu não estava a brincar em relação àquelas minis e ainda tenho de ir ao Parque Eduardo VII trepar aquela estátua do Cutileiro (isto dito assim parece uma piada extremamente sexual, e não no bom sentido). Mas dizia: entram mais alguns indivíduos em campo. Quaresma ocupa o lugar de Ronaldo, seguido por Moutinho no lugar de Adrien, até William ocupa o lugar de William, mas todos eles, por entre um ou outro lance menos bem conseguindo, foram safando como sabiam e podiam, numa obstinação que só poderia ser coroada com um empate no fim do tempo regulamentar, como se o adversário fosse mais ou menos indiferente.

Pouco para contar, então. Mais uma exibição austeritária da selecção portuguesa, que lentamente foi recuperando a sua e a nossa confiança, uma equipa de quem hoje aceitaríamos o congelamento de pensões, a extinção da ADSE, 50 horas na função pública, a corrupção total do estado, ou até Durão Barroso na Goldman Sachs, desde que isso nos garantisse uma vitória igual no mundial de 2018. O nosso antigo capitão Luís Figo disse tudo aos 43 minutos, com um bocejo de quem já só queria que chegasse o prolongamento. Só uma nota importante: ao longo de todo este entretanto, Rui Patrício foi-se mantendo entretido num divertido jogo-treino com a selecção francesa que, se aos 45 minutos já parecia destinado a coroá-lo como melhor em campo, atingiu os 90 com Rui Patrício como novo proprietário do Stade de France. Aquela merda ainda não era toda nossa, mas já era toda dele. Apenas deixou escapar uma bola, quase no final do jogo, mas Nossa Senhora faz uma excelente dobra a Pepe e desviou na direcção do poste. Tudo isto aconteceu logo após a melhor gravata realizada neste Europeu. Não se lembram? Claro que se lembram. Um pouco por todo o país indivíduos alcoolizados já treinam o nó à Quaresma nos seus amigos. Qual Windsor, qual quê. Como executar na íntegra umQuaresma knot? Simples. 1. Escolher uma pessoa. 2. Disputar um lance com essa pessoa. 3. Assim que a bola sair do seu alcance, agarrar o adversário pelo pescoço. 4. Manter a passada e apertar um pouco mais o nó. 5. Verificar níveis de incómodo do adversário. 6. Se o adversário vos parecer confortável, apertar um pouco mais. 6. Desatar o nó e dar uma palmadinha na cara do adversário como se a situação tivesse sido agradável para ambos. 7. Ser aclamado por um país inteiro.

Mais um prolongamento? A sério? Não tenho vida para isto. Será que, em caso de vitória, amanhã é feriado? Porque é que estes frappés nunca mantêm o vinho realmente fresco? Metade do país desloca-se à casa de banho a pensar nestes e em muitos outros temas, hesitando entre fazer apenas xixi ou aquele cocózinho que andava por ali a rondar desde que Sissoko fizera o primeiro sprint do jogo, até porque isto deve ir a penaltis. Acho que dá tempo. Ou será que acontece alguma coisa e não chego a tempo? Da outra vez o Abel Xavier borrou a pintura no prolongamento. Bem, pelo sim pelo não, fico-me pelo xixi e volto para a sala. Se isto correr mal digo que fomos roubados pelo árbitro e vou trocar de cuecas.

Não foi um prolongamento qualquer, na medida em que este nos roubou anos de vida e os devolveria logo depois. Raphael Guerreiro atirou uma bola à trave, os franceses continuaram a ameaçar uma repetição do que nos aconteceu em 2000. Mas o jogo já mudara há muito, designadamente ao minuto 79, com a entrada de Ibrahimovic, perdão, Éder. O nosso ponta-de-lança mal amado (uma espécie de pleonasmo) entrou em campo para fazer aquilo que geralmente se lhe pede mas nem sempre consegue executar. Hoje deixou tudo em campo, pôs a equipa a atacar novamente e veio de lá com uma taça, após um lance que, só de pensar e rever, acabou de justificar mais uma mini de pênalti. Um lance, aos 109 minutos, em que Éder não se liberta apenas dos adversários, mas também de todos os idiotas com ligação à internet que durante anos substituíram a sua cara nas fotografias por um cone. Nisto ajeita o esférico e defere um remate que ficará para a história como a mãe de todas as bofetadas de luva branca. É golo de Portugal. Faltam 10 minutos. Acabem com isto, pelo amor de Deus, Cristiano, Dolores. O jogo prossegue, festejam-se faltas cavadas no meio-campo como se fossem golos. Falta 1 minuto para terminar, já ninguém aguenta isto, vou buscar o champanhe porque isto já não foge. Enquanto isso, Quaresma faz um passe de letra porque Quaresma. 121 minutos, Pepe chuta a bola na direcção do aeroporto. Já lá vou ter.

O jogo acaba. O champanhe continua a ser uma bebida claramente sobrevalorizada, mas estava em promoção. Somos finalmente campeões europeus. Porra. Começo a sentir as mãos pegajosas porque metade não caiu no flute - por flute entenda-se o biberão do meu filho - e começo a lembrar-me, aos poucos, que ainda tenho de escrever esta crónica antes de sair de casa para só depois me perder nos festejos. Isto não foi uma boa ideia. Mas vale a pena. Pelos 23 que lá estiveram, pela equipa técnica, pelos outros milhões todos que estão na rua, e pelos muitos que, ao longo dos últimos 35 anos, me contaram histórias míticas dos jogadores que sempre honraram a nossa camisola, mas a quem faltou uma taça destas. Muitos, os contadores de histórias e os magos da bola, já não pisam o relvado ou não estão connosco. Isto é tudo para todos eles e é uma coisa muito bonita.

No final, o estádio explode de alegria com o primeiro grande título de futebol sénior que todos nós vimos e ouve-se a “A Minha Casinha” dos Xutos. Fernando Santos deve ter ficado intrigado. Merecia a mais solene interpretação de “À minha maneira.” Obrigado Engenheiro. Obrigado Mister. Obrigado Nando. Obrigado Chôr Santos. Obrigado do fundo do coração. A malta gosta de brincar e fazer pouco, mas nunca mais esqueceremos esta noite. Muito obrigado.

EPÁ, QUEM É QUE DEIXOU AS MINIS NO CONGELADOR?!"

Benfiquismo (CLVIII)

Para ti...

domingo, 10 de julho de 2016

Campeões Europeus !!!

E o improvável aconteceu mesmo!!!
A vingança de 2004 caiu em cima dos Franceses... o Éder transformou-se em Charisteas... e Portugal finalmente, vence uma grande competição de Selecções seniores: Portugal é Campeão da Europa!!!

Independentemente das outras variáveis, a grande diferença neste Campeonato, para todas as outras desilusões anteriores, foi o Fernando Santos!!!
Ousou optar por uma estratégia de jogar 'feio'... e foi este pragmatismo, que levou Portugal ao título, as individualidades apagaram-se, e a consistência defensiva, deu-nos a oportunidade de vencer os jogos...!!! Em 7 jogos, vencemos 1, nos 90 minutos... extraordinário!!!

Somos actualmente Campeões da Europa absolutos, somos Campeões Europeus de sub-17, amanhã vai começar o Europeu de sub-19 onde temos reais chances de vencer... chegámos à Final da Europeu de sub-21 o ano passado... e se os Clubes permitirem podemos lutar pelo título Olímpico no próximo mês... num País onde o campo de recrutamento é cada vez menor, temos sabido aproveitar bem o filão Luso-Africano e os jogadores filhos de emigrantes... É um trabalho, da FPF mas principalmente dos Clubes...!

Viva a Portugal... para ser mais correcto: Viva a Lusofonia, porque a festa não tem fronteiras... aliás, estes 23 são bem o espelho da Lusofonia!

Histórico !!!

Dia histórico para o Atletismo Português! Independentemente de todos os condicionalismos deste Campeonato da Europa (nas vésperas dos Jogos Olímpicos... ausência dos Russos!), não podemos desvalorizar estes resultados: 4 medalhas de Ouro e 2 de Bronze... além de outros resultados brilhantes nas Finais..

Começo por dar os Parabéns à Sara Moreira e à Patrícia Mamona pelas Medalhas de Ouro e à Jéssica Augusto pelo Bronze!

Pela primeira vez na nossa História, temos uma medalha nos lançamentos! Tsanko Arnaudov que com uma evolução tremenda no último ano, chegou ao Bronze com 20,42m logo no primeiro ensaio!
Outra evolução espectacular no último ano, foi a da Marta Pen. O 5.º lugar na Final dos 1500m deve saber a Ouro! Numa corrida muito táctica a Martinha 'alterou' a estratégia na última volta, arriscou... e 'sacou' um excelente 5.º...


5.º lugar com recorde pessoal, não se podia pedir mais a Susana Costa no Triplo, 14,34m...Temos 3 dos melhores Triplistas do Mundo, quem diria...!!!

Logo pela manhã, na Meia-Maratona feminina, além do Ouro e do Bronze individual, Portugal conseguiu o título individual, com as nossas Dulce Félix (12.ª) e Vanessa Fernandes (60.ª)... além da nossa ex Marisa Barros (46.ª).
Na Meia-Maratona masculina, as coisas correram muito mal... um espelho do actual valor do nosso Meio-fundo/Fundo masculino...! Rui Pinto (35.º), Samuel Barata (63.º) e Rui Pedro Silva (76.º).

Ontem, não me referi às estafetas por esquecimento, mas os resultados foram medianos/maus: Diogo Antunes e Arnaldo Abrantes nos 4x100m; e a  Dorothe Évora e a Rivinilda Mentai nos 4x400m com a melhor marca do ano, mas mesmo assim soube a pouco...

Nestes Campeonatos da Europa 'diferentes' por diversas razões, tenho que mais uma vez, destacar negativamente a realização televisiva!!! Como tem sido hábito, mais uma vez não tivemos os Concursos em directo!!! Esta nova filosofia de transmissões começou num Mundial na Coreia, Daegu creio, desde então tem sido uma desgraça... dão prioridade a super-slow-motion e a entrevistas cheias de banalidades em vez de mostrar as provas em directo... Hoje, o Tsanko com o Bronze, e não mostraram um único lançamento... e os saltos da Susana e da Patrícia só em diferido!!! Ridículo...


PS: E já não é novidade, mas tenho a felicidade de anunciar que o Benfica sagrou-se hoje, Campeão Nacional de Juniores, em Masculinos e em Femininos!!! Parabéns a todos os envolvidos...

De Paris a Dili

"1. Hoje, de Paris a Dili a língua que, com os seus diferentes cantares, nos aproxima vencerá a enorme distância que nunca nos afasta. E que sempre, mas sempre, nos aproxima. Em momentos tão inesperados quanto singulares. Hoje, seremos milhões de portugueses a partilhar vontade e crença. Sabendo que não há nunca vencedores antecipados! Todos acreditamos na nossa vitória. Que será bem difícil. Todos. De Lisboa ao Porto, da Meda à Ericeira, de Viseu ao Funchal, de Ponta Delgada a Sintra. Hoje, outros milhões de amantes da nossa Selecção e falantes da nossa língua estarão connosco. Na crença e também na vontade de conquista. De Luanda à Praia, de Maputo ao Príncipe, do Rio de Janeiro a Bissau, de Malaca a Macau, de Goa a Boston. Todos, todos mesmo, iremos partilhar, ao vivo, pela televisão, pelos novos meios e novas formas de comunicação ou pelas velhas mas renovadas ondas da rádio, o jogo da nossa Selecção. Se na semana passada, com convicção, aqui escrevi «até Paris» hoje aqui digo que acredito que em Paris viveremos, hoje, uma alegria imensa. E bem intensa! A nossa Selecção, com mérito, conquistou o direito de estar na final deste Europeu. Com um golo fantástico de Cristiano frente a Gales. Um golo à Air Jordan. Tal a impulsão, a força e o gesto! E hoje numa final que será vista por mais de trezentos milhões de telespectadores toda a nossa Selecção mostrará a sua personalidade e a sua maturidade, a sua inteligência e a sua experiência, a sua irreverência e também a sua criatividade. E, se for o caso, e de novo, a sua originalidade! E qualquer que seja o resultado final do jogo de hoje esta Selecção merece o nosso profundo reconhecimento e o nosso sentido agradecimento. Merecem, todos - de Fernando Gomes a Fernando Santos, de Cristiano Ronaldo a Renato Sanches, de Rui Patrício a Nani, de Eduardo a Ricardo Quaresma, de José Carlos Noronha a António Gaspar, de Tiago Craveiro a Humberto Coelho, entre todos os outros, também importantes, que integram a comitiva da Selecção - ser recebidos, amanhã em Lisboa, com intenso calor humano e com um contagiante entusiasmo. Pelo que fizeram, pelo que nos proporcionaram e pelos momentos de identidade e de felicidade que suscitaram. E que levaram tantos e tantos a tentar perceber, por uma vez, a força agregadora do futebol. E o espírito de união que saltou, numa vertigem única, da equipa para as ruas e praças do Mundo mostrou e demonstrou a força singular do futebol. Mas se, como ambicionamos e legitimamente sonhamos, vencermos, no seu estádio de referência - o Estádio de França! - a selecção anfitriã, acreditem que um enorme e apertado abraço - e verdadeiras lágrimas - juntará todos aqueles que em Paris aplaudirão os vencedores e que em Dili, já na alvorada de segunda-feira, motivará milhares de timorenses a sair para as suas ruas livres com aquela emoção que este Europeu e o percurso da nossa Selecção desencadeou e multiplicou. E ajuda a explicar um feito que também eles, de forma singular, igualmente sentem como deles. E que na minha modesta opinião deveria levar a nossa Selecção, em tempos próximos, a Timor Leste! Mas também aquele cantar liderante da jovem portuguesa ou aquelas palavras, roucas de emoção, do jovem de origem portuguesa nas proximidades do centro de estágio da nossa Seleção, são momentos únicos e irrepetíveis deste Europeu. Como o senti e partilhei, de forma evidente, na cidade de Marselha no jogo contra a Polónia. Onde também éramos bem minoritários...

2. Por mim, estarei hoje ao final da tarde a cantar, com força e verdadeira emoção, o nosso Hino naquele emblemático estádio. No meio de milhares que comigo partilham o gosto pelo futebol e o sentimento de orgulho pela proeza desta selecção. E vibrarei, acreditem, com a cautela da nossa Selecção. Sentirei o seu cuidado e a sua serenidade perante a equipa e o ambiente franceses. Perceberei se não jogarem bonito. Digo mesmo: joguem, se for preciso, feio. Joguem mesmo! Aplaudirei, com fervor, os nossos golos e, se necessário outra defesa impossível de Rui Patrício em nova decisiva grande penalidade. Como o fiz abraçando o Bruno e o Nuno em Marselha! E no final, no final mesmo, perante os medíocres da palavra, escrita ou oral, proclamarei, com elegância, que o sonho, o sacrifício, a determinação e a fé - sim também a fé! - venceram a arrogância e a superioridade. Que é sempre bem transitória... Como a história, sempre fria, objectivamente regista!

3. O que igualmente todos sabemos é que cada membro da nossa Selecção, e cada um na sua específica e competente missão, tudo fez - e fizeram! - para dignificar Portugal. O que assumimos, e recordaremos, é que cada um soube conjugar sofrimento com humildade, talento com vontade, confiança com esperança, coração com determinação. E cada gesto de partilha, de generosidade e de agradecimento da nossa Selecção foi um gesto de conquista e de entusiasmo. E houve, reciprocamente, motivação e retribuição. De dentro para fora. E também de fora para dentro! Principalmente em Marcoussis, ponto de encontro de afirmação, de ambição e da saudade! Agora que chegámos à final permitam-nos, a nós que desde o arranque não duvidámos, que o sonho nos leve hoje de Lisboa a Paris. E que regresse concretizado, em euforia controlada, de Paris a Lisboa. De manhã, na ida, ali bem perto do céu, rezarei por Portugal. Com a minha íntima fé. Com a certeza que todos na Selecção acreditam que é possível conquistar este Europeu. E acreditando nesta Selecção, estamos certos que cada jogador, mais ou menos jovem, terá mesmo naquele Estádio de França, uma «alma para além de Almeida». E, no final, as nossas lágrimas de alegria serão, também e justamente as lágrimas de Ronaldo. E de toda a Selecção! E como nos ensinou, também num momento delicado da nossa vida nacional, o nosso Padre António Vieira «o maior mérito das ações heroicas é fazê-las»! É o que importa fazer. Eu acredito! Como todos aqueles milhões que num abraço interno se juntarão em fusos horários diferentes, de Paris a Dili. E com uma intensidade impressionante neste pátrio retângulo que é a nossa âncora, a nossa lareira e o sempre o nosso aconchego!"

Fernando Seara, in A Bola

Final feliz

"Portugal está a noventa minutos de escrever uma história perfeita, com vilões, heróis e uma reviravolta inesperada no fim

Como quaisquer vizinhos que se prezem, os ingleses conhecem os franceses de trás para a frente e, sempre que não estão ocupados a invadi-los ou a ajudá-los a expulsar os alemães, costumam brincar com eles dizendo que a única forma de matar um francês é disparar cinco centímetros acima da cabeça e acertar-lhe em cheio no complexo de superioridade. Quis começar por aqui porque achei que seria reconfortante confirmarmos as suspeitas de que não somos os únicos a achar que eles têm a mania. Ora, é impossível ignorar que há qualquer coisa de literário, no sentido épico da palavra, nesta oportunidade que Portugal conquistou para si próprio de fazer os franceses engolir todos os narizes torcidos e todos os olhos revirados e todos os "dégueulasses" que passaram o último mês a despejar nas críticas sobre o futebol praticado pela Selecção. De tal maneira que o único final feliz para uma história tão bem escrita era Ronaldo pegar nessas críticas todas e usá-las como trampolim para chegar outra vez ao terceiro andar, como aconteceu no golo que marcou ao País de Gales, e ali, mais ou menos cinco centímetros acima da cabeça dos franceses, acertar-lhes em cheio onde lhes dói mais."

Jorge Maia, in O Jogo

Invasões de campo

"Durante este EURO 2016 tivemos oportunidade de visualizar, durante, antes ou depois de alguns jogos, entradas em campo por parte de adeptos para estarem perto dos seus ídolos. Seguia-se uma comunicação da UEFA advertindo da instauração de processos disciplinares às federações a que respeitam as equipas visadas pelos adeptos.
Esta situação causa alguma estranheza. Pelo simples facto de um adepto ter, por exemplo, uma camisola de determinada selecção e decidir entrar no campo, a federação é automaticamente punida? 
O Regulamento Disciplinar da UEFA é claro. No artigo 16, relativo à ordem e segurança nos jogos das competições europeias, é definido que os clubes anfitriões e associações nacionais são responsáveis pela ordem e segurança tanto dentro como em redor do estádio antes, durante e depois dos jogos. Estas entidades são responsáveis pelos incidentes que ocorram e sujeitos a medidas disciplinares, a menos que consigam provar que não foram negligentes na respectiva organização.
No entanto, existe uma espécie de responsabilidade objetiva, independente de culpa, no que toca a alguns comportamentos inadequados dos adeptos. O mesmo artigo estipula que todas as associações e clubes são responsáveis por alguns desses comportamentos e podem estar sujeitos a medidas disciplinares, mesmo que provem a ausência de qualquer negligência na organização do jogo. É o caso da invasão ou tentativa de invasão do campo de jogo, mas também do arremesso de objetos, iluminação de fogos de artifício ou quaisquer outros objetos, perturbação durante hinos nacionais, entre outros comportamentos."

Marta Vieira da Cruz, in A Bola

Benfiquismo (CLVII)

Este golo além da vitória neste jogo,
provou,
que mesmo quando tudo parece estar contra...
... é possível triunfar !!!