"São muitas as ‘palavras impercetíveis’ do futebol português, como aquelas que o jogador do Benfica, Jhon Durán, terá dito já com o jogo nos Açores finalizado e captadas pela equipa de arbitragem chefiada por Cláudio Pereira e que ditaram o cartão vermelho mostrado ao avançado colombiano. Ninguém conseguiu determinar aquilo que Durán disse de tão duro, mas aqui fica a revelação em primeira mão: ‘gr&%rssst%&€@xxzyxwqt’.
1. Sim, estamos habituados no futebol português a muitas palavras imperceptíveis, a meias palavras, a silêncios convenientes e também a muito ruído. Vivemos numa sociedade em que se criticam as coisas que não acontecem e que deviam acontecer. Em Portugal, como noutros países, os problemas estão identificados, como o da habitação, mas os sucessivos governos não tomam medidas que permitam aos jovens ambicionar ter casa para poderem deixar de viver debaixo das telhas dos pais, até que se chega ao tempo do protesto e da troca de argumentos mais certeiros ou mais virulentos, a partir dos quais quase sempre se misturam alhos com bugalhos e, normalmente, nada se resolve, nada ou pouco muda.
2. Perdoe-se-me a comparação (porque estamos perante macro problemas que afetam a população face a uma atividade que gera as suas próprias riquezas e misérias-de-diamante), mas com a arbitragem e as questões que afetam há décadas o futebol português passa-se o mesmo que vemos no setor da habitação: sabem-se as causas que geram os fenómenos antissociais e colocam a indústria do futebol num patamar, até, de inconstitucionalidade (no limite), e nada se faz para reduzir ou anular as suas entropias.
3. Aquilo que Durán (não) disse («gr&%rssst%&€@ xxzyxwqt») não poderia ser vertido para um relatório como «palavras impercetíveis», porque se não se tem a noção, objetivamente, daquilo que é dito, então não se pode presumir. Até porque, no meio da confusão, e como desejava Marco Silva, não foram disponibilizadas imagens que justificassem a amostragem de cartões vermelhos. Teria de ser através das palavras. Mas se as palavras (de um colombiano) foram impercetíveis, como se pode inferir ou presumir, subjetivamente, que elas tiveram caráter insultuoso ou para adversários ou para algum membro da equipa de arbitragem?…
4. Ainda se podia dar o caso que uma palavra – uma palavra que fosse –, devidamente identificada e vertida em relatório, pudesse desencadear, no campo, a posteriori, uma cena de pancadaria ou confrontos entre adversários, e nesse caso, sim, a penalização seria devida, mas nem isso aconteceu, e portanto um árbitro não deve justificar uma expulsão através de uma fundamentação vaga e sem qualquer tipo de solidez.
(À hora em que escrevo este texto ainda não sei qual foi a decisão do CD da FPF, mas apesar dos árbitros beneficiarem da jurisprudência de serem protegidos pelas instâncias disciplinares, através daquilo que reportam, estamos perante um caso muito específico em que se justifica a despenalização. Do que se viu e em função do que se reportou, um cartão amarelo justificaria a aplicação da figura de «comportamento incorreto»).
5. Este episódio não ajuda nada a evitar aquilo que parece cada vez mais iminente: a queda ou suspensão do Conselho de Arbitragem. Ninguém fala, mas é preciso estar atento aquilo que se vai passar este sábado na AG da FPF, durante a qual não me surpreenderia que se gerasse um movimento para tentar tirar Luciano Gonçalves do cargo. São demasiadas as críticas: primeiro, as de fações da própria arbitragem que ambicionam poder; depois ou simultaneamente as de André Villas-Boas, que defende a suspensão temporária do cargo , em nome da «credibilidade das competições» e é de elementar reconhecimento que o FC Porto anda há dois anos a pedir a implementação das tecnologias do fora-de-jogo semiautomático e da linha de golo, para além de um investimento mais célere na melhoria das condições que alguns estádios apresentam, nomeadamente para não se duvidarem de foras-de-jogo de 1 cm; há ainda as queixas de António Salvador e o posicionamento documentado do Benfica de Rui Costa em relação aos macro problemas da arbitragem, colocando-se Frederico Varandas e o Sporting numa posição mais conservadora…
6.…E por falar em Frederico Varandas e em posições mais conservadoras, o presidente do Sporting tem mais em que pensar porque a equipa mais representativa dos leões já perdeu 9 pontos neste campeonato (no qual o FC Porto não perdeu nenhum) e o seu treinador, Rui Borges, não está a conseguir gerir desportivamente aquilo que lhe foi oferecido para fazer face a uma transição que se adivinhava dura, em função da saída de jogadores tão proeminentes como Hjulmand, Trincão, Pedro Gonçalves, Diomande e Morita, já para não falar de Quenda e Daniel Bragança, cada qual com as suas especificidades. No futebol, e como dizia muito bem Rui Borges na antevisão do jogo com o Casa Pia, «não há tempo», deixou de haver tempo, e, portanto, essa coisa de pedir tempo deixou de ser argumento e nem o adeptos estão para aí virados, numa indústria de milhões, porque também não lhes dão tempo para pagar as suas contas, em contextos bem mais adversos.
7. No futebol, e como se viu no Sporting, a transição de Gyökeres para Luis Suárez foi quase imediata, como acontece em muitos casos e noutros não, quando a hemorragia é grande, como vemos em Alvalade, a dificuldade de adaptação pode ser maior, mas os treinadores hoje são mais gestores de tempo, de calendários e de lideranças porque, de uma forma geral, todos sabem como jogar em bloco baixo ou mais alto, escolher zonas de pressão e privilegiar a importância da intensidade e da ocupação dos espaços. Não é tanto por aí. A propósito de gestão de calendários, o Sporting acedeu correr o risco de jogar com o Marítimo 45 horas e 40 minutos depois de ter perdido em casa com o Ac. Viseu, risco calculado em função da mudança radical de ‘onze’ para poder contar com jogadores mais frescos nestes jogos que se seguem esta sexta-feira com o Casa Pia, em Rio Maior; Shakhtar, na terça, em Londres, e com o Moreirense, no dia 7, em Alvalade.
8. Rui Borges sabe que está em risco e nada justifica que seja mal tratado, nem ele nem a sua família, como agora denunciou, por estar a atravessar uma fase menos boa no comendo do Sporting. Os ciclos duram o que duram, parece-me que Rui Borges perdeu o controlo da equipa e das dinâmicas e tem, no limite, até ao dia 7 para as recuperar. O jogo a seguir dos ‘leões’ é apenas no dia 25, com o Manchester United, e nesse data se não recuperar as ditas dinâmicas, o Sporting já pode ter outro treinador.
9. Depende também da sensibilidade de Frederico Varandas, que gosta muito de ir contra a maré, como se viu quando o presidente dos ‘leões’ decidiu renovar o contrato a Rui Borges sem necessidade nenhuma. Convicção e ideias firmes são uma coisa; teimosia é outra. Parece demasiado evidente que os jogadores do Sporting não acreditam ou deixaram de acreditar na proposta do seu treinador. Como dizia no artigo da semana passada, a falta de liderança em Alvalade, na cabina, é transversal.
10. E essa ‘falta de liderança’ ou hesitações no comando presidencial não serão toleradas pelos sócios como já foram noutros tempos. É que, hoje, o Sporting tem um presidente-banhado-a-ouro. Um presidente que, em 2025-26, recebe 776 500€ brutos da SAD (300 00€ fixos e 476 500 em variáveis) e que viu agora o seu salário aumentado em 18,7% (passando para 356 000€) para estar em condições de receber cerca de 890 000€ esta época, se cumprir objetivos, não pode estar ao sabor de estados de espírito. Uma sociedade aberta cotada em bolsa tem também responsabilidades em termos de proporcionalidade dos proventos e o que se passa no Sporting merece reflexão. Prefiro presidentes remunerados a não remunerados, mas é preciso ter a noção das realidades. E o futebol distancia-se muito depressa delas.
EXAME
HARRY KANE
19
‘Bola de Ouro’ depois de uma época (25-26) de grande rendimento. Merecido!
PRESTIANNI
17
O jogador do Benfica que mais evoluiu
FPF
10
Pré-convocatória sem nomes?!!! A pensar…
RUI BORGES
8
O Sporting perdeu a confiança. E agora?"

Sem comentários:
Enviar um comentário
A opinião de um glorioso indefectível é sempre muito bem vinda.
Junte a sua voz à nossa. Pelo Benfica! Sempre!