Últimas indefectivações

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Que seja, pelo menos, parecido com o ano anterior... em tons vermelhos!!!


Luís Tadeu: o presidente que nunca foi... presidente do Benfica

"Pese embora tudo o que leio, tudo o que vejo e tudo o que ouço, acredito que o TRI tem todas as possibilidades para estar mesmo a caminho.

Nesta época natalícia, em que as consoadas amenizam e nos distraem das emoções fortes do futebol, fazendo parecer que os jogos a doer ainda estão muito distantes (quando faltam, apenas, 2 dias para isto continuar a levar uma grande volta), é tempo de fazer justiça a alguém que, num momento menos feliz, os sócios do BENFICA preteriram... a favor de outro candidato.
Embora tenha a honra de ser seu amigo, desde então, revi Luís Tadeu, no jantar de Natal dos órgãos sociais do Sport Lisboa e Benfica, para o qual Luís Filipe Vieira convidou muitos dos que serviram o Clube, como foi o caso do Professor, como ex-Vice Presidente-Adjunto para a área da gestão.

A conversa
CORRIA a época de 1996/97 e cruzava-me com Luís Tadeu, no camarote presidencial do antigo Estádio da Luz, para onde éramos convidados, os dois, para assistir aos jogos do BENFICA.
Tínhamos, como ainda hoje temos, os nossos lugares cativos, mas a simpatia da Direcção levava-nos onde nos iríamos conhecer.
Num desses dias, fui surpreendido pelo desafio de passar uma tarde lá pelo seu escritório, para me explicar qual o projecto que achava que devia ser concretizado no BENFICA.
Foi assim que, a 30 Abril de 1997, passei algumas das horas mais interessantes da minha vida a falar do BENFICA, enquanto ouvia e me fascinava com o projecto que Luís Tadeu tinha para o Clube.
Estava lá tudo o que tinha pensado.
Mas estava lá muito mais, que havia sido pensado por ele.
Depois de mais de duas horas a ouvir falar sobre um BENFICA com um grande futuro - lembro-me como se fosse hoje - lancei-lhe o desafio: «Mas tem consciência que só você poderá concretizar este conjunto de ideias? E, sabendo disso, será candidato nas próximas eleições, ocorram elas quando ocorrerem?»
À primeira das perguntas respondeu que sim, tinha consciência que seria um dos... E à segunda disse-me que teria sempre que avaliar o que estaria em causa...
Cedo percebi, como todos, que o momento de Luís Tadeu se aproximava a um ritmo vertiginoso.
Saímos dali para o Estádio da Luz para vermos as meias-finais da Taça de Portugal, frente ao Porto, em que o BENFICA venceu por 2-0.

A decisão
NO início da época seguinte, 1997/98, quando o campeonato parecia fácil, pelo calendário que teríamos, o que receávamos - depois do desfecho menos favorável da temporada anterior - aconteceu...
Com resultados cada vez menos vantajosos e com as consequências no Clube que também deles advieram, Manuel Damásio recusou continuar e convocou eleições para os órgãos sociais do BENFICA. Seriam a 31 de Outubro e durante alguns dias esperei com impaciência a decisão que Luís Tadeu iria tomar. Não porque pensasse em poder, sequer, ser convidado para alguma coisa, mas porque, do que ouvira, do que lera, do que analisara, a eleição de Luís Tadeu seria uma grande mais-valia para o BENFICA.

O convite
LUÍS TADEU, decidiu, naturalmente, ser candidato. Recebi a notícia, através de um telefonema de Susete Abreu. Que me disse, ainda, numa nota de fim de conversa, que o Professor quereria falar comigo.
O que aconteceu, passados, dois dias, para me dizer que, face ao meu desafio, queria contar comigo, na lista. Mas o convite não era para um lugar qualquer. Seria para Vice-Presidente para o Futebol. Ou seja, para o ajudar a ele, no que soubesse e pudesse, em conjunto com todos os que depois fizemos parte dessa Lista, a concretizar todo o projecto, capaz de fazer o Benfica crescer para o nível dos melhores da Europa. 

O programa
O programa de Luís Tadeu era esse mesmo. Academia, formação, modelo de jogo, integração e responsabilização vertical de toda a estrutura profissional do BENFICA... muito do que é hoje, no Seixal, o filosofiado Caixa Futebol Campus... com 15 anos de avanço.
Foi isso que Luís Tadeu prometeu. Como foi com esse projecto, com essa liderança, com essas ideias, com essa pessoa, que todos, sem excepção, nos comprometemos. Com o orgulho de quem pensava estar um bom par de anos à frente, em relação ao que se fazia em Portugal, e a acompanhar o que se fazia em alguns clubes da Europa (v.g., Ajax e Barcelona).

A campanha
A campanha correu como nunca esperei. Com a conivência de tantos em relação ao que sabia poder acontecer. Ou melhor, com o que era inevitável vir a acontecer. De tudo e para tudo fomos alertando. Mas a onda mediática queria que alguém que desse mais primeiras páginas fosse eleito. A tudo fui assistindo, boquiaberto perante tanta pressão de quem deveria ser imparcial, levando os sócios do BENFICA a votar como votaram. Para além da conivência de outros, com grandes responsabilidades na eleição de quem nunca deveria ter sido Presidente do BENFICA. Mas isso... são contas de outro rosário... para contar noutra altura, onde tais revelações ou recordações sejam mais aconselháveis (e úteis).
Ou seja, entre um projecto e uma aventura, os sócios do BENFICA, livres como sempre, não escolheram o melhor caminho. Eu sei que hoje não se encontra quase ninguém que assuma ter votado por essa solução, tanta é a vergonha de a terem viabilizado. Mas lá que votaram... votaram!

A (não) eleição
NO dia da eleição, aconteceu de tudo. Até o que não devia acontecer, com quem não devia acontecer. Outras contas de outro rosário... também para contar noutra altura, onde tais revelações ou recordações sejam mais aconselháveis (e úteis).
E Luís Tadeu - que deveria, por todas as razões, ter sido eleito Presidente do Sport Lisboa e Benfica - acabou por perder, perdendo, com ele, o Benfica, muitos anos. Que não demoraram apenas três anos a recuperar desse mandato de... muito infeliz e de menor lucidez - para sermos simpáticos com os que lá estiveram e com os que neles votaram.

O benfiquismo
NUNCA, em toda a minha vida eleitoral - e muitos são os actos a que concorri, muitos mesmo - me custou tanto perder uma eleição; Pelo que sabia que isso iria significar. Pelos danos que iria causar no clube. Porque, se ninguém foge da sua sombra, não seria possível ao Presidente eleito ser diferente do que tinha sido até ali, em tudo o que o conhecia.
E estava tão à vontade que também ele me tinha convidado para ser Vice-Presidente, na lista dele (na presença de um amigo comum, Manuel Menezes Morais, em conversa que transmiti a Luís Tadeu), convite que, obviamente, recusei, por prever (quase saber) o que iria acontecer.
Mas nunca ouvi de Luís Tadeu um reparo a quem, sendo soberano - os sócios - votaram por tudo aquilo que ninguém queria, incluindo, se soubessem, os que tinham votado na solução vencedora. Convivendo com a injustiça democrática com a maior disponibilidade para ajudar... o BENFICA.
Como há alguns Filhos de Reis e Pais de Reis que nunca reinaram, também aqui diria que a história, no BENFICA, cometeu um dos seus maiores erros eleitorais dentro de um clube.
Respeitamos a democracia e a maioria em cada momento, mas isso não nos impedirá de dizer que o facto de Luís Tadeu não ter sido eleito Presidente do Sport Lisboa e Benfica foi dos maiores prejuízos que nos infligimos a nós próprios.
Para que haja memória e para que fique feito o desagravo (por mim, em público, que o devia a mim mesmo, em privado).

2016
VOLTANDO ao futebol, vou-vos confessar que - pese embora tudo o que vejo, tudo o que leio, tudo o que ouço - acredito que o TRI tem todas as possibilidades para estar mesmo a caminho!
Apenas... acreditar no BENFICA.
Vamos a isto?
Um 2016 fantástico para todos (com o TRI para quem é GLORIOSO)!"

Rui Gomes da Silva, in A Bola

A festarola dos milhões

"2015 acaba com contratos fabulosos sobre direitos de transmissão e outros que quase atingem € 1.500 milhões.
Como sempre, dois pontos emergiram: um, o Benfica ser o pioneiro (foi assim, com o seu canal, o museu e outras inovações); o outro, a obsessão de os seus oponentes terem sempre como bitola o que é alcançado pelo SLB. O SCP até juntou alhos com bugalhos para dizer que é o melhor, como se fossemos todos uns indigentes mentais.
Com serenidade e quando soubermos todos os pormenores, ver-se-á, tudo somado e discernido, que o SLB é mesmo o primeiro. Aliás se o mercado reflectisse fielmente as audiências dos 3 (como deveria) a distância seria maior.
Com estes contratos, quem sofre é a competitividade da nossa débil Liga. Tanta discursata de solidariedade e, no fim, o fosso aumentará.
Como benfiquista, fico satisfeito. Como português, fico preocupado. O país onde há centenas de milhares de desempregados, onde o salário médio é dos mais baixos da Europa, onde 20% da população é pobre, vai olhar para este eldorado com espanto. Um pouco abaixo da rica Alemanha e da França (per capita, nem vale a pena falar...). Bem sei que este aumento o é, também, por boas razões: acabou o privilégio monopolista de uma entidade intermediária (para o que muito contribuiu a Benfica TV) e passámos a ter um cheirinho de mercado, ainda que imperfeito, através de um duopsónio das operadoras de telecomunicações. 
Falta saber a factura final: a do consumidor. Porque não há contratos fabulosos grátis. O que há é um terceiro pagador que não é ouvido nem achado."

Bagão Félix, in A Bola

Futebol português não tem liderança

"Há um problema muito grave de liderança no futebol profissional em Portugal. Não é só um problema pessoal de Pedro Proença, mas um problema estrutural.
A verdade é que depois do 25 de Abril, o FC Porto conquistou o poder desportivo e o poder político do futebol profissional em Portugal. Vieira teve, depois, o enorme mérito de trazer o Benfica de um tempo de degradação desportiva e de personalidade, tornando o futebol nacional bicéfalo. Agora, Bruno de Carvalho trava uma luta sem misericórdia a quem se lhe opõe para trazer o Sporting para o patamar daqueles que mandam e influenciam o futebol profissional de Portugal.
Neste quadro, e perante uma plateia pouco activa e nada esclarecida de presidentes que, acomodados, se acobertam sob o chapéu de chuva dos grandes clubes e dos seus líderes, a Liga tem apenas uma existência funcional e administrativa.
Daí que nenhum dos médios ou dos pequenos clubes do desequilibrado futebol português estivesse, de facto, preparado para a grande explosão dos valores dos novos contratos dos direitos televisivos. É verdade que o Benfica foi a referência, que o FC Porto e o Sporting souberam apanhar a boleia, mas a inexistência de um sindicato de pequenos e médios clubes proporciona o verdadeiro negócio das operadoras, que poderão ter os jogos dos grandes, fora de casa, a preços de saldo. Será esse o seu negócio, para desespero e impotência da maioria dos clubes e da sua ineficaz Liga.
Já agora, como será possível, no meio deste salve-se quem puder, garantir a subsistência dos pobres clubes da nossa Segunda Liga?"

Vítor Serpa, in A Bola

TV loucas

"A sucessão de negócios é a sucessão do pasmo. MEO e NOS comprometeram-se em pagar valores para os próximos anos aos clubes de futebol como nunca tinha sido pago. Já aqui escrevi como as operadoras se tornaram nos bancos destes clubes. Mas só agora vemos o filme todo. E é um filme que começa bem. Esperemos que não acabe mal.
Começa bem porque é muito dinheiro. Mais do que comparar qual dos clubes fez o melhor negócio, ressalta o volume face ao que se pagava antes. Houve uma revalorização total dos conteúdos televisivos de futebol. Os clubes maiores beneficiaram disso. Mesmo que isso venha a resultar, no futuro, em preços mais caros da MEO e da NOS (é difícil compreender tamanho investimento de outra forma), os clubes recebem agora muito mais. Os clubes, não: para já, os maiores clubes. Manuel Machado tem razão: o fosso entre os grandes e os demais vai crescer. E isso retirará competitividade à Liga. Provavelmente, também retirará espectadores aos estádios: ficam a ver pela TV.
A MEO e sobretudo a NOS provavelmente perderam a cabeça quando começaram a passar cheques desta maneira, mas isso é lá com os seus accionistas. A Liga de Clubes foi completamente ultrapassada no processo de centralização de direitos. E o poder da Liga passa a estar em empresas patrocinadoras. Na prática, estes operadores de comunicações estão a pagar para terem mais clientes e mais audiências. Para isso, a Liga tem de ganhar qualidade. Que o dinheiro sirva para isso, e não para criar duas divisões dentro da primeira."

Ver para lá dos milhões

"Nos últimos dias uma grande parte da discussão do futebol em Portugal centrou-se nos acordos entre as operadoras de telecomunicações e os grandes clubes. Depois do Benfica, também FC Porto e Sporting fecharam contratos 'milionários' e, tratando-se de futebol, mesmo fora de campo, grande parte dos argumentos foram esgrimidos sem grande lógica e debaixo da clubite com que normalmente se discutem os penáltis marcados ou por marcar. É o que temos. Houve, é justo dizê-lo, boas análises e bons artigos sobre o que está em causa. O leitor quando tiver este texto à frente já possui muita informação. O que pretendo é ver, em alguns dos itens, um pouco mais longe.
1) Até 2018, altura em que os jogos do FC Porto estarão garantidamente na SportTV, tudo ficará na mesma. E depois dessa data? Avançará o MEO com um canal de desporto próprio, tentando captar ligas estrangeiras entretanto no mercado? E pode avançar antes, de forma mitigada, se comprar direitos de clubes mais pequenos e emitir os jogos (imaginemos um Boavista-Benfica) na Bola TV ou noutro canal próprio? Isso, sim, seria disruptivo na oferta. Em qualquer dos casos no fim a conta será paga pelo subscritor.
2) Pedro Proença leva à risca como presidente da Liga a máxima que costumamos aplicar aos árbitros: "O melhor é não dar por ele." Falhado o objectivo da centralização (global), Proença tinha todos os outros jogos de todos os outros clubes em casa face aos grandes. Fez zero. Não tem competência para o lugar.
3) Os acordos em geral são bons, muito bons até. Melhor o do Benfica porque não tem dentro nem a publicidade estática nem o patrocínio nas camisolas, mas todos os clubes negociaram bem. Dito isto, não vão entrar 400 ou 500 milhões na tesouraria de ninguém amanhã. Os números foram óptimos para a comunicação mas, por alguma coisa, os acordos são de longo termo.
4) A duração, aliás, é uma das questões centrais deste processo. Há 10 anos o acesso aos conteúdos era feito de forma radicalmente diferente, não havia redes sociais, quase não havia smartphones, não havia tablets. O conteúdo e a sua distribuição é e será a chave no futuro. Bom, há dez anos o futebol já arrastava multidões e previsivelmente assim será daqui a uma década. No entanto, contratos tão longos constituem actos de gestão com risco. De ambos os lados. Mesmo que saibamos que as partes se podem sentar a qualquer momento e renegociar condições.
5) A noticiada 'morte' de Joaquim Oliveira, agora desdenhosamente tratado como 'o intermediário', é exagerada. Oliveira fez o que os outros não fizeram durante décadas, é accionista da Sport TV, tem um papel importante e vai continuar a ter. Diferente, mas importante. Certo e sabido."

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Um lugar na história do Benfica

"Chegou envolto em desconfiança para um clube que vivia ainda sob os efeitos do período mais negro da sua existência. Luisão começou por ser a quimera de um novo ciclo na Luz mas não capitulou à dúvida; mastigou a impertinência das considerações precipitadas, venceu a hostilidade, sobreviveu às areias movediças em que teve de caminhar e afirmou-se como um dos melhores centrais da história do Benfica. Sabemos hoje que esteve sempre um passo à frente das recriminações de que era alvo: talvez não tivesse qualidade para jogar no Benfica e já era internacional pelo Brasil; quando todos desacreditavam na conquista do título em 2004/05, ele prometeu-o depois de uma derrota em casa com o Beira-Mar; ninguém lhe atribuía particular influência no grupo e já era um dos líderes do balneário; dias depois de alguns terem anunciado a derrota por velhice, superou as brumas de desencanto, reergueu-se e reassumiu o papel na equipa como se tivesse 25 anos.
Há um brilho especial e ainda uma perspetiva de futuro no crepúsculo de Luisão como jogador. A caminho dos 35 anos, é tempo de render tributo a um defesa que, não satisfazendo todas as exigências de clássicos, puristas e académicos, se impôs pela eficácia dos grandes. Mesmo fugindo à estética pomposa dos antepassados mais distintos, como herdeiro de uma dinastia composta por Félix, Germano, Humberto Coelho, Mozer e Ricardo Gomes, já ninguém ousa negar-lhe um lugar entre os maiores de sempre. Em pleno século XXI, é o alicerce máximo do conhecimento do clube e da identificação com os adeptos. Mais do que um soldado de elite, é o fiel depositário de um passado glorioso, o estrangeiro com mais temporadas de águia ao peito e quem mais vezes a capitaneou, razão pela qual, por assiduidade e liderança, já se instalou no patamar sagrado da história benfiquista.
Como qualquer defesa que se preze, sobrepõe o rigor do ofício à tentação de divagações líricas que só servem para dispersar a concentração e desvirtuar os fundamentos da tarefa; orienta-se pela necessidade de ser o polo aglutinador do seu exército e não por alimentar o recreio inconsciente de quem vive sob regras apertadas de segurança e responsabilidade. O futebol é um desporto democrático, porque nele é possível ser grande abdicando de qualidades consideradas relevantes, algumas até indispensáveis. Há grandes craques rápidos e lentos; corajosos e medrosos; gordos e magros; altos e baixos; artistas e lutadores; fortes e frágeis; velhos e novos... Mas ninguém pode prescindir da inteligência. Luisão tornou-se menos contundente, mais sóbrio e um foco de estabilidade para toda a equipa. A caminho do fim da carreira, aproveitou o tempo para consolidar maturidade e prudência; depurar o entendimento estratégico do jogo, moderar os ímpetos mais temperamentais e curar os males do exagero.
O capitão venceu todos os títulos conquistados pelo Benfica no novo século - e nesse período nenhum outro jogador encarnado se aproximou das 12 temporadas que leva de águia ao peito. Em mais de uma década, revelou a exuberância de uma autoridade plena: táctica dentro das quatro linhas e moral como símbolo do clube que se impõe a todos os agentes do jogo. Cúmplice principal de Jorge Jesus nos seis anos que mudaram o futebol português, ninguém como ele assimilou e transmitiu princípios e ideias; sustentou cumplicidades e propagou demais segredos de forma e conteúdo. Muito do funcionamento da equipa, incluindo agora com Rui Vitória, depende da sua acção, da sua voz, da sua liderança. Luisão pertence à estirpe de futebolistas que não ganham jogos sozinho. Mas ao fim de 12 anos em Portugal, é consensual a ideia de que muitas vitórias e títulos do Benfica só foram possíveis porque ele estava em campo."

'Boxing' e 2016

"Por cá, não há boxing day. O boxing é outro, ora protagonizado nas redes sociais e não só. Este ano, o boxing day inglês brindou-nos com grandes jogos. Derrotas do surpreendente líder Leicester, desastres do Arsenal e do Man. United, empate do Chelsea com novo técnico e a 2 pontos da linha de água. Dois dias depois, nova jornada. Só mesmo na Inglaterra, onde escasseia o lugar para fitas, espertezas e saloices. Assim sim: viva o futebol!
Por cá, o ano acaba com a excitante Taça da Liga. A tal que é aparentemente desprezada por FCP e SCP, enquanto não a ganharem. A corrida ao ouro televisivo aí está em todo o seu esplendor, o ano termina com uma invejável distinção internacional para as estruturas de formação do SLB.
E, para começar o novo ano, com matéria para informar, especular e discutir, lá vem mais um mês de bons retornos para os intermediários do futebol. Compra-se e vende-se a retalho e por atacado, a pronto pagamento e por fatias, spot e no mercado de futuros, por generoso empréstimo e por cedência parcial do passe, que não do atleta.
2016, ano de Europeu, agora tão democratizado que quase só lá faltam as Ilhas Féroe e o renegado Platini (finalmente...). Pena ser em França, onde não costumamos ser felizes, ainda que levando Eliseu. Por falar em Eliseu, falta a Holanda apesar de Hollande lá estar. E também não haverá árbitros portugueses. Alguém se admira por isso?
Em 2016, prevejo que se escrevam tratados sobre a bola na mão e a mão na bola, assim como a arte de cotovelar e de se fingir cotovelado ou com dor de cotovelo. Talvez assunto para uma próxima crónica."

Bagão Félix, in A Bola

Falou-se mais de futebol

"Bruno de Carvalho não é propriamente um dirigente que consiga estar muito tempo em silêncio. Mas daí fazer uma viagem até ao Algarve para falar mais do mesmo, da rivalidade com Benfica e FC Porto, que todos os dias faz questão de vincar, é demais. O Clube de Ciclismo de Tavira merecia mais respeito, a modalidade que vai voltar a receber os leões, também. Falou-se mais de futebol do que propriamente da parceria entre Alvalade e a mais antiga equipa do Mundo. É certo que foi confrontado com as perguntas dos jornalistas, mas o presidente do Sporting é suficientemente inteligente para, educadamente, recusar responder a questões que não dissessem respeito, afinal, ao que verdadeiramente o levou ao Sul do país. Por outro lado, Bruno de Carvalho sabe como ninguém usar as redes sociais para mandar farpas aos rivais. Não precisava de ter feito tantos quilómetros."

Ana Paula Marques, in Record

Até ao fim...

Benfica 1 - 0 Nacional

Ederson; Sílvio, Lindelof, Lisandro, Eliseu; Cristante (Sanches, 46'), Samaris, Pizzi, Carcela; Talisca (Jonas, 56'), Mitroglou (Jiménez, 75') 

Mais um jogo com muito sofrimento, decidido nos últimos minutos.
Cometemos muitos erros infantis, com passes errados, desconcentrações, que acabaram quase sempre por oferecer ao adversário oportunidades de marcar... Ofensivamente, continuámos a demonstrar dificuldades no último terço... a entrada do Jonas, acabou por alterar muita coisa...

Além dos lesionados, por opção muitos titulares ficaram de fora. Dos actuais titulares jogaram o Lisandro (o nosso jogador em melhor forma...), o Eliseu, e o Pizzi... neste momento o Samaris e o Mitro para mim, não são titulares!

Até não começamos mal, mas com o minutos fomos perdendo o controlo do jogo a meio-campo, mesmo assim falhámos alguns golos feitos - Carcela por exemplo... -, o início da 2.ª parte foi muito mau, a equipa fiquou inquieta, e só com as substituições melhorámos...
Estes jogos após mini-férias são 'perigosos', existe sempre alguma descompressão com as 'festas' e viagens... este jogo acabou por ser um bom 'aviso' para o jogo de Sábado em Guimarães, onde vamos ter mais uma vez um obstáculo gigante chamado: Xistra!!! 

Demos um passo importante para a qualificação para as Meias-finais da Taça CTT, mas o jogo em Moreira de Cónegos vai ser uma autêntica final...

PS: Nos últimos dias, têm sido feitos anúncios mirabolantes sobre a venda dos direitos televisivos e afins!!! Comparando o 'pacote' do Benfica, com os outros, é evidente que o Benfica fez de longe o melhor negócio... mesmo assim, tendo em conta a dimensão e o real valor de marcado dos Lagartos e dos Corruptos, acho que eles fizeram contratos muito inflacionados, mas isso não quer dizer que vão ganhar mais dinheiro que o Benfica.
Basta fazer as contas: se fizermos a comparação directa, daquilo que foi cedido pelos três Clubes, a conclusão é clara. Se o Benfica tivesse vendido em 'pacote' juntamente com os Direitos Televisivos e os direitos de transmissão da BTV: as Camisolas, a Pub do Estádio e o Naming, por 12,5 anos, com os actuais valores contratualizados (ou no caso do Naming, os valores prováveis), então teríamos anunciado um contrato próximo dos 800 milhões de euros!!!!! Sim, próximo dos 800 milhões de euros!!!!
Mesmo assim o histerismo parece que chegou à Gloriosasfera...!!! Aconselho, a fazerem as contas, em vez de 'comerem' toda a palha que a descomunicação social anda a dar...!!! Mas como a cassete do anti-Vieirismo básico, agradece a desinformação, é melhor deixar andar...!!!
Aliás o pior contrato é claramente o Lagarto, que manhosamente anunciou o valor supostamente mais alto!!! Pois os Corruptos só venderam as Camisolas por 7 anos e meio...!!! Mesmo assim o Badocha já veio na sua habitual prosápia mentirosa enganar quem quer...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O primeiro a vermelho e verde...

"Vamos hoje muito atrás. Até 1908, mês de Outubro. O Benfica já é Sport Lisboa e Benfica e o Sporting já joga de verde e branco. Duplamente inédita, portanto, a compita. E com um toque de vingança 'encarnada'.

Regressemos aos Benfica-Sporting! Vale sempre a pena. E este é especial por causa das cores. Isso mesmo: por causa das cores. E dos nomes!
Vamos então até ao dia 25 de Outubro de 1908.
Aí já não era Sport Lisboa e sim Sport Lisboa e Benfica.
Ou seja, estávamos perante o primeiro autêntico Benfica-Sporting. E assim mesmo: Benfica-Sporting, porque jogado no Campo da Feiteira, ali junto à igreja de Benfica. Onde isso já vai...
Disputava-se a segunda jornada do Campeonato de Lisboa, e ambos vinham de vitórias na primeira: a do Benfica mais folgada (6-0 ao Ajudense); a do Sporting mais pragmática (1-0 ao União Belenense). Também onde já vão tais adversários.
Sonhavam os de Belém/Benfica (não esquecer as origens!) com a primeira vitória sobre os irmãos fugidos, encantados pelas ofertas de mãos largas dos seus adversários. E eles continuavam por lá, do outro lado do campo, agora com as vistosas camisolas bipartidas, metade verdes, metade brancas, imaginadas por Eduardo Quintela de Mendonça, conhecido por Farrobo, e importadas especialmente de Inglaterra para todos os atletas de todas as modalidades do clube.
Foi, por isso, também o primeiro Benfica-Sporting a vermelho e verde, já que nos anteriores, ao garrido encarnado do Sport Lisboa, opusera o Sporting um sóbrio equipamento intocavelmente branco, com excepção do oval emblema verde de leão ao centro. Os calções sportinguistas continuavam, para já, brancos. Os pretos surgiram apenas em 1915, por sugestão do jogador Raúl Barroso.
Era assim um jogo duas vezes inédito! Só por isso merece aqui a croniqueta semanal deste que se assina. Com ajudas, claro! Quando vamos em busca do tempo perdido precisamos de ajuda. E a que aqui utilizo é da boa, de luxo!

O Sporting reclamou: quem diria?
Por muita pesquisa que fizesse, não encontrei muitos dados sobre este Benfica-Sporting, mas também mais de cem anos se passaram entretanto.
Socorro-me da «História do Sport Lisboa e Benfica», de Mário Fernando de Oliveira e Carlos Rebelo da Silva, encontrada em estado impecável num alfarrabista da Rua do Alecrim e que faz agora parte da minha bem fornida colecção de livros velhos e saborosos.
Bom apetite!
«O encontro começou ao meio.dia. Lançada a moeda ao ar, coube ao Benfica o direito de escolha do campo, tendo Cosme optado pelo lado norte do terreno do jogo. Dado pelo Sporting o pontapé de saída, o jogo caiu logo para o campo ocupado pela equipa 'leonina', que se manteve numa defesa denodada, na qual se salientou José Belo, jogador de muito mérito. Não se tornou por isso viável a marcação de qualquer ponto. Ao intervalo o resultado era de 0-0.
No segundo tempo, o Benfica abriu a série de golos e fixou-a em dois tentos, marcado um por Cosme Damião e apontado o outro por David da Fonseca. O resultado final foi, pois de 2-0.
As duas turmas tiveram a seguinte constituição:
SPORT LISBOA E BENFICA - João Persónico; Henrique Cosa e Leopoldo Mocho; Artur José Pereira, Cosme Damião e Luís Vieira; António Costa, David da Fonseca, Carlos França, Eduardo Corga e António Meireles.
SPORTING - Augusto Freitas; José Belo e António Neves Vital; Francisco Stromp, António Couto e Albano dos Santos; António Rosa Rodrigues, F. Amorim, Carlos Shirley, Cândido Rosa Rodrigues e Nóbrega e Lima.
Arbitrou Gastão Pinto Basto.
O Sporting reclamou o resultado do jogo, mas a reclamação não foi considerada procedente.»
A vingança consumava-se. E tinha requintes de malvadez. O ciclo de êxitos encarnados iria estender-se até 1915."

Afonso de Melo, in O Benfica

Benfica em modo sub-21

"A forma como o Benfica está a tentar retocar o seu plantel já para Janeiro, confirma e até acentua esta tendência sub-21 que está em acelerada implementação na Luz. O primeiro de todos os factores passou a ser a produção própria, made in Seixal, mas a ideia de rejuvenescimento vai-se alargando aos outros campos de recrutamento. Todas as compras previstas para este mercado de Janeiro, por exemplo, encaixam em absoluto na nova política.
Grimaldo, que Record fotografou ontem em Lisboa, é um jogador sobre quem recaem altíssimas expectativas. Tem apenas 20 anos e chega para discutir com Eliseu um lugar no lado de esquerdo da defesa. Um reforço claramente de futuro, mas que até pode ter oportunidades no imediato. O argentino Cervi, de 21 anos, é um caso semelhante. Com contrato assinado desde Setembro, o 'novo Gaitán' está a ser pressionado para embarcar de imediato para Portugal - embora o seu clube, Rosario, não esteja disposto a facilitar os planos do Benfica. Tem condições, tal como Grimaldo, para conquistar rapidamente o seu espaço.
E há ainda o surpreendente caso de Diogo Jota, de 19 anos. Está a ser uma das boas revelações deste campeonato, no Paços de Ferreira, e os responsáveis encarnados querem 'agarrá-lo' rapidamente. Ou seja, a fenómenos emergentes como Nélson Semedo, Renato Sanches ou Gonçalo Guedes, o Benfica quer juntar mais estes três 'dentes de leite', sem esquecer que na lista de compras das águias continuam Andrija Zivkovic (19 anos) e Branimir Kalaica (17), duas das maiores promessas do futebol sérvio e croata. 
Decididamente, Vieira é um presidente de ideias fixas. O tempo dirá se este era, ou não, o melhor caminho."

Assim se fez

"Experimentem escolher os 50 jogos mais marcantes da história do vosso clube e enfrentarão uma tarefa hercúlea. Primeiro há que definir critérios, logo depois serão atraiçoados pela memória - o que vos condenará a seleccionar os jogos que vivenciaram ou aqueles de que existe registo vídeo. O melhor mesmo é abandonar a tarefa.
Pois o João Tomaz e o Fernando Arrobas arriscaram escrever sobre os 50 jogos mais marcantes da história do Benfica e publicaram, por estes dias, 'Assim se fez Glorioso'. Uma visão criteriosa, naturalmente subjectiva, das 50 partidas mais marcantes do Benfica. O difícil, como bem sublinham, numa história tão longa não foi escolher, mas excluir. Os critérios foram ambiciosos: num clube com a grandeza do Benfica, só podiam constar jogos que fizessem parte de caminhadas vitoriosas. Ou seja, vitórias em competições nacionais que não se traduziram em conquistas de títulos no final do percurso ficaram de fora.
Resta-nos escolher os jogos mais marcantes da nossa história como adeptos. Pois eu que assisti a muitos dos encontros referidos e emociono-me com os relatos de outros que não vivenciei, percorridas as 50 partidas mais marcantes, inclino-me para uma distante, disputada em Fevereiro de 1907, na qual uma equipa só de portugueses, de extracção popular, colocava fim à invencibilidade dos ingleses do Carcavellos, que durava havia nove anos. A razão é simples: a médio-direito jogou o meu tio-avô, que infelizmente não conheci. Tendo crescido numa família em que o futebol é tema estranho e desinteressante, talvez tenha sido essa inscrição genética que me fez benfiquista fervoroso."

Grimaldo

É oficial, Grimaldo é reforço do Benfica. Jovem formado no Barcelona, com passado nas Selecções jovens Espanholas. Uma lesão grave acabou por atrasar a sua evolução... Aquilo que se vê nos vídeos, é promissor, mas o nível competitivo das divisões secundárias Espanholas deixa algumas dúvidas, principalmente nas tarefas defensivas, já que ofensivamente parece-me claramente um bom jogador. Eu não faço parte do coro histérico anti-Eliseu! Tem jogos maus, mas também tido alguns jogos bastante razoáveis, principalmente nos jogos 'grandes'... e por acaso o Eliseu até tem sido mais consistente a defender do que atacar...!!!

O dia em que a pitoresca vila de Sintra foi toda do Benfica

"Vestiram as janelas dos comboios de 'encarnado' e esgotaram as queijadas em Sintra. Os benfiquistas estavam em festa!

A época 1942/43 correu bem ao Benfica. Em Maio conquistou o Campeonato Nacional e um mês depois arrecadava a Taça de Portugal, após uma vitória por 5-1 frente ao Vitória de Setúbal. Tamanho empenho merecia ser rematado com pompa e circunstância, por isso, num quente Domingo de Julho, foi organizada uma excursão a Sintra para homenagear os jogadores do Benfica. O plano de festas era variado e incluía um almoço no parque municipal, jogos de hóquei em patins e um desfile de um dezena de ciclistas da secção de cicloturismo do Clube. A festa prometia!
Na manhã de 19 de Julho, cerca de quatro mil pessoas saíram do Rossio em direcção à pitoresca vila. No interior dos comboios iam adeptos e simpatizantes dos 'encarnados' de sorriso no rosto e farnel no colo, e nas janelas as bandeiras que se agitavam ao sabor de vento não deixavam lugar para dúvidas: ali dentro ia o Benfica. Mas não era apenas no interior das locomotivas que se fazia a festa! Lá fora também se manifestava benfiquismo, como aquela senhora que, da janela de sua casa, agitava freneticamente um xaile vermelho, como que em resposta às bandeiras que vestiam o comboio.
Chegada a Sintra, a multidão inundou a vila, que se encheu de invulgar entusiasmo. Uns aproveitaram para esticar as pernas e passear, outros fizeram fila à porta das pastelarias locais para fincar o dente nas famosas queijadas que, num piscar de olhos, esgotaram. Mas eis que chegam os jogadores! As bandeiras agitam-se no ar, a banda dos bombeiros locais inicia o seu reportório e os aplausos parecem não por fim. Os campeões chegaram. Podia começar a festa!
A sessão solene foi feita no salão nobre dos Paços do Concelho e transmitida por altifalante instalados nas janelas do edifício, para que todos a pudessem acompanhar. Terminadas as boas-vindas, começou a procura do melhor lugar no parque municipal para o almoço que terminou em grande farra com brindes e discursos de agradecimento. Entre as vozes que se fizeram ouvir estava a de Cosme Damião, que incitou os jovens desportivas e fazerem 'sempre mais e melhor pelo prestígio do Benfica'.
os troféus destas conquistas estão expostos nas áreas 5. A 'Taça' e 6. Campeões, sempre do Museu do Benfica - Cosme Damião."

Marisa Furtado, in O Benfica

Reconhecimento

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Outros contornos (ou voos) da águia

"O meu benfiquismo tem-me oferecido muito mais que a fantástica emoção de ver a bola a correr e os nossos, as 'papoilas saltitantes' que Piçarra imortalizou, marcarem com arte e génio os golos da nossa felicidade.
Há um outro Benfica. Ou melhor: o SLB também é isto, e por isso grande. Uma realidade sociológica que se entrelaça com a nação. Deixo-vos algumas histórias que até hoje guardei.
Raramente me provocam por um dia ter revelado a minha paixão, quando tantos artistas, que receiam não agradar a todos, o evitam. Não vejo o futebol como uma trincheira, mas apenas como uma escolha que nos acompanha pela vida fora. Os meus diálogos são cordatos, mas sei defender a minha dama. Há uns tempos, na Facebook, alguém pretendia enlamear a história do 'glorioso' invocando que o nosso clube fora levado ao colo pelo Estado Novo. 'Se não fosse o Salazar, outro galo cantaria!', li.
A ignorância revela mais prosápia que justeza. Expliquei ao incauto que foi o inverso que amenizou o isolamento que nos tolhia nesses tempos sombrios. Porque uma 'pantera negra'. Eusébio, nos levou ao cume do futebol mundial. Invoquei a verdade histórica, que o regime se encostara ao Benfica e não o inverso: noutra disciplina, Amália vivenciou o mesmo aproveitamento. Duas Taças dos Clubes Campeões Europeus valeram muito para essas gerações aprisionadas: a águia voava e Portugal revia-se na glória do SLB.
Na década de 90, os UHF estiveram uma semana em Luanda para dois concertos. Quando passeávamos por um jardim, vi um magote debruçado sobre um jovem segurava um jornal desportivo português.
Mais perto, foquei com admiração o cacho de rapazes e homens que pendia sobre as páginas de A Bola, a leitura da crónica do último jogo do Benfica: um par de mãos segurava o lençol da malta. Perante a minha estupefacção, um dos elementos que acompanhava a comitiva UHF disse com naturalidade: 'É sempre assim com A Bola, por causa do Benfica'.
Anos mais tarde sorri com o desabafo assertivo do escritor António Lobo Antunes sobre os tempos da guerra em África. Claro que éramos todos do Benfica, dizia numa entrevista. Dava muito jeito às tropas os jogos ao domingo. Nessa hora e meia, acrescentava, nós e eles, os dois lados da guerra, ficávamos a ouvir a correria do Artur Agostinho a relatar o jogo e os tiros calavam-se para ouvir o que ele dizia, à espera do golo e da gritaria nos dois lados da trincheira. O Benfica além de todas as fronteiras.
Quando, na temporada de 2004/2005, nos sagrámos campeões, fui até à cidade de Baar, na Suíça, sem os UHF, para celebrar mais uma conquista. Nessa noite perdi a conta às vezes que cantei o Sou Benfica, mas recordo que acabei a actuação com metade da sala no palco a berrar 'Sou, soou Benfiiicaaa', trajados a rigor, camisolas, bandeiras e cachecóis, como a se a Luz coubesse ali. Os copos cheios subiam ao alto e as lágrimas corriam sem disfarce, lágrimas de alegria naquela ponte que o Benfica mantém com este país de saudade e saudades. A nossa alma cheia. No dia seguinte aterrei na Portela e corri para outro check in rumo à Madeira, onde estava programada mais uma festa encarnada: os UHF aguardavam-me já na sala de embarque. Era domingo.
A meio do voo, somos informados pelo comandante de que o Benfica perdera a Taça de Portugal para o Vitória de Setúbal. Encafuado no assento, meditei sobre o clima que nos iria esperar no Caniçal, onde um grupo de benfiquistas queria celebrar a conquista de mais um título. Fomos recebidos em ambiente morno, mas a organização mantinha o programa. Passámos pelo palco e testámos a aparelhagem sonora: esperavam-se umas 300 pessoas, apesar do desaire da tarde. A noite descia sobre o oceano, o clima estava ameno, confortável; deslocámo-nos a pé até ao restaurante, no centro do Machico. Ao longo do jantar reparei que a mesa ia crescendo com a chegada de notáveis, adeptos locais. As conversas subiam de tom, trocavam-se explicações para a perda da taça.
Antes do café, um dos organizadores chegou à mesa e disse-me, olhos nos olhos: 'Vamos ter de vos levar de carrinha, isto está tudo bloqueado, não sei de onde veio tanta gente. A pé, nunca mais lá chegamos'. 'E a potência da aparelhagem vai chegar?'. 'Tem de chegar, António, tem de chegar, não estávamos à espera de tanta gente: está tudo louco. Isto era uma festa para a malta do Caniçal, Machico e pouco mais'
(Nas cercanias da serra do Santo, ali perto, o grupo GNR, do meu querido Rui Reninho (portista que muito respeito), ficara quase sem público por causa da debandada que descera até à praia do Caniçal, disseram-nos no final da noite. O poder do SLB)
Nessa noite, além da vaga humana de vários milhares de adeptos, vi as sereias que sulcam o Atlântico dançarem ao sou do Sou Benfica."

António Manuel Ribeiro, in Mística

O "Ruço"

"Artur Correia marcou uma era ao serviço dos clubes que representou e da Selecção.

No Portugal dos anos 70, a única criatura de cabelos louros que ombreava com ele era a Tonicha. Apesar do pelo e dos olhos azuis muito pouco lusíadas, o 'Ruço' era um exemplo de raça. Vê-lo actuar, ora no Benfica, ora na Selecção, fazia-nos sentir mais benfiquistas, mais portugueses. Porque o 'Ruço' era o herói que morria em campo. Solidário. Tenaz. Quer a subir, iniciando jogadas que acabavam da melhor maneira nos pés de Eusébio, Artur Jorge, Jordão ou Nené, quer a descer e a ferrar os dentes no adversário.
Em 1977/1978, após seis épocas de encarnado e uma mão-cheia de títulos, foi para o Sporting. Custou vê-lo ir, de tão nosso que ele era. Mas interessa lembrar a seguinte verdade: ao intervalo dos jogos da sua nova equipa, a única coisa que lhe interessava era saber o resultado do 'Glorioso', de que se tornara sócio com apenas dois anos.
Internacional 35 vezes - 25 delas como jogador do Benfica -, deixou para a história do futebol português um golo épico à Noruega, em jogo de apuramento para o Europeu realizado no Jamor a 1 de Novembro de 1979.
No dia seguinte, correu a notícia do avistamento de um OVNI em forma de charuto na Madeira. Mas de nada se falou com tanto interesse como do golo do 'Ruço', arrancado quase do meio campo. Ele, sim, um verdadeiro charuto do outro mundo.
A 24 de Setembro de 1980 voltar-se-ia emotivamente a falar dele. Mas, desta feita, com tristeza. O herói do Jamor acabava de ser dado como perdido para o futebol.
Quando a TV noticiou o drama, antes de mais um episódio da telenovela brasileira Dona Xepa, lembro-me de, na verdura dos meus 12 anos, ter desejado que fosse 1 de Abril. Não era. E assim aprendi que só à traição se pode abater um lutador que avança e resiste quando todos os outros já caíram por terra. Como um tesouro, guardei para sempre a imagem do 'Ruço' a carcomer o relvado da Luz e a alcatifa do meu quarto, nos campeonatos de caricas.

- A primeira vez
Vindo do vizinho CF Benfica - o popular Fofó -, Artur vestiu pela primeira vez a camisola do SLB a 10/12/1967, num jogo do Distrital de Juniores realizado na Amadora frente ao Estrela. Sagra-se-ia, seis meses mais tarde campeão nacional da categoria.

- Aventura em Coimbra
As qualidades evidenciadas e a vontade de ser médico levá-lo-iam na temporada de 1968/69 até Coimbra. Reconhecidos os méritos, regressou ao Benfica durante o verão de 1971 e agarrou de pronto a titularidade.
- Começo em grande
Fez a 31/7/1971 o seu primeiro jogo, frente aos ingleses do Arsenal num encontro caseiro de carácter particular. No mês seguinte, conquistou em Cádis, diante do Peñarol, o prestigiado Ramón de Carranza."

Luís Lapão, in Mística

PS: Numa conversa em Marselha, na véspera da famosa meia-final da Taça dos Campeões Europeus, perguntava-se ao Ruço a razão da ida para o Sporting... os companheiros indagavam: 'eles pagavam mais?!!!', respondia o Ruço: 'pois, o problema era eles pagarem... acabei por perder dinheiro com a brincadeira...!!!'.
Uma das histórias mais engraçadas do Ruço (e são muitas...), é o dia em que assinou pelo Benfica, ainda Júnior. Estava a treinar no Fofó, quando alguém lhe disse para ir à Sede do SL Benfica, na Rua Jardim do Regedor assinar o contrato... saiu a correr do treino, e nem se lembrou de apanhar boleia ou um Táxi, foi de Benfica até aos Restauradores a correr... tanta era a felicidade!!!!

Milhões a mais

"Aos 400 milhões do Benfica, o FC Porto respondeu com 457 milhões. São, no essencial, contratos de direitos televisivos por 10 anos, aos quais se juntam alguns acessórios - exclusividade dos canais de clube, publicidade estática e, no caso dos dragões, o 'naming' da camisola - que só podem ser vistos como tal, acessórios. Porque o que está em causa são, de facto, os direitos de transmissão de jogos em directo. 
Quando olhamos para os números dos clubes espanhóis ou ingleses, coramos de vergonha. O último classificado da Premier League recebe actualmente por ano mais do dobro que Benfica e FC Porto irão receber nos milionários contratos que agora assinaram. Em Espanha, os valores pagos a águias e dragões são equivalentes aos recebidos pelas equipas do fundo da tabela. Mas será essa a comparação que devemos fazer?
O mercado televisivo português é minúsculo quando comparado com o inglês ou o espanhol. E, pior, a Liga NOS é anónima para os amantes de futebol para lá de Badajoz, pelo que os jogos do campeonato português interessam a pouco mais pessoas do que aos portugueses. Por isso, a comparação que deve ser feita é com os países com uma dimensão semelhante à de Portugal e com ligas de um nível idêntico.
Na Holanda, que tem quase 17 milhões de habitantes e muito mais dinheiro do que Portugal, os 18 clubes da Eredivisie recebem cerca de 83 milhões de euros por ano - Benfica e FC Porto sozinhos terão mais do que isso; na Bélgica, que tem 11 milhões de habitantes, o valor global é de 53 milhões; na Grécia, que tem sensivelmente a mesma população, o número é de 44 milhões.
Estes dados indiciam, no mínimo, que NOS e PT estão a valorizar o futebol português muito acima do que é a sua realidade, até porque será difícil convencer os adeptos a pagarem mais do que já pagam para ver a bola. Estamos a falar de apenas 17 jogos por temporada, a maioria dos quais sem grande história ou emoção, e que até podem ser menos se a Liga voltar a reduzir o número de equipas no primeiro escalão. Por isso, Benfica e FC Porto fizeram bem em aproveitar esta 'loucura' do mercado. Será que o Sporting vai a tempo de o conseguir?"


PS: Concordo na generalidade com esta crónica, também acho que o mercado português não vale tanto, a minha principal 'divergência' está na forma como se quer dividir à força o mercado a 3, quando só o Benfica vale no mínimo 55% do mercado!!!
Recordo o que se passou na Escócia, com a empresa que 'geria' os contratos televisivos a ir à falência...

domingo, 27 de dezembro de 2015

Facebook Arena, ponto!

"Jorge Jesus concedeu uma entrevista bem interessante a um jornal macaense chamado 'Ponto Final'. O título do jornal tem a sua graça tendo em conta que o presidente do Sporting termina por norma as suas frases orais com a palavra 'ponto!', proferida exclamativamente em modo de patrão. Como quem diz que a conversa acabou ali e que não se admite sequer discussão perante a evidência dos factos.
Já quanto aos seus pensamentos, transcritos quase diariamente na página pessoal da rede social que frequenta, o presidente do Sporting apenas utiliza o sinal gráfico do ponto propriamente dito porque, na realidade, seria uma redundância escrever 'ponto' e depois meter o sinal de ponto logo a seguir, embora ainda possa vir a acontecer, se é que não aconteceu já.
A verdade é que o presidente do Sporting dá-se bem com os pontos finais. Já com as vírgulas não se mostra tão à-vontade e também está no seu direito porque, neste mundo da comunicação, trata-se de uma arte mais exigente. E nestas coisas da bola até a pontuação tem o seu preço.
Dizem agora os especialistas na matéria financeira que fará falta ao Sporting o dinheiro que vai ter de pagar à famigerada Doyen em função da decisão do TAS sobre os meandros da transferência de Rojo. Na realidade, nem é preciso ser-se um grande especialista para concluir que aos clubes portugueses, nomeadamente aos grandes, fará falta sempre qualquer receita com que se contava em caixa e que tenha de ser devolvida por razões absurdas.
Veja-se o caso do Porto. Só abdicou de patrocinador para as suas camisolas porque a venda das camisolas de Iker Casillas tem gerado fortunas que lhe permitem dispensar os trocos. A venda do nome dos estádios parece ser agora a próxima fonte de receita dos clubes grandes. Romantismos postos de lado nesta era de crueza financeira, os adeptos conformam-se com a ideia - esta sim, uma ideia moderna - e fazem votos para que os líderes das suas respectivas SAD encontrem, no mercado internacional parceiros com nomes sonantes para o 'naming' dos seus estádios. Do lado do Porto e do Benfica, ainda nada transpira sobre este assunto.
Do lado do Sporting. tudo leva a crer que será Mark Zuckerberg o parceiro na calha para que, finalmente e fazendo-se justiça, Alvalade se passe a chamar rapidamente 'Facebook Arena'. Ou mesmo, 'Facebook Arena. ponto!'"