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domingo, 9 de agosto de 2020

“Uma vez fomos almoçar ao Barbas e bebemos demais. No treino da tarde alguns começaram a cambalear e o Toni mandou todos para o balneário”

"Aos 55 anos, César Brito ainda recorda com orgulho os dois golos que marcou ao FC Porto e que deram o título ao Benfica e lhe valeram a fama. O percurso de vida e de jogador começou na Covilhã, para onde regressou assim que pendurou as chuteiras. Nesta entrevista fala também dos filhos que morreram e da amizade que ganhou a um açoriano goleador

É beirão, nasceu em Barco, Covilhã. Fale-nos um pouco das suas origens.
Sou de uma família de oito irmãos. Tenho cinco irmãos mais velhos e duas irmãs mais novas. Uma família numerosa, como deve compreender, com muitas dificuldades no início, o meu pai teve de emigrar, esteve em França. Não foi fácil, mas nunca passámos fome. Sabe que na província temos hortas, animais, temos muita coisa para poder sobreviver.

Ficou sempre cá com os seus irmãos e a sua mãe, enquanto o seu pai esteve emigrado?
Sim, o meu pai vinha no verão, nas férias. Os meus irmãos mais velhos trabalhavam nas obras e eu depois quando tive idade também tive que ir trabalhar. Deixámos a escola mais cedo precisamente por isso, porque tínhamos de trabalhar, tínhamos de ajudar em casa.

Quando deixou a escola?
A escola era até à sexta classe, eu fiz a quarta e a quinta. A sexta já não a acabei.

Começou a trabalhar com quantos anos?
Com 12, 13 anos. Tinha de ajudar em casa também, assim como os meus irmãos. Comecei nas obras a acartar baldes de massa e a dar serventia aos artistas.

O que sonhava ser nessa altura?
Futebolista. Como deve calcular, era o que eu mais gostava. Eu fugia à escola e não ligava muito à escola por causa do futebol. Queria era jogar futebol.

Já torcia pelo Benfica?
Sim. Lá em casa só tenho um irmão que é sportinguista e o meu pai também era sportinguista. Todos os outros, até as minhas irmãs, era tudo benfiquista.

Quem eram os seus ídolos?
Para mim quem marcava mais golos era melhor. Na altura era o Nené, que não sujava os calções, nem a roupa, era um jogador muito elegante e fazia muitos golos. Nunca vi jogar o Eusébio. Era o Chalana e outros craques que tinha o Benfica.

Com quantos anos começou a jogar num clube?
Tinha 12 anos e comecei nos iniciados no Fundão. ADF do Fundão. Estive lá um ano e depois fiz juvenil no Sport Clube de Barco, na minha terra, e não estive nos juniores. Comecei a jogar seniores com 16, perto de 17 anos, foi preciso uma autorização dos meus pais para poder representar o Barco no distrital e foi assim que tudo começou.

Quando joga no campeonato distrital pelo Sport Clube de Barco já ganha dinheiro com o futebol?
Não, aquilo era a nossa terra, era por amor à camisola, não havia dinheiros, éramos amadores, não havia nada.

No ano seguinte passa para o SC Covilhã?
Não, fiz um ano no distrital e depois subimos à III divisão, fiz um ano na III divisão, comecei a fazer uns golos, a fazer umas coisas engraçadas e depois da III divisão é que fui para o Sporting da Covilhã. Com 18 anos.

Lembra-se quando começou a ganhar dinheiro com o futebol?
Lembro, foi no Sporting da Covilhã e fui ganhar 35 contos [175€]. Eu mais o meu irmão Inácio e o Quim Brito. O Inácio Brito e o Quim Brito, eram os meus irmãos.

O que fez ao primeiro dinheiro que ganhou com o futebol?
Já não me recordo. Naquela altura todo o dinheiro era importante para a casa e para as nossas coisinhas. 

Como é que vai parar ao Benfica? Não havia empresário na altura pois não?
Não, não havia empresários. Eu tive dois anos muito bons no Covilhã. No primeiro não subimos, mas no segundo subimos à I Divisão. Tínhamos uma equipa muita boa, com o Rui Barros, emprestado do FC Porto, e conseguimos subir. Eu fui o melhor marcador nesse ano, fiz uns golinhos, umas coisas boas, e pronto, depois surgiu o Benfica.

Quem é que lhe vai bater à porta?
Lembro-me que o presidente do Sporting Clube da Covilhã, o senhor Álvaro Ramos, me disse: "Ó César, queres ir para o Benfica?"; "Para o Benfica?! Ó presidente, está a brincar...?" [risos] "Não, a sério, isto é sério". Bem, aquilo parecia...

Um sonho?
Quando se está numa II Divisão, a gente nunca pensa num grande, a gente sonha sempre em jogar na I Divisão, mas num clube modesto, mais pequeno. Mas a verdade é que surge o Benfica.

Disse logo que sim? Quem é que dizia que não?
[risos]. Claro que sim.

Como é que foi ir a Lisboa? Foi sozinho?
Não, fui com o presidente do Sporting Clube da Covilhã, fomos ao hotel Altis conversar com o senhor Fernando Martins, na altura o presidente do Benfica, e com o Júlio Borges, que era o braço direito dele. Conversámos, acertámos e foi assim.

Mas quando vai viver para a capital, vai sozinho?
Eu casei com 20 anos, no ano em que fui para o Benfica. Quer dizer, casei ainda estava no Sporting da Covilhã.

Como, quando e onde conheceu a sua mulher?
A Paula também é do Barco, conhecemo-nos muito novos, com 13, 14 anos, e casámos. Eu tinha 20 e ela 18 anos.

Como é que foi a adaptação à grande cidade e a um clube como o Benfica?
Não foi fácil, eu não tinha carta de condução, tentei arranjar uma casa mais próxima do estádio da Luz. Nos primeiros tempos tinha uma casa alugada na Pontinha e fazia aquilo em 15, 20 minutos a pé. Fiz esse caminho muitas vezes, a pé, mas depois conheci lá no plantel os irmãos Bastos Lopes, que viviam em Odivelas, e eles davam-me boleia.

Ainda se recorda quando entrou pela primeira vez no balneário do Benfica? As pernas tremeram-lhe? 
Claro que sim. Você já viu, eu aqui de uma aldeia pequenina, uma aldeia pacata, depois num meio tão grande como é Lisboa e um grande clube como é o Benfica... A gente vê aqueles jogadores pela televisão e de repente está na presença deles... Não é fácil. As pernas tremiam-me quando entrei naquele balneário, com aqueles craques. Mas aquilo é dois, três dias, depois aquela gente, como grandes que são a todos os níveis, como jogadores e seres humanos, põem logo a gente à vontade e a adaptação é fácil quando encontramos com essa gente tão fabulosa.

Quando chega o treinador era o John Mortimore. Entendia o que ele queria? Notou muita diferença do Sporting da Covilhã para o Benfica?
É claro que sim. É tudo completamente diferente, os métodos de trabalho, tudo, visões que não têm nada a ver.

Recorda-se de ter pensado se iria aguentar, se era demais para si?
Recordo. Mas aquilo passa tão depressa e quando encontramos gente como encontrei naquela altura, craques com uma simpatia, uma humildade... Posso falar de tanta gente, o Eusébio por exemplo, o Chalana, o Nené, o Diamantino, Carlos Manuel, gente que nos põe tão à vontade que é uma coisa brutal.

Gostou do John Mortimore?
O John Mortimore era o típico treinador inglês. Foi sem dúvida um grande treinador. Eu acho que nesse ano ganhámos a Taça de Portugal. Aliás, sou campeão no primeiro ano, mas quer dizer, jogo uns minutinhos. Lembro-me que entrei uns minutinhos só para ser campeão.

Entretanto fica dois anos no Benfica e depois é emprestado ao Portimonense.
Faço um ano no Benfica, sou campeão e depois sou emprestado ao Portimonense.

Quem é que lhe disse que ia ser emprestado? Foi o César que pediu?
Você já viu quem é que jogava no Benfica na minha posição? O Maniche, o Nené, o Rui Águas... E depois tinha um jogador que jogava em todo o lado, o Diamantino, jogava na direita, na esquerda, era ponta de lança, jogava nos lugares todos. Quando algum dos melhores se lesionava o Diamantino é que aparecia. E na altura falaram comigo: "Ó César, tens de rodar, vais adquirir um bocadinho de experiência". A verdade é que foi bom, o Portimonense também era uma equipa de que sempre me falaram bem.

Vai viver para o Algarve com a sua mulher?
Sim, fomos para o Algarve, estive lá um ano e era para regressar no ano seguinte, só que no verão tive um acidente de viação… Foi muito complicado, vinha de férias, tive o acidente, perdi uma filha.

Era bebé ainda.
A minha filha nasceu quando estava no Benfica, depois fui para o Portimonense e no final da época, nas férias, eu vinha passar férias à nossa terra e tivemos um acidente muito grave em Pombal. Isto para lhe dizer que no ano seguinte, eu era para regressar ao Benfica só que, como tive o acidente em Julho, estive parado meia época, depois quando cheguei ao Benfica o Toni falou comigo e disse que para fazer a melhor recuperação era no Portimonense e acabei por ir fazer mais meia época ao Portimonense.

Quem apanhou no Portimonense como treinador, foi só o Cajuda?
O Manuel Cajuda, mas primeiro foi um brasileiro, o Paulo Roberto, que um dia bateu num jogador, deu-lhe com uma cadeira na cachola. Depois esse treinador saiu e apareceu o Manuel Cajuda, um grande treinador. O Manuel é fantástico, é uma pessoa simples, humilde, é um ser humano fantástico mesmo. E depois o José Torres na parte final. Também um ser humano fantástico. A gente convivia muito com ele, íamos muitas vezes ao hotel da Torralta, almoçar juntos.

E selecção?
Depois de ter tido o acidente fiquei meia época parado, a outra voltei ao Portimonense porque o Toni disse-me para ir fazer a recuperação. É engraçado que essa meia época corre-me tão bem no Portimonense que vou à selebção nacional, a jogar pelo Portimonense.

É a primeira vez que é chamado?
Sou e recordo-me tão bem. Porque o Rui Águas lesionou-se, era Juca o seleccionador e chamou-me. Foi também uma coisa brutal, ir à selecção pela primeira vez. É uma sensação única mesmo.
Sente-se uma responsabilidade maior do que num clube?
Inicialmente sim, há uma responsabilidade ainda maior. A responsabilidade é idêntica, mas com o país é diferente. É um peso maior. Na seleção fiz dois golos, um à Holanda num jogo amigável e outro na Antas, à Finlândia, em 1991, na qualificação para o Europeu.

Depois dessa meia época no Portimonense regressa ao Benfica, já com Eriksson como treinador. 
Exactamente. O Eriksson revolucionou o futebol português, os métodos de trabalho... Não tinha nada a ver. A nível de aquecimentos, de treino, fazíamos tudo com bola. Com os outros treinadores era correr, correr com outros jogadores às costas, subir bancadas, com pesos. Com o Eriksson não, com ele era sempre com bola. O aquecimento, os meiinhos eram todos com bola e era assim que os jogadores gostavam de fazer. E as ideias do Eriksson na altura eram sempre novidade, o que agradava mais a todos os jogadores.

É campeão em 1990/91, com o Eriksson, e marca dois golos decisivos nas Antas. Naquele mítico jogo em que tiveram de se vestir no corredor. Recorde-nos lá esse dia.
Quando entrámos no balneário era um cheiro insuportável. Há quem diga que era bagaço, outros que era sulfato. Era um ardor nos olhos. Aquilo foi uma coisa horrível, abrimos uns chuveiros, mas era impossível estar ali. E então tivemos de nos ir equipar nos corredores que davam acesso aos balneários. E a revolta foi tanta que nos deu uma força extra e o Benfica fez um jogo espectacular. Recordo o Rui Águas, que fez um jogão, eu de vez em quando ainda vejo esse resumo. Toda a equipa com um vontade enorme, provocado pelo que aconteceu e não só, porque queríamos ser campeões. Recordo que comecei a aquecer muito cedo, ainda no início da segunda parte, estive a aquecer muito tempo, levei com muitas moedas de 50 escudos, aquelas moedas grandes. Da bancada mandavam-me com as moedas para a zona onde estava a fazer o aquecimento e ainda apanhei algumas, punha no bolso do fato de treino. Ainda juntei umas quantas moedas [risos]. Depois entrei aqueles 10 minutos e fui feliz.

Disse uma vez que era utilizado como uma espécie de arma secreta.
Sim, sim. Porque realmente as coisas funcionavam assim e criou-se ali um hábito. Era mesmo isso, eles tiravam proveito de mim a entrar. Porque em muitos jogos, quando eu entrava, aconteciam coisa boas. 

Não o chateava não ser titular?
Claro que chateava, toda a gente gostava de jogar e não é fácil lidar com estas situações, mas eu nunca queria grandes problemas.

Não questionou o Eriksson?
Não, porque eu não era muito de falar. Achava que às vezes teria de jogar mais mas não vinha manifestar-me porque, olhe, porque eu achava que assim já era bom e pronto.

Três anos de Eriksson e depois há uma época que já é com o Toni e com o Ivic, mas joga pouco. O que é que aconteceu?
Tive uma lesão grave, fui operado à perna e estive quase praticamente uma época sem jogar. Foi uma ruptura na coxa. Foi o tendão que partiu e tiveram que abrir a perna, foi complicado e acho que foi nesse ano.

Toni e Ivic eram muito diferentes um do outro?
Cada um tinha a sua maneira de trabalhar. O Toni é de facto um grande treinador e era muito amigo dos jogadores. Ele treinou jogadores que foram colegas dele e se calhar, não sei... Eu não queria muito entrar por aí, porque eu sempre me dei muito bem com o Toni, ele sempre foi amigo, mas se calhar eu às vezes podia ter jogado mais.

Entretanto chegam o Futre e o João Vieira Pinto. Nessa altura pensou que o seu lugar podia estar mais em risco?
Claro que sim. No Benfica apareciam sempre grandes jogadores naquelas posições e não era fácil jogar naquele Benfica. Eu apanhei e joguei com os melhores dos melhores jogadores portugueses. Joguei com Futre, com João Pinto, com Rui Águas, com Rui Costa, portanto não era muito fácil jogar naquele Benfica.

Mas na época seguinte faz mais jogos, com o Toni, e é campeão, em 1993/94. Lembra-se desse ano? 
Lembro, é naquele ano em que o João Pinto faz os três golos em Alvalade, do 6-3. Recordo-me bem desse jogo, eu estava no banco e levei um amarelo a festejar um golo [risos]. Saltei do banco para dentro do campo. E também sou do ano em que levámos 7-1 em Alvalade, também entrei na segunda parte. Estive nos bons e nos maus momentos.

Depois no ano a seguir vem o Artur Jorge, uma figura completamente diferente…
Eu nem gostava muito de falar sobre o Artur Jorge porque de facto.. .Olhe, se calhar passávamos à frente.

Fez parte do grupo que queria sair?
Eu saio no ano a seguir.

Para o Belenenses.
Exactamente. O Artur Jorge não tinha nada a ver com aquele Benfica, nadinha. Não quer dizer que ele não seja bom treinador, mas naquele ano foi a pior aposta dos responsáveis do Benfica.

Como é que se dá a ida para o Belenenses?
Eu acabava o contrato que tinha com o Benfica, já tinha 30 anos e havia a possibilidade de ir para alguns clubes. Na altura estava o João Alves no Belenenses. Ele falou comigo, estava interessado e eu pensei: porque não tentar um aninho ali no Belenenses? E foi muito bom. Joguei muitas vezes e fui o melhor marcador do clube naquele ano, as coisas correram muito bem.

Depois dessa época no Belenenses, vai para fora pela primeira vez.
O João Alves vai para o Salamanca e voltou a falar comigo, para saber se eu queria. E porque não jogar no estrangeiro? Também era uma experiência nova e aceitei. Foi das melhores coisas que me aconteceram.

Porquê?
Pela idade que tinha, não tinha ilusões. Jogava muita vez, criámos um grupo de trabalho espectacular, com alguns portugueses que foram daqui, juntou-se o Pauleta, joguei muitas vezes com ele, fazíamos uma dupla espectacular, fazíamos golos. Tive dois anos em Salamanca brutais, lindos.

Foram bem recebidos pelos espanhóis?
Sempre. No início as coisas não foram fáceis porque éramos muitos portugueses, éramos uns sete ou oito. Na altura aquilo corre mal e quem paga é o treinador. Despediram o João Alves. Depois veio outro e acaba por correr bem.

Quem, o Goikoetxea?
Exactamente. Depois da saída do João Alves a gente não perdeu jogo nenhum, em casa e fora, estivemos a 16 pontos de diferença e conseguimos subir à I Divisão, foi uma coisa brutal. Mas também com o jogador que nós tínhamos, o Pauleta, que fazia golos de qualquer maneira, aquilo foi um espectáculo.

Criou uma amizade forte com o Pauleta?
Muito forte. Somos muito amigos, falamos de vez em quando. O Pauleta é outro ser humano daqueles... é do melhor. É uma pessoa muito simples, muito humilde, é das pessoas boas, um ser humano que me honra muito ter como amigo.

E na época seguinte vai para o Mérida.
Aí é que tudo acaba. Apareceu um argentino em Salamanca, o Russo, e... Olhe, eu já regressei a Salamanca, já falei com alguns directores e foi o pior erro que eles cometeram. Porque apareceu esse treinador que quis fazer a equipa toda dele, dispensou alguns jogadores, inclusive eu, que também já tinha alguma idade. Fui contratado pelo Mérida, mas aí já as coisas não correram bem porque eu fui desmotivado. Eu estava feliz a jogar bem no Salamanca, onde era acarinhado, e depois foi um balde de água que não esperava. Tentei, mas já não deu. Também fui sozinho, era o único português que estava ali. Na metade da época a seguir ainda apareceu o Nuno Espírito Santo, que vinha emprestado do FC Porto, aquilo compôs-se um bocadinho, mas já era tarde. 

A sua mulher estava consigo?
Sempre.

Voltaram a ter filhos?
Não. Nunca mais tivemos filhos. A minha mulher perdeu dois filhos. Um nasceu morto. Depois tivemos uma miúda que acabámos por perder naquele acidente de que já falámos. Houve ali uns problemas e já não conseguimos. Estamos sem filhos.
Entretanto, deixa Mérida e regressa a Portugal.
Sim, ainda tentei jogar no SC Covilhã, fiz um jogo pelo SC Covilhã ali na Naval, apanhámos uma cabazada 4-1, entrei a meio da 2ª parte, lesionei-me, tive logo uma ruptura muscular e falei com o presidente: "Ó presidente, eu não quero, não quero andar a arrastar-me mais, eu não posso". Compreenderam e acabei já com 33 ou 34 anos.

Já tinha pensado no seu futuro?
Sabe que nessa altura não pensava, mas hoje já estou arrependido de não ter tirado o curso de treinador. Agora com esta idade já não quero, mas na altura podia ter tirado um cursozinho de treinador e também treinava como muitos andam aí a treinar. Hoje tenho pena, mas agora já não vai. Tenho uma vida mais ou menos.

Nessa altura o que resolveu fazer?
Voltei para a minha terra. Tenho algumas coisinhas. Já tive alguns negócios. Tive uma loja de desporto, já tive um restaurante, "O Brito", no Barco, isto é uma aldeia pequenina e não funcionou muito bem. Depois abri uma marisqueira também lá no próprio restaurante, as coisas também não correram bem. E agora tenho uma discoteca, "A Cave", que estava a trabalhar mais ou menos, abríamos aquilo ao fim de semana, mas com isto da pandemia ficou tudo parado. Tenho uma quinta aqui ao pé do Fundão, onde tenho os animais, tenho cães, sou caçador.

O que costuma caçar?
Coelhos, lebres, perdizes, pombos, tordos… De Agosto a Fevereiro é caçar. Mas é tudo para consumo próprio, não vendo uma peça de caça. É bom caçador? Já fui melhor, agora também já me está a faltar a vista. A idade não perdoa [risos].

Onde ganhou mais dinheiro?
No Benfica.

Tinha ou tem superstições?
Nunca fui muito disso. Quando entrava em campo benzia-me, mas mais nada.

É então um homem de fé.
Acredito em Deus, sim. Os meus pais obrigavam-nos a ir à missa e à catequese. Sou católico mas não praticante.

Se não tivesse sido jogador de futebol teria sido o quê?
Se calhar tinha emigrado. Nas obras não acredito muito que trabalhasse, mas tinha emigrado, porque aqui as coisas não estão fáceis e sem estudos não se pode fazer muitas coisas.

Qual foi a maior extravagância que fez na vida?
Comprei um Mercedes 320 SL quando saí do Benfica, que custava, fazendo a transformação para euros, cento e tal mil euros. E ainda o tenho, já vai fazer 25 anos. Não o vendo, há de ser um clássico, é lindo. É um carro de garagem.

Há algum outro desporto que goste de praticar ou de seguir?
Sim, adoro ver snooker na televisão. Adoro jogar snooker. Quando estava no Benfica, depois de começar a época, em que treinávamos de manhã, tínhamos as tardes livres, eu ia quase sempre jogar snooker a uma casa na Pontinha. Tinha um taco especial e tudo. Adoro snooker, ainda hoje gosto de jogar mas não há muitas casas com snooker agora. Gostava tanto de snooker que comprei uma mesa para levar para casa. Aliás, estou aqui na quinta a falar consigo e estou com o braço em cima do tampo que mandei fazer para pôr em cima da mesa de snooker. Mas agora não tenho praticado muito.

Qual a maior alegria e a maior frustração que viveu no futebol?
A maior alegria foi sem dúvida o campeonato que ganhámos no Porto em 1991. Dois golos seguidos. A frustração, se puder incluir o acidente de automóvel que tive...

Mais do que frustração acabou por ser um drama pessoal.
Sim, claro. Mas obrigou-me a estar parado meia época numa altura crucial da minha caminhada. Também posso falar dos 7-1 de Alvalade e da final da Taça da Liga dos Campeões em Viena, em que entrei um bocadinho na 2ª parte, mas que perdemos.

E a maior amizade que fez no futebol?
O Pauleta, sem dúvida, o José Carlos, que estava no Benfica também, que é meu compadre, sou padrinho de uma filha dele. O Tó Real, mas há mais, se fosse enumerar todos...

Se pudesse escolher um clube em que gostava de ter jogado, qual escolhia?
Real Madrid ou Barcelona.

Quando olha para o futebol de hoje, acha que o César Brito de há 30 anos conseguia encaixar-se?
Acho que sim. Eu falei no Real Madrid ou Barcelona mas as minhas características como jogador estariam mais de acordo com o futebol inglês, que é mais direto e de ataque.

Qual foi o seu maior adversário?
O Sporting.

Mais o Sporting do que o FC Porto?
Sim, os dérbis eram mais bonitos do que os clássicos, o dérbi era mais paixão, lá em cima era mais assustador.

Havia algum defesa que o irritasse particularmente?
Assim, de repente, jogadores dos quais tínhamos um bocadinho de receio e que eram maus, talvez o Jorge Costa e o Fernando Couto. Mas ambos grandes homens. Eram os mais duros.

E histórias para contar. Não tem pelo menos uma?
No Benfica, depois dos treinos, saíamos juntos muitas vezes, não era só partilhar o balneário, éramos amigos, uma família, e um dia fomos comer ao Barbas umas caldeiradas e uns peixes. E bebemos demais. Só que tínhamos treino à tarde. Era o Toni o treinador. Bebemos demais e à tarde fomos para o treino e no aquecimento ainda disfarçámos porque era correr à volta do campo. Mas depois quando foram exercícios com bola começaram alguns a falhar os passes, a não acertar na bola, a cambalear, e o Toni, como esperto que era, apitou e mandou todos para o balneário [risos]. Foi caso único, nunca mais aconteceu e ele compreendeu.

Gostava de sair à noite?
Não podíamos. Nos dias de folga, quando não éramos convocados ou assim saíamos um bocadinho mais, mas não era muito.

Onde gostava de ir?
Eu não fui muita vez, mas havia ali umas discotecas na 24 julho, junto a umas escadinhas. Era o Plateau e o outro não me lembro do nome, mas era ao lado [Kremlin]. Mas era quando podíamos, muito raramente.

Tem tatuagens?
Eu não. Lembro-me que quando tinha uns oito ou nove anos havia um maluco na aldeia que achava que sabia fazer tatuagens e ainda me picou com uma agulha e tinta. Detesto e não gosto de ver a ninguém, às mulheres muito menos."

Benfica After 90 - Wrap & Onward...

A competição é 'natural'

"A Sociologia tem tido grandes avanços nas últimas décadas, nomeadamente pela ênfase crescente da análise histórica. Isso não significa uma mera aplicação da perspectiva sociológica ao passado, mas, sobretudo, uma forma de contribuir para uma melhor compreensão das instituições sociais do presente. Recuemos então à década de 1990. Numa entrevista dada um pouco antes da sua morte, numa espécie de balanço científico, o conhecido biologista francês Henri Laborit (1914-1995), que dirigiu a revista “Agressologie”, de 1958 a 1983, declarou: “para mim, a competição é obscena. Ela é a origem da infelicidade do homem” (Sport et Vie, Novembro de 1994).
Omnipresente em todos os domínios de actividade (económica, política, religiosa, educativa, desportiva, artística, etc.), a competição é considerada como o comportamento normal das relações humanas. Tornou-se uma espécie de inconsciente social. Como se julga “natural”, e que se aceita como o motor necessário e inelutável da ação, promove a não colocação de questões sobre a sociedade e encerra a possibilidade de se imaginar o que pode significar um mundo sem competição.
Como alertava o sociólogo Émile Durkheim (1958-1917), os seres humanos veem-se a si próprios como indivíduos livres nas opções, mas, na realidade, os seus comportamentos são determinados pelo mundo social. A perspectiva competitiva é inerente ao desporto, mas o imperialismo da competição não é evidente e não é universal. O espírito de competição é determinado por um sistema social. Conscientemente ou não, ao pretender-se que a competição é inata, os desportistas, praticantes e espectadores, culturalizam a natureza. Eles arrogam a competição social para justificar um dado estado cultural.
A competição desportiva é uma injunção social, culturalmente interiorizada pelos seres humanos. No nossa sociedade, homens e mulheres devem se entregar aos “jogos” concorrenciais e sujeitarem-se a uma classificação para beneficiar da gratidão geral. Com a mania do número e do valor associado, a competição impõe-se como modelo dominante de legitimação do sucesso e até como ética de vida. Apesar da sua cruel selecção, e as suas implacáveis consequências, a competição é julgada por muitos como sã e formadora. Nada deve impedir a “corrida” dos melhores e os incessantes confrontos. A máxima “o essencial é participar”, atribuída a Pierre de Coubertin, é uma ilusão. No livro “La Concurrence et la mort” (La Découverte, 1995), o jornalista Philippe Thureau-Dangin”, ex-diretor do “Courrier International” e ex-presidente da “Télérama”, refere que “quando o principal artesão do olimpismo moderno afirma que ‘o essencial é participar’, não se pode ver neste slogan uma consolação para os vencidos. Trata-se de empurrar cada um de nós para entrar no jogo da concorrência (ou da competição desportiva)”. Será, então, que uma sociedade sem competição é irrealista? Para que serve ser mais forte do que o outro? O que nos traz de mais valia bater o recorde do mundo? Uma sociedade que propõe apenas a competição como a única moral de vida é uma sociedade doente."

Jesus...

Gilberto

Não era dos nomes que mais agradaram à nação Benfiquista, quando os rumores começaram a circular, mas é um jogador que encaixa no perfil de Jesus para as Laterais! É verdade que já falhou algumas vezes, mas também já acertou!!! Jesus julga que consegue 'ensinar' jogadores de características ofensivas a defender... Creio que o sucesso desta contratação vai passar por aí...
O Flamengo jogou muitas vezes contra o Fluminense na passagem do actual do treinador do Benfica, pelo Rio, sendo assim acredito que o conhecimento do técnico pelas qualidades do jogador, seja profundo!
Passou por Itália, sem grande sucesso, mas estando a 100% tem velocidade e força para fazer as 'piscinas' que o esquema do Jesus obriga os Laterais...

sábado, 8 de agosto de 2020

Helton Leite

Primeira contratação do defeso (o Pedrinho já tinha sido anunciado oficialmente em Março - ou Fevereiro!).o
Na minha opinião não é guarda-redes para ser titular do Benfica, mas pode ser uma segunda opção válida! Curiosamente, tem características idênticas ao Ody:
Bom entre os postes, mal no controlo da profundidade e nos cruzamentos!
Sendo que para mim, o Ody compensa as hesitações nas saídas, com uma boa percentagens de duelos ganhos, contra jogadores isolados...; em sentido contrário, o Helton parece um bocadinho melhor nos cruzamentos!
Agora dentro dos postes é realmente muito bom... no recente jogo da Luz, onde foi muito criticado, fez uma série de defesas impressionantes...

João & Patrick... França!

Haverá alguém que ainda não escreveu sobre a pandemia?

"A pandemia da COVID-19 tem transformado irreversivelmente a forma como vivemos e iremos viver no futuro. E apenas em meio ano! Através dela conseguiram-se, como que por passe de mágica, alterações de vida inimagináveis em períodos de duração duas, três…, dez vezes superiores; para o melhor e para o pior. Alterações inequivocamente para pior, na maioria dos casos, especialmente espelhadas na crise económica, mas sobretudo assustadoras se pensarmos na atordoante limitação das liberdades individuais e na facilidade como prosperaram – e irão prosperar, se não estivermos atentos – estratégias de controlo dos cidadãos, capazes de fazer corar de embaraço o Orwelliano mais empedernido. É claro que, em contrapartida, algumas coisas poderão ter melhorado, assim se consiga enfrentar a crise pela perspectiva da oportunidade e não pela da ameaça, da fatalidade.
Espreite-se porque lado for, o que não há dúvida é que não se fala de outra coisa. Fala e escreve! Haverá alguém que ainda não escreveu sobre a pandemia? Já agora também eu lavro o meu escrito a propósito e, infelizmente, acrescento à cacofonia. Infelizmente, digo, porque bem gostaria de não ter motivo! E o meu motivo é o Desporto, que, tudo indica, vai sair deste processo muito maltratado!
Que a ameaça foi e é real parece não restarem dúvidas. Incertezas haverá, porém, acerca da adequação ou da desproporcionalidade das medidas de contenção adoptadas, da dimensão das respectivas consequências e – agora já mais recentemente – das estratégias de apoio às populações e de incentivo à recuperação económica e social. Aqui, de facto, é que a porca torce o rabo! Confinar, afastar e proteger foram estratégias aparentemente sábias (apesar de às vezes formuladas de forma muito “patarata”, claramente assimétrica ou excessiva). Abrir progressivamente as portas da sociedade, também. Apoiar os sectores produtivos e a economia em geral, por forma a mitigar os efeitos perversos do imobilismo? É claro; não havia alternativa! Mas… e o resto? O resto é um problema aparentemente só dirimível pelo proverbial: “quem não chora, não mama!” Foi assim com a cultura (penso que cabe nisso de cultura a tal coisa do Campo Pequeno), com o futebol (mesmo se agora já se percebe que podiam ter ido mais longe se não fossem tão depressa) e com outros sectores. Mas… e o Desporto? (e não vou aqui discutir se o desporto não é cultura e se o futebol é ou não desporto, ou só espectáculo – cultural, ou não).
Nos dias que correm quase não há pais que abdiquem de uma formação desportiva relevante para os seus filhos. É uma questão cultural, diria mais: civilizacional! (Paradoxalmente, esses mesmos pais, às vezes, parecem não enxergar o papel da Educação Física e do Desporto Escolar, mas essas são contas de outro Rosário). Como fazem para a conseguir? Recorrem sobretudo aos clubes desportivos, que generosamente se substituem ao Estado e fomentam a parca prática desportiva que temos em Portugal. Sim, porque o Estado não foi, até hoje, capaz de traduzir em políticas reais os discursos de ministros e secretários de estado (e de subsecretários de estado e directores-gerais) acerca da importância, do valor social, educativo, higiénico (e etc.) do desporto. O Estado precisa do movimento associativo, dos clubes, das associações e das federações para o fazerem por si! Para cumprir a sua missão constitucionalmente determinada.
E que tem isto que ver com a pandemia?
Se virmos bem… tudo! É que com o recato, o confinamento, a reclusão dos cidadãos, o distanciamento social, as limitações à liberdade de circulação e de acção (a privação efectiva do direito e liberdade de opção constitucionalmente estabelecido a tanger o limiar de uma “nova ordem”) os clubes deixaram de ter participantes activos; deixaram de dispor das receitas provenientes das mensalidades dos praticantes que os sustentam (não, não é o Estado que os sustenta para fazerem o que a Constituição o obriga a ele!); deixaram de poder pagar (miseravelmente) aos seus treinadores e aos seus outros funcionários. Enfim, deixaram de poder subsistir o Estado na promoção do Desporto e dos valores que sabemos que este transporta consigo. Deixaram de poder existir e de, portanto, sustentar o nosso “sistema” desportivo e de promover os nossos atletas, as nossas glórias.
O Comité Olímpico de Portugal, o Comité Paralímpico de Portugal e a Confederação do Desporto, pelo menos, têm insistido repetidamente com o Governo na necessidade de se implementarem medidas efectivas de apoio ao Desporto – à essência do Desporto –, enquanto estamos em tempo; enquanto temos Desporto, mesmo se pequenino e espartilhado, mas seguramente sofrido. Respostas: quase nenhumas!"

João Paulo Vilas Boas, in Tribuna Expresso

O grito do Benfica

"Jorge Jesus foi elegante com quem está e ambicioso com quem terá de chegar

Jorge Jesus foi apresentado numa cerimónia simples e de grande categoria. Em vez de adeptos aos gritos sentiu-se o grito do Benfica. As 10 taças conquistadas pelo Benfica sob orientação de Jorge Jesus deram o mote para um Benfica a «jogar o triplo» e a «arrasar». Hegemonia em Portugal e prestígio na Europa. Simples e perceptível. Jorge Jesus foi elegante com quem está e ambicioso com quem terá de chegar. Aqueles troféus são apenas o princípio daquilo que será património conjunto de Jorge Jesus e Benfica. A diferença desta apresentação para outras do mesmo género é que, nesta, adeptos e adversários já perceberam que vai mesmo ser assim.
A Taça de Portugal foi espelho de uma época para recordar. Ao contrário de outros benfiquistas, julgo serem inteiramente justificados os festejos de dirigentes e adeptos azuis e brancos. Primeiro porque a última dobradinha tinha quase 10 anos e depois porque vencer o Benfica numa final da Taça de Portugal tinha 62 anos. Talvez só a vitória do Aves possa se comparado ao feito de sábado.
Nesta contabilidade de títulos, de valor sempre relativo, temos de ter atenção com o que realmente nos preocupou e é comparável. O Benfica perdeu este ano o 38.º título e o Real Madrid aproximou-se com 34 vitórias.
Há que iniciar um ciclo longo de vitórias até para manter os merengues à distância.
Jorge Jesus nada ganhou na passada segunda-feira, mas deixou a impressão de que com uma boa equipa vai ganhar muito coisa. Dia 10 voltamos aos treinos e dia 15 de Setembro voltamos à competição. A primeira jornada da Liga dia 12 de Setembro ou uma Supertaça não adiada teriam ajudado a equipa portuguesa que vai à pré-eliminatória da Liga dos Campeões. Percebo pouco de sorte ou azar, mas se eu sugerisse algo era já o primeiro jogo com o Étoile Carouge, com a maioria dos jogadores contratados à disponibilidade do treinador. Regra geral, prenuncia época de grandes feitos.
Que maravilha um período de defeso de oito dias. Neste Benfica não há espaços para mais nada que não seja futuro de vitórias. Este autocarro de jogadores apontados ao Benfica, ainda que em grande parte corresponda à verdade, dá apenas para se ter a noção da matéria-prima das nossas futuras conquistas. No Benfica festejam-se títulos não se festejam contratações."

Sílvio Cervan, in O Benfica

Vislumbrar o futuro

"Não me importaria que a apresentação de Jorge Jesus tivesse ocorrido logo após o desaire na final da Taça de Portugal. Jogámos mal e não soubemos aproveitar a justa superioridade numérica. O nosso adversário jogou mal, e fomos piores. E ainda podemos reclamar da sorte, naquele lance em que Jota acertou no poste já no tempo adicional. Em suma, a final espelhou a época desastrada e inesperada da nossa equipa. Poderíamos e deveríamos ter feito melhor.
Agora, com o regresso de Jorge Jesus, abrem-se novas perspectivas, logo prometidas e reiteradas na apresentação. Estou convicto de que, com o mesmo plantel sob o comando do nosso novo treinador, teríamos apresentado melhores níveis exibicionais e conseguindo melhores resultados. E ainda mais convicto estou de que se verificará um salto qualitativo no plantel com Jorge Jesus. Alguns jogadores, inseridos numa nova dinâmica, serão mais competitivos. Outros desenvolverão as suas capacidades e renderão de acordo com o seu potencial. E chegarão atletas cuja competência será indiscutível. Foi ao que Jorge Jesus nos habituou no passado, não espero menos agora.
Ganharemos tudo? Provavelmente não, embora seja esse o objectivo. Teremos, no entanto, a garantia de que seremos mais competitivos e de que não dependeremos do súbito surgimento de um jogador que faça a diferença. O Benfica voltará a ser forte no futebol, aproveitando plenamente os muitos e excelentes recursos que hoje coloca à disposição de quem lidera a equipa. Não professo amanhãs que cantam, mas a música será outra certamente! Com Jorge Jesus estaremos sempre mais próximos de títulos. Não se trata de crença, mas antes da constatação da sua inegável competência. Boa sorte!"

João Tomaz, in O Benfica

Está na hora!

"Faltam poucos dias para iniciar a época 20/21 e para podermos finalmente deitar para trás a desilusão da temporada anterior. Deitar para trás não é esquecer, atenção. Porque é com os erros que crescemos, e convém lembrá-los para que não se repitam. Tiradas as ilações, aprendidas as lições, vamos seguir em frente. E com expectativas elevadas.
Motivação, qualidade, conquistas, união - tudo foi apresentado como paradigma de um novo ciclo no futebol masculino. A isso junta-se a chegada de um homem que conhece a casa, sabe da poda e já ganhou pelo clube. União parece-me a palavra certa a reter, em especial num clube que é tão representativo da sociedade portuguesa. Cada sócio, adepto e simpatizante tem direito à sua opinião e pode ou não gostar do regresso do treinador, concordar ou não com as decisões do presidente. É legítimo, mas nunca se pode esquecer o bem maior: o SL Benfica.
Não preciso de promessas de títulos. Sei bem o que tem sido feito de bom no clube, e os últimos anos têm-no provado. As conquistas tornaram-se cada vez mais habituais, no futebol e nas restantes modalidades. O Glorioso que conhecemos hoje tem todas as condições para ganhar. Sim, também gostaria que fosse sempre, todos os anos, todas as competições, mas isso não é possível. Por isso, o que peço para a temporada que vai começar na próxima semana é garra, coragem, 'tomates' - perdoem-me a expressão. Só isso. O resto já temos: qualidade, inteligência, profissionalismo, infraestruturas, tecnologia, conhecimentos.
Precisamos de uma dose suplementar de ambição e de coragem, de incentivo e de dedicação para continuarmos a ser os melhores. Os títulos vêm por arrasto, fruto de entrega e do trabalho. Está na hora de voltarmos a ser felizes."

Ricardo Santos, in O Benfica

O Cavani já assinou?

"Já só consigo pensar na próxima época. Por um motivo, muito simples: não tenho vontade rigorosamente nenhuma de manter presentes as lembranças da temporada que acabou de terminar.
Confesso que até dou por mim a olhar para as capas dos jornais e a sentir que voltei a ser criança, apesar de ter completado 26 anos no dia 5 de Agosto. Gostei mais de festejar os 25, quando o Rafa, o Pizzi e o resto da malta me brindaram com aqueles 5-0 ao Sporting na Supertaça. Desta vez recebi apenas umas sapatilhas da minha namorada, o que está muito longe daquele recital no Estádio do Algarve.
Estou convencido de que, quando esta crónica chegar às mãos do leitor, é possível que Edinson Cavani já tenha assinado pelo Benfica. Ou então pelo Barcelona ou pela Juventus. De repente, um jogador que tem lugar no onze titular de qualquer clube no mundo pode reforçar o Benfica, e eu nem sei bem como reagir. Primeiro, ignorei. Depois, comecei a ficar acordado até às 3 da madrugada porque o entusiasmo não me deixa esperar até à manhã seguinte. Falta saber se o próximo passo será chorar de desilusão tal como aconteceu quando a contratação de John Dhal Tomasson falhou, ou chorar de emoção tal como aconteceu quando a contratação de Pablo Aimar foi oficializada.
Ainda não vi os especialistas abordarem esta questão, mas no meu entender é fundamental o Cavano jogar com o pé direito. Assim, temos a garantia de que o JJ não o vai adaptar a defesa esquerdo.
Todo este alarido é um sinal de que, conforme o próprio Jorge Jesus já garantiu, o Benfica vai atacar o mercado. Em 2019 assegurámos o Jhonder Cádiz, em 2020 estamos a tentar o Cavani. Não me parece um mau começo."

Pedro Soares, in O Benfica

Nova época

"A temporada que terminou não deixa saudades aos benfiquistas.
Depois de ter começado, fez agora um ano, com uma expressiva goleada ao Sporting para a Supertaça, e após uma impressionante sequência de 18 vitórias nas primeiras 19 jornadas do campeonato, a equipa encarnada entrou, a partir do mês de Fevereiro, numa estranhíssima espiral negativa que culminou com a perda do título nacional e da Taça de Portugal para o FC Porto - que sem qualquer brilhantismo se limitou a aproveitar as nossas generosas dádivas. Já vivi épocas boas, más e assim-assim. Não me lembro de tamanho contraste entre uma fase francamente vitoriosa e outra em que, com os mesmos jogadores e com a mesma estrutura, tudo correu mal. É importante que, internamente, estes meses sejam cuidadosamente analisados, de forma a evitar que algo semelhante se possa repetir no futuro.
De resto, não adianta chorarmos sobre o leite derramado, e, concluída a temporada, o que mais interessa neste momento é olhar em frente, para uma nova época, com um novo treinador, e com renovada esperança. Jorge Jesus foi o homem que revolucionou o futebol benfiquista quando cá chegou em 2009. Tem novamente essa missão em 2020. Estou absolutamente convencido de que é o treinador ideal para levar a cabo, e no imediato.
É preciso perceber que a crise do Benfica é meramente desportiva e circunstancial. Somos o clube financeiramente mais sólido, e estruturalmente mais bem apetrechado do país. Ninguém terá dúvidas de que, com o reforço do plantel que se antevê, e com um treinador ganhador com Jorge Jesus, rapidamente voltaremos aos títulos."

Luís Fialho, in O Benfica

Jesus arrasou

 "A apresentação de Jorge Jesus foi o grande momento da semana. Igual a si próprio, o treinador mais titulado da história do Sport Lisboa e Benfica deixou-nos água na boca. Com a legitimidade de quem já conquistou 19 títulos, três deles de dimensão internacional, o novo homem do leme foi assertivo no seu discurso. Preocupado com a família benfiquista, Jorge Jesus fez questão de apelar à união que faz a força. Entre 2009 e 2015, teve sempre a massa adepta no coração, e lembro-me de que várias vezes me confidenciou a sua enorme preocupação com o sentir dos sócios e adeptos do SL Benfica. 'É para eles que nós trabalhamos'. Esta frase, que ouvi muitas vezes da sua boca, retrata fielmente um homem apaixonado pelos projectos que abraça. Esta faceta de Jorge Jesus sempre me impressionou. Cinco anos depois, regressa pela porta grande e com a promessa de que vamos arrasar. A primeira condição passa pelo nosso lema - E pluribus unum. A segunda condição óbvia - reforços de muita qualidade para montar uma equipa poderosa, avassaladora e vencedora, quer nas provas internas, quer nas competições europeias. O desafio que lhe foi lançado por Luís Filipe Vieira é, provavelmente, o maior da sua brilhante carreira. Jorge Jesus, como todos nós, sonha com o regresso do Benfica europeu. As duas finais da Liga Europa ficaram-lhe atravessadas, pois em ambas merecemos a vitória. Em Junho de 2009, Luís Filipe Vieira, Jorge Jesus e Rui Costa formaram um trio-maravilha que deu cartas durante seis épocas. Os dez títulos conquistados provam a excelência do trabalho realizado. Agora, a fórmula foi enriquecida com mais dois elementos. Teremos um quinteto Luisão, o mais titulado futebolista do SL Benfica e grande capitão, assumirá funções importantes na estrutura. Será ele o gestor de uma das questões mais complexas - a mística. Tiago Pinto será outro dos elementos do quinteto-maravilha. A sua irreverência, dedicação e capacidade de trabalho farão a diferença num projecto muito ambicioso. "

Pedro Guerra, in O Benfica

Sementes

"As pequenas coisas são por vezes as sementes das grandes obras. Neste caso, isso é verdadeiramente literal porque, se é de sementes que falamos, é também uma obra imensa que está em causa, um verdadeiro desígnio nacional que ocupou tudo e todos antes de a pandemia se instalar e que, sorrateiramente, pelo calor do estio e pelos ventos de verão, voltou a destruir florestas e bens, mas sobretudo, de novo dramaticamente, a ceifar vidas humanas. Falo de incêndios e de florestas que dimuem e se desqualificam a cada ano que passa. Infelizmente, as políticas públicas, por mais que se esforcem, com a sua complexidade e tempos de maturação, não acompanham nem o ritmo nem a simplicidade de um incêndio. Perante isto, não podemos continuar a olhar para o lado e a queixarmo-nos da lentidão das instituições nacionais, ou do 'país que temos', como se dele não fizéssemos parte. Esta é uma guerra que, tal como a covid nos ensinou, não se vence sem cada um de nós, pelo contrário, vence-se com cada um de nós, no dia a dia, semeando acções virtuosas e praticando comportamentos que previnam ignições, que ajudem as instituições na sua missão e que facilitem a implementação colaborativa das políticas públicas e a sua integração com a acção privada. Não tenhamos ilusões, este novo século trouxe-nos a evidente certeza de que a sociedade civil está convocada para todos os grandes desafios colectivos. Mais, sem ela nenhum será vencido. Nós, no Benfica, sabemos bem isso e valorizamos o exemplo, a inovação e a excelência. Por isso, quando o país ardeu como nunca, além de ajudarmos as forças de segurança na logística do combate e de contribuirmos activamente para a reconstrução, investimos em projectos socioeducativos capazes de modificar comportamentos de risco e regenerar a floresta. Num desses projectos, 'Faz da tua Escola um Viveiro', procuravam-se sementes vivas por entre a terra queimada, almejávamos árvores autóctones e gente local que as semeasse, em escola, em comunidade, em família. E foi assim que, por entre escombros, na martirizada serra da Lousã, encontrámos uma maternidade de árvores cultivadas há anos por uma pequena organização e activistas visionários. Encantou-nos esta Lousitãnea e, num ápice, nos fizemos parceiros numa grande obra de regeneração da floresta e das gentes que a sustêm, que dura até hoje e continuará certamente, recobrindo de verde o negro-cinza que sobra de cada incêndio e teima em querer eternizar-se na paisagem."

Jorge Miranda, in O Benfica

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Uma vez de cada vez. Dez jogos. Cem taças. Mil jornadas

 "1. A solenizada sessão de apresentação do técnico Jorge Jesus no início da semana constituiu um imprescindível sinal de proactividade e de energia de que o Benfica estava absolutamente necessitado para, sem mais demoras, poder reconstruir e a reafirmar todo o seu poder próprio, primeiro, no contexto desportivo nacional.

2. O acto realizava-se oportunamente no 'day after' do inacreditável descalabro de uma época demasiado triste; para não a considerar, até, como uma extensa temporada repleta de incidências e contornos inesperados, incompreensíveis e obscuros, no fim da qual havíamos acabado por conceder outra aberrante dose (dupla) de precioso 'oxigénio' aos nossos competidores e - e por que não escrevê-lo com todas as letras - nossos inimigos letais, aos quais, mais uma vez por culpas próprias, generosamente acabávamos de salvar da morte certa.

3. Luís Filipe Vieira, também ele certamente perplexo com tudo o que tinha acontecido mas com a determinação que o caracteriza, voltara de novo, só ele, a ter de assumir inequivocamente o que tinha de ser feito. Como os Benfiquistas sempre exigem ao Presidente do Benfica.

4. E assim (mesmo desprezando alguns epifenómenos que, dadas as imprevistas circunstâncias do final de época, talvez já não tivesse sido possível evitar por razões técnicas - refiro-me, por exemplo, à teimosia interpretação monocromática do emblema, numa altura destas...), o Presidente soube tomar nas suas mãos as medidas verdadeiramente essenciais que se impunham, no sentido de encarrilhar a locomotiva e a formidável composição que dirige, para encetarmos de vez a grande Viagem que todos os Benfiquistas querem cumprir a breve prazo.

5. Foi o melhor que Luís Filipe Vieira podia e devia fazer. E, como na ocasião sinalizou o nosso treinador, cortar imediatamente com o passado imediato, só olhando agora muito fixamente para objectivos de um futuro próximo, adquiria o significado complementar de nos permitir imaginar o que há de vir a ser, consistentemente, o futuro de longo prazo para o Benfica.

6. Gostei da assertividade com que, deixando de parte descomedidas jactâncias de outrora, Jesus correspondeu aos reptos lançados pelo Presidente e por Rui Costa: para ter afirmado o que (e como) afirmou, é porque, acerca de recursos e disponibilidades que lhe terão sido garantidas, ele não só já saberia muito mais do que nós sabemos e que tem sido escrito e dito na praça pública durante as últimas semanas, como se sentiria completamente envolvido no projecto que lhe foi proposto e, ainda mais do que isso, se considerar bem seguro da sua capacidade em o liderar e de o cumprir com o seu staff, no plano competitivo.

7. Mas, sobretudo, gostei de ver o nosso treinador - agora em plena posse das suas acrescidas faculdades e sem ter de provar a alguém seja o que for - acentuar que nada se ganha sem a conjugação de todos os Benfiquistas em torno da equipa.

8. Fica aqui dito que, pela nossa parte, os Benfiquistas saberão cumprir esse desígnio. A própria circunstância da pré-campanha e das Eleições gerais do final de Outubro virá provar esse preponderante sentimento comum, que afinal nos caracteriza há mais de 116 anos.

9. Portanto, para já, fica a faltar o resto. Falta recomeçar a jogar e a ganhar. Depressa e muito: uma vez de cada vez; dez jogos; cem taças; mil jornadas, para resgatar a dignidade atlética e a justa imagem universal do Grande Benfica Campeão dos campeões e reduzir a nada impostores e falsas virgens.

10. Mas, por outro lado, agora mais do que nunca, não deixará de nos faltar também saber conciliar com muita perícia as novas exigências dessa renovada atitude competitiva, com a experiência infraestrutural, negocial e de gestão que nos fez chegar aonde estamos. Numa fase previsivelmente tão desafiante do país, da Europa e do mundo, diante de tantas dificuldades sociais e económicas que se desenham, precisamos de ser capazes de continuar a sustentar o mesmo registo imparável do poderoso desenvolvimento do Benfica.

11. Sem derivas, nem sobranceria. Com prudência. Com firmeza e muita competência. Sem nunca perder sentido dos inevitáveis ataques soezes dos nossos inimigos. E sempre a acumular mais títulos do que os nossos adversários. Todos juntos."

José Nuno Martins, in O Benfica

Sr. Shéu | 67 anos de idade, 50 de Benfica

"Há nele aura mística que o eleva a figura do panteão encarnado, nome pronunciado em alturas de saudosismo por aqueles que o viram e que os mais novos, embevecidos a ouvir, perguntam por mais naquela curiosidade mórbida na tentativa da aproximação com realidades que sabem ser impossível repetir.
Shéu representa uma fase inesquecível de glória benfiquista e o compromisso máximo para com os valores mais altos que se levantam, das palavras de Mário Wilson. O ‘Pézinhos de Lã’, carinho pelo qual os mais antigos o reconhecem, jogou 488 jogos de águia ao peito, num percurso de 17 épocas que se iniciou no longínquo ano de 1970. Completou, no passado dia 3 do mês vigente, 67 anos.
Com 16, chegou a Lisboa depois de muitas tribulações. Nada de grave, mas o patriarca da família era avesso às pretensões da bola, a prioridade eram os estudos e só nessa condição é que Shéu Han conseguiu autorização para viajar. Tudo começa quando um imberbe moçambicano de feições asiáticas, vindas do lado do pai, deslumbrava nos relvados de Inhambane, província da Inhasorro que o viu nascer.
As qualidades eram tantas que não passaram despercebidas a um Tenente Coronel, Manuel da Costa de seu nome, que por ali passava. É ele que envia a primeirissima notícia para a Metrópole dando conta do diamante que ali estava e quem a recebe é Fernando Calado.
O resumo das capacidades futebolísticas era tão entusiasmante que José Augusto, recém-adjunto, vai pessoalmente à Beira ver um jogo do Sport Lisboa e Beira – a sigla estava destinada. Precisou de pouco para conferir as imensas qualidades do prodígio. O pai, a muito custo, deixou-o embarcar sob uma única condição: terminar o estudos de Mecânica. Assim foi.
Chegado à Luz, vê-se em cidade que o assusta – «aquele movimento (da Baixa) fazia uma enorme confusão» – e então ficava pelo Lar, onde eram acolhidos os prodígios de longe, e ocupava o seu tempo entre treinos suplementares e leituras, outra das suas paixões.
Mário Coluna e Ângelo, seus primeiros treinadores, ajudaram à construção de um trinco moderno, muito à frente do seu tempo, e foi isso que impressionou Jimmy Hagan e o obrigou a estreá-lo a 15 de Outubro de 1972, num vitória no campo do Barreirense por 3-0. Substituiu Toni perto do final, e a simbologia da troca preconizava a importância suplementar que viria a conseguir mais à frente.
Porém, só em 1975-76 se assume como titular e pêndulo do meio-campo encarnado, com o ‘Velho Capitão’ Mário Wilson a ver nele um dos líderes da regeneração da equipa, passagem de testemunho entre a geração de Eusébio e António Simões e a sua, mais Humberto Coelho, Jordão ou Néné. A estreia europeia acontece nessa temporada, na expressiva goleada ao Fenerbahce (7-0), para a primeira eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus.
Foi em contexto internacional onde teve as suas maiores mágoas como futebolista, uma delas como protagonista do golo e outra como capitão (a braçadeira só a herdou em 1986, depois da despedida de Bento). A final da Taça UEFA de 83, frente ao Anderlecht, onde faz o 1-0 na segunda mão, anulado poucos minutos depois pelo contra-ataque encabeçado por Lozano; e em 1987-88, na final da Taça dos Campeões Europeus, no famigerado desempate por penáltis (6-5) frente ao PSV de Ronald Koeman – o tal jogo que Diamantino viu da bancada, por causa da lesão sofrida uma semana antes, e onde os jogadores perderam largos períodos a perder e a calçar as botas, escorregadias estavam da goma dumas meias por estrear…
A despedida viria em 1988-89, na última jornada de um Campeonato já ganho. Frente ao Boavista, na Luz, jogou 45 minutos e homenageado seria ao lado de João Santos, presidente benfiquista. Sairia em lágrimas, naturalmente, mas pouco tempo teve para relaxar: seria imediatamente convidado para as funções de Secretário-Técnico, pelas competências que tinha a mexer em… computadores. Um homem sempre à frente do seu tempo. Manteria o cargo até Maio de 2018, quando sentiu já ter cumprido o seu papel na íntegra. Levava 48 anos de Benfica.
Oportunidades para sair de casa? Naturalmente que existiram, mas Shéu é homem de princípios. Em 1987, respondia assim a essa questão: «Tive algumas oportunidades de sair, e o que determinou que tal não sucedesse foi o facto de um certo treinador com quem não simpatizava nada, ter passado para o clube que iria representar». A identidade da figura enigmática ficará para quem sabe e para quem com ele já privou mais intimamente. Sortudos.
Foram, ao todo e enquanto jogador, nove campeonatos nacionais (1973, ’75, ’76, ’77, ’81, ’83, ’84, ’87, ’89), seis Taças de Portugal (’80, ’81, ’83, ’85, ’86, ’87) e duas Supertaças (1980, ’85). Enquanto Secretário-Técnico, seis campeonatos nacionais (1991, ’94, 2005, ’10, ’14, ’15, ’16), cinco Taças de Portugal (1993, ’96, 2004, ’14, ’17), cinco Supertaças (1989, 2005, ’14, ’16, ’17) e seis Taças da Liga (2009, ’10, ’11, ’14, ’15, ’16). Na curta passagem que teve enquanto técnico, cargo que nunca o seduziu e que só executou para proteger a instituição e a futura equipa técnica, saldou-se pela conquista do desejado terceiro lugar na díficil época de 1998-99, depois do despedimento de Graeme Sounness.
O papel fulcral que cumpriu junto da equipa ao longo de décadas é prontamente demonstrado pelas palavras de puro respeito que lhe entregam as mais variadas figuras do universo benfiquista e do futebol português. Os valores mais altos da Mística viram nele a sua máxima personificação e Shéu foi determinante na missão de dar continuidade até às gerações actuais, ficando célebre a sua relação estreita com o grande líder do século XXI benfiquista, Luisão, numa passagem de testemunho muito feliz."

GreNal – A despedida de Cebolinha no grande derby


"Na grande final do Campeonato Gaúcho, o Grêmio bateu o eterno rival Internacional por dois a zero, num jogo que ficou marcado por, aparentemente, ser a despedida de Cebolinha, o internacional brasileiro que alegadamente chegará a Lisboa para defender as cores do SL Benfica. Jogador de tremenda capacidade de desequilíbrio, saiu em ombros de mais um derby eterno. Num jogo de enorme competitividade, saiu assim Everton Cebolinha do Brasil."

Waldschmidt, um sucessor para João Felix


"Sete golos em cinco jogos no Europeu de Sub21 em 2019, deixaram um impacto tremendo na competição e em todos quanto os que a observaram de perto.
Waldschmidt tem argumentos técnicos, tácticos e físicos para se tornar num triunfo retumbante na Liga Portuguesa.
Habituado a jogar num sistema com 2 avançados, o alemão denota grande qualidade quer no momento da finalização quer quando tem de se mover e definir em zonas de criação. Eficiência elevadíssima no gesto técnico, velocidade de execução elevada, passada que lhe permite receber também bola nas costas, tem todos os traços de um segundo avançado moderno. Moderno porque é muito hábil e competente em espaços curtos, mas também impacta na hora de atirar na baliza, seja depois de receber em profundidade ou ainda de fora. É o nove e meio que tanto procurou o Benfica!
Capaz de servir as rupturas dos colegas, pela forma como gira e observa movimentos no espaço entrelinhas adversário, é também um jogador sempre disponível para as tarefas de pressão tão apreciadas por Jorge Jesus.
Ainda mais que Cavani (porque como ponta de lança, poderá haver melhor aproveitamento e evolução de Vinícius), o alemão tem as características que tanto faltam na equipa encarnada e um nível verdadeiramente diferenciado do comum jogador que pisa os relvados da Liga NOS."

SL Benfica 2019/2020: A análise do plantel ao detalhe

"Depois de uma época fracassada os jogadores entram de férias já a pensar no próximo ano. Como qualquer jovem aluno anseiam receber as suas notas (ou não). Esta temporada quem foram os melhores “alunos”? Quem surpreendeu e quem desiludiu? É isso que vão ficar a saber neste artigo.
Nota: Não estão incluídos jogadores que já deixaram o SL Benfica (RDT, Caio Lucas, Fejsa ou Cadiz). Para mim têm todos nota 1/10 (com excepção de Gedson) pois em nada (ou muito pouco) contribuíram para o “sucesso” da equipa encarnada.
Todos presentes? Vamos lá começar esta deprimente avaliação…. Aqui não há recursos. 

Guarda Redes
#99- Odysseas Vlachodimos
- 45 jogos e 47 golos sofridos
- Nota da época- 8/10
- Vlachomimos foi um dos melhores elementos do plantel encarnado, sobretudo antes da retoma. Valeu muitos pontos!

#1- Svilar
- Um jogo e zero golos sofridos (20 jogos na equipa B)
- Nota da época- 5/10
- Evoluiu muito na equipa B. Na próxima época deverá ser emprestado.

#72- Zlobin
- Sete jogos e sete golos sofridos
- Nota da época- 4/10
- Foi o segundo guardião ao longo da época, mas não cumpriu quando chamado. Svilar ultrapassou-o na hierarquia na recta final da temporada. Não deverá continuar no SL Benfica.

Laterais direitos
#34- André Almeida
- 27 jogos, quatro golos e cinco assistências
- Nota da época 6/10
- Uma época relativamente competente, marcada por alguns momentos de falta de atitude. Continua a ser muito curto para um clube como o SL Benfica.

#84- Tomás Tavares
- 26 jogos, zero golos e zero assistências
- Nota da época- 4/10
- Tomás Tavares foi um dos jogadores mais criticados nesta temporada. O miúdo tem qualidade, mas foi lançado às feras sem qualquer preparação. Precisa de crescer.

Defesas centrais
#6- Rúben Dias
- 49 jogos, três golos e três assistências
- Nota da época- 7/10
- Facilmente o melhor central do plantel. Teve alguns momentos menos bons, mas teve igualmente exibições de gala onde demonstrou estar a caminho do topo.

#97- Ferro
- 40 jogos, um golo e zero assistências
- Nota da época 4/10
- Ferro foi uma das desilusões da temporada. Cometeu muitos erros e pareceu sempre muito frágil perante a pressão do adversário e dos adeptos. Tem de melhorar muito.

#33- Jardel
- 19 jogos, zero golos e zero assistências
- Nota da época- 5/10
- Jardel cumpriu sempre que foi chamado a substituir Ferro. As constantes lesões continuaram a deteriorar a sua forma física e prejudicam a sua carreira. Um central útil

#38- Morato
- Um jogo, zero golos e zero assistências (17 jogos na equipa B e sub23)
- Nota da época- 6/10
- Esteve a bom nível na equipa B e nos escalões de formação. Para o nível de sénior parece estar ainda um pouco “verde”, no entanto tem qualidade.

Laterais esquerdos
#3- Grimaldo
- 41 jogos, um golo e sete assistências
- Nota da época- 7/10
- Grimaldo fez uma época positiva, mas cheia de latos e baixos. Os seus problemas defensivos foram expostos por uma equipa extremamente frágil e com um fraco processo defensivo.

#71- Nuno Tavares
- 15 jogo, um golo e quatro assistências
- Nota da época- 5/10
- Começou a época numa posição que lhe era estranha. J´a lateral esquerdo demonstrou alguma qualidade, mas mostrou ter igualmente algumas limitações técnicas graves. Mias um jogador que foi lançado ás feras sem qualquer preparação.

#22 Samaris
- 25 jogos, zero golos e zero assistências
- Nota da época- 3/10
- Quando um jogador é mais conhecido e adorado pelo que faz fira do que campo do que dentro dele algo está mal. Deixando de lado a “garra” e o “sentir o clube”, Samaris acrescentou sempre muito pouco à equipa.

#28- Weigl
- 21 jogos, um golo e zero assistências
- Nota da época 6/10
- Pra muitos Weigl é o culpado do descalabro da época (inacreditável), para mim Weigl é um dos jogadores com maior qualidade que passou cá nos últimos tempos. A bola nos pés do alemão nunca chora. Há muitos benfiquistas, que pouco ou nada percebem do desporto rei, que ainda não perceberam o jogador que têm nas mãos.

#61- Florentino
- 17 jogos, zero golos e uma assistência
- Nota da época 7/10
- A nota pode parecer elevada, mas sempre que Florentino esteve em campo…esteve muito bem. Isto torna ainda mais estanho o completo deperecimento das opções. Que estranha gestão do plantel… 

Médios Centro/Ofensivos
#49- Taarabt
- 36 jogos, um golo e três assistências
- Nota da época- 8/10
- Um dos melhores jogadores na primeira metade da época. Em muito jogos era o marroquino que remava sozinho contra uma maré de mediocridade. A sua anarquia táctica prejudicou algumas vezes a equipa encarnada, mas o que trazia ao jogo compensava.

#8- Gabriel
- 34 jogos, três golos e duas assistências
- Nota da época- 7/10
- Gabriel, como a maioria do plantel encarnado, fez uma primeira volta bem mais positiva do que a segunda. As lesões condicionaram muito o rendimento do médio brasileiro.

#19- Chiquinho
- 38 jogos, três golos e sete assistências
- Nota da época- 7/10
- Mesmo com todos os problemas de finalização, Chiquinho sempre foi a melhor opção para jogar atrás do avançado. Fez uma época bem positiva e mostrou ter qualidade para estes patamares. Como titular? Isso já não diria.

#86- Tiago Dantas
- Um jogo, zero assistências e zero golos (24 jogos na equipa B e sub23)
- Nota da época- 5/10
- Apesar de ter feito apenas um jogo, Tiago Dantas mais do que merece esta nota. O pequeno médio centro transpira qualidade e inteligência. No entanto, para alguns o que é preciso é raça, seja lá o que isso for, e poder físico. Uma injustiça para este pequeno génio…ponham os olhos no Puig

#92- David Tavares
- Dois jogos, zero golos e zero assistências
- Nota da época- 2/10
- Esta nota deve-se sobretudo á irresponsabilidade que o jogador vai demonstrando dentro de campo 

Extremos
#21- Pizzi
- 51 jogos, 28 golos e 19 assistências
- Nota da época- 8,5/10
- É verdade que o nível exibicional do jogador nem sempre foi o mais alto, mas a nível estatístico a época de Pizzi foi absolutamente estrondosa. Valeu muitos pontos ao SL Benfica. Um jogador decisivo. 

#11- Cervi
- 35 jogos, quatro golos e quatro assistências
- Nota da época- 6/10
- Cervi é um jogador muito esforçado, mas nunca passará muito disto. É um jogador muito útil a qualquer equipa, mas dificilmente terá qualidade para ser titular.

#27- Rafa
- 35 jogos, dez golos e sete assistências
- Nota da época- 6/10
- Rafa desiludiu muito, principalmente na segunda metade da época. O extremo português deveria ser um dos elementos mais importantes da equipa, mas não o foi. Ainda assim teve alguns momentos altos como a exibição em Alvalade.

#17- Zivkovic
- Quatro jogos, zero golos e zero assistências
- Nota da época- 0/10
- O profissionalismo decidiu aparecer só no final da época, vamos ver se se libra das más influências e percebe o talento que tem nos pés

#73- Jota
- 28 jogos, dois golos e três assistências
- Nota da época- 4/10
- Olhando para o número de jogos parece que Jota foi uma parte integrante do plantel, mas estas partidas não se materializam em minutos. É verdade que não demonstrou muito nas oportunidades que teve, mas também é complicado mostrar muito quando se entra sempre depois dos 90 minutos.

Pontas de Lança
#95- Vinícius
- 47 jogos, 24 golos e 13 assistências
- Nota da época- 9/10
- Vinícius chegou como o terceiro avançado na hierarquia, atrás de RDT e Seferovic. No entanto, o ponta de lança brasileiro foi claramente o melhor avançado e, arrisco-me a dizer, jogador dos encarnados. O melhor marcador do campeonato com mesmo minutos desde Eusébio e sem penalties. Que grande época.

#14- Seferovic
- 45 jogos, nove golos e cinco assistências
- Nota da época- 2/10
- Seferovic foi a grande desilusão da época. Depois de ser melhor marcador do campeonato, o avançado suíço não esteve nada perto de repetir o feito. Muitos golos falhados e pouca confiança culminaram numa época muito fraca." 

A receita que funciona

"Depois de um campeonato nivelado por baixo, anémico ainda antes de ser pandémico, com vencedor justo, mas de pouco brilho e uma concorrência abaixo do sofrível, a expectativa neste defeso tardio é obrigatoriamente a de que o nível só possa subir e a qualidade de jogo melhorar.
Sou optimista, prefiro o copo meio cheio e há-de ser isso que me faz renovar em cada ano a fé de que a qualidade do campeonato português pode melhorar, mesmo se nas temporadas mais recentes aconteceu exactamente o inverso. E, mais que de orçamentos, de dinheiro ou da falta dele e da capacidade de reter talento, falo de propostas de jogo empobrecidas e muitas vezes rudimentares ou da preferência por jogadores que são mais de lutar e correr que de jogar. Mais que os outros factores – mesmo o financeiro, que não é um valor absoluto, veja-se o Aves, que estava longe de ter o orçamento mais baixo e foi claramente a menos competitiva das equipas – é à qualidade de jogo, ou mais concretamente à falta dela, que devemos debitar o menor entusiasmo que a prova suscita nos adeptos (em particular nos mais novos, encantados por Inglaterra ou Espanha, onde brilham os heróis dos jogos de consola) e a competitividade externa decrescente, mesmo das melhores equipas do país. Podemos discutir tudo à volta do jogo e continuar a pensar que tem de se mexer mais na arbitragem e no VAR, mudar painéis televisivos, inovar nos calendários e na organização das provas. Por muito que pareça mais necessário alterar o que está na periferia, no centro estará sempre o jogo, ele próprio. E o maior segredo resume-se a uma ideia: jogar melhor.
O optimismo reentra aqui, que parece haver mais equipas apostadas precisamente em jogar melhor. O nível médio das propostas de jogo, aferido a partir das ideias que se conhecem a cada treinador definido para a nova época, augura uma melhoria face aos últimos anos. Ao campeão Sérgio Conceição, de jogo mais seguro que formoso mas sempre competitivo, juntam-se um Jorge Jesus com a autoconfiança de sempre e a prometer arrasar, Carlos Carvalhal com promessas de transferir para Braga o grande futebol exibido em Vila do Conde, Ruben Amorim em época de afirmação depois dos bons sinais dados (falo de ideias, mais que de resultados, como sempre). E João Pedro Sousa mantém-se em Famalicão depois do impacto espectacular em ano de estreia dupla, dele e do clube, como Pepa segue também, depois da recuperação que mudou o destino do Paços de Ferreira. E surge Tiago, agora Tiago Mendes, como aposta surpresa e muito interessante em Guimarães, até para perceber se pesa mais nele a herança do jogador que foi, de classe e pensamento, que parecia desprezar o esforço supérfluo, ou o ensinamento de Simeone em que o sacrifício é visto como via fundamental para o sucesso. E chega Mário Silva, na inteligente linha de continuidade que o Rio Ave tem sabido procurar, percebendo-o num trilho de sucesso, primeiro com os miúdos do Porto e depois no Almería. E há ainda Vasco Seabra, finalmente um treinador de perfil contrastante com o que tem vigorado no Bessa, capaz de provar que garra e atitude são para acrescentar a uma ideia e nunca para a definir. Até porque não faz sentido que Angel Gomes passe pelo mesmo que Bueno, por exemplo, que nunca se enquadrou num modelo de jogo que valorizasse a sua qualidade diferenciada.
Fala-se em Cavani, chega Gaitan, pode vir Cebolinha, regressar Hulk, as melhores equipas tentam acrescentar qualidade indiscutível, mas os melhores sinais para a competitividade virão sempre do momento em que os outros emblemas busquem boas ideias, como atrás descrito, que levem à valorização do talento. Como houve no último ano com Edwards e Pepê em Guimarães, Nehuen, Assunção, Pedro Gonçalves e Fábio Martins em Famalicão, Al Musrati, Mané ou Taremi no Rio Ave, até Kraev e depois Ruben Ribeiro em Barcelos. São precisos mais jogadores desses e é mais fácil acreditar que podem chegar, e em maior número, porque aumentou o número de treinadores que “querem jogar”. Essa é, para já, a grande notícia deste defeso atípico: a de haver mais gente pronta a valorizar um jogar positivo, que terá como consequência resultados desportivos e proveitos financeiros. Foi o que se viu, ainda na última época, no Braga, no Rio Ave, no Famalicão, até no Vitória de Guimarães. Se a lógica é simples e a receita funciona, porque não repeti-la…?"

Cassete Vermelha #52

O futebol

"O futebol é uma grande indústria portuguesa.

1. O futebol é uma grande indústria portuguesa. No anuário relativo a 2018/19, divulgado esta semana pela Liga de Clubes, estão lá os números. Representa, pelo menos, 0,27 do PIB nacional. Contribui com 150 milhões de euros para a autoridade tributária. Gera 2.621 postos de trabalho directos.
A pandemia terá feito baixar o volume de negócios em 136 milhões de euros, mas essa contabilidade, infelizmente, está longe de ser a definitiva. Falta testar como se comporta o mercado de transferências e perceber se o público regressará rápido aos estádios. É como em todos os sectores: veremos.
Um dia será possível, ainda, calcular o impacto indirecto do futebol na economia. O que nunca será calculável é a sua riqueza imaterial. Não há instrumentos que permitam chegar a um número que defina a felicidade das pessoas perante algo aparentemente tão pueril quanto fantástico de um triunfo da selecção num Europeu de futebol. Aquelas imagens de 2016, que a partir de Paris colocaram Portugal em festa, serão inesquecíveis por muito tempo. Até à próxima celebração, seja ela geral, devida à selecção, melhor dizendo, selecções, porque os triunfos das equipas da FPF têm muitas dimensões; ou particular, sendo estas as dos clubes.

2. Por muitas razões, faz sentido estar atento a tudo o que possa contribuir para atentar contra a boa imagem desta indústria. Talvez por isso tenha sido bastante notada a decisão das televisões SIC e TVI de darem por terminados os ciclos dos programas alimentados por adeptos que discutiam como se estivessem nas bancadas sob os efeitos da alienação mais demencial.
Sinceramente, não dou muita importância ao caso. Outras televisões levantarão o estandarte desses programas de baixos custos e boas audiências, absolutas ou relativas. Haverá sempre indivíduos disponíveis para a alarvidade e para a falta de respeito por si mesmos. E as próprias televisões, como se sabe, têm ciclos de toxicidade variáveis e muito próprios. Denunciá-los ou criá-los faz parte de estratégias normais de gestão e receitas.

3. Prefiro destacar, por isso, o pedido de processo de inquérito à SAD do Feirense que a Liga endereçou esta semana ao Conselho de Disciplina da FPF. Em causa está uma eventual incompatibilidade: o líder daquela SAD, Kunle Soname, será também dono de uma casa de apostas em África, a Bet9ja. E tudo o que possa beliscar o bom nome da indústria tem de ser combatido, investigado.
Os interesses devem ser mantidos nos carris próprios. As mesmas pessoas, ou famílias, não podem estar ao mesmo tempo nas apostas, nos negócios e terem participações qualificadas em SAD. É incompatível.
Creio, aliás, que alguém já deveria ter dado igualmente o devido valor às repetidas insinuações públicas do presidente do Aves-clube, António Freitas, a propósito da suspeita conduta dos representantes do capital chinês que levaram ao descalabro da SAD do Aves.
Toda a gente já percebeu que António Freitas desconfia que houve interesse em atirar com o Aves para fora das competições profissionais porque isso indirectamente iria beneficiar, como beneficiou, uma outra SAD detida por capital chinês que estava à beira de sair dessas mesmas competições profissionais, a do Cova da Piedade. É uma questão para o Ministério Público saber se, por insondáveis mistérios de empresas em cascata, tudo isto é, ou não, verdade.

4. A Liga de Clubes faz muito bem, por isso, em pedir, como pede, mais e melhores instrumentos ao Governo para poder certificar os “investidores” que chegam em catadupa ao Ocidente, e a Portugal também, oriundos de zonas do mundo em que o dinheiro parece não custar a ganhar. O problema da lavagem de dinheiro e do ‘match fixing’ é bem real, ameaça as competições desportivas de forma global. E o futebol replica em todos os países a importância que tem entre nós. Há que o vigiar, manter limpo e à altura da importância perante a alegria (imaterial) dos adeptos e o interesse (bem material) da economia, do emprego. É disso que também se fala quando se fala de futebol."

João & Ricardo... Escócia!

O desporto como fábrica de génios

"Em 1999, um semanário francês prestigiado publicou um dossiê sobre “Os Génios do Século XX”. As cabeças iluminadas de um corpo editorial com elevada formação cultural selecionaram os seguintes dezoito nomes: Coco Chanel, Maria Callas, Sigmund Freud, Marie Curie, Yves Saint-Laurent, Le Corbusier, Alexandre Fleming, Robert Oppenheimer, Rockfeller, Stanley Kubrick, Bill Gates, Pablo Picasso, Ford, Albert Einstein, Robert Noyce, Edward Teller, Thomas Edison, Morgan.
Para já temos de definir o que é um génio? Se definirmos um génio como um ser humano inquieto, desarrumador de realidades, então há algo a dizer sobre os génios escolhidos pelos pretensamente cultos jornalistas do semanário parisiense.
Na vida há momentos em que temos de escolher, mas temos de ter consciência que uma escolha implica automaticamente a rejeição de um ou de muitos. Escolho este em detrimento daquele. Por isso, há escolhas que não se devem fazer pois corre-se o risco de se ser sectário, injusto, redutor, elitista e quiçá vingativo.
A lista atrás elaborada pelos, não me custa muito acreditar, inteligentes jornalistas franceses abre um imenso campo de discussão sobre a real valia de uns, a importância sociológica dos feitos de outros e o “pecado” do esquecimento de muitos. Toda a selecção é permeável à crítica. Com o lastro cultural que me justifica então critiquemos.
Se perguntarmos à população portuguesa ou chinesa quem foi Robert Noyce e o que ele fez de importante, com excepção dos engenheiros acredito que 99,9% da gente não sabe responder. No meu entender está muito bem integrado nessa lista pois com a sua descoberta – o microship, ou seja, o circuito integrado de silício, abriu as portas de uma verdadeira revolução na electrónica moderna. Robert Oppenheimer, dirigiu o projecto Manhattan que resultou na criação da bomba atómica. Edward Teller, “pai” da bomba de hidrogénio, também integrou o projecto Manhattan.
Recusando qualquer consideração moralista pode-se considerar, em virtude das resultantes sociais e políticas dos seus inventos, Noyce foi um “génio” do bem e Oppenheimer e Teller “génios” do mal. Temos de levar em atenção que a criatividade científica é sempre subsidiária das criatividades anteriores. Cada cientista coloca uma argola na correia interminável da investigação científica. Muitas vezes, em ciência, não se sabe bem o que é de quem. Vejam-se as dúvidas que pairam sobre a inventividade de Thomas Edison. Passemos à frente.
Stanley Kubrick. Aqui até dói no mais fundo da alma. Uma dor lancinante ataca um cinéfilo doentio como eu. Não, senhores jornalistas franceses; há muito melhor, até no vosso próprio país. Fellini, Pasolini, Woody Allen, Eisenstein, Bergman, Godard, Coppola, Wenders, Lynch, Scorsese, Chaplin. Não posso reduzir a importância de filmes como 2001-Odisseia no Espaço, Shining, Dr. Strange Love, Spartacus (um dos filmes da minha juventude), bem…na realidade estou a ser uma besta. Kubrick é sem dúvida um dos grandes do cinema, com lugar no areópago dos “divinos das fitas”, mas eu gosto muito mais de outros. Gostos não se discutem e, neste plano particular as opções dos senhores jornalistas franceses. Aqui dou a mão e o pé a torcer. Mas, os eminentes profissionais da notícia de França meteram, sem dúvida, a articulação tibiotársica, o astrágalo e os metatarsos todos na poça.
O ridículo da escolha, no meu também sectário entender, surge com a integração de dois costureiros em tão “genial” lista e a ausência de nomes deveras importantes para a cultura contemporânea. Para não me acusarem de luso-centrismo vou esquecer muitas das nossas luminárias que estão incontornavelmente entre os “gigantes” planetários do século XX como Fernando Pessoa, José Saramago, Vergílio Ferreira, António Damásio, Carlos Paredes, Almada Negreiros, Lobo Antunes, Álvaro Siza Vieira, Sobrinho Simões, Maria Helena Vieira da Silva, Natália Correia, Agostinho da Silva, José Hermano Saraiva, Edgar Cardoso, Maria João Pires e Paula Rego.
Os senhores franceses esqueceram-se, e parece intencional esse olvido, de Garcia Márquez, James Joyce, Brecht, Italo Calvino, Kafka, Mircea Eliade, William Faulkner, Graham Greene, Thomas Mann, Marcuse, Sartre, Barthes, Nabokov, Umberto Eco, André Breton, Proust, Bertrand Russell, Popper, Ortega Y Gasset, Camus, Vargas Llosa, Philip Roth, etc. É interessante que na lista não surja nenhum romancista, nenhum poeta, nenhum dramaturgo, nenhum filósofo.
Picasso está sozinho, mas falta-lhe a companhia de Salvador Dali, Kadinsky, Miró, Matisse, Braque e outros grandes na expressão pictórica.
Estão inseridos na lista dois fazedores de dinheiro, Ford (automóveis) e Rockefeller (petróleo). Génios? Talvez, a desenvolver projectos que outros criaram. Mas, na lista, nem um único fazedor de música. Esquecendo-se do famoso sintagma grego “Ginástica para o corpo e música para a alma”, deixaram no tinteiro Stravinsky, Prokofiev, Schoenberg, Villa-Lobos, etc. Na minha selecção pessoal incluiria dois nomes que farão arrepiar os puristas da música clássica: um que meteu em muitos dos meus filmes a dimensão do sonho – Ennio Morricone e os Beatles, os grandes compositores de músicas e poesias da minha geração.
Mas, e aqui tenho de assumir que vou pleitear em causa própria, os prescientes jornalistas franceses esqueceram-se, neste caso com dolo intencional, dos mitos mais importantes da actividade humana do século XX e que continua neste século – o desporto. Eles não sabem, nem sonham, que o desporto, e aqui introduzo a dança pois ambos consubstanciam a Arte do inefável, é a força catalisadora mais pregnante dos últimos séculos, de uma forma que só terá comparação na Grécia de Péricles. 
Logicamente que poderia começar na Europa e terminar na Oceânia e encontrar mitos desportivos que se enquadravam perfeitamente no qualificativo de génios.
No panteão dos génios desportivos, verdadeiros deuses com lugar no Olimpo ao lado de Zeus y sus muchachos, vou só dar alguns exemplos a começar pelos estrangeiros. Logicamente que vou puxar a brasa para os ídolos da minha geração deixando os recentes para quem quiser fazer uma recensão para os melhores do século XXI.
Eis alguns nomes que me fazem cantar hossanas aos céus por ter sido seu coetâneo: Michael Jordan (basquetebol), Pelé (chutos na bola), Maradona (chutos na bola), Mike Spitz (Natação), Sebastian Coe (meio-fundo Atletismo), Randy Barnes (Lançamento do Peso), Jan Zelezny (lançamento do dardo), Carl Lewis (100m e salto em comprimento), Sergey Bubka (salto com vara), Rodolfo Nureyev (ballet), Dinis Santos (dança contemporânea).
Agora os meus heróis caseiros. Eu, que só tenho uma cor no meu coração futebolístico, azul e branco, perdi-me de amores por três atletas “inimigos”: Carlos Lopes, Joaquim Agostinho e Eusébio. Disse amor, sim, porque de amor se trata. Quando a admiração se eleva para um sentimento de partilha em que o crescimento alheio nos faz a nós também crescer o amor acontece como expressão da mais sentida gratidão. Tive o privilégio existencial de acompanhar as carreiras destes génios lusos, os seus momentos de glória e os momentos maus nos quais se evidenciou a sua verdadeira têmpera de campeões. Já o disse várias vezes e repito com prazer: para lá da minha mãe que me estava sempre a dar porrada (vá-se lá saber por que razões estranhas) só estes homens me fizeram chorar. Chorei com Eusébio no mundial de 1966 após derrota com a Inglaterra, chorei com os relatos do Carlos Miranda em A Bola sobre os infortúnios do Joaquim Agostinho, chorei com a cavalgada heróica do Carlos Lopes para a meta nos Jogos Olímpicos de 1984 – a primeira medalha de ouro olímpica do desporto português.
Onde quero chegar ao trazer à luz do dia as mais gratas memórias que o desporto me deu? Que, se em qualquer dos anais da excelência humana faltar os génios desportivos, é um documento imperfeito e incompleto onde falta uma dimensão essencial do ser humano hodierno."