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sábado, 1 de junho de 2019

“Num treino, o Ola John tenta fazer um chapéu e o Jorge Jesus: 'Olha, olha, ainda nem arroz come e já quer comer camarão'"

"Diz que não quer voltar a Portugal tão cedo, sobretudo depois de ter sido constituído arguido por suspeita de ter participado num esquema para perder um jogo, enquanto estava no Rio Ave. De regresso ao Wolverhampton, após um ano de empréstimo ao Olympiacos da Grécia, Roderick refuta todas as acusações de que é alvo e explica as passagens por Suíça e Espanha, antes de rumar a Inglaterra. Pelo meio conta histórias de balneário, fala do Benfica, de Jorge Jesus e confessa que nunca foi ao Brasil, a terra natal do seu pai, um ex-futebolista que agora é taxista

Nasceu em Odivelas mas tem dupla nacionalidade.
O meu pai é brasileiro e a minha mãe portuguesa.

O seu pai também era futebolista?
Sim, também teve uma carreira. Jogou mais fora, em França, na Ilha da Reunião, e chegou aqui para jogar na 1ª divisão, no Sporting Clube da Covilhã, em 1985/86, e depois andou pela 2ª divisão, por Almeirim.

Como é que ele conheceu a sua mãe?
Quando saiu do Brasil veio viver para Portugal e a minha mãe, que é do norte, de Montalegre, na altura tinha vindo para Lisboa para trabalhar num restaurante. Um dia o meu pai foi ao restaurante, conheceram-se, começaram a namoriscar e casaram.

É o primeiro filho?
Sou o segundo, sou o mais novo. Tenho um irmão mais velho, o Kristtofferson Miranda que tem 32 anos. O tempo passa rápido, ainda ontem tinha vinte e já tenho 28 [risos].

O seu irmão também joga futebol?
Jogava mas quando subiu a sénior teve uma lesão no joelho, uma rotura com complicações no menisco, a recuperação não foi muito boa e nunca mais conseguiu entrar em competição. Começou a trabalhar mas joga de vez em quando com os amigos.

Quando era pequenino torcia por que clube?
Pelo FC Porto, porque o meu pai e o meu irmão são os dois do FC Porto. Mas com oito anos ingressei no Benfica e comecei a torcer pelo Benfica [risos], houve uma mudança. Neste momento, para ser sincero, não tenho nenhuma equipa. Tenho amigos no Benfica e se calhar tenho um carinho especial mas pelas pessoas. Se tiver amigos no Sporting, é o Sporting, se for no FC Porto é o FC Porto. Agora também tenho um carinho especial pelo Rio Ave, mas não torço por ninguém.

Como é que começa a jogar no Odivelas?
Aos sete anos pedi ao meu pai para ir para o Odivelas, porque o meu irmão também lá estava. O meu pai, como sempre jogou e esteve ligado ao futebol, levava-nos muito a treinar, a mim e ao meu irmão. Ou para treinar a técnica ou correr, sempre tive essa coisinha, e depois via o meu irmão a ir treinar e também queria ir. Mas pelos vistos a primeira vez não correu muito bem [risos].

Porquê?
Porque fui ao Odivelas com sete anos, estava no treino das captações e ninguém me passava a bola e, segundo o meu pai conta, comecei a brincar com as pedras que estavam lá ao lado e o meu pai agarrou em mim e disse: “Vamos embora”. Mas no ano seguinte voltei, correu melhor e ingressei no Odivelas, nas escolinhas.

Esteve pouco tempo no Odivelas, foi logo parar ao Benfica. Como é que se dá essa mudança?
Foi através do Tamagnini Nené. Num jogo no Fófó, o Futebol Benfica. Na altura eu jogava a avançado e fazia muitos golos. Ele foi ver o jogo para me ver e quando o meu pai o encontra, pergunta-lhe o que é que estava ali a fazer: “Vim ver aqui um rapaz. Anda o Sporting e o Benfica atrás”; “E quem é?”; “É o Roderick”; “Ah, é o meu filho” [risos]. Estiveram os dois a falar e ele quase “obrigou” o meu pai a deixar-me ir para o Benfica. Passados uns dois meses fui fazer captações ao Benfica e fiquei.

O que recorda desse primeiro dia no Benfica?
Tinha nove anos e a única memória que tenho é que fui muito bem recebido. Foi uma transição muito fácil. Sei que aconteceu tudo muito naturalmente, todos os colegas que lá estavam receberam-me muito bem. Fui para uma equipa mais velha, não era da minha geração.
Faz a sua formação toda no Benfica.
Dos nove aos 18 anos.

Ficou sempre a viver em casa dos seus pais?
Sim, nunca foi necessário ir para o Seixal.

Nesse percurso da formação quais são as maiores amizades que faz?
Tenho muitas. O David Simão, o Alexandre Soares, que está no Chipre; o David Cosmeli, que agora é jogador de futebol de praia; o Sérgio Rita, treinador do Cova da Piedade; o Artur Lourenço, que estava no Atlético; o Diogo Figueiras que está no SC Braga.

Quando é chamado pela primeira vez a uma Selecção?
Foi à de sub-17. Foi engraçado, porque eu já era médio defensivo e num jogo em que o central foi expulso, o treinador na altura, o João Couto, meteu-me a jogar a central, e nesse jogo estava alguém da selecção a ver, deve ter gostado de mim e convocaram-me para central para a selecção. A partir daí fui sempre central, nunca mais voltei a jogar noutra posição. Mas, como comecei a avançado, qualquer dia destes vou acabar como guarda-redes [risos].

Foi recuando no campo...
Foi por causa da minha altura. No Odivelas era avançado, depois fui para o Benfica e o José Paisana pôs-me a jogar atrás porque dizia que, como eu era muito alto, conseguia ver o campo todo e então comecei a jogar a médio.

Chateou-o ter de mudar de posição?
Quando uma pessoa é criança, quer é jogar. Eu continuava a fazer muitos golos. Como era muito grande e tinha muita força fazia golos quase do meio do campo, chutava fora da área e fazia golo, então estava tudo bem para mim, não me fez muita diferença.

Como foi o seu percurso escolar?
Com 18 anos já estava na equipa principal do Benfica, por isso acabei o 12º a estudar à noite, ainda pensei entrar na faculdade, mas depois, com os horários, não dava.

Para que curso?
Não sei. Na altura achava graça à matemática ou alguma coisa virado para a química ou para a ciência, algo assim. Ou mesmo para desporto. Mas depois os horários, com as pré-épocas fora, viajar, não viajar, treino de manhã, treino de tarde... Se calhar não foi a melhor opção mas neste momento também não posso fazer nada. Acabei por desistir da faculdade.

É em 2009/10 que faz a estreia na equipa principal, com Jorge Jesus.
Sim, ele chama-me para engrossar o plantel.

É aí que assina o primeiro contrato profissional?
Sim, quando fui chamado pelo Jorge Jesus para a pré-época na Suíça. Foi o meu primeiro contrato profissional, 1200 euros brutos, o que dava uns 700/800 euros.

Lembra-se do que fez ao primeiro ordenado?
Guardei. Nunca fui de esbanjar dinheiro. Quando já tinha o necessário comprei o meu primeiro carro.

Qual foi o seu primeiro carro?
Foi um Fiat Bravo, preto.

Lembra-se do seu jogo de estreia?
Oficial, foi com o AEK, para a Liga Europa. Já estávamos qualificados e foi um jogo em que ele deu oportunidade a vários jogadores que não jogavam e fui um deles. Ainda era júnior mas pude jogar. Antes só tinha feito jogos amigáveis na pré-época.

Estava muito nervoso?
Não, por incrível que pareça, não estava nada nervoso. Sempre fui assim.
Tem algum tipo de superstição?
Não. Entro com o pé direito e benzo-me, mas se não o fizer não vai ser por isso que vou dizer que me vai correr mal o jogo.

Dos seus tempos de formação houve algum treinador com quem tenha tido maior empatia?
Empatia, tenho de dizer o mister Bastos Lopes, porque foi uma pessoa espectacular, muito amigo. Ensinou-nos muito, aos miúdos, também pelo que passou como profissional no Benfica. Ainda hoje guardo uma boa amizade com ele, de vez em quando encontro-o na rua, ele também mora aqui em Olival de Basto, e trocamos algumas ideias. Mas quem me marcou mais foi o João Couto, porque foi quem fez a minha transição de médio para central e se calhar é graças a ele que tive esta carreira. Se tivesse sido médio defensivo podia não ter chegado aonde cheguei, teria sido um caminho totalmente diferente, não sei aonde iria dar, mas acredito que por este tive mais sucesso.

Estava na equipa principal do Benfica com 18 anos, com dinheiro no bolso. Como era com as saídas nocturnas?
Os meus colegas iam todos sair e eu não me importava, ficava em casa. Os meus pais também me incutiram isso. Mas não me importava nada. Nunca fui muito de saídas. Ainda hoje se alguém diz “vamos sair”, posso ir uma vez, mas no dia seguinte já não vou. Não faz parte de mim.

Com que opinião ficou do Jorge Jesus?
Posso dizer que foi o treinador com quem mais aprendi.

Porquê?
Porque futebolisticamente creio que não há um treinador que passe tanta informação ao jogador e que ensine tanto. Qualquer jogador que passe pelas mãos dele sai mais inteligente do que quando chegou. Aprende-se muita coisa dentro do campo, o detalhe, a forma como ele olha para o jogo, a forma como ele lê o adversário. A forma como prepara a equipa para os duelos e para o campeonato. Foi dos melhores treinadores que apanhei até agora, sem dúvida.

Vários jogadores já o referiram. Mas depois dizem que há um outro lado…
É o lado da comunicação. Não se expressa da melhor maneira. Acredito que nem é por maldade de querer magoar, mas às vezes deixa um pouco a desejar e faz com que possa perder alguns jogadores, que lhe viram as costas porque ficam fartos da maneira como ele trata um ou outro jogador. Mas a nível de conteúdo é um dos melhores, ninguém pode dizer o contrário.

Está a dizer que ele é um bocadinho agressivo na forma de tratar os jogadores?
Para um miúdo pode ser complicado, porque, imagina, se estamos aqui e ele quer que estejamos ali, ele dá um grito, e se for um miúdo ou um jogador que não sabe reagir pode “prender” muito, ou então pode reagir a quente e responder. É por aí que pode pecar, às vezes.

Como é que ele reage a quem lhe responde?
Por acaso reage bem. Assisti a dois ou três casos e ele reagiu bem.

Nunca lhe respondeu mais torto?
Não, nem podia, era o mais novo do plantel. Se reagisse levava um estaladão do Luisão ou do David Luiz, sei lá [risos].

Tem algum episódio mais caricato com ele?
Tenho um logo no meu primeiro ano na equipa principal. O Jorge Jesus fazia muitos exercícios só com a linha defensiva e na altura estava a fazer com os quatro titulares da defesa, o Maxi, o Luisão, o David Luiz e não tenho a certeza se era o Shaffer ou Fábio Coentrão. Havia jogadores do outro lado a ajudar no exercício e eu era um deles. Estava na zona central com uma bola. Ele começou a explicar o exercício e a movimentação que os jogadores deviam fazer e eu fiquei muito atento a tentar perceber o que ia acontecer, a tentar interiorizar movimentos e as ideias. Fiquei tão concentrado que chegou a altura em que supostamente eu devia levar a bola para fazer o um contra um, para eles trabalharem a linha defensiva, e fiquei parado, porque estava a olhar para perceber movimentos. Nessa altura o JJ vira-se para mim e dá um berro: “Ó miúdo, estás a dormir ou quê?” E eu: “Peço desculpa, estava só a tentar perceber os exercícios…” E ele: “Abre mas é os olhos senão voltas para onde vieste” [risos]. Foi uma das primeiras duras que levei.
Quando era pequeno, quem eram os seus ídolos?
Como era médio, sempre gostei do Zidane, do Iniesta e do Guardiola. Actualmente gosto muito do Ronaldo, obviamente, e do Messi. Depois comecei a gostar de quem estava na minha posição: o David Luiz. Quando fui para a primeira equipa com ele, tentava perceber como é que ele estava a treinar, o que fazia. O Luisão também, pelo seu profissionalismo e pela forma como trabalhava, acredito que tenha sido o melhor capitão que apanhei e que alguma vez vou apanhar, é um ser humano fantástico.

Quando entrou no balneário do Benfica, na equipa sénior, sentiu-se intimidado?
Não. O acanhamento que senti foi só ao dar o passo para dentro do balneário. Foi só esse momento. Entrar e sentir que estavam ali Luisões, Davides Luiz, Nunos Gomes, Carlos Martins, Saviolas, Aimares, jogadores com nome, e eu a entrar ali... Mas mal entrei toda a gente me falou bem e pôs-me à vontade.

Teve alguma praxe?
Não, porque na altura do Quique Flores eu já treinava muito com eles. Ele chamava dois ou três jogadores da formação para ir treinar e eu ia muitas vezes. Então quando ingressei na época seguinte, com o Jorge Jesus, já conhecia muitos, por isso nem me fizeram nenhuma praxe. Mas claro que muitas brincadeiras iam sempre para o miúdo, que era eu. Que tipo de brincadeiras? Obrigavam-me a levar tudo, o treino acabava, eles chutavam as bolas todas e diziam-me: “Vá, miúdo, vai buscar tudo” [risos]. Eu tinha de ir. Hoje em dia já não há isso, mas antigamente havia. Mas não era por maldade, era mesmo por brincadeira.

Entretanto, na época de 2010/11, o Benfica acaba em 2º e o Roderick é emprestado logo a seguir ao Servette da Suíça. Porquê?
Porque a primeira época em que fiquei, ainda era júnior, depois na segunda época era para sair, ma o Jorge Jesus falou comigo e disse que era melhor eu ficar no Benfica, porque iria aprender mais com ele, do que se fosse para outro lado.

Quando diz que era para sair, era porque queria sair ou porque o aconselharam a sair?
Toda a gente me aconselhava, porque iria ser muito difícil no primeiro ano ter muitos minutos ou ter sequer minutos, quando tinha centrais de renome. E para qualquer jovem é bom jogar. Na altura não havia equipas B, a solução mais acertada seria a de sair. Mas ele falou comigo e disse que não valia a pena sair. Que com ele iria aprender e como era o meu primeiro ano a seguir à formação, iria ser importante para mim aprender a metodologia de jogo dele, os conceitos, tudo isso e acabei por ficar. Não tive muitos minutos. No ano seguinte falei com ele, e ele disse-me que se calhar era melhor eu sair para poder jogar e ter mais minutos. Também para conhecer uma nova realidade, que não era a da formação, era uma realidade diferente. E foi então que fui para o Servette, que na altura tinha o João Alves à frente.

Nessa altura tinha empresário?
Sim, o Jorge Mendes, desde os 16, 17 anos.

Foi ele que foi ter consigo?
Na altura estava com o Nélson Oliveira e fui a um jogo qualquer no norte e houve um representante, acho que o Carlos Rente, se não estou em erro, que pertencia à Gestifute, que viu o jogo e pediu ao Nélson para falar comigo, para saber se tinha algum empresário. Eu não tinha ninguém e começámos a ter contacto aí. Nos juniores as coisas começaram a correr melhor e começou a sair mais o meu nome e aí sim, conheci o Jorge e fiz o meu contrato profissional com ele.
Então o Servette surge já através da Gestifute do Jorge Mendes?
Surge através do João Alves, que tinha sido meu treinador nos juniores e que me contactou, e eu depois transmiti isso à Gestifute.

Sai directamente da casa dos pais para a Suíça?
Sim.

Foi sozinho?
Fui.

Foi muito duro?
Os primeiros meses, sim, porque também estive sempre a mudar de hotéis. Na altura era muito difícil arranjar casa em Genéve, como era tempo de férias estava lá muita gente e as casas estavam todas arrendadas, por isso tive de esperar. Primeiro fui para um hotel, depois fui para outro que tinha um restaurante em que podia ter refeições à borla. Foi complicado gerir aqueles dois meses, mas depois, quando encontrei casa, foi muito mais fácil. Adaptei-me rapidamente e bem.

Nessa altura já havia namoros?
Tinha uma namorada, mas quando fui para a Suíça ela ficou a estudar e optámos por terminar. Namoros de escola.

Como lhe correu a época no Servette com o João Alves?
Foi positiva. Foi a minha primeira experiência fora e também a jogar regularmente numa liga profissional sénior. Correu bem.

Um futebol muito diferente ao que estava habituado?
Sim, sim. O futebol português deve ser dos mais difíceis que andam por aí. Porque é um futebol muito táctico, em que todas as equipas sabem o que fazem dentro de campo. Lá fora não. Há muito mais espaço, há muito mais liberdade e os jogos são muito mais abertos. Na Suíça lembro-me que em todos os jogos todas as equipas vinham para jogar abertamente e nós também jogávamos abertamente. Havia muito espaço e era fácil meter as bolas. Era muito fácil aparecer o um para um contra os defesas, ou quatro para quatro ou dois para dois, como também era fácil passar por dois jogadores e já estar quase na linha de ataque.

Mas o João Alves muito diferente do Jorge Jesus.
Sim, muito diferente. O João Alves é um treinador que, quando gosta, dá muita liberdade, muita liberdade.

Foi o que aconteceu consigo?
Posso dizer que sim. Ele é uma pessoa muito perspicaz, não trabalha da maneira como o Jorge Jesus trabalha, mas depois é muito perspicaz, consegue perceber as fragilidades da equipa adversária, consegue perceber qual é o momento certo para fazer uma substituição e também são essa coisas que que lhe deram alguns triunfos como treinador.

E a adaptação à Suíça, às gentes, à cultura, à língua, como é que foi?
O pior, ao início, foi a língua, mas depois como há muita gente de fora, muitos emigrantes, falava inglês e sempre me safei bem. Depois também tinha dois companheiros portugueses, o Carlos Saleiro e o João Barroca, guarda-redes. Tentava passar algum tempo com eles para não estar sozinho. A adaptação à cultura aconteceu facilmente, o pior era, por exemplo, quando queríamos ir tomar um café. Não havia cafés, tínhamos que ir para dentro de um restaurante tomar café. Entrávamos para dentro de um restaurante com as pessoas todas a comer e tu entras e pedes um café, acabava por parecer mal. Não é como aqui, lá tinhas de ir a um restaurante e então ficava em casa.

Não tem nenhuma história da Suíça que possa contar?
Lembro-me que houve uma altura em que o presidente se queixava de falta de apoio, ele queria que as pessoas se juntassem para ajudar a investir na equipa para não ser só do bolso dele. Ninguém aderiu, não queriam saber disso para nada. Então o presidente ameaçou deixar de pagar os jogadores e de meter dinheiro no clube. Chegou uma altura em que o Costinha, director desportivo, nos chamou ao gabinete. “Bem, vocês sabem como está a situação do clube, está complicado, e se nada acontecer até à meia-noite o clube vai acabar”. Ficámos todos chocados, ainda por cima era a minha primeira experiência fora. “Peguem nas vossas coisas e levem, porque caso o clube acabe, eles vêm aqui e vão pôr uma corrente nos portões, ninguém poderá entrar para vir buscar nada”. Nesse dia, acabou o treino de manhã, peguei numa mala e enchi com as minhas coisas todas. Como estava emprestado pelo Benfica, comecei a ligar tanto para o empresário como para o advogado do Benfica. Foi um dia muito agitado. Até às 23h55 da noite não havia nada, estava para acabar e de repente apareceu o presidente do hóquei, também do Servette, que assumiu a presidência do futebol. Na altura comprou o clube por um franco suíço, não sei como [risos]. Felizmente o clube não acabou e conseguimos ir à Liga Europa.
Na época seguinte não regressa ao Benfica, vai para o Deportivo. Porquê? O Benfica não o quis de volta?
Ia acontecer a mesma situação, ia ter poucos minutos, e como apareceu o Deportivo, achei bem e fui. Na altura até fui com o Nélson Oliveira.

Mas não esteve lá muito tempo.
Voltei em Janeiro, porque não estava a correr muito bem, a equipa estava mal posicionada e o Jorge Jesus chamou-me.

Espanha não foi uma boa experiência para si, não se adaptou bem?
Adaptei-me bem, o problema é que o treinador era espanhol e tanto eu como o Nélson não tivemos muitas oportunidades. É normal, o treinador é espanhol, tem de apostar nos jogadores espanhóis, um treinador português tem que apostar nos portugueses.

Sentiu um bocadinho essa discriminação?
Sim. Mas eu acho que isso é o que está correto e em Portugal devia ser assim. E aqui é o contrário, os portugueses apostam nos outros. Acho que o que eles fazem é o certo. Mas, claro, quando se vai para lá sente-se um bocadinho isso na pele. Mas não posso falar mal de ninguém. Simplesmente sentia-se nas opções que davam a primazia aos outros, mas faz parte do futebol.

Porque é que o Jesus o chama a meio da temporada?
Porque viu que não estava a ter muitos minutos e disse para eu voltar. Foi quando se criou a equipa B. Ele disse que ia treinar com ele e que sempre que fosse preciso ia jogar à equipa B e foi assim.

Não o chateava essa situação?
Ao princípio, sim, quando me chamaram e me transmitiram isso, fiquei um bocado... Já estava a jogar na primeira divisão espanhola, numa das melhores equipas do mundo e voltar ao Benfica para a equipa B...Mas depois comecei a jogar e estava sempre ali na equipa principal, podia ser convocado, podia ter alguma oportunidade, por isso passou.

Teve um problema com o Deportivo: não lhe pagaram. Certo?
Sim, isso também ajudou um bocadinho o Benfica chamar-me porque foi na altura em que o clube abriu falência, o presidente teve uns problemas quaisquer e não pagou. Praticamente o tempo que estive lá, não me pagaram nenhum mês, nada.

Vivia do quê?
Do que tinha.

Não recebia nada do Benfica?
Não, porque o contrato não foi com o Benfica, foi com o Corunha, que depois não pagou. Mas agora, passados quase seis anos, já consegui resolver a situação.

Fez poucos jogos na equipa principal do Benfica, mas houve um que o marcou, com o FC Porto. Em que diz ter sido o “bode expiatório” para justificar o 2º lugar. O que aconteceu?
O que senti é que foi um lance em que sou um dos culpados, porque há uma dobra que é feita por mim, mas que não deveria ser feita por mim, eu nem sequer devia estar lá, mas fui e depois o outro faz um remate que se calhar em 10, acerta aquele e faz golo. Foi um lance em que nunca me senti minimamente culpado, mas as pessoas gostam sempre de arranjar um culpado e arranjaram o mais novo. Esqueceram-se que houve muitos pontos perdidos, mas pronto, no futebol é assim.

Nunca sentiu nenhuma culpa, nenhum peso por causa do que diziam?
Não. Sentia o peso de ver a minha família triste por seu eu o alvo.

Teve muitos sócios a chateá-lo?
Sim, todos.

Qual foi a pior coisa que lhe disseram?
Eu nem ligava. O meu Facebook foi inundado de mensagens. Tive de o apagar para não me estar a chatear, não valia a pena. Como o Instagram não estava tanto na moda, não me chateavam tanto por aí. Mas na rua falavam, mandavam bocas, mas também era para o lado que dormia melhor.

Não lhe riscaram o carro?
Isso fizeram, mas foi no jogo da Taça e fizeram a todos. Na altura em que saímos da garagem, atiraram pedras. Acontece quando uma equipa grande perde uma final. Não é normal, não é normal, mas infelizmente é normal, se é que me faço entender.

Já namorava com a sua mulher nessa altura?
Sim. Conheci a Catarina pelo Facebook, em 2013. Tinha visto umas fotos, depois conhecia-a pessoalmente num centro comercial, onde ela trabalhava, começámos a falar, fomos tomar um café e foi a partir daí.

O que é que ela fazia ou faz profissionalmente?
Quando a conheci, estava a trabalhar numa loja de roupa e estava a tirar o curso de esteticista. Neste momento não exerce porque é chato andar sempre de um lado para o outro.

É por causa desse jogo que vai embora do Benfica?
Sim, sim.

É o próprio Benfica que manifesta não estar mais interessado em si?
Não. Senti completamente que quiseram colocar-me à frente do desaire, como este ano estão a pôr os árbitros. Quando na altura perdemos o campeonato, senti que me puseram à frente e eu, sem problemas, agarrei nas minhas malas, na altura falei com o Jorge Jesus, disse que me tinham dito para me apresentar na equipa B, já nem era na principal, e a partir daí a melhor opção era sair.
A sua ideia era ficar em Portugal ou queria ir para o estrangeiro?
Queria sair, simplesmente. O que pudesse aparecer e ser melhor, onde tivesse oportunidade de jogar mais ou tivesse melhor projecto, era o que iria escolher.

Tinha opções lá de fora ou só de cá?
Na altura tinha várias opções em Portugal.

Por que razão escolhe o Rio Ave?
Porque me falaram muito bem do sítio, do clube e das pessoas, da organização, da estrutura, falaram-me muito bem de tudo. O Nélson Oliveira, que é um grande amigo meu, tinha estado lá e também me falou muito bem do clube, decidi arriscar.

Vai sozinho ou já vai com a sua mulher?
Já vou com a Catarina. Ainda não tínhamos casado. Ela disse que havia possibilidade de acabar o curso no Porto e foi assim.

No Rio Ave apanha o Nuno Espírito Santo como treinador.
No primeiro ano sim. Também muito perspicaz, trabalha muito bem. Um bocado dentro da linha do Jorge Jesus, com ideias muito interessantes de jogo. O problema é que ele quis pôr-me como médio no primeiro ano. Comecei a primeira parte da época como médio e só na segunda parte é que voltei a jogar como central. Porque na altura o Filipe Augusto estava lesionado e ele queria alguém para fazer a posição. Depois o Filipe Augusto voltou.

Prefere estar como central em vez de médio?
Sim, porque já perdi muitas rotinas. É muito diferente, são posições que pedem coisas diferentes e neste momento estou muito habituado a central.

No Rio Ave apanhou, entre outros, o Ukra, que é conhecido pelas suas maluquices. Lembra-se de alguma?
Tenho muitas histórias do Ukra [risos]. Uma vez um miúdo tinha perdido a virgindade e ele obrigou-o a deitar-se no campo e a fazer com ele as posições que fez com a namorada [risos], e nós e o treinador a ver. Era um balneário espectacular, tenho lá muito amigos. O Ukra é o cabeça de cartaz, porque é uma pessoa incrível, uma pessoa muito engraçada, bem disposta. Acho que nunca o vi triste na minha vida. Acho que nunca teve um dia mau. Está sempre bem disposto, sempre pronto a fazer alguma brincadeira, alguma malandrice com alguém.

Gostou de Vila do Conde?
Gostei, gostámos muito da cidade.

Entretanto a seguir ao Nuno Espírito Santo tem duas épocas com o Pedro Martins.
Exacto. No primeiro ano com ele foi quando tive a minha lesão, não tive muito jogo.

Essa foi a primeira lesão séria?
Foi a primeira e única até agora, assim mais séria. Rompi o tendão de Aquiles.

Alguma entrada?
Não, foi sozinho num jogo contra o Gil Vicente, em Janeiro de 2015. Lembro-me que recebo uma bola no peito e na altura em que vou arrancar sinto como se alguém me tivesse dado uma porrada. Lembro-me que estava no chão e a falar: “Eu vou apanhar aquele gajo”. Porque tinha a ideia de que tinha sido o avançado que me tinha dado uma porrada. Mas o Tarantini tinha ouvido o barulho. Dizem que é como se fosse uma cadeira a partir. Só que eu estava naquela, a pensar que tinha sido o gajo que me tinha dado, e quando me levanto e vou pôr o pé, não sinto nada. Pronto. Foi complicado. 

Quanto tempo esteve parado?
À volta de sete meses e meio. Bastante tempo. Chorei muito no primeiro dia. As primeiras horas foram muito complicadas. Chorei muito no balneário.

Pensou que o futebol tinha acabado?
Não, isso nunca. Dormi e no dia seguinte já tinha mudado o chip, estava focado em ficar bem, só.
Na sua última época lá apanhou o Capucho e o Luís Castro.
Sim. O Capucho com métodos diferentes. Também acho que é muito jovem e, não sei, parece-me que tem muito aquela ideia do FC Porto de antigamente, que é muita raça, muita correria, e é muito à base disso. Mas posso dizer que é um treinador de que, pessoalmente, como pessoa, gostei muito. É uma pessoa muito frontal, o que tinha a dizer, dizia logo. Não é daqueles treinadores que dizem uma coisa na cara e depois se for preciso, lixa-nos atrás. Ele não, dizia-nos tudo na cara.

Teve desses treinadores que dizem uma coisa e fazem outra?
O que não falta é isso [risos]. Mas ele era com toda a gente muito frontal e nesse aspecto gostei muito. Do Luís Castro também gostei muito da forma como trabalhava, das ideias. Acho que foram uns sete meses em que o Rio Ave se mostrou muito bem e toda a gente falava do clube na altura.

Dessas quatro épocas no Rio Ave, o que lhe ficou de melhor e de pior?
O pior é a lesão, que acaba também por ser quase do melhor, porque depois da lesão voltei muito melhor. É esquisito dizer isto, mas digo que foi a pior coisa que me aconteceu porque fiquei sete meses parado, mas acredito que voltei muito bem depois da lesão. Tinha muitas dores, agora não tenho nenhuma dor e fez bem porque cresci muito enquanto estive parado, como jogador.

Como assim?
Dizem que os jogadores amadurecem muito a jogar, eu acredito que amadureci muito no tempo em que estive parado. Estava de fora a ver os jogos, a ver os treinos e acho que nesse tempo amadureci muito a minha forma de jogar. Quando voltei, senti diferença.

É nesta altura que é acusado de fazer parte de um esquema de jogos viciados.
Sim.

Alguma vez foi contactado pelo César Boaventura?
Não, nunca fui contactado por ninguém. Nem conheço o César Boaventura, só conheço agora pelas notícias.

Então como é que aparece o seu nome?
Ah, isso tem a ver com o jogo com o Feirense. Na altura estávamos em estágio e saíram muitas notícias no Facebook a dizer que as apostas tinham sido canceladas porque havia suspeita de corrupção. E foi a partir daí que se montou a história. O que ninguém diz é que quando me chamaram para o processo, para ser arguido, chamaram os quatro defesas do jogo, não chamaram o Roderick, o Marcelo, o Nadjack e o Cássio. Chamaram os quatro defesas e o guarda-redes. Ou seja não tinham ninguém, não tinham nenhum nome, chamaram só porque sim. E depois a comunicação social fez o resto, que foi meter os nossos nomes e dizer que tínhamos recebido dinheiro, que estávamos a ser investigados, que éramos arguidos. Fomos arguidos só porque nos chamaram, aos quatro defesas e ao guarda-redes.

Mas não está livre dessas acusações.
O meu advogado o que me tem dito é que só aparece lá a dizer arguido Roderick Miranda, não aparece mais nada.

Sabia que tinha o telemóvel sob escuta?
Sabia e sei que ainda tenho agora. Não dizem, mas sei que tenho.

Quando foi chamado já sabia que tinha o telemóvel sob escuta?
Não. Não porque fizemos a época toda e no último dia, estávamos num hotel todos reunidos, o nosso director desportivo, o Miguel, é que nos disse: “Amanhã vocês os quatro e o guarda-redes têm de ir lá”. E nós: “Mas porquê?”; “porque chamaram os quatro defesas e o guarda-redes que jogaram esse jogo”. Nós fomos a pensar que só íamos prestar declarações. Chegamos lá e dizem-nos “são arguidos”.E ficaram logo com os telemóveis. Disseram que era só por uma semana, mas foram três meses com eles. Para devolver foi uma confusão do caraças, mas pronto.

O que eles queriam saber em concreto?
Não sei que é que eles queriam saber, mas já nos estavam a acusar, a dizer que nós tínhamos recebido dinheiro e ninguém tinha recebido nada. Entretanto juntaram este processo todo dos emails, juntaram o César Boaventura, estão a juntar tudo ao processo. É fácil a associação, porque eu joguei no Benfica, mas nunca recebi. Até o jogo em que me acusam, eu nem joguei, estava cá fora.

Insiste que nunca foi contactado por ninguém para viciar jogos nem recebeu dinheiro nesse sentido? 
Não. Nem fui contactado para dizer 'A', 'B' ou 'C' para fazer isto ou aquilo. É que nunca me contactaram.

Ficou surpreendido com a situação?
Sim, bastante, e fiquei ainda mais surpreendido quando pessoas de alguns clubes me estavam a acusar. Isso foi o que ainda me deixou mais estupefacto.

Quem é que o acusou?
Pessoas que falavam nas televisões, falavam como se eu fosse a “mula” que levava o dinheiro. Mas pronto, fazer o quê?

Nem nunca se apercebeu de nada no plantel e à sua volta?
Não e acredito piamente que não aconteceu nada.

Acredita que está toda a gente inocente?
Sim.

Põe a mão no fogo pelos seus colegas?
Não ponho a mão no fogo por ninguém, ponho por mim. Mas acredito piamente que nenhum deles tem nada a ver. Porque não me lembro de em nenhum jogo alguém ter feito um erro propositadamente para perdermos um jogo. Nunca.
Vai para Inglaterra antes ou depois de toda a situação dos jogos viciados surgir?
Isso “explodiu” quando eu já estava em Inglaterra. Inglaterra apareceu pela época que fiz, correu-me bem e apareceu a oportunidade. Ainda tinha mais um ano de contrato.

Foi o Nuno Espírito Santo que o chamou?
Sim, ligou-me e disse que contava comigo para o projecto do Wolverhampton. Decidi ir. O Rio Ave também recebeu algum dinheiro.

Era um sonho?
Sim. Acho que qualquer jogador gostava e gosta de ir para Inglaterra.

Gostou dos ingleses?
Dos ingleses gostei muito, agora as cidades, a comida... é muito diferente de Portugal.

A sua mulher foi consigo?
Foi.

Na altura já tinham algum filho?
Já, o nosso filhote, o Santiago, que tinha nascido em maio, também foi. Eu fui primeiro porque o Santiago ainda só tinha um mês e eles só deixam viajar com dois. Depois foi com a mãe.

Assistiu ao parto?
Sim. Assisti a tudo.

Qual foi a sensação de assistir ao nascimento do filho?
Sou sincero, só me apercebi quando o agarrei pela primeira vez. Porque a gravidez toda passei ao lado, a minha mulher até dizia: "Ah, tu não vais gostar do teu filho” [risos]. Porque eu não beijava a barriga, não passava a mão, não fazia aquelas coisas que supostamente dizem que os pais fazem. Eu dizia-lhe: “Ó amor, mas eu não sinto nada, como é que vou já gostar de uma coisa que eu nem sinto! Tu sentes, está dentro da tua barriga, mas eu não sinto nada”. Mas a partir do momento em que o meteram nos meus braços, aí, esquece. Foi um amor... É uma coisa esquisita de ser. É um amor que aparece assim [estala os dedos]. É maravilhoso.

A sua mulher adaptou-se bem a Inglaterra?
Mais ou menos. Não gostou muito, foi difícil para ela também.

Gostou do futebol inglês?
Gostei muito pelo espectáculo que é. Um jogo muito intenso, em que não há perder de tempo, não há aquele jogo em que dás um toquezinho e cai, não há disso. E é bom porque os adeptos que vão ao estádio querem é um jogo aberto, um jogo onde haja emoção.
Apanhou o Nuno Espírito Santo três ou quatro anos depois de já o ter tido como treinador no Rio Ave. Notou evolução?
Sim, bastante. Também são equipas diferentes, com objectivos diferentes. O Rio Ave lutava por uma boa classificação, quiçá uma Liga Europa, e ali lutávamos por um título, por uma subida. Era totalmente diferente, mas senti que a metodologia de trabalho estava muito diferente.

Depois vai emprestado para o Olympiacos. Porquê?
Estava a jogar e a meio da época houve um jogo em que ele mudou a equipa, os centrais, e a partir daí nunca mais joguei.

Ele não deu nenhuma justificação?
Falei com ele e ele disse que era o momento, que o outro tinha entrado bem, e como a equipa estava a ganhar não queria mudar. Temos de respeitar a opção do treinador. Disse-lhe: “Ok, tudo bem”. Na pré-época seguinte falei com ele e ele disse que iam ser os mesmos três que iam jogar, e para estar ali sentado também não valia a pena. Comecei a ver opções e apareceu o Olympiacos .

Mas também lhe apareceu o Sporting de Braga, não foi?
Sim, já tinha aparecido a meio da época, no Wolverhampton, e voltou no início da época seguinte. 

Por que optou pelo Olympiacos?
Porque não queria voltar para Portugal.

Porquê?
Por tudo o que falámos, pela polémica que estava a acontecer, não queria voltar para cá.

Sente-se magoado?
Magoado não, mas que me faltaram ao respeito, faltaram. Acho que nunca dei justificação a ninguém para pôr o meu nome em praça pública e quererem quase “matar-me”. Por isso neste momento é um sítio onde não quero jogar. Também por tudo o que está a acontecer no futebol português, que também não está num momento ideal. Há muita polémica, por tudo e por nada há discussão, acusam os árbitros disto, os jogadores daquilo, acho que não é um bom momento para voltar para cá.

Na Grécia como é que foi a adaptação? Gostou, está a gostar?
Gostei muito. É um país completamente diferente de Inglaterra, gostei muito do país, a comida também é muito boa. E gostei muito do clube, um clube com muitos adeptos. Já me tinham falado, mas não estava à espera de encontrar um clube com adeptos com tanta paixão, que vivessem tanto o futebol.

São diferentes dos adeptos ingleses?
Sim. Os adeptos ingleses são muito bons, mas são adeptos que reagem. Ou seja, eles reagem ao que está a acontecer. Se está a ser um bom jogo eles aparecem, se não, calam-se. Já na Grécia não, são fanáticos, comparo-os se calhar um pouco aos do Benfica, mas mais fanáticos e mais malucos.

E a próxima época?
Estive emprestado. Agora vou voltar para Inglaterra., para o Wolverhampton.

Mas é para lá ficar ou ainda não sabe?
Ainda não sei, vou ter de falar com o Nuno.

Se pudesse escolher?
Escolhia sair para um sítio onde pudesse jogar e ficar alguns anos. Estabilizar.

Isso está fora de hipótese no Olympiacos?
Está.

Porquê?
Por causa do treinador e da direcção.

Não gostou do Pedro Martins?
Também é daqueles que fala uma coisa e depois faz outra. E sendo português então, ainda parece mais baixo. O futebol tem destas coisas.
Entretanto como é que foi o seu percurso na selecção? É chamado pela primeira vez para os sub-17. 
Sim. Fiz uma qualificação para o Europeu, não nos qualificamos. Depois sub-18 também não nos qualificamos, depois sub-19 qualificamo-nos para o Europeu, fiz o Europeu.

Quando é chamado à selecção A?
Só fui pré-convocado para a selecção A, nunca fui mesmo chamado. Tive uma pré-convocatória para a Taça das Confederações, no meu último ano, no Rio Ave.

Esse é o sonho que ainda está por realizar?
Sim, claramente. Acredito que ainda consigo concretizar, mas é como lhe disse, preciso de ir para uma equipa onde esteja a jogar e que tenha alguma continuidade.

Quando é que fez a primeira tatuagem e o que é?
A primeira é o meu nome e foi o meu irmão que me ofereceu, quando fiz 16 anos. Fiz e andei com o braço tapado uma semana em casa [risos], porque os meus pais não sabiam. Mas claro que depois uma pessoa é apanhada.

Ficaram muito chateados?
Claro, mais com o meu irmão, que me pagou a tatuagem [risos]. Foi uma coisa nossa.

Tem alguma mais especial?
Tenho as iniciais da minha mulher, tenho uma maori no meu gémeo, que também tem um significado especial porque foi depois da lesão. Dizem que é para nos reerguermos com mais força quando caímos. Depois nas minhas costas tenho transcrições do “Gladiador”, o meu filme favorito. Tem lá mensagens que são de batalha. Por vezes a vida é uma batalha e isso é importante. E depois tenho aqui também a cruz da fé. Sou crente à minha maneira. Não sou praticante, não sou de ir à igreja todos os dias, mas tenho a minha fé e acredito muito. 

Onde é que ganhou mais dinheiro até agora?
No Olympiacos.

E onde é que tem investido o seu dinheiro?
Neste momento estamos a pensar em comprar casas para começar a alugar. Nós queríamos abrir um negócio aqui, mas é complicado porque estamos muito tempo fora, a minha mulher também não gosta de estar longe de mim, mas estamos a pensar em abrir um negócio depois.

Ligado a quê?
Mais à moda, porque ela tem um curso de fashion and styling e gosta muito disso. Abrir uma loja de roupa ou alguma coisa na área do design de moda.

Há algum clube de sonho onde gostava de jogar?
Sim, o clube de sonho onde desde pequeno gostava de jogar era o Barcelona.

O que se vê a fazer depois de largar o futebol?
Neste momento vejo-me ligado ao desporto. Treinador... Já tenho pensado nisso, para o ano vou começar a tirar o curso. Ou agente desportivo ou trabalhar no scouting.

Tem em mente alguma meta de idade para terminar a carreira de futebolista?
Não, até gostar e sentir-me bem. A partir do momento em que deixar de gostar ou parecer que estou a ser obrigado a ir, já não vale a pena.

Qual foi o melhor conselho que o seu pai, enquanto futebolista, lhe deu?
Trabalha agora e vive depois.

Os seus pais estão ambos vivos?
Sim. O meu pai ainda trabalha, tem uma empresa de táxis, tem o seu próprio táxi. A minha mãe está em casa. Era cozinheira mas agora está só por casa.

Gosta de viajar?
Gosto muito.

Qual foi o país que mais lhe encheu as medidas ou que mais o surpreendeu?
O que mais me surpreende é Portugal. Porque às vezes as pessoas falam tão mal do nosso país, que está mal, que está assim, mas já vivi tantas vezes fora, já estive em muitos sítios, e quando volto para aqui para o nosso cantinho, vejo que isto é muito bom. Vejo que há muitas pessoas a reclamar do custo de vida, que as coisas estão caras, quando vou com a minha mulher fazer compras digo: “Nossa, isto está tão baratinho”. Lá fora é tudo muito mais caro.

Já foi ao Brasil, a terra natal do seu pai?
Nunca fui ao Brasil.

Mas tem lá família, não os conhece?
Tenho lá a minha avó e um tio, mas eles já vieram cá. Se estivessem à minha espera ainda estavam para me conhecer [risos].

Para terminar, não há mais nenhuma história divertida para contar?
Tenho outra com o Jorge Jesus, no Benfica.

Força.
Tínhamos acabado o treino, estávamos a alongar, enquanto alguns avançados ainda faziam treino de finalização. Na altura estava o Ola John, holandês, a fazer a finalização, houve um cruzamento ou algo assim, e a bola ficou fora de área. Ele recebeu e tentou picar por cima do guarda-redes, fazer um chapéu, só que o guarda-redes defendeu. O JJ vira-se e diz: “Olha, olha, olha ainda nem arroz come e já quer comer camarão” [risos]. Foi uma risota geral. O Ola John não percebeu, porque mal tinha chegado e não percebia nada de português [risos]."

Choque e consternação

"Foi um choque e com profunda tristeza e consternação que tomámos conhecimento do fatídico acidente que vitimou o nosso ex-jogador José Antonio Reyes, um jovem de 35 anos. Em meu nome pessoal e em nome do Sport Lisboa e Benfica apresento as mais sentidas condolências a toda a sua família e amigos, manifestando profunda solidariedade e pesar nesta hora difícil e muito triste. O atleta e homem exemplar ficará para sempre na nossa memória."

Benfiquismo (MCXCVII)

R.I.P.

Quando o silêncio é sinal de liderança

"Luís Filipe Vieira que deu a cara nos momentos mais difíceis optou pelo silêncio na hora dos foguetes dando o palco a jogadores e treinador

Disse aos meus amigos sportinguistas que era mais improvável o Sporting vencer o FC Porto este ano na final da Taça do que na época passada o Aves bater o Sporting. Falhei redondamente. No Jamor acontecem coisas improváveis e foi um sábado engraçado na Taça.
Bem sei que para os azuis e brancos este é historicamente um jogo que não interessa muito, disputado no «municipal de Oeiras» e sem grande relevo, mas para todos os demais clubes e adeptos trata-se de um dos maiores objectivos da época.
Parabéns ao Sporting e ao seu treinador pela conquista e pela forma cívica com que festejou. Keiser foi dos primeiros a dar os parabéns ao campeão e deve ser dos primeiros a merecer os parabéns pela sua conquista. Um terceiro lugar no campeonato, uma Taça da Liga e uma Taça de Portugal fazem desta a melhor época do Sporting dos últimos 18 anos, com o reconhecimento devido a Frederico Varandas. Para uma instituição que há um ano vivia entre a ala psiquiátrica dum manicómio e a guerra civil, há méritos evidentes no caminho traçado.
Hoje em dia no futebol português é preciso ser muito radical para defender a moderação. A angústia deste FC Porto, tão agressivo na comunicação e tão frágil na concretização, não me adianta muito. A mim interessa-me o Benfica e a forma como se preparam as novas conquistas. Em primeiro lugar porque acredito que o melhor plantel, a melhor equipa, têm mais hipóteses de vencer o campeonato. Acredito por isso que nas opções do próximo mês estarão as premissas para uma boa conclusão do próximo campeonato. Manter a base vencedora deste ano e contratar de forma cirúrgica parece-me uma estratégia imaculada. Na qualidade das nossas compras está o tamanho da nossa ambição europeia.
A entrevista de Rui Costa explicou bem os detalhes do 37, a entrevista de Domingos Soares de Oliveira desvendou as condições existentes para as próximas vitórias, o silêncio de Luís Filipe Vieira na hora de estrondosa vitória mostra como saber liderar é tão importante. O presidente que deu a cara nos momentos mais difíceis (desportivamente e institucionalmente) optou pelo silêncio na hora dos foguetes e deu o palco a treinador e jogadores com uma elegância que só por miopia ainda não foi elogiada. Este silêncio de Luís Filipe Vieira é demonstração de liderança e de sageza."

Sílvio Cervan, in A Bola

Na Final...

Corruptos 68 - 77 Benfica
17-16, 20-22, 17-18, 14-21

Foi um concludente 3-0, nestas Meias-finais... Hoje, o jogo esteve equilibrado, mas no 4.ª período voltámos a dominar... Grande jogo do Fábio Lima, para sermos Campeões, não pode ser só o Micah a marcar pontos, é preciso aparecer outros... e com o Suarez 'longe' do cesto, alguém tem que assumir a responsabilidade...

Agora, na Final começa tudo de 'novo'... é verdade que ganhámos à Oliveirense recentemente, mas o Travante Williams não jogou! Como costuma ser, o título vai ser decidido na 'defesa' e o Lisboa costuma 'acertar' nestas ocasiões!

Derrota no 1.º jogo da Final...

Benfica 4 - 5 Sporting

Já cansa, perder é sempre mau, mas perder sem merecer é ainda pior... Tirando o jogo da 2.ª volta da fase regular no Alvalixo, nos últimos tempos, todos os dérbies têm sido dominados pelo Benfica... normalmente acabam empatados e nas Finais, normalmente acabamos por perder nos penaltis, hoje, perdemos no prolongamento!!!
Rematamos mais, falhamos mais... e acabamos quase sempre por 'oferecer' golos ao adversário!

No meio de tudo isto, vale tudo para parar o Fits, não existem penalty's a favor do Benfica... tudo normal!!! Hoje, chama-se Fits, mas antes era com o César Paulo, ou com o Elisandro, as 'interpretações' criativas às regras caem sempre para o mesmo lado...

Nada está decidido, mas é importante mudar a tendência rapidamente...

Aposta certa

"Tenho defendido, desde que o investimento na formação acelerou significamente e se tornou num dos pilares da estratégia para o futebol benfiquista, que a aposta em atletas formados no Seixal deverá assentar na qualidade dos mesmos e nas necessidades do plantel da equipa 'principal', ao invés de se tornar dogmática, resultado de um decreto. À semelhança da renovação do contrato de Samaris, o anunciado prolongamento do contrato de Pizzi é, por conseguinte, uma excelente notícia porque, além de se tratar de um excelente futebolista, indiscutivelmente fundamental nos títulos recentes e obviamente com potencial para manter o seu nível nos próximos anos, confirma que o pressuposto inicial da composição do plantel refere-se à qualidade intrínseca dos jogadores, independentemente da idade ou proveniência. As portas estão efectivamente abertas aos miúdos do Seixal, mas cabe-lhes demonstrar que têm capacidade para ultrapassá-las e permanecerem no outro lado.
Pode dizer-se que, apesar de alguns hiatos, sempre foi assim. Não o nego, pois conheço todos os plantéis benfiquistas ao longo da história com alguma profundidade. O que marca a diferença na presente é a conjuntura futebolística actual, em que os níveis de investimento e a concorrência internacional pela talento atingiram níveis inimagináveis até há duas décadas e, por isso, indutora de maior necessidade de investimento criterioso. Hoje, mais do que nunca desde que os passes dos jogadores passaram a ser transaccionados, é essencial detectar talento e desenvolvê-lo. Poupar em aquisições, acautelando a competitividade do plantel, permitirá elevar a massa salarial, sendo esta a única forma de reter talento ou, pelo menos, adiar saídas de jogadores. Estamos no caminho certo!"

João Tomaz, in O Benfica

Rumo ao 38

"Como vai o meu amigo leitor? Já está desintoxicado do arraial de cerveja que deu entrada no seu organismo na noite de 18 para 19 de Maio? Pelo sim, pelo não, esta semana o meu pai ainda me pediu para lhe dar boleia para o trabalho, não vá uma operação STOP tecê-las. Revi vezes sem conta toda a festa após o apito final. As celebrações ainda no relvado, dentro do balneário, a entrega da taça e o percurso do autocarro desde o Estádio da Luz até ao Marquês de Pombal. Em nenhum desses momentos foi possível encontrar o Cervi em estado sóbrio. Aquela serenata do Samaris a propósito da renovação do grego já está gravada com o meu toque de telemóvel. Alguém percebeu quando é que o Chucky ingeriu a primeira Sagres? Não consegui identificar esse instante nas imagens da festa, pelo que só posso concluir que o argentino devia ter uma grade de cervejas escondida debaixo do banco de suplentes durante o jogo.
A caminhada até à Reconquista foi épica e Bruno Lage tem ainda mais mérito pela aposta assumida em vários jovens da formação. Um acto de elevada astúcia. Era óbvio que a rapaziada entre os 18 e os 23 anos, impossibilitada de participar na Queima das Fitas, iria fazer de tudo para entrar noutra festa onde pudesse beber até cair para o lado. Esse foi o verdadeiro motivo de todo o empenho evidenciado. E mesmo assim, nenhum dos miúdos teve andamento para o Jonas, que parecia aquele tipo que já vai em doze matrículas, ainda não conseguiu acabar o curso e toda a gente lhe oferece bebidas. Aqueles sprints de um lado para o outro no autocarro não deixam margem para dúvidas: o Pistolas quis provar que ainda está em plena forma para ajudar no ataque ao 38."

Pedro Soares, in O Benfica

sexta-feira, 31 de maio de 2019

A Lage o que é de Lage

"Tantos adjectivos elogiosos já foram utilizados para caracterizar o desempenho de Bruno Lage na semi-época da estreia ao serviço da equipa principal do Benfica, que qualquer encómio de sobra soará sempre a redundância. Na verdade, nem mesmo os mais optimistas esperariam tanto, levando em conta encarnada se encontrava no 4.ª lugar a 7 pontos da liderança, tendo ainda se de deslocar ao Dragão, a Alvalade, a Braga e a Guimarães.
Daí em diante, não só venceu categoricamente em todos esses estádios, como recuperou os pontos de atraso, igualou o recorde de golos, e chegou ao ambicionado título. Fê-lo com nota artística elevadíssima, empolgando os adeptos - mesmo aqueles que, não sendo do Benfica, simplesmente apreciem o bom futebol.
O jovem técnico benfiquista não brilhou apenas pelos resultados e pelas exibições. Também deixou marca pelo discurso de humildade e fair-play, bastante distinto daquilo que é habitual no futebol português. Mostrou que para ganhar não é necessário gritar, nem desrespeitar os rivais. Deu um exemplo de desportivismo que não pode deixar de ser sublinhado. Se Lage recolhe hoje o apoio da unanimidade da nação benfiquista, também é preciso dizer que a próxima época lhe trará novos desafios.
Mais do que nunca, o Benfica será o alvo a abater, e todos os restantes treinadores irão esforçar-se por tentar anular o seu modelo de jogo.
Depois de tão sumptuosa estreia, Bruno Lage tem agora a oportunidade de mostrar que o seu êxito nada teve de circunstancial, e que estamos perante um técnico ao nível dos melhores da história do clube e do país."

Luís Fialho, in O Benfica

Carrega, Bruno!

"Bruno Fernandes está na moda e tem feito manchetes diárias dos jornais desportivos, com direito a horas e horas de televisão com o mesmo tema. O mundo é muito injusto, pois há um Bruno, também de apelido Fernandes, bem mais titulado e de que ninguém fala.
A equipa feminina de Futsal do Sport Lisboa e Benfica conseguiu um feito difícil de igualar - sagrou-se tricampeã nacional. Pela terceira época consecutiva, as nossas Papoilas Saltitantes conquistaram não só o Campeonato Nacional, como venceram todas as provas internas. Conseguiram, pela terceira temporada seguinte, juntar ao título de Campeão, as vitórias na Supertaça e na Taça de Portugal. Todo o mérito deve ser atribuído ao excelente grupo de trabalho que o SL Benfica montou, em 2016/17, de forma estruturada, com muito planeamento e, sobretudo, com uma clara visão de futuro. Ao leme desta equipa está Bruno Fernandes, com apenas 36 anos. Discretamente, fazendo do trabalho a sua forma de estar, o nosso treinador conduziu as nossas 15 atletas a feitos notáveis. Os números falam por si - em três épocas conquistou 9 títulos de âmbito nacional e dois distritais. Além do Campeonato, da Supertaça e da Taça, Bruno Fernandes bateu o Sporting, por duas vezes consecutivas, na final da Taça da Honra da Associação de Futebol de Lisboa. Creio que se poderá pensar que só não venceu a terceira porque esta época a prova não se disputou. Capitaneadas por Inês Fernandes, as tricampeãs nacionais realizaram, nos últimos três anos, 105 jogos oficiais, vencendo 97. Empataram quatro e perderam apenas quatro jogos. Marcaram 541 golos. Impressionante!"

Pedro Guerra, in O Benfica

Açúcar ou Saúde? Futebol!

"Açúcar é bom mas não no sangue. E para isso temos, não só que o consumir em menor quantidade como, sobretudo, que controlar os seus níveis regulares para que os médicos nos possam aconselhar e ajudar a evitar os seus efeitos nefastos. Habituámo-nos a ouvir dizer que a diabetes é uma doença civilizacional e dito assim, parece uma fatalidade que a mesma vá tolhendo vidas atrás de vidas à espécie humana. Ora, usando de alguma modernidade e senso comum dos nossos dias, fui espreitar à Wikipédia e descobri que 'Civilização é um complexo conceito da antropologia e história. Numa perspectiva evolucionista é o estágio mais avançado de determinada sociedade humana'. A sério? Não faz sentido nenhum quando lemos esta definição a pensar em diabetes... Portanto algo está mal nesta civilização e se calhar somos mesmo nós, que entramos desabridamente pelo consumo inconsequente de tudo e mais alguma coisa, sem olhar aos limites do corpo e sem queimar uma caloria que seja, alternamos infindavelmente entre 'parado' e 'quieto' e não fazemos o menor esforço para mudar até que seja tarde, por vezes irremediavelmente tarde...
Ora é aqui, precisamente, que entra esta coisa de 'jogar à bola', aliando a actividade física à socialização que é, para nós Humanos, como o oxigénio da vida. Todos sabemos que somos uma espécie gregária, cujo sucesso reinante sobre todas as demais assenta na capacidade de organização social que temos e na actuação conjunta em torno de lideranças. Na verdade, se há coisa que nos faz sentir bem é competir, apontar a objectivos e conquistá-los. Mas no final, sabe a pouco a vitória se não houver a celebração e o reconhecimento do outro. Quando somos pequenos todos passamos por uma idade de afirmação e necessidade de reforço positivo que termina invariavelmente num 'mãe.. pai... Já viram o que eu fiz?... Olha aqui eu...'. Mais tarde, muitas vezes, quando alcançarmos alguma coisa na vida é comum ouvir dizer coisas como 'que pena o meu pai/mãe não estar aqui para ver o que eu consegui'. Enfim, estar com gente e competir são duas coisas tão importantes para nós que podem mesmo sobrepor-se à preguiça se o que estiver em causa for 'jogar à bola', porque fazer isso é uma das poucas ocasiões em que a vida nos oferece em síntese tudo o que mais gostamos de fazer.
Portanto, é fazer pela saúde, combater a diabetes e muito mais, com uma bola nos pés e um sorriso entre amigos."

Jorge Miranda, in O Benfica

Tanto melhor

"Depois de um ano muito difícil, os benfiquistas vivem em todo o país e por todo o mundo, em estado de verdadeira felicidade. Em nós, é normal este formidável uníssimo de cada vez que ganhamos. Lembro-me bem dos indeléveis sons e imagens das grandes vitórias que já marcavam a história do Glorioso desde o século passado, a partir do final dos 50 e ao longo de toda a década de sessenta, ainda quando, no Portugal a preto e branco, o nosso vermelho irrompia de vez em todo o lado, nas grandes e constantes celebrações do Benfica vencedor, de cada vez que os nossos sonhos se cumpriam.
Os tempos de hoje são muito diferentes. Nem há comparação possível com o que é celebrarmos, agora em plena liberdade, uma reconquista tão difícil. A diversidade, a intensidade e as dimensões que estão a caracterizar as comemorações do nosso 37.º campeonato, marcam muito mais do que a imensa alegria colectiva que experimentamos por um título nacional.
A incrível explosão do nosso sentimento colectivo coroa, aliás, a própria natureza do feito alcançado em dois diferentes campos de vitória. Também por isso, mais apropriadamente ainda, desta vez conformamos num autêntico grito de alma a dupla conquista: a Reconquista.
Primeiro, soubermos superar-nos a nós próprias e depois, passámos a vencer todos os outros. Nesta hora dos nossos irreprimíveis festejos, contudo, eles persistem em usar por todos os meios, todos os subterfúgios e todas as mentiras para tentarem denegrir os incontestáveis méritos que constituem o nosso justo orgulho. Na ânsia de publicamente se eximirem à constatação dos seus erros e da sua insuficiência desportiva perante a hegemonia do Benfica, chegam a esquecer-se dos assomos dos méritos e capacidades que, de vez em quando, ainda patenteavam, preferindo disparar em todas as direcções que a imaginação doentia e podre lhes concede, para iludirem perante quem lá manda agora, as severas realidades em que estão mergulhados.
Mas verdadeiramente, ali, já não há rei, nem roque: os sucessivos cheque-mates que continuam a sofrer são o resultado dos autênticos haraquiris a que cegamente se dedicarem, em todos os campos de actividade, nestes últimos seis anos. Mas, pelos vistos, continuarão sob a égide das macacadas. E se for assim que se sentem bem, tanto melhor..."

José Nuno Martins, in O Benfica

Recusa de Cillessen é caso de estudo

"A recusa de Cillesen em mudar-se para a Luz deve ser caso de estudo. O Benfica é um grande clube, 37 vezes campeão nacional, 26 vezes vencedor da Taça de Portugal, sete vezes triunfador da Supertaça e duas vezes campeão europeu. Mas, para um determinado nível de futebolistas, apesar da história, do prestígio, das condições de trabalho, de uma massa imensa de sócios e adeptos que pintam de vermelho os caminhos da lusofonia e de uma situação financeira que sugere estabilidade, jogar no Benfica são é apelativo. E a razão de tal desinteressante não tem a ver com o clube - um dos maiores do mundo - mas da circunstância onde este desenvolve parte substancial da sua actividade, a Liga portuguesa.
Há muita gente que não gosta de encarar a realidade mas esta, patente diariamente na imprensa de Badajoz para lá, diz-nos, cruelmente, que a interesse do resto do mundo pelo nosso futebol domésticos é meramente residual. Sejamos claros: tendo em carteira outras possibilidades, que jogador que vir jogar para uma Liga onde as acusações de corrupção andam permanentemente no ar, o insulto é corrente e a cultura de ódio significa, para muitos, uma forma de estar? Visto de fora, será este um ambiente convidativo?
A Liga de Clubes, que vai a votos em breve, deve reflectir sobre a forma de inverter uma situação que empurra o nosso campeonato para o afastamento dos melhores. É preciso que acolha, por exemplo, sem tibiezas, a causa da centralização dos direitos televisivos, única forma de aumento da competitividade, e que apoie, com coragem, os movimentos que procuram erradicar os holligans dos estádios."

José Manuel Delgado, in A Bola

O homem do leme

"Cai o pano sobre a época futebolística em Portugal, edição 2018/2019. O Benfica assegurou a reconquista do Campeonato, sendo unânime o reconhecimento da figura maior dessa proeza: Bruno Lage. O “Homem do leme”, música eternizada pelos Xutos e Pontapés, dá o mote para recordar a obra do treinador campeão com apenas meia época de trabalho à frente da equipa.
Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.
Sozinho na noite. Era precisamente assim que se encontrava Luís Filipe Vieira no final de Novembro de 2018. Na ressaca da derrota por 5-1 frente ao Bayern de Munique, o presidente do Benfica pernoitou no Caixa Futebol Campus e, durante a noite, viu a tal “luz”, que brilhou e lhe indicou o rumo a seguir. Esse rumo passava pela manutenção de Rui Vitória como treinador das águias, apesar dos resultados menos positivos e do fraco futebol apresentado pela equipa, que tanta contestação estavam a gerar.
As críticas ao treinador português multiplicavam-se nos meios de comunicação e subia a pressão, não só externa como interna, para a sua substituição no comando técnico do clube da Luz. Ao anunciar a decisão de manter Rui Vitória, Luís Filipe Vieira fez questão de vincar que essa decisão era, de facto, sua, revelando que a posição dos restantes responsáveis pelo futebol do Benfica era contrária à sua. Uma decisão histórica, porque humilhante para todo o universo benfiquista. Jamais um presidente de um clube com esta dimensão pode justificar uma decisão tão importante com uma luz que veio a meio da noite. Ponto final, parágrafo. 
E mais que uma onda, mais que uma maré…
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé…
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme…
Luís Filipe Vieira apoiou-se na situação vivida em 2013 com Jorge Jesus, com contornos semelhantes ainda que em momentos distintos da época, para reforçar que já anteriormente tinha remado contra a maré e levado o Benfica a bom porto. Mas a onda de bons resultados que se seguiram após este voto de confiança em Rui Vitória (sete vitórias consecutivas), esbarrou no empate com o Desportivo das Aves (Taça da Liga) e na derrota com o Portimonense, a contar para o Campeonato, que atirou o Benfica para o quarto lugar da classificação, a sete pontos do líder FC Porto.
Esta derrota do Benfica em Portimão rompeu de vez a ligação com Rui Vitória, tendo sido apontados nomes como José Mourinho, Jorge Jesus, Paulo Fonseca, Leonardo Jardim ou Rui Faria para suceder ao técnico ribatejano. Nenhum destes se confirmou, acabando por ser Bruno Lage, aquele que nada teme, a assumir o leme da navegação benfiquista, que tentava salvar uma época dada já como perdida. Não há mérito de Luís Filipe Vieira neste momento crucial da época, porque ficou claro que Bruno Lage não foi aposta primeira mas sim solução de recurso.
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder…
Com Bruno Lage, a vida do Benfica não foi sempre a perder. Antes pelo contrário, o treinador fez uma segunda metade de época fantástica. Mudou o sistema táctico, recuperou jogadores que estavam “desaparecidos”, deu a titularidade e oportunidades aos jovens e recuperou os sete pontos de desvantagem para o primeiro lugar, com destaque para as vitórias em Alvalade, no Dragão, em Braga e em Guimarães, oferecendo a reconquista do Campeonato a um Benfica que, quando Lage chegou ao leme, estava afastado por todos dessa luta. Se o Benfica festejou o 37º título de campeão esta época, deve-o ao homem do leme: Bruno Lage.
E não foi só pela reconquista do campeonato que o técnico se destacou. A sua postura é a de alguém que sabe estar no mundo do futebol, uma qualidade que tem tanto de rara como de menosprezada. O seu discurso é de uma elevação e de uma categoria tremendas, representando um raio de luz legítimo para todos os que aspiram a um futebol português mais digno, com mais fair play e com um ambiente mais saudável.
Mais do que teorias, frases feitas e lugares comuns, Bruno Lage insistiu sempre no treino como a variável chave para o sucesso, a consistência, o trabalho árduo, que seriam recompensados com vitórias. E já após a conquista do Campeonato, na última conversa com jornalistas, o reconhecimento do mérito do rival FC Porto e até a admiração por Herrera. Um discurso genuíno, verdadeiro e que abre espaço para a pacificação de um ambiente tão conspurcado como o do futebol português.
Mas o percurso de Bruno Lage não foi imaculado e também teve alguns solavancos. Se da eliminação na Taça da Liga, frente ao FC Porto, não se pode apontar o dedo ao treinador, até pela excelente exibição que a equipa fez, o mesmo já não se pode dizer em relação às eliminações na Taça de Portugal e na Liga Europa. Em ambas as competições o Benfica saiu da primeira mão em vantagem na eliminatória mas acabou por ser eliminado na segunda mão, por falhas claras na abordagem a esse segundo jogo. Bruno Lage mostrou dificuldades em preparar a equipa para gerir a vantagem trazida do primeiro jogo mas também se pode alvitrar se não foi mais um caso de gestão de plantel, para atacar aquela que era a prioridade, o Campeonato.
A vontade de rir, disse-o o próprio Bruno Lage, chegou no último jogo da época, apenas quando o quarto árbitro levantou a placa com os minutos de compensação. Aí chegou a sensação de dever cumprido e de que o título já não escapava à sua equipa. Para o futuro, fica a vontade de Bruno Lage ir em busca do bicampeonato, correr o mundo e partir à conquista da Europa. Os adeptos do Benfica assim o esperam."

Variabilidade na Criação – Um jogo de relações

"Para quem ataca durante mais tempo, uma das armas para chegar à baliza adversária é a colocação de muita gente à frente da linha da bola, significando um aumento do número de soluções verticais. Acredito que, as equipas mais capazes de jogar pelo corredor central possam ser aquelas que colocam mais gente por dentro, mas nem sempre é assim. Quanto mais gente se colocar no espaço interior, mais adversários se poderá concentrar nesse espaço, o que pode limitar os caminhos para chegar à baliza adversária pelo caminho pretendido em primeira instância, mas o que também poderá originar espaço para furar por fora. Assim, atacar com amplitude máxima torna-se fundamental para provocar desequilíbrios por fora, mas também por dentro!
Com a evolução do jogo, têm-se tornado fundamental a variabilidade na criação, isto é, a capacidade de alterar os posicionamentos em zonas de criação. Se a construção é uma fase importantíssima para se iniciarem os desequilíbrios ofensivos, a fase de criação é ainda mais notória por estar mais próxima da baliza. A quantidade de jogadores colocados na construção está relacionada, portanto, com a fase de criação e pode, inclusive, limitar as ligações ofensivas. Existe, então, a necessidade de criar igualdade/superioridade em zonas mais adiantadas do campo porque, no jogo, tudo são relações numéricas, espaciais e qualitativas!
A necessidade de aumentar o número de elementos entre as linhas adversárias tem encontrado novas soluções para furar equipas muito compactas e com muita gente atrás da linha da bola. Hoje, as equipas que preparam cada momento ofensivo ao detalhe, colocam 3, 4 e até 5 elementos entre os sectores adversários. Como referi, aumentar a presença entre-linhas não é sinónimo de qualidade. No entanto, o adversário fica mais desconfortável pela quantidade de jogadores que atacam a sua última linha. A presença de 4 ou 5 elementos servirá para igualar ou criar superioridade numérica sobre a linha defensiva do adversário criando-lhe mais constrangimentos.
“É diferente atacares uma linha de 5 do que atacares uma linha de 4. Para atacares uma linha de 5, tens que criar mais dificuldades e isso está relacionado, com a quantidade de jogadores que atacam essa última linha.”
Abel Ferreira

Conhecer e perceber o adversário é cada vez mais importante. Quem ataca com amplitude máxima depara-se, frequentemente, com a presença de 5, 6 e até 7 elementos nas linhas defensivas adversárias pela dificuldade de controlar toda a largura defensiva. É, portanto, fundamental ter um modelo com a capacidade de mudar em função desses constrangimentos que o adversário vai colocando. Colocar mais gente entre-linhas poderá ser uma solução para furar equipas com muitos elementos na última linha. Outra das soluções poderá estar relacionada com os contra-movimentos na última linha adversária, de modo, a criar desconforto e a enganar a oposição.
Por exemplo, habitualmente, o Manchester City coloca três elementos em zonas de criação no corredor central. Na final da taça de Inglaterra, a equipa de Guardiola defrontou um Watford a defender num bloco baixo e, por diversas vezes, com uma linha defensiva de 5. Perante isto, Pep colocou Sterling no espaço interior e o City passou atacar com quatro elementos em zonas interiores e consequentemente, com mais gente atacar a última linha adversária. Um modelo completo é, também, aquele que têm diferentes soluções para responder aos vários constrangimentos que o jogo e o adversário nos cria.
Existem vários condicionalismos que poderão afectar o nosso modelo de jogo. A nossa ideia de jogo deverá, portanto, estar aberta a novas soluções para responder aos diferentes problemas que o jogo vai colocando. Os números são importantes, mas as dinâmicas que se criam serão decisivas!"

Novo Regulamento da FIFA

"A FIFA publicou, no passado dia 8 de Maio de 2019 o Novo Regulamento do Estatuto e Transferência de Jogadores (RETJ), o qual tem por principal objectivo a determinação das regras aplicáveis à condição de Jogador de Futebol, as regras inerentes à transferência dos mesmos entre clubes, assim como as regras que os próprios clubes terão de cumprir por forma a poderem participar nas competições internacionais, por exemplo.
O referido Regulamento irá entrar em vigor no próximo dia 1 de Junho de 2019 e as principais mudanças que decorrem do mesmo vão de encontro à titularidade dos Direitos Económicos do Jogador de Futebol, atenta a sua crescente importância num "mundo futebolistico" cada vez mais competitivo e forte em termos financeiros.
Ora, em termos práticos os Direitos Económicos apenas tomam a sua (real) relevância no momento da transferência do jogador para um outro clube, em razão da possibilidade da mesma ter um carácter oneroso, ou seja, tais Direitos possuírem uma relevância monetária.
Assim e se em relação à participação de terceiros da titularidade dos Direitos Económicos do Jogador (que não fossem os respectivos Clubes ou Sociedades Anónimas Desportivas) o assunto ficou resolvido pela Circular nº 1.464 da FIFA, este novo Regulamento veio resolver a questão de um ponto de vista mais pessoal, ou seja, o Jogador passa a poder ser proprietário dos seus Direitos Económicos, o que terá como consequência uma maior (e melhor) participação do mesmo na determinação da sua remuneração, aquando da sua transferência para um outro Clube.
Panorama semelhante ocorre no no (da Federação Portuguesa de Futebol) Regulamento do Estatuto, da Categoria, da Inscrição e Transferência de Jogadores onde já se encontra prevista a impossibilidade da titularidade dos Direitos Desportivos de um Jogador por Terceiro ("Third Party Ownership"), atribuindo ao Jogador/Clube a possibilidade de serem os próprios a deterem os mesmos."

Solidariedade, reconhecimento e liderar pelo exemplo

"Sempre fui a pessoa que queria mudar as coisas, que não se contentava com o mínimo, que exigia sempre o máximo de mim e dos que estavam comigo. Desde muito cedo questionava o porquê de determinados processos ou formas de estar, gostava de participar em discussões e debates, mas nunca quis apenas fazer parte do grupo que tinha opiniões.
Liderar o gabinete olímpico de um dos mais eclécticos Clubes do Mundo enquanto ainda atleta integrada nas selecções nacionais, acumulando funções na gestão comercial para as modalidades, tem sido um dos maiores desafios, mas também algo que me faz chegar a casa com um sentimento de realização que dificilmente teria se estivesse ligada a outra área.
Tenho tido a sorte de conhecer pessoas incríveis, profissionais, dirigentes, staff, mas acima de tudo tenho tido a sorte de conhecer a realidade de Atletas das mais diversas modalidades que me inspiram e deveriam inspirar a todos nós. A solidariedade e o reconhecimento deveriam juntar-se mais vezes quando pensamos no desporto em Portugal – não deveria haver só solidariedade quando vemos histórias de atletas com limitações, nem reconhecimento só quando se ganham medalhas. E devemos reconhecer estes nossos Atletas, sabendo que há muito por conquistar, mas humildemente também reconhecermos que do lado da gestão do desporto há muito trabalho por fazer, financiamento privado por captar, e projectos por concretizar.
Tive a sorte de viajar por alguns dos melhores Centros Olímpicos e de treinos do mundo, treinar com atletas de várias nacionalidades, e quanto mais vivencio essas experiências mais reconheço que o carácter, a união, e o orgulho com que os nossos Atletas dão tudo para representar o seu País, faz-nos ser diferentes. Mas também nos distinguem as condições. Continuamos sem ter um Centro Olímpico, centralizado e disponível para dar resposta às necessidades reais das equipas nacionais das diversas modalidades ao longo da época, apetrechado com tecnologia e equipamentos de ponta e espaços para as equipas poderem treinar, descansar, comer, dormir, trabalhar – antes de se exigirem resultados no top3 mundial, temos também que reflectir em que top é que estamos em termos de condições disponibilizadas para o Alto Rendimento.
E porque os Jogos não funcionam por convite e já foram iniciados processos de Apuramento Olímpico, chega a oportunidade dos Atletas poderem concretizar o sonho de uma vida passada entre treinos diários, bidiários, fisioterapia, recuperação, e muitos pavilhões – se conseguirem alcançar as vossas metas, o mérito deverá ser merecidamente vosso, se não, deverão estar cá as Instituições e Clubes para vos apoiar incondicionalmente e garantir que a frustração ou culpa não fique somente em vós.
Reconhecer, apoiar, e continuar a trabalhar diariamente, para garantir as melhores condições. Liderar pelo Exemplo. Porque no final do dia, são as pessoas que fazem o desporto nacional. E são as pessoas, somos todos nós, que podemos fazer mais e melhor pelo desporto nacional."

Artes Marciais: um produto de mercado

"De uma forma geral, chama-se genericamente “artes marciais” a um conjunto de práticas físicas com origem asiática, orientadas para situações de combate desarmado ou com armas tradicionais, às quais se associam habitualmente um conjunto de valores espirituais e morais, “uma filosofia”, ou uma “via de realização”. Etimologicamente, a palavra “marcial” não é uma designação Oriental, mas sim Ocidental. Vem do latim “martialis” (de Marte, deus da guerra na mitologia romana), e significa “relativo a militares ou guerreiros”, “corajoso”, “bélico”, traduzindo mais ou menos as noções de “Bujutsu” (Japão) ou “Wushu” (China).
Várias disciplinas japonesas (judo, jiu-jitsu, karaté, aikido, kendo, aido), coreanas (taekwondo), chinesas (tai-chi-chuan) ou vietnamitas (viet-vo-dao) desenvolveram-se em diversos estilos, formas e práticas. Categorias de escolas e praticantes concorrentes coexistem no seu seio. Na realidade, apenas algumas destas disciplinas foram desenvolvidas e usadas pelas castas guerreiras das distintas civilizações orientais, que as criaram, merecendo o epíteto de artes de guerra ou de combate.
A difusão mundial iniciou-se a partir do momento em que chegaram ao Ocidente. Este processo arrancou com as tropas americanas estacionadas no Japão. Ao dar-se a ocupação do Aliados, entre 1945 e 1952, um dos primeiros cuidados dos invasores foi proibir e encerrar as escolas de artes marciais, que tinham sido responsáveis pelo treino e doutrinação da juventude nipónica. Após a derrota deste país na Segunda Guerra Mundial, voltavam para casa a ensinar karaté, judo, aikido, etc., que prometiam a possibilidade de o fraco vencer o forte.
As artes marciais constituem um imenso e heterogéneo domínio de investigação. Infelizmente, elas são muitas vezes uma fonte de mistificação e menos objecto de estudo científico (Rosa, 2007, 2008; Rosa, García & Gutièrrez, 2010). É preciso dizê-lo também que as artes marciais se prestam a uma ou a outra situação, na medida em que a sua identidade é muitas vezes associada a lendas, a pensamento mágico, a rituais misteriosos, a discursos épicos, etc. A sociedade moderna, asiática ou europeia, não as trata melhor. Recorrendo à terminologia de culinária, as artes marciais são uma mistura de todos os molhos. Sem esgotar, podem ser vistas de diferentes formas:
· Elas podem ser desporto de competição, excitando a rivalidade entre os seres, utilizando a violência com o objectivo de vencer o outro nas suas encenações, evocando, por vezes, uma actuação de circo. 
· Elas são utilizadas para veicular uma filosofia popular pós-moderna, resumindo-se a uma só expressão passada na linguagem corrente “ser Zen”, avatar sincrética das viagens ao oriente e a influência do budismo no ocidente.
· Elas podem ser consideradas como simples lazer.
· Elas podem ser consideradas como espectáculo de palco, fonte dos belos dias do cinema e dos jogos de vídeo.
· Elas se comprometem, por vezes, com as correntes de pensamento fanático, podendo mostrar um culturocentrismo derrotante para o neófito.
Recorrendo a uma expressão de Boltanski (1971), as artes marciais prestam-se a diferentes “usos sociais”. E falar de uma pluralidade de “usos sociais” ou “cultura somática de classe” para as actividades físicas e desportivas sugere que os objectivos e as justificações variam segundo os contextos, os actores em presença e os motivos/compromissos do momento.
As artes marciais são, para utilizamos uma expressão de Pociello (1981), um “produto de mercado” (económico, cultural e social). Como tal, sujeito à oferta e à procura, que haverá que publicitar e “vender”. O mestre passa a ser um prestador de serviços e o discípulo um consumidor (“cliente”)."

Os homens do título: Florentino Luís, o polvo simplificador

"Tem quase dez anos de casa e revela serenidade no jogo. Quando apareceu pela primeira vez, naquele Benfica-Nacional, surpreendeu pela capacidade para recuperar bolas. A história da emancipação de Florentino Luís misturou-se com uma história que cheirou a antigamente. A primeira vez com a camisola mais pesada dos escalões do Benfica aconteceu naquele jogo, na Luz, contra o Nacional, que ficou marcado por uma goleada desconfortável para o desporto contemporâneo. E ele, com aquele ar muito cool, deixou logo algumas indicações: à vontade com a bola, sim senhor, mas o que saltou à vista foi aquela queda para as recuperações de bola. Parecia um polvo a esticar os tentáculos.
Começou no futsal e também daí traz o bom toque de bola. Leva quase dez anos de Benfica. Antes do tal debute, substituindo Samaris, o médio já ganhara dois Campeonatos da Europa, em sub-17 e sub-19, prometendo carapaça para grandes torneios. Florentino está actualmente, aliás, no Campeonato do Mundo de sub-20, na Polónia, onde tem um sido dos melhores. É o mais esclarecido do miolo, dá sempre opção, simplifica o jogo e aposta nos passes verticais para abanar o esqueleto defensivo do outro lado. E até mexeu com o jogo quando subiu uns metros no terreno.
“Nunca foi um jogador vistoso do ponto de vista técnico, não era isso que o diferenciava dos outros”, disse ao DN João Tralhão, um ex-treinador do rapaz de 19 anos na formação dos encarnados. “O que o diferenciava era a sua capacidade de leitura de jogo, a tomada de decisão, o nível posicional, a capacidade de desarme, a utilização racional do espaço que ele tinha era incrível para um menino tão novo.”
Polvo simplificador.
Tracemos uma imagem meramente estatística, recorrendo aos números da Goal Point. Florentino executou 44 acções defensivas no primeiro terço defensivo do Benfica, 46 no terço intermédio e nove no último terço, uma zona já muito distante do seu raio de ação. Foram 42 desarmes, 26 deles completos, 32 interceções, 64 recuperações da posse de bola e 12 alívios. A lacuna, para já, parece estar nos duelos aéreos defensivos: ganhou apenas 37,5% dos 16 que disputou.

Quanto ao que fez com bola, a sua posição não promete desde logo grandes aventuras para registos estatísticos (e não deixaram de ser apenas 839 minutos na liga...). O jovem médio marcou um golo, no 4-0 em Moreira de Cónegos. Lá está, não teve grande gesto técnico, nem uma jogada para satisfazer deuses, foi o tal tentáculo a surpreender Ibrahima. Florentino ofereceu somente um passe para finalização e rematou apenas duas vezes. Se pegarmos nos dados do whoscored.com, o futebolista registou 90,2% de acerto no passe, e é para isto que veste a farda encarnada. É um “seis” mais tradicional, sem grandes pretensões de vestir a capa de super-herói. Gosta, sim, de arrumar a casa."

Novas Reconquistas

"O fantástico percurso do Benfica no Campeonato Nacional, de Janeiro a maio, conduziu-nos à tão desejada Reconquista e justifica um lugar especial no Museu Cosme Damião. Por duas razões: pela forma heróica como a equipa soube recuperar uma desvantagem que parecia inalcancável e, depois, pela capacidade que mostrou para resistir a tudo o que se seguiu. Uma 2.ª volta com 16 vitórias e 1 empate é obra!
O espírito de Reconquista, porém, ainda não terminou. Esta 6.ª feira é de enorme importância para as Modalidades do Benfica, com um clássico e um dérbi que podem vir a ter influência decisiva na temporada das nossas equipas.
No basquetebol, em vantagem por 2-0 diante do FC Porto, o Benfica pode já hoje carimbar a qualificação para essa final do play-off frente à Oliveirense, actual campeã nacional. Basta para isso que voltemos a vencer já hoje, agora no Dragão Caixa.
No futsal, o Pavilhão Fidelidade será palco, também esta noite, do primeiro jogo da final do play-off. Um duelo entre as duas melhores equipas portuguesas dos últimos anos, Benfica e Sporting, num dérbi para o qual foram vendidos todos os bilhetes disponíveis.
Felicidades, pois, para as nossas equipas e venham de lá as Reconquistas que ainda faltam!

PS: A News Benfica irá, a partir de hoje, fazer uma pausa na sua regular divulgação, voltando a ser publicada a partir de 1 de Julho, dia em que a equipa de futebol se apresenta para iniciar a temporada 2019/20. Toda a actualidade do Benfica pode continuar a ser acompanhada, naturalmente, através dos diversos meios oficiais do Clube: BTV, site, redes sociais e jornal ‘O Benfica’."

Colecção 2019/20

Benfiquismo (MCXCVI)

A brilhar...