Últimas indefectivações

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Idade da Inacência

"O avismo e o inacismo juntam-se ao brunismo, cada um à sua maneira

1 - O brunismo e o avismo (de Desportivo das Aves) são filosofias parecidas. Esta novidade de culpar a Federação pela falta de licenciamento para competir na UEFA recorda-nos que esta época, ou estas épocas, tiveram bem mais do que um Bruno. Há muitos anos que os clubes conhecem o imperativo de pedir uma licença para jogar a Liga Europa e a Liga dos Campeões. Já houve fiascos públicos nessa matéria e existe um regulamento bastante óbvio. Se, em dezembro, ninguém do Aves imaginou que jogaria a final do Jamor, paciência, é assumir o erro e aprender com ele. Muitos dos detritos que emperram o futebol profissional são asneiras próprias empurradas para outros. O que foi a hecatombe do brunismo senão culpas repetidamente sacudidas por um presidente para cima do treinador e dos jogadores? Embora passem a vida a falar-me nisso, não sei como eram os homens de antigamente (suspeito que havia de tudo, como agora), mas julgo saber como lhes era exigido que, pelo menos, parecessem.

2 - Augusto Inácio ao salvamento: é o que se conclui da nomeação do novo diretor-geral do Sporting. Do nada surge um aliado e, em simultâneo, uma almofada entre o presidente e os jogadores que lhe são alérgicos. Uma bisnaga de Fenistil e está tudo bem outra vez. Mas é muito diferente partir da inocência com Bruno de Carvalho em 2013 ou assinar por baixo tudo o que ele fez nestes cinco anos, incluindo as duas últimas semanas. Sendo sempre bonita, a lealdade também é sempre correta e bem dirigida? Como o escritor Mark Twain já foi antes chamado ao brunismo, sem poder defender-se, não será mais uma volta no túmulo a dar-lhe cabo das cruzes: "Lealdade à nação, sempre; lealdade ao governo, quando ele merece." "

Sporting, que futuro?

"Mais do que no presente, os grandes motivos de preocupação do Sporting devem estar no futuro. O cenário de rescisões em massa alegando justa causa não se deverá colocar, até porque poucos clubes no mundo arriscariam a pegar num jogador que traga consigo uma bomba-relógio. O problema para Bruno de Carvalho é que, ao iniciar esta guerra com o plantel – sim, iniciada por ele –, dificilmente conseguirá uma equipa melhor do que a que teve este ano. Porque é óbvio que chegou o fim da linha para muitos jogadores.
As contas são fáceis de fazer: onde, ou a que custo, o Sporting encontrará um guarda-redes ao nível de Rui Patrício? Ou um médio-defensivo como William Carvalho? Ou um goleador de excelência como Bas Dost? Isto para pegar em três exemplos de jogadores que poucos acreditam que se mantenham em Alvalade. O mesmo se aplica a Jorge Jesus. Ficará? Com Bruno de Carvalho, parece impossível. E isso custará mais 7,8 milhões de euros, além do dinheiro que será preciso pagar a um novo técnico.
Tudo isto acontece numa altura de aperto. O Sporting já sabe que não terá os milhões da Champions. E o mercado não funciona pelos valores que Bruno de Carvalho tem na cabeça, pelo que será irreal pedir 30 ou 40 milhões por futebolistas que estão a ser empurrados para fora do plantel.
Ao Sporting, fazia bem reiniciar, como os computadores. Mas não há tempo para isso. Os adeptos, a começar pelo próprio presidente, querem vitórias para ontem. Mas isso não se consegue com uma gestão de impulsos e sem racionalidade."

A tempestade e a mudança

"A temporada do Sporting acabou, com lágrimas e estrondo, no final de uma semana tenebrosa e com uma derrota muito penalizadora para os leões. O pior já passou, porque nunca mais se repetirá um ataque como o de 15 de maio, mas é chegada a hora das explicações e das soluções. No meio destes dias agitados, uma questão ecoará na cabeça de muitos sportinguistas: o que é que faltou para que a época tivesse sido melhor? A resposta é simples: estabilidade. O Sporting nunca a teve, por culpa do presidente.
Nos últimos dias têm sido apontados inúmeros defeitos a Bruno de Carvalho, mas há uma característica que está gravada de forma indelével na personalidade do líder leonino: a da perseverança. Como um cowboy de rodeo, Bruno de Carvalho não larga a montada, apesar de estar a ser sacudido por todos os lados. E quando se pensa que a queda do cavalo é inevitável, o presidente do Sporting volta a conseguir segurar-se.
Na véspera da final da Taça de Portugal, o presidente do Sporting assinou de viva voz um longo "sermão" ao país, com críticas implícitas a todo o plantel e explícitas a Rui Patrício. De repente, no dia anterior ao jogo que encanta milhões de adeptos, o protagonista era Bruno de Carvalho, aproveitando o espaço mediático deixado vago pela falta de comparência dos treinadores.
Mais do que foco de instabilidade, o homem que dirige os destinos do Sporting foi um verdadeiro agitador, incapaz de se remeter ao silêncio nas horas que antecederam a final da Taça de Portugal. Bruno de Carvalho anunciou que não iria ao Estádio Nacional, mas acabou por ser o primeiro a entrar em campo. Seria abusivo pensar que influenciou o resultado, mas demonstrou, uma vez mais, que está na presidência do Sporting com uma agenda própria, muito diferente da dos reais interesses do clube.
Depois da derrota no Jamor, Bruno de Carvalho voltou a cavalgar as redes sociais, mas desta vez com uma mensagem bem mais presidencial. Enquanto os jogadores cediam às lágrimas, o presidente pedia o apoio dos adeptos à equipa e fazia um apelo à união. A mesma que não promoveu tantas vezes, ao longo dos últimos tempos.
No início da semana, Bruno de Carvalho aproveitou a falta de acção dos órgãos sociais para anunciar várias medidas: o reforço da segurança em Alcochete, a suspensão do apoio à Juventude Leonina e a contratação de Augusto Inácio para director-geral do futebol do Sporting.
Ao reforçar a vigilância na Academia, parece ser evidente que o clube dirigido por Bruno de Carvalho está a admitir de forma implícita que existiu negligência na forma como foram tratados os alegados sinais de desentendimento entre os jogadores e uma pequena falange de adeptos. Por outro lado, ao fazer regressar Augusto Inácio, Bruno de Carvalho afasta-se do banco, mas talvez espere conseguir aproximar-se da continuidade na liderança do clube. Ao contratar um antigo dirigente, treinador e jogador com enorme experiência, o presidente quererá demonstrar aos críticos que tem a intenção de ceder espaço a Inácio na gestão desportiva do futebol. O plano até parece ser aceitável, mas ao mesmo tempo serve para confirmar que o afastamento de Jorge Jesus será inevitável, a não ser que a relação com Augusto Inácio tenha conhecido uma evolução muito positiva. Mas mesmo que isso fosse verdade, já há uma montanha a separar o treinador do presidente.
O regressado dirigente irá tentar juntar os cacos e iniciar a preparação da próxima época, mas não há cola que dê solidez a um clube que vive um verdadeiro clima de caos. E o rosto que encima esta crise é o de Bruno de Carvalho.

P.S. - Na história da democracia portuguesa há um ou dois casos de políticos que aproveitaram os discursos eleitorais de vitória para desenrolarem críticas e mensagens revanchistas. Foi um pouco esse o caminho trilhado por José Mota na conferência de imprensa do Jamor, após o triunfo na final da Taça de Portugal.
Por não concordar com a agenda mediática da semana que antecedeu o jogo, o treinador do Desportivo das Aves chegou ao ponto de dizer que, se fosse pelos jornalistas, o clube nortenho não teria vencido a Taça de Portugal.
Na mesma frase, o técnico cometeu vários lapsos. Em primeiro lugar, os jornalistas não vencem jogos, nem sequer os influenciam. No máximo, relatam aquilo que aconteceu. Neste caso, relataram uma vitória justa e competente do Desportivo das Aves, da mesma forma que acompanharam, até às primeiras horas da manhã, os inéditos festejos do clube. Por outro lado, José Mota também se esqueceu do ferrolho mediático que foi imposto e que impediu o treinador de responder às perguntas dos jornalistas na antevisão daquele que foi o jogo mais importante da carreira.
José Mota esteve embrenhado na preparação da final, mas terá percebido, como todo o país, tudo aquilo que o Sporting viveu na última semana. Uma crise de tal forma grave que motivou declarações públicas do Presidente da República, do Primeiro-Ministro e do Presidente da Assembleia da República. José Mota ganhou bem, mas naquela conferência de imprensa não conseguiu acompanhar o brilhantismo da equipa em campo."

Em modo bomba-relógio

"O contador vai engolindo os minutos, acelerando em direcção à hora em que o futuro imediato do Sporting será decidido. Demissão? Assembleia? Seja o que for, ninguém espera que tudo fique na mesma, uma vez que as posições institucionais estão extremadas e a família leonina está traumatizada e maioritariamente contra a permanência de Bruno de Carvalho. Mas essas serão outras contas que terão de ser feitas.
O Sporting está em modo bomba-relógio, sendo imprevisíveis as consequências quando ela rebentar. Porque a explosão pode não significar a implosão do conselho directivo o que resultaria noutro tipo de efeitos, como as rescisões por justa causa. Neste quadro de incerteza e angústia, é fundamental ter a cabeça fria de um operacional da brigada de minas e armadilhas.
Rogério Alves está a ter essa frieza e apesar de ser um potencial candidato e muito desejado por larga franja de sportinguistas, refreou o entusiasmo dos seus apoiantes. Apesar de estar preocupado com a situação do Sporting e disponível para debater o futuro do clube, perguntou: "Quantas vezes me candidatei". Nenhuma, de facto, e pelos vistos assim continuará. Nesse sentido, ganha força a via do ‘candidato único’ que será seguramente a solução mais indicada. Mas o relógio não pára..."

Futebol: afinal, era tudo verdade

"Os nossos aspirantes a censores querem calar os debates sobre futebol na TV. Só há um problema: segundo as autoridades, os comentadores que andam há anos a falar em golos roubados tinham razão.

1. Em Portugal, podemos sempre contar com o empenho e a pontualidade dos pequenos aspirantes a censores. À primeira oportunidade, aí estão eles, ansiosos por cortar e calar. Quando um grupo de adeptos do Sporting decidiu ocupar recreativamente as suas horas livres a espancar jogadores, a reacção automática de um número inquietante de figuras (incluindo alguns venerados estadistas) foi pressionar as televisões a acabarem com os programas de debate sobre futebol.
É a nossa velha tendência para impedir que os assuntos incómodos cheguem ao debate público. Nos transportes, nos escritórios e nos estádios, toda a gente discute arbitragens, penáltis e golos — mas, segundo as vestais do futebol, os estúdios de televisão deviam optar pela discrição e pelo silêncio. Seria, obviamente, a melhor forma de agravar aquilo com que se quer acabar: o futebol ficaria ainda mais sob suspeita se, em vez da luz, houvesse a sombra; em vez da denúncia, a conspiração; em vez do barulho, o sussurro.
Como é evidente para qualquer cérebro portador de células cinzentas (bastam duas ou três), os debates das televisões não são exemplos de elevação: há berros, há ameaças físicas e há homens de barba que se encontram perigosamente perto de uma síncope. E também não são exemplos de imparcialidade: os comentadores dizem quase sempre bem do seu clube, raramente dizem mal do seu clube e declaram-se, com permanente prontidão, dispostos a morrer pelo seu clube.
Por causa de tudo isto, os comentadores de futebol têm uma péssima reputação. De cada vez que os ouve, quem tem bom gosto e boas maneiras suspira contra essa espécie de leprosos da televisão, figuras pouco frequentáveis e nada recomendáveis. Durante anos, foram tratados e destratados como os maluquinhos que acreditam em extraterrestres, acusados de dizer coisas exóticas e fantasistas.
Há, porém um problema. Um pequeno problema. Ou antes: um grande problema. É que, de acordo com as autoridades, eles têm razão. Nos debates de grande audiência, passaram anos a discutir penáltis roubados, jogadores comprados, falhanços suspeitos, resultados estranhos, coincidências improváveis. E, afinal, imaginem só: contra todas as evidências, parece que era mesmo verdade. Nos últimos meses, as investigações da PJ e do Ministério Público pretenderam mostrar que o futebol é um mundo que mistura a lama e o crime.
Se os polícias e os procuradores tiverem razão, seremos todos forçados a concluir que as discussões sobre futebol nas televisões nos últimos anos não foram de mais — foram de menos; não foram uma extravagância — foram uma lição; e não foram uma vergonha — foram um aviso. Os leprosos mereciam todos uma comenda.
2. O actual governo socialista, solidamente suportado pela geringonça, mostrou esta semana uma irresistível atracção pelos negócios imobiliários. Primeiro, uma notícia do Observador revelou que, enquanto exercia as funções de primeiro-ministro, António Costa comprou um apartamento no Rato para o vender dez meses depois pelo dobro do preço. Esta terça-feira, o Eco escreveu que Pedro Siza Vieira, ministro Adjunto do primeiro-ministro e amigo pessoal de António Costa, abriu uma empresa imobiliária um dia antes de tomar posse. Torna-se assim evidente a razão pela qual o combate à especulação imobiliária se transformou numa das orgulhosas bandeiras deste Governo: eles sabem do que falam. E o BE e o PCP, em mais uma demonstração de obediente sapiência, sabem que não falam. Tudo se compra, tudo se vende."

Seria moralmente proibido contratar os jogadores do Sporting?

"O objectivo de um dirigente é chegar ao ponto em que o seu clube vence sempre, num campeonato consigo próprio, e em que a "competição" é uma farsa e os "adversários" meros figurantes.

Nada demonstra tão bem que o futebol português é um mundo à parte como a enorme contradição que existe entre a rapidez com que a modalidade se foi transformando num negócio complexo e sofisticado, e a letargia com que os clubes se foram mantendo numa galáxia paralela, conduzidos por líderes típicos do antigamente, atávicos e tribais. É uma imunidade à evolução da realidade que não se vê em nenhum outro negócio.
O sucesso de um clube de futebol profissional depende de duas variáveis. Em primeiro lugar, da sua própria capacidade de vencer partidas e competições, e com isso atrair clientes (os adeptos) e gerar receitas. Em segundo lugar, um clube depende também da boa capacidade dos seus adversários e, em geral, das condições de competitividade dos campeonatos em que participa. É por isso que nas competições desportivas com mais sucesso global (da Premier League à NBA) os clubes sabem que cuidar do negócio de todos é cuidar do seu próprio negócio. Nenhuma competição sobrevive sem um módico de entusiasmo que só é dado pela imprevisibilidade dos resultados, nem sem a reputação que atrai os financiadores e os patrocinadores.
No futebol português, os clubes só se preocupam com a primeira variável. O objectivo de um dirigente é chegar ao ponto em que o seu clube vence sempre, num campeonato consigo próprio, e em que a "competição" é uma farsa e os "adversários" meros figurantes. Aos clubes portugueses, principalmente aos "três grandes", não basta ganhar em campo: é preciso tentar esmagar os outros, com propaganda, insinuações e violência verbal. É uma estratégia absurda, que talvez venda muitas camisolas no imediato, mas que, no fim da linha, acabará por destruir o interesse na modalidade.
Há dias surgiu a notícia de que Pinto da Costa terá ligado a Bruno de Carvalho para lhe assegurar de que o Porto não se aproveitaria da crise no Sporting para contratar alguns dos jogadores que, diz-se, quererão rescindir com o clube de Alvalade. Pinto da Costa foi elogiado porque, em contraciclo com o ambiente de efervescência bélica, ofereceu ao Sporting uma espécie de pacto de não-agressão. Admito que, dado esse ambiente, a abstenção de Porto e Benfica talvez seja pelo melhor. Mas a própria ideia de que é preciso um pacto de não-agressão mostra o quão doentio é o fenómeno do futebol profissional em Portugal. Só é preciso um pacto de não-agressão porque Porto, Benfica e Sporting são inimigos - e não simples rivais.
O cuidado de Pinto da Costa com o Sporting perceber-se-ia se o clube tivesse sofrido uma qualquer catástrofe natural. Mas não foi nada disso que aconteceu. O Sporting está a sofrer as consequências de um processo conduzido de forma voluntária e em uníssono por toda a instituição. Um processo liderado pelo presidente, é certo, mas no qual este foi acompanhado pelos órgãos do clube e pelos sócios e adeptos, que apoiaram activa e esmagadoramente a liderança.
Convém, por isso, evitar equívocos morais: a crise do Sporting é o resultado de uma dinâmica puramente empresarial e de decisões de gestão próprias. Se os seus jogadores se considerassem agentes livres, e se outros clubes os quisessem contratar (mesmo com os riscos jurídicos associados), o que teríamos era apenas o mercado a funcionar. Nada mais.
A ideia de que os clubes rivais do Sporting estão moralmente proibidos de ir buscar os seus jogadores não é, por isso, um assomo de civilização. É, muito pelo contrário, a ilustração da pré-história em que vive o negócio do futebol português."

Bater no fundo

"Que país somos, afinal? Seremos talvez o país da irreverência reverente, que tanto goza como adula, sejam líderes partidários sejam (sobretudo) presidentes dos (nossos) clubes.

Como tudo já foi dito sobre Bruno de Carvalho, eu vou dizer mais uma coisa.
Primeiro. Quando alguém já não tem ninguém do seu lado, ninguém se quer sentar ao seu lado (nem num estádio de futebol), um a um, com (sete?) excepções, todos os seus seguidores o desertam, e mesmo assim se mantém, não desiste, persiste, que dizer desse alguém, o que o motiva, porque motivos resiste, contra a razão, a lógica e o bom senso? Posso pensar em vários motivos, sem ter ideia da veracidade de qualquer deles: uma distorção cognitiva, de pensamento dicotómico ou raciocínio emocional, um sentimento de todos estarem contra si sendo sua a razão; temer que a saída do cargo o leve à ruína, penal ou cível; um extremo narcisismo. De certa forma, é como o condutor que guia pela esquerda da estrada, indignado por todos os outros guiarem à direita. A razão é sua, pensa ele.
Segundo. Há pouco mais de dois meses ninguém diria que BdC cometeria um tão acelerado suicídio. Estranho é que alguém tão claramente desprovido de princípios, tão soezmente reles na linguagem e no comportamento, fosse apoiado por tanta gente que, no seu dia-a-dia, decerto não aprova essa linguagem e comportamento. Porque o fizeram? Acharão que os fins justificam os meios? Talvez pensassem que, para ganhar campeonatos, é preciso ser-se assim.
Terceiro. Estão errados. E para começar por onde é preciso começar, este episódio tem de servir para erradicar de vez do futebol todos os comportamentos reprováveis por gente de bem: que os dirigentes dirijam com transparência e lisura; que a corrupção, as luvas, as comissões milionárias que depauperam os clubes desapareçam; que as famílias, os meus e vossos filhos, possam frequentar sem medo da violência os campos de futebol. E que, com base numa justiça célere e justa, qualquer crime provado, de clube ou pessoa do meio, seja punido. Que a paixão prevaleça, sem fanatismo nem maniqueísmo. Não vale tudo.
Quarto. A comunicação social precisa de audiências. Tem de vender e atrair publicidade. É normal. Mas não é normal, nem civilizado, que os horários nobres de todas as televisões noticiosas (por cabo) sejam quase exclusivamente ocupadas por futebol noites a fio, com painéis de comentadores que se digladiam sem piedade a debitar inanidades, sempre as mesmas, repetidas ad nauseam. Há uma função social que os meios de comunicação social, que não são culpados de mais do que isso mas que disso são culpados, devem cumprir; resumir a actualidade noticiosa, por exemplo, ao caso Sócrates (ou Pinho, ou outro) e ao caso BdC (ou SLB ou FCP) durante longas e fastidiosas horas, não preenche essa função.
Quinto. Miguel Sousa Tavares, que aprecio, não pode ser ingénuo ao ponto de crer que num país tão carenciado de sentido de humor e tão dado a interpretações literais, uma frase como “os brunos de carvalho têm de ser mortos à nascença” ia ser entendida como aquilo que é: uma chamada de atenção para os riscos do populismo e como tantas pessoas inteligentes parecem prontas a seguir o apelo do primeiro demagogo que surja, no futebol mas também na política, como resulta da sua crónica – e isso ainda é mais assustador. 
Sexto. As claques. Depois de expulsarem os criminosos e cadastrados, depois de expulsarem os que infringem as regras da civilidade em recintos desportivos, depois de expulsarem quantos fomentam o ódio, depois de se convencerem que o seu papel é apoiar o seu clube e jogadores sem atacar os outros, dar cor e animação ao espectáculo, saudar a vida e rejeitar a violência, as claques serão bem-vindas, parte integrante do futebol. Mas só depois.
Sétimo. Os políticos no activo deviam coibir-se de participar em programas de comentário do futebol. Porque sim.
Oitavo. Os jogadores ganham dinheiro a jogar futebol, alguns, poucos, em Portugal talvez só os pertencentes a quatro clubes, ganham muito dinheiro. São profissionais e vivem do que sabem fazer: chutos fortes, fintas estonteantes, cabeçadas de perder a cabeça e uma bola a acompanhar. Trabalham para os clubes que nos apaixonam uma ou duas temporadas, raramente mais; depois, em troco de milhões, os dos tais quatro, ou tostões, os outros, mudam de clube, de fidelidade, são adeptos desde pequeninos do novo patrão. Se não ganharem hoje, ganharão amanhã, pelo menos dinheiro, alguns mesmo muito dinheiro. Mesmo que nos custe, um jogador de futebol, o nosso ídolo, é um assalariado (ele sim), que serve quem lhe paga melhor. Temos o direito de lhe exigir compromisso, lealdade, empenho. Mas não temos o direito de o acusar sem provas nem, muito menos, de o agredir ou levar a que seja agredido por acção, omissão ou contágio. Isso não.
Nono. O que BdC nos ensina sobre o país que somos, perguntou ontem no Macroscópio José Manuel Fernandes, percorrendo um conjunto significativo e muito interessante de crónicas sobre o tema do momento. Curiosamente, entre assuntos tão importantes como a doença do futebol, a sua exterioridade à justiça comum, o populismo e o papel das redes sociais, o jornalismo desportivo, ficou de fora, parece-me, justamente o que tudo isso nos ensina sobre o país que somos. Que país somos, afinal? Não chegaria uma crónica inteira. Nem há uma única resposta. Seremos talvez o país da irreverência reverente, que tanto goza como adula, sejam líderes partidários sejam (sobretudo) presidentes dos (nossos) clubes. Um país que inventa anedotas como que por geração espontânea, que critica ferozmente as instituições e os seus servidores nas redes sociais mas hesita, quiçá recua, quando tem de dar a cara. Somos contraditórios e exasperantes, mesquinhos e magnânimos. Somos portugueses. Mas não convém abusar.
Décimo. O futebol português bateu no fundo. Mas por vezes, em Portugal, parafraseando um político da nossa praça, o fundo afunda-se ainda mais. Esperemos que não seja o caso. A bem do prazer que temos em ver futebol, pelo amor que sentimos – e temos o direito de sentir – pelos clubes que escolhemos para a vida.
Contra o ódio. E contra a estupidez também, sobretudo a estupidez.
Pronto, já disse a coisa que tinha a dizer."

Quando não ganham os favoritos. Das Aves a Portugal

"José Mota ficou sentido e, fosse o que fosse que lhe perguntassem, respondia da mesma forma: “Vocês não nos respeitaram!” No ponto de vista dele, tinha razão, é claro. O CD Aves teve muito menos espaço do que o Sporting na imprensa, nas rádios e nas TVs na semana que antecedeu a final da Taça de Portugal – o que nem é necessariamente mau, pois os leões seguramente até clamariam por menos atenção, face à gravidade dos assuntos que iam vendo debatidos no panorama mediático. No plano jornalístico, porém, claramente, não a tinha, embora mereça toda a compreensão. E até acabou por deixar que se passasse ao lado da lição que a final da Taça nos voltou a ensinar – uma lição que Fernando Santos já aprendeu há dois anos em França e que espera reavivar no mês que vem na Rússia. É que num bom dia, qualquer equipa de topo – sim, até o CD Aves – pode ganhar a outra. 
Os jornais não devem fazer-se com ferramentas de agrimensor, dividindo o espaço pelos clubes ou distribuindo-o de acordo com o mérito desportivo dos diversos resultados. Na tarefa de editar há que fazer escolhas, que em condições normais se prendem com o valor-notícia de cada acontecimento. José Mota não é jornalista, não tem de pensar como um, mas deixou que a revolta – mesmo que planeada – tomasse conta do seu argumentário e, se durante a semana foram os acontecimentos de Alcochete a tirar o palco à chegada da sua equipa ao Jamor, no domingo foi a reacção do treinador a travar a amplificação dos méritos do CD Aves – porque tem muito mais valor-notícia ou até valor-entretenimento ver o treinador vencedor a cascar nos jornalistas do que a explicar a forma como a sua equipa travou o Sporting.
E a questão é que Mota não descobriu a quadratura do círculo. Trabalhou muito bem a sua equipa, é verdade, nos vários planos. Em termos de organização táctica, conseguiu algumas coisas: redução dos espaços entre linhas, impedindo os leões de jogarem dentro do bloco, fruto de um meio-campo sempre rigoroso nos posicionamentos; fecho dos defesas-laterais por dentro, prevendo as deambulações dos extremos leoninos para o espaço interior, e muita atenção dos seus próprios extremos às subidas de Ristovski e Coentrão. Em organização defensiva – é verdade que beneficiando de um Sporting com opções discutíveis, pelo menos para quem não sabe como foi a semana da equipa, como a ausência de Ruiz – o CD Aves manteve o jogo controlado, conseguindo explorar as saídas rápidas para o contra-ataque, fruto da capacidade de Guedes receber sempre à frente de Coates e Mathieu e desmultiplicar a bola pelo espaço aberto nas costas dos laterais adversários.
Aqueles que no fim vociferavam contra os jogadores do Sporting, acusando-os de só terem querido jogar nos últimos dez minutos – que foi quando a equipa deixou de ter qualquer processo e se mandou como louca, em chuveirinho constante, para cima de um adversário que,noutro contexto, bem podia tê-la castigado mais ainda – esquecem-se de coisas fundamentais no desporto. Primeiro, que não ganha sempre quem mostra mais os dentes, quem mais quer ganhar. Mas fundamentalmente que, mesmo querendo todos os jogadores que estiveram no Jamor ganhar com a mesma força – e até admito que por diferentes razões – há sempre três resultados possíveis e que, num dia bom, qualquer equipa de um campeonato pode ganhar a outra. Muitos dos que insultaram os jogadores no fim, respondendo de forma pavloviana aos estímulos dos dias anteriores, até terão sido “um de onze milhões”, há dois anos, quando uma equipa de Portugal que não era favorita se sagrou campeã da Europa.
Foi porque os outros – os franceses, os alemães, os italianos, os belgas, os croatas, os galeses, os espanhóis, os ingleses… - não quiseram ganhar? Não. Foi, como Fernando Santos recordou ontem à RTP, porque Portugal conseguiu encontrar o equilíbrio entre a vontade de jogar bonito (e por vezes os adeptos querem feio, como se viu nos últimos minutos da final da Taça) e a necessidade de jogar bem. O CD Aves conseguiu fazê-lo. Portugal, há dois anos, também. Veremos se repete a dose na Rússia."

A judicialização da crise do Sporting

"Ninguém espera certamente que sejam os tribunais a apontar uma saída imediata para o labirinto de problemas, encontrando, numa ou duas semanas, uma solução milagrosa, que salve o Sporting.

Repentinamente, o Sporting explodiu num dramático turbilhão de conflitos entrecruzados, que saltaram os muros tradicionais do futebol e invadiram o nosso quotidiano comum, com notícias sobre agressões a jogadores e técnicos, adeptos detidos e levados ao juiz, demissões nos órgãos sociais, rescisões de contratos, processos disciplinares e trocas de acusações sem fim. O Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, o 1º Ministro, os líderes partidários, comentadores e jornalistas, todos já correram a falar longamente sobre esse imenso enredo em que se transformou a crise do Sporting.
Este texto, porém, não é sobre futebol nem sobre o Sporting. É sobre tribunais. É sobre a ilusão de pensar que a resposta para frustrações desportivas e crises de liderança em clubes de futebol pode ser deslocalizada para longas batalhas judiciais. E é sobre o paradoxo de querer resolver coisas da emoção com os critérios da razão.
Vários pensadores da ciência política vêm dizendo que o século XXI será o século do poder judicial – como o século XIX foi do poder legislativo e o XX do poder executivo (Paulo Rangel lembrou isso aqui no PÚBLICO, em 6 de Fevereiro). A crise no Sporting pode vir a ser um bom exemplo das virtudes, mas também das limitações, dessa crescente judicialização da vida pública, em que os tribunais são cada vez mais chamados a regular conflitos sociais, económicos, políticos e também desportivos, que antes escapavam ao seu controlo. Tudo pode vir a desembocar num conjunto multifacetado de litígios judiciais, nos tribunais de trabalho, para verificar a legalidade de processos disciplinares e rescisões de contratos de jogadores e técnicos, nos tribunais de comércio, para analisar a licitude de deliberações sociais, nos tribunais civis, para decidir pedidos de indemnização e nos tribunais criminais, para julgar os responsáveis pelas agressões a jogadores e técnicos.
Mas é importante perceber as limitações que soluções judiciais dessa natureza podem oferecer, num conflito que se desenvolve em dinâmicas de tempo e emoção muito específicas da vida desportiva. 
Sendo aqui irrelevantes os contornos precisos da crise – que de resto desconheço – parece razoavelmente claro que o tempo desportivo não vai parar à espera do tempo dos tribunais. Há questões que seriam melhor resolvidas pelos órgãos e sócios do clube e accionistas e credores da sociedade desportiva, ou até pelas instâncias associativas que gerem o futebol. Ninguém espera certamente que sejam os tribunais a apontar uma saída imediata para o labirinto de problemas, encontrando, numa ou duas semanas, uma solução milagrosa, que salve o Sporting, que assegure aos sócios as condições para que o seu desejo de vitórias desportivas se cumpra, que proteja os interesses dos accionistas e dos credores, que permita ao clube ter uma equipa técnica e um plantel competentes, motivados e prontos para enfrentar a próxima época. Todos esses valores são muito louváveis e importantes, mas não são de certeza os dos tribunais.
Se a solução judicial destes conflitos – qualquer que seja – tiver de passar pelos tribunais, ela há-de basear-se em critérios de racionalidade jurídica e de verdade substantiva e processual. As emoções clubísticas vão ficar todas à porta. Não há tribunais a favor do Sporting ou contra o Sporting, da direcção ou da oposição. Nem, tão pouco, tribunais a quem se possam pedir decisões apressadas, com atropelo de direitos e regras, só porque isso é mais conveniente para interesses que podiam ser regulados noutro lado. Não vai ganhar quem fizer mais barulho e agitar mais bandeiras.
É muito importante alertar para isso agora. Quem não for capaz de resolver os conflitos desportivos e de liderança dentro da sua própria casa, tem de estar preparado para as complexidades inerentes a qualquer processo judicial e de avaliar se esse caminho é compatível com os tempos do futebol, tendo em conta que o último dia de uma época é exactamente o primeiro da época seguinte. Depois, se os assuntos do clube, da sociedade, dos dirigentes, dos técnicos e jogadores e dos adeptos ficarem “pendurados” no tempo dos tribunais não venham dizer que a culpa é dos juízes."

Os terroristas de Alcochete

"Os brutos de Alcochete arriscam ser os primeiros condenados em Portugal ao abrigo da lei de combate ao terrorismo, promulgada em 2003, em companhia de Abdesselam Tazi, alegado recrutador do Daesh, detido na prisão de alta segurança de Monsanto.

O jihadista integra a militância terrorista de motivação religiosa que causou a maior parte das 142 mortes em atentados na UE em 2016, sobrelevando ameaças de separatistas, nacionalistas, extremistas de esquerda e direita, anarquistas ou agentes a soldo de serviços secretos de outros estados, de acordo com o último relatório disponível da Europol.
O marroquino, chegado a Portugal com documentos falsos em 2013, obteve asilo político e dinamizou uma célula de recrutamento a partir de Aveiro, viajando por países como Brasil, Reino Unido, Holanda e Espanha até ser detido em 2016 na Alemanha por fraude informática com cartões de crédito.
Extraditado, Tazi foi acusado "pela prática de: - Um crime de adesão a organização terrorista internacional - Um crime de falsificação com vista ao terrorismo - Quatro crimes de uso de documento falso com vista ao financiamento do terrorismo - Um crime de recrutamento para terrorismo - Um crime de financiamento do terrorismo", conforme comunicado do Ministério Público de 23 de Março.
No ano passado, o holandês de origem angolana Her Calunga Gima envolvido em movimentos jihadistas na Holanda, Turquia e Síria e detido no aeroporto de Lisboa em 2014 junto a um avião da TAAG na posse de arma branca, foi, por sua vez, ilibado dos crimes de crimes de adesão e apoio a organizações terroristas e terrorismo internacional.
A condenação a quatro anos e meio de prisão efectiva contemplou apenas os crimes de atentado à segurança de transporte do ar e posse de arma branca constantes da acusação do Ministério Público. 

Uma lei ambígua
Apesar da perplexidade que possa causar, a acusação de terrorismo a 23 membros da Juventude Sportinguista tem, contudo, fundamento na Lei n.º 52/2003, aprovada na ressaca dos atentados da Al-Qaeda nos Estados Unidos e na alteração de 2015 ao Código de Processo Penal.
A definição de acto terrorista inclui, n.º 1 do artigo 2.º da Lei 52/2003, o "intimar certas pessoas, grupos de pessoas ou a população em geral, mediante: a) Crime contra a vida, a integridade física ou a liberdade das pessoas".
Ora, a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa afirma ter recolhido "fortes indícios de que os arguidos agiram de forma concertada e previamente planeada de modo a intimar gravemente e causar receio pela própria vida, ao grupo de jogadores e técnicos da equipa de futebol do SCP, fazendo-o através da prática de crimes com perigo para a integridade física, com sequestro, por meio de uma actuação em grupo especialmente violenta", segundo comunicado de 22 do corrente.
Seria de presumir que a legislação de combate ao terrorismo fosse precisa e circunscrita a motivações de subversão, intimidação e violência extremas tendo em conta o historial terrorista em Portugal desde 1974 que passa por extremismo de direita, incluindo separatistas açorianos e madeirenses, e esquerda, atentados perpetrados contra alvos palestinianos, turcos e israelitas.
Há, ainda, registo de assassinatos políticos, caso de Evo Fernandes da Renamo, em 1988, estabelecimento de células separatistas bascas e galegas, além da participação de portugueses na violência anti-ETA dos Grupos Antiterroristas de Libertação patrocinados clandestinamente pelo governo de Felipe González.

As finalidades
Ao tipificar o crime de terrorismo, o Código Penal espanhol, por exemplo, enumera (artigo 573.º) as "finalidades" onde sobressaem, nomeadamente, a subversão da ordem constitucional, supressão ou destabilização grave do funcionamento das instituições do Estado, alteração grave da paz pública, destabilização do funcionamento de organização internacional ou provocar o estado de terror na população ou parte dela.
A opção legislativa espanhola permite, assim, circunscrever de modo mais preciso o crime de terrorismo, acto extremo de intimidação e extermínio, em regra de matriz étnica, religiosa e política. 
Tendo em conta o rol de conexões, incluindo financiamento e apologia do terrorismo, que a acusação do Ministério Público acarreta, é de crer que o debate sobre a legislação de combate ao terrorismo e sua jurisprudência venha finalmente a ganhar o devido relevo."

Segredo de justiça - a pouca vergonha às escancaras

"Esta realidade significa que funcionários, magistrados ou advogados (menos hipóteses) que têm acesso aos autos passam para os media o que não deviam passar.

Como todos os portugueses têm constatado elementos cruciais dos processos penais que envolvem figuras “famosas” do país aparecem escarrapachados em jornais, revistas e televisões. Sejam processos de dirigentes desportivos, sejam outros ligados aos poderosos políticos ou à área do poder económico.
Bem podem as autoridades judiciais alegar que os processos estão em segredo de justiça. A verdade é que interceptações telefónicas, documentos, e outros meios de prova aparecem a alimentar a voracidade dos cidadãos.
Ora o Estado é uma entidade que detém o poder de reprimir o crime, de proteger os cidadãos, incluindo os arguidos, assegurando o exercício do segredo de justiça, nos casos em que ele é declarado, dado que em geral vale a publicidade do processo. Dito de outro modo: o Estado não deve falhar naquilo que são as suas atribuições, as quais foram definidas pelo legislador, o que lhe impõe essa obrigação, tendo, como se sabe, meios para fazer. E se os não tem, deve adquiri-los.
Quando o Estado não é capaz de fazer cumprir uma das obrigações mais elementares do Estado de direito democrático, a de manter em segredo indícios que levam alguém a ser constituído arguido, e permite que seja vertido na praça pública aquilo que devia estar circunscrito aos agentes da justiça, lança na comunidade a discussão destemperada em que todos opinam a partir dos elementos soltos e de pura conveniência para a investigação ou arguidos.
Esta realidade significa que funcionários, magistrados ou advogados (menos hipóteses) que têm acesso aos autos passam para os media o que não deviam passar. Há arguidos que por clubismos, outros por dinheiro, aliciaram ou tentaram aliciar quem pudesse favorecer determinados clubes. Haverá, pois, no meio judicial, quem, a troco não se sabe bem de quê, passe para os media elementos que era obrigatório estarem em segredo.
Tal situação vem demonstrar que o Estado, apesar de todos os meios de que dispõe, não é capaz de fazer cumprir um comando legal cujo impacte social é enorme. Quando o Estado não é capaz reiteradamente de fazer cumprir essa determinação significa que falha estrondosamente.
E se ao longo de décadas não é capaz de assegurar esse objectivo só tem um caminho: declarar que não é capaz. E explicar a razão de não ser capaz de assegurar o mínimo dos mínimos. Cada vez que abre um inquérito para averiguar as falhas e as violações do segredo de justiça, toda a gente vislumbra o resultado: arquivamento.
Assim sendo, o Estado, nomeadamente, por via do poder executivo (governo) deveria ter a coragem de terminar com este faz de conta. Ao manter-se a actual situação ela apenas serve para desacreditar ainda mais a justiça que já anda pelas ruas da amargura.
Sempre que o segredo de justiça envolve os grandes é desnudado na praça pública e, como fica impune, todos os que o violam se sentem aliciados a continuar. Seja por dinheiro. Seja por táctica processual. Seja pelo que seja. É uma vergonha. Dá para pensar que há quem viva nos meios judiciais deste expediente e pareça estar mais preocupado em condenar na praça pública do que Domus Justitiae.
Quantos arguidos foram condenados na praça pública de crimes gravíssimos de que mais tarde vieram a ser absolvidos?
É uma vergonha que os media possam ser uma espécie de ata onde os cidadãos se podem refastelar com os segredos que são usados como alimento das multidões e forma expedita de fazer justiça, sem a fazer .
Um Estado que no século XXI age deste modo não está em bom estado. Se os portugueses têm razões ancestrais para desconfiar do Estado, com este estado de coisas ainda ficam com mais.
Ou o Estado assegura o segredo de justiça nos casos em que deve garantir o seu cumprimento, ou então que assuma a coragem de declarar que não é capaz de fazer respeitar a Lei Fundamental e o C.P.P."

E depois da final da Taça de Portugal? De novo, o tema da saúde mental em cima da mesa

"Imagine.
Imagine que mora numa rua simpática com uns vizinhos amistosos. Está um dia quente de um verão que já se anuncia e resolve, por isso, convidar uns amigos lá para casa... Os amigos e vizinhos de sempre, com quem passou já bons momentos e ultrapassou outros menos simpáticos...
Imagine que as pessoas começam a chegar – mas não são apenas pessoas... São “as suas pessoas”, que o conhecem desde sempre... Começam a chegar e a colocarem-se confortáveis... Alguns deles, começam inclusive a trocar de roupa para ir dar “aquele” mergulho na piscina... Outros, os que tardam sempre um pouco mais, começam também a chegar.
De repente ouve um estrondo, gritos, muitos gritos e ameaças no ar, o ruído torna-se ensurdecedor e os gritos mais perto... De repente, os gritos são já de alguém familiar... No aparente “conforto” e segurança da sua casa, instala-se o caos... Sem se aperceber está já no chão... Parece que alguma coisa o acertou e derrubou... Procura com os olhos as “suas” pessoas e, por mais que tente, não consegue ajudar ninguém...
Como eles, está a ser violentamente agredido por um grupo de sujeitos que, vociferando ameaças de morte, irromperam pela sua casa.
Este podia ser o trailer (muito leve e afastado da dura realidade) do episódio vivido pelos atletas, equipa técnica e staff do Sporting no passado dia 15 de Maio.
Em Portugal, possivelmente, apenas estes homens poderão algum dia relatar o que é viver um episódio desta natureza – digno de uma realidade longínqua talvez só equiparada aos cenários entre gangs ou de guerra por esse mundo fora. Relatar como se sente alguém ser agredido do nada, na sua casa de sempre, impotente para ajudar ou ser ajudado, porque por onde quer que possa pedir ajuda, ninguém o pode ajudar - todos estão a ser vítimas do mesmo ato cobarde e hediondo.
Apenas podem esperar que cesse. E como se tornam longos os minutos nesta espera.
Jogou-se a Taça.
O Aves ganhou.
Coitados dos atletas do Sporting. 
Afinal, o Aves não vai poder ir à competição – vai o Sporting.
Começou o estágio de Selecção.
Irá começar o Mundial.
“Incha, desincha e passa” – diz o ditado e poderá vir a dizer a realidade dos factos.
Assim que se instale o “fenómeno” do Mundial, grande parte da situação cairá no esquecimento – desde sempre tem sido assim e, se as devidas organizações não assegurarem que a responsabilidade dos factos será apurada ... assim será.
E da saúde mental destes Homens a médio-longo prazo? Quem quer saber? Quem será responsabilizado?
Episódios de extrema violência (que se enquadram no que poderíamos designar por “incidentes críticos de vida”), caracterizados por uma alteração emocional profunda, com marcada sensação de choque, medo (de ameaça à integridade física, de morte) e ansiedade são, demasiadas vezes, os percursores da possível instalação de quadros de stress pós-traumático no futuro.
A aparente superação da situação, a curto prazo, não indicia sequer, que a possibilidade de vir a sofrer de stress pos-traumático esteja afastada – por vezes, até se trata precisamente do inverso.
De facto, se avançarmos a linha do tempo e, ainda que todos eles, aparentemente, tenham ultrapassado o episódio, é importante que os próprios (as suas famílias, os staff’s e equipas onde se inserem) estejam atentos à manifestação (ou instalação, por vezes, gradual) de determinado tipo de sintomas de natureza ansiogénica.
Episódios de raiva, irritabilidade e revolta (ou seja, labilidade emocional), que podem ser amplificados por insónia recorrente e flashbacks (sensação de se estar a reviver tudo de novo), entre outros sintomas, acabam por, pontualmente, comprometer a qualidade de vida, a capacidade em estar bem consigo próprio, com os outros e com o mundo – traduzindo-se, no caso de atletas/treinadores, num acentuado decréscimo em termos de performance, resultante da deterioração da qualidade de descanso, das suas relações pessoais e vida em geral.
Contudo, aqui, estarão sozinhos pois já ninguém se lembrará e, em boa verdade, apenas para eles não “passará”.
Apurar responsabilidades não deve ser um ato isolado e a curto prazo (já de si, sempre difícil): deve sim ser um exercício a curto, médio e longo prazo, atendendo a que as consequências também o serão."

Alvorada... do Guerra

Benfiquismo (DCCCXXXVI)

Garoupa...

105x68... Rescaldo...

Circus Lagartus - VIII episódio

La Belle Pré-Époque

"Terminou a época futebolística em Portugal, do modo escatológico a que todos pudemos assistir, mas nem por isso teremos tempo para descansar do tema. Nada disso. Sem que nos deixassem respirar uma semana que fosse, eis-nos em plena pré-época. Um mercado de expectativas, três meses de especulação, de renovação de ilusões e de absurdo.

Bem sei que ainda temos uma final da Champions League e mais de sessenta jogatanas de Mundial pela frente, mas eu já estou aqui a ansiar por Jogos contra o Étoile Carouge, o Sion ou mesmo frente ao Benfica de Lausanne, com adeptos com as camisolas dos três grandes, outros com o equipamento da FPF, outros com o clube da terra, porque querem lá saber do clube em si, exigem é estar perto de símbolos patrícios. Até porque a pré-época é um sucedâneo do futebol pelo qual as pessoas se interessam, não por ser excitante, não por ser bonito, mas por envolver nenhuma preocupação ou ansiedade.
Na pré-época, há esperança para todos, até para a imprensa escrita. Ainda que seja benfiquista, o meu lado saudosista até se sente confortável com o Benfica não-campeão, porque há um ritual de infância que agora regressa. Verão de algures nos anos 2000, 11 da manhã, ir ao quiosque comprar os desportivos. “Jon Dahl Tomasson apontado ao Benfica”; “Robert Pires é hipótese”; “Robinho assina hoje” (suspiro esperançoso). Que saudades de “Maxi Lopez preso por detalhes”. Quão desconfortáveis se sentirão as pessoas que estão presas por detalhes? Uma coisa é ser prisioneiro político, do ventre ou de si mesmo. Ficar preso por minúcias é sempre triste. Aliás, quando dizem que algum jogador está preso por detalhes, em princípio esses pormenores traduzir-se-ão no anular da transferência.
Quem não adora todas aquelas narrativas sobre negócios que não acontecem? “Alfredo interessa”, “Alfredo é hipótese”; “Alfredo negociado hoje”; “Alfredo pode assinar amanhã”; “Cimeira por Alfredo”; “Alfredo gera impasse”; “Negócio Alfredo complica-se”; “Alfredo mais longe”; “Salário pode afastar Alfredo”; “Alfredo não vem, Adolfo é o alvo”. E com isto vendem-se 10 edições em vez de duas (“Este gajo pode vir” / “Este gajo afinal não dá”).
A pré é a época das fontes, das inside infos, dos rumores retirados de contas falsas do Twitter. Desde o pai que é empresário, ao empresário que é pai deles todos, o defeso tem uma linguagem própria. É como se rodasse uma tômbola nas redacções com clichés de pré-época, às quais os jornalistas juntariam nomes de jogadores que costumam ir buscar no FM. “(inserir nome) já escolhe casa em Lisboa”; “(inserir nome) inscreveu os filhos no Colégio”; “Pai de (inserir nome) dificulta negócio”; “Luz verde para (inserir nome)”; “(inserir nome) só por empréstimo”; “(inserir nome) com tubarões à perna”.
Contudo, isto não é uma crítica ao estilo, é um elogio. Precisamos dessa catarse e dessa leveza. Precisamos todos de uma pré-época para descansar desta época."

Dar sentido ao destino dos portugueses

"Políticos e partidos deixaram-se aprisionar pelo populismo primário clubístico, não distinguindo entre os interesses privados dos clubes, a missão pública dos partidos e as responsabilidades do Estado.

Simon Schama, historiador britânico, escreveu no Financial Times no último fim de semana, que seria excessivo esperar que o casamento real britânico, que agora ocorreu, aliviasse o fardo de ansiedades que pesam sobre aquela nação, “que avança para uma saída sem um claro sentido de destino” – o chamado Brexit. Faço a mesma pergunta que Schama: qual é o sentido de destino dos portugueses?
Em Portugal, a palavra “nação” ainda tem uma sonoridade bafienta, e por isso é raramente utilizada. Mas a verdade é que vivemos na “Europa das nações” e muitos dos 193 países membros da organização que se chama Nações Unidas, a que correspondem outros tantos estados soberanos, contêm diversas nações.
Mesmo o Estado português tem duas línguas oficiais, o português e mirandês, descendente do asturo-leonês, a língua provavelmente falada por Henrique e Teresa, os dois “estrangeiros” que foram pais de Afonso Henriques, o homem que iniciou a difícil transformação de feudos e de zonas de influência ou controlo islâmico no que viria a ser um reino, um Estado, um império, uma república.
Os portugueses eram e são, por enquanto, a população da Península Ibérica que preserva a composição genética ancestral euro-hispânica mais unificada, reflexo da menor exposição do território a invasões, migrações e miscegenação, quer de populações germânicas do Norte da Europa, quer de berberes do Magrebe. Mas a divisão do país em feudos e zonas de influência persiste.
A ideia de que as sociedades humanas organizadas em nações são um organismo colectivo, um ser biológico, e a consequente visão da história como “um complexo inextricável dos instinctos animaes dos povos” foram expressas pelo historiador Guilherme de Oliveira Martins, em 1885.
Trinta e quatro anos depois, para o poeta Fernando Pessoa, admirador de Henry Ford, não bastava a organização natural biológica. Importava também descobrir o “sentido concreto” da necessidade de organizar a nação. Para Pessoa, o progresso de Portugal exigia que o comércio e a indústria tivessem “organização como conjunto nacional” e da “sociedade portuguesa”. A visão biológica de Pessoa pode ser vista como estando próxima da do economista liberal austríaco Friedrich von Hayek, seu contemporâneo, também ele um “organísmico” no que respeita à divisão do conhecimento e a uma “ordem geradora de conhecimento” (knowledge generating order).
O economista Richard Thaler (Nobel da Economia 2017), e outros como Daniel Kahneman, desenvolveram a teoria da economia comportamental e das finanças, e das consequências das limitações da racionalidade na tomada de decisões. Ou seja, a luta entre a racionalidade e os instintos animais, a luta pelo autocontrolo da nossa bioquímica, é eterna.
O carácter da nação, considerado como uma emanação do conjunto biológico gerador de conhecimento situado em Portugal, foi violentado na passada semana. Depois de anos de corrupção ao mais alto nível, de golpes desferidos directa e indirectamente contra o bem-estar e progresso dos portugueses, depois dos incêndios assassinos do verão passado, sucedeu agora a agressão física, criminosa e repugnante, contra portugueses e estrangeiros.
Porque ocorreu num meio eminentemente popular – o futebol – abriu uma extensa ferida no moral da nação e na sua auto-estima. A agressão foi premeditada e organizada por pessoas obcecadas e ignorantes da repercussão que o seu tresloucado ato teria muito para além do futebol. Para além do impacto interno, foi fragilizada a imagem internacional de Portugal, um labor penoso, demorado e complexo para a construção de fundamental e crucial capital de confiança, de percepção positiva sobre este conjunto de pessoas ocidentais que, supostamente, se autogovernam.
É inevitável que o que se tem passado em Portugal transmite a percepção, e para alguns confirma-a, que os portugueses não sabem ou não querem impor a lei, a ordem, a transparência, a accountability, a organização, a competência, a especialização, as melhores práticas, e que são incapazes de proteger os seus e os seus melhores – desde os melhores cérebros que fogem para outras paragens, onde são apreciados e recompensados, às melhores pernas, desportistas profissionais e técnicos de gabarito internacional. Vexame internacional foi a mensagem imediata do Presidente da República para exprimir o que ele, como Chefe de Estado e como indivíduo, e muitos milhões de portugueses sentiram naquele dia de maio de 2018.
Somos todos, em macro ou em ínfimo grau, responsáveis pelo progressivo descalabro moral de costumes e valores em Portugal. Políticos e partidos políticos deixaram-se aprisionar pelo populismo primário clubístico e, com a notável excepção de Rui Rio enquanto foi presidente da Câmara do Porto e agora como líder do PSD, eximiram-se de colocar firmes baias entre os interesses privados dos clubes, a missão pública dos partidos e as responsabilidades do Estado.
A bússola moral que podem e devem ser as confissões religiosas, em particular a Igreja Católica, não existe. Talvez nas igrejas. No átrio, apenas silêncio. As televisões transformaram-se em veículos de propagação e normalização de mau gosto e grosseria. Os principais jornais televisivos continuam a abrir com notícias sobre o futebol, uma opção inqualificável e inaceitável no caso do serviço público RTP.
Como assinalou Luís Marques Mendes na SIC, é preciso a liderança do Presidente da República. Penso como ele. É preciso dar sentido ao destino dos portugueses. É preciso liderança moral e política firme, transparente e totalmente dedicada ao bem público. Neste momento, só pode, tem de ser exercida pelo Presidente da República, que foi eleito por sufrágio universal e mantém o seu capital de confiança intacto."

Corrupção no desporto

"A corrupção no desporto, como na esfera política, surge aos olhos dos portugueses numa dupla vertente: a convicção firme de que houve crime em simultâneo com a constatação da incapacidade da justiça de condenar os culpados.

As provas apresentadas nos jornais e outros órgãos de comunicação social não deixam, muitas vezes, lugar a dúvidas da culpabilidade dos arguidos. Gravações, extractos bancários, documentos, factos, tudo aponta numa direcção, mas a decisão da justiça, vai, normalmente, em sentido contrário permitindo que os prazos prescrevam, que os réus aleguem erros processuais e outras tecnicidades que os acabam por ilibar.
Esta situação está a corroer a sociedade portuguesa no seu fundamento, popularizando a noção de que existe um peso, extremamente pesado, para o cidadão comum e outro, leve como uma pena, para os grandes criminosos. Quanto mais se deixar apodrecer este estado de coisas, mais rapidamente se criarão condições para nos afastarmos decisivamente da democracia e da justiça.
É, hoje, mais do que evidente que a actual moldura jurídica e que as actuais competências dos agentes do Ministério Público (procuradores, investigadores, polícias) são incapazes de conseguir o que é absolutamente necessário que aconteça: que os criminosos sejam julgados e condenados. É, pois, necessário agir nestas duas áreas.
Mas também é necessário investir muito mais no estudo sociológico, económico e histórico do fenómeno da corrupção no nosso país, pois só a partir de um conhecimento desta realidade é possível desenhar as estratégias e as medidas para o prevenir e combater.
Algumas instituições, como o Observatório da Economia e Gestão de Fraude (OBEGEF), têm vindo a fazer um importante trabalho nesta área, mas com outros apoios poderiam fazer um trabalho mais profundo, profícuo e útil.
No desporto, a corrupção e a fraude visam essencialmente alterar os resultados desportivos, fazendo com que o mais fraco vença o mais forte, permitindo ao mais fraco aceder a recursos disponíveis, através do acesso a provas internacionais que, de outro modo, lhe seriam vedados.
Os agentes envolvidos na corrupção desportiva são essencialmente de cinco categorias: os dirigentes desportivos (mandantes), os financiadores, os intermediários (corruptores directos), os jogadores e os árbitros (os que se deixam corromper).
Mais recentemente uma sexta categoria, a dos agentes judiciais, tem vindo a ganhar destaque. Neste caso, o objectivo dos mandantes é espiar os processos judiciais dos clubes adversários e de garantir impunidade para os seus actos.
Aparentemente, os valores envolvidos nas várias modalidades são de reduzida dimensão e só no futebol se começa a verificar o recurso a verbas mais elevadas.
Naturalmente no desporto existem outras fontes de corrupção, nomeadamente a ligada às apostas desportivas e ao uso de substâncias proibidas e ao doping.
Estas práticas geram a curto prazo, como se tem visto no futebol, o declínio da competitividade do país em termos clubísticos e o consequente acesso cada vez mais restrito dos clubes portugueses aos fundos da UEFA.
É, pois, necessário apostar no estudo do fenómeno, reformar a legislação e formar os agentes da justiça. Sem esta tríplice actuação continuaremos a ser um país em que a corrupção reina, aparentemente, sem freios."

A agonia do Sporting

"Desde as agressões em Alcochete, o Sporting entrou em agonia.

O presidente comporta-se como um pequeno ditador ou como um louco, e o que diz já pouco importa – como afirmou de forma certeira Carlos César. Num dia o presidente diz uma coisa e noutro diz outra. Suspende os jogadores e depois retira a suspensão. Despede o treinador e depois nega o despedimento. Dispensa Fábio Coentrão e depois pede-lhe para ficar.
A palavra do presidente do Sporting já não tem qualquer valor.
E o que surpreende é um homem que atingiu o grau zero da credibilidade poder continuar à frente de uma instituição que gere centenas de milhões de euros e tem milhões de adeptos.
Como é isto possível?
E como é possível que ainda haja gente que o apoia?
Disse-se que o presidente estava morto e ainda não se apercebeu disso.
Mas o problema maior é outro: o Sporting está em agonia e a cada hora que passa o seu estado agrava-se. Se o presidente não sair, o clube arrisca-se a entrar num coma profundo."

Procrastinação

"Os órgãos sociais do Sporting resolveram adiar o futuro. Primeiro round para Bruno de Carvalho 

Depois de quatro horas de reunião, os órgãos sociais do Sporting tomaram a decisão de (acrescentar aqui um rufar de tambores) marcar uma nova reunião. Como alguém dizia com alguma graça, aqui na redacção, ninguém pode ficar surpreendido: o Sporting passou a temporada a decidir tudo no tempo extra, não era agora que ia mudar de hábitos. A verdade é que a montanha pariu um rato. Ora, curiosamente, foi Jaime Marta Soares, que parece ter algumas dificuldades para tomar decisões definitivas, quem teve de dar a cara pelo adiamento do futuro do Sporting. Não deixa de ser irónico ver um bombeiro deixar o clube a arder em lume brando nem assustador confirmar que, pelo menos numa coisa, Bruno de Carvalho tinha razão: o presidente demissionário na Mesa da Assembleia Geral passa a vida em "flic flacs" constantes. Ontem, defendeu a decisão de adiar tudo para quinta-feira com a "necessidade de reflexão". Na quinta-feira passada, garantia que se Bruno de Carvalho não saísse pelo próprio pé faria "uma assembleia geral extraordinária com uma nota de culpa bem elaborada para o destituir". Da certeza do caminho à dúvida existencial foi o instante que leva a passar do "flic" para o "flac". E é assim, sustentado na flexibilidade das convicções alheias que, depois de uma série de revezes e de uma sucessão impressionante de tiros nos pés, Bruno de Carvalho consegue a primeira vitória das últimas semanas. Se não tiver ganho mais nada, ganhou cúmplices com quem partilhar a responsabilidade pelo que vier a acontecer e, sobretudo, ganhou tempo. O drama, para quem assiste de fora, é perceber que este é um tempo que o Sporting não tem."

Hexacampeãs

Benfica 4 - 1 CACO

Perfeitas... continua a senda vitoriosa das nossas meninas em patins...


Que deve o Benfica fazer perante a crise do Sporting?

"Se era claro desde o primeiro dia do consulado de Bruno de Carvalho que estavam reunidas as condições para as coisas acabarem mal para o Sporting, ninguém, por mais imaginativo, foi capaz de antecipar a torrente de declarações demenciais e a sucessão de acontecimentos inexplicáveis. Nos últimos tempos, quando se pensa que o Sporting bateu no fundo, temos assistido, perplexos, a um novo passo face a um abismo que aparenta não ter fim.
Há um responsável imediato - Bruno de Carvalho. Contudo, os sócios do Sporting, que aceitaram ora com entusiasmo (elegendo-o por duas vezes e apoiando-o uma terceira num plebiscito delirante), ora com passividade a forma egocêntrica como o seu presidente ia gerindo os destinos do clube, têm também responsabilidades. Dir-me-ão, com razão, que Vale e Azevedo também presidiu ao Benfica. É um facto: mas foi eleito por uma margem muito curta, contestado por muitos durante o seu atribulado mandato e logo varrido nas eleições seguintes (um serviço que, nunca esquecer, devemos agradecer encarecidamente a Manuel Vilarinho).
O que está a acontecer ao Sporting, nomeadamente o risco de derrocada financeira, consequência da incerteza directiva e dos riscos de debandada dos jogadores, coloca desafios aos restantes clubes portugueses, designadamente aos dois principais adversários.
Bem sei que o futebol se faz de rivalidades. Por isso mesmo, muitos benfiquistas têm vivido estes momentos com satisfação. Mas uma coisa é celebrar um insucesso de um adversário, outra, bem distinta, é assistir à desagregação institucional do Sporting.
O que me faz regressar ao início da rivalidade entre Benfica e Sporting. Corria o verão de 1907, e o Sporting, recém-fundado, aliciou com melhores condições materiais (uma bola nova por jogo e um campo com balneário e bancadas!) oito jogadores do, então ainda, Sport Lisboa. Enquanto os jogadores partiam, como recordam o João Tomaz e o Fernando Arrobas no seu "110 histórias à Benfica", Cosme Damião deixava uma garantia: "O Sporting tem dinheiro. Nós temos dedicação. No imediato, o dinheiro vence a dedicação. No futuro, a dedicação goleia o dinheiro".
Num mundo do futebol-negócio, é tentador para o Benfica aliciar vários dos craques do Sporting. Seria um erro. O que devolve a 'garantia' moral do fundador do Glorioso. Não só há uma diferença entre fazer ofertas exorbitantes a jogadores em final de contrato - como aconteceu com as idas de Eurico Gomes e Artur Correia do Benfica para o Sporting ou, mais recentemente, em sentido contrário, com Carrillo - e procurar aproveitar a debacle do adversário para ir buscar alguns dos seus melhores jogadores (como fez o Sporting em 1993, ao contratar Sousa e Pacheco, procurando ainda levar João Pinto, Rui Costa e Paneira); mas, também, porque, num futebol como o português, já de si nivelado por baixo, um Sporting ainda mais fragilizado desportivamente é, no médio prazo, mau para o Benfica."

Quem semeia ventos...

"Quem semeia ventos colhe tempestades… já diz o povo sabiamente e o clima que se vive actualmente no futebol português reflecte isso mesmo. Dirigentes, comentadores, agentes desportivos, todos os que alimentaram nos últimos anos um discurso de acusação, suspeição, intolerância, violência verbal, na mais pura forma de falta de valores e desportivismo, contribuíram com o poder das suas palavras para que um grupo criminoso se sentisse no direito de invadir um complexo desportivo, que é também um local de trabalho, para agredir, insultar, semear o terror. Tão inacreditável quanto repugnante!
Existiram episódios anteriores relacionados com guerrilhas entre adeptos, sim, tentativas de invasão de outros centros de estágio no nosso país, como há pouco tempo sucedeu em Guimarães, é verdade, mas nunca com esta premeditação, nível de violência, exposição pública e consequente impacto social. Estamos, oficialmente, nas bocas do mundo pelas piores razões e espero, por isso, uma resposta exemplar na punição dos que levaram a cabo este ataque.
Quero enaltecer o carácter de todos os jogadores do Sporting, mesmo aterrorizados, afectados psicologicamente como qualquer um de nós estaria na mesma situação, quiseram jogar a final de domingo por algo maior do que os próprios, respeitando o país, o futebol português e aqueles que o vivem positivamente, com um profissionalismo que me faz, cada vez mais, respeitar a classe que represento.
Foi de forma negligente que se legitimou esta página negra da história do futebol português, e dá que pensar, que há bem pouco tempo debatíamos no parlamento o estado do desporto e o que podia ser feito para combater a violência. Vi muitos projectos individuais, pouca vontade em obter compromissos… nenhuma em aplicar a lei!"

Já não vai lá com fumaça

"Até o Aves vencer com probidade e mérito a Taça de Portugal, nenhum resultado aparentava ser minimamente cômodo para Bruno de Carvalho (BdC). Se o Sporting ganhasse, dir-se-ia que a vitória era apenas do treinador e dos jogadores martirizados provavelmente pelo ataque grupal mais cobarde e asqueroso de que há memória no futebol português. Mas ficava também a ideia de que, no caso de a derrota acontecer, as culpas e as heresias iriam inteirinhas para um presidente avinagrado e que parece alimentar-se do caos que ele próprio cria ou ajuda a criar. Mas rapidamente se percebeu que não era exatamente assim. Quem esteve no Jamor, mediu os humores nas redes sociais ou simplesmente andou na rua ou de táxi percebeu que a nação leonina está provavelmente mais dividida do que nunca e que BdC até pode ter recuperado algumas das suas ovelhas entretanto tresmalhadas, não sendo hoje totalmente claro quanto valerá eleitoralmente. Até porque já se sabe que a maioria dos sócios nem sequer participa nos sufrágios e que o poder instalado beneficia sempre da pujança das suas guardas pretorianas.
Há várias circunstâncias que ajudam a explicar estas reacções autofágicas. Desde logo os próprios merecimentos de BdC, que, mais do que o propagandeado (e hoje discutível) milagre financeiro, conseguiu sempre escolher bons treinadores (mesmo que a todos tenha feito a vida negra) e, mais do que isso, ajudou a devolver o amor-próprio e a exaltação a muitos sportinguistas. Fê-lo usando, muitas vezes, propaganda barata e meias verdades, ou nem isso, mas a fórmula ajudou em muito, sem dúvida, a encher as bancadas. E na cabeça dos seus cada vez mais seguidores, a sua truculência permanente, em contrate com a pose mais estadista de todos os que o antecederam, foi sendo relacionada com o fim de uma certa indolência leonina e com o verdadeiro leão de unhas afiadas que um dia Jorge Gonçalves já lhes tinha tentado vender de forma ilusória.
O destrambelhado discurso de vitória após a reeleição terá sido o primeiro grande momento em que alguns dos seus seguidores se questionaram se não estariam a ajudar a fabricar um monstro. Muitos desses ficaram ainda mais de pé atrás quando BdC insistiu em alterar os estatutos e em criar um regulamento disciplinar que tornam a sua prepotência ainda mais perigosa. Mas a generalidade lá acabou por contribuir para que o seu poder voltasse a ser esmagadoramente legitimado. Até porque, habilmente, BdC sabe sempre esgrimir, nos momentos certos, o infalível argumento de que, sem ele, o leão voltará a transformar-se num dócil peluche. E, perante esta ameaça, muitos dos adeptos parecem perder o pensamento crítico, como se ficassem com a consciência da realidade diminuída e aceitassem tudo sem se questionar. Não é nada, importa dizer, que seja exclusivo dos sportinguistas, nem sequer do mundo futebolístico, até porque a história política mundial está cheia de autocratas que chegaram ao poder pela via democrática e depois acabaram por confirmar as suas personalidades narcísicas e megalomaníacas, por pretenderem ser simultaneamente poderosos, temidos e adorados. Vale Azevedo ainda conseguiu perto de 40 por cento dos votos benfiquistas quando já se conhecia boa parte das suas patifarias, uma centena de fãs aceitou há dias pagar para ir almoçar, ouvir e aplaudir José Sócrates sem querer saber da Operação Marquês e os consternados venezuelanos até acabam de entronizar Nicolás Maduro.
Já se sabe que a multidão se encanta com a tolice e dificilmente escuta um bom conselho, mas nada aprisiona tanto a inteligência como aceitar passivamente as justificações. E fica claro que a alienação é mesmo o caminho que normalmente antecede a servidão quando vemos gente inteligente, instruída e honesta contentar-se, por exemplo, com a culpa dos jornais e a criminalidade dos jornalistas como único justificativo para o processo judicial Cashball. BdC até pode ter "a certeza absoluta, analítica e sintética" de que o seu braço direito está inocente, mas isso não chega enquanto não for explicado, por exemplo, de onde vieram e para que eram os 60 mil euros encontrados pela polícia no armário de André Geraldes. E em vez do despudor com que tentou convencer-nos que Patrício e outros mártires é que foram o rastilho da ignomínia em Alcochete (porque, imagine-se, deviam ter-se mantido dóceis e mudos perante membros da claque cadastrados que invadem garagens do estádio para os insultar e ameaçar) devia era explicar-nos porque demorou tanto tempo a defender com firmeza a honra da sua "família" e a retirar os apoios do clube a quem protagonizou o dia mais sinistro da história centenária do clube. A insânia começa quando se convive com pessoas que exaltam a conveniência de uma coisa e não percebem que estão a fazer exactamente o inverso. É esse o perigo que o Sporting atravessa. E é por isso que para enxotar BdC da colmeia de Alvalade vai ser preciso bem mais do que uma forte fumaça. Para deixar o presidente leonino onde Judas perdeu as botas pode vir mesmo a ser necessário um pesticida (no sentido figurado, para que não haja dúvidas nem mais vitimização).

Aves criou uma lenda
José Mota teve um mérito indiscutível e ficará para sempre ligado à história do D. Aves e da Taça de Portugal, mas devia ter dividido os louros com Lito Vidigal, decisivo na maioria das eliminatórias, designadamente no afastamento do Rio Ave em Vila do Conde. Não lhe retirava brilho e ficava-lhe bem, até por ser justo. Teve razão nas críticas aos jornais, porque mesmo levando em conta a semana louca e excepcional por que passou o Sporting, o Aves não teve verdadeiras honras de finalista e durante a maior parte dos dias deu a impressão que o Sporting ia jogar sozinho (ou contra si próprio). Mas gastou demasiado tempo nas queixas e o tom foi excessivo, retirando resplandor a um momento único e justo. O Aves fez bem os deveres e foi inteligente na estratégia, até porque tem vários jogadores de qualidade, que justificaram os seis milhões de massa salarial. Ponk, Tissone (um argentino com sangue cabo-verdiano descoberto em Janeiro na Ucrânia), Vítor Gomes, Amílton, Petrolina e o goleador Guedes (sempre internacional na formação do Sporting) têm imensa qualidade, como outros que nem são titulares. Mas esta taça serviu também para ajudar a criar uma lenda chamada Quim. Nada mais justo."